{"id":13005,"date":"2021-08-02T07:00:47","date_gmt":"2021-08-02T06:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13005"},"modified":"2021-08-01T12:26:44","modified_gmt":"2021-08-01T11:26:44","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-24-a-idade-da-mobilizacao-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-24-a-idade-da-mobilizacao-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (24) \u2013 A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), inici\u00e1mos a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de Seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. Este \u00e9 o segundo de tr\u00eas textos sobre o cap\u00edtulo 12 (depois da glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/category\/olhares\/glosas\/\">23<\/a>), de t\u00edtulo <em>A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 85. <em><u>A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o. Emerg\u00eancia e caracter\u00edsticas<\/u>. \u2013 <\/em>Com efeito, \u00e9 realmente um \u00abfacto assinal\u00e1vel\u00bb que a hist\u00f3ria <em>eclesial <\/em>n\u00e3o haja terminado aqui: a mesma Igreja que em certos termos se sentia ultrapassada tinha tamb\u00e9m, no mesmo per\u00edodo hist\u00f3rico, amplo sucesso na evangeliza\u00e7\u00e3o de significativas massas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao n\u00edvel da viv\u00eancia espiritual, adoptando tr\u00eas eixos de ac\u00e7\u00e3o: (i) abandonando certo rigorismo, em favor de linhas de ac\u00e7\u00e3o moral mais compassivas (na linha do que j\u00e1 antes propusera um S. Afonso de Lig\u00f3rio); (ii) maior abertura \u00e0 piedade popular (pense-se por ex. em Lourdes); (iii) uma piedade mais calorosa, como \u00e9 exemplo a devo\u00e7\u00e3o ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (p. 444).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao n\u00edvel da organiza\u00e7\u00e3o, transitando de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o vertical para a promo\u00e7\u00e3o de grandes actividades de mobiliza\u00e7\u00e3o: recolha de fundos; peregrina\u00e7\u00f5es; formas de apostolado laical; (posteriormente) a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Assim, \u00ab[a] Igreja Cat\u00f3lica estava inevitavelmente na actividade de mobiliza\u00e7\u00e3o, pela qual designo a actividade de organizar e recrutar pessoas para a perten\u00e7a a organiza\u00e7\u00f5es com certo fim definido.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chave da ideia de mobiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 em que, n\u00e3o s\u00f3 <em>recruta <\/em>e <em>inscreve <\/em>a pessoa dentro de certos colectivos (tal caracter\u00edstica encontra-se presente j\u00e1 num modelo hier\u00e1rquico), como pressup\u00f5e e promove o respectivo envolvimento activo como seu d\u00ednamo propulsor (p. 445).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 altura de desviar o olhar do quadro cat\u00f3lico para a realidade norte-americana, que nos permitir\u00e1 descobrir um outro modo de rela\u00e7\u00e3o entre o fen\u00f3meno religioso e a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nesta <em>Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 86. <em><u>A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o. Os EUA<\/u>. \u2013 <\/em>Num quadro moderno, as institui\u00e7\u00f5es religiosas est\u00e3o longe de ter um lugar pr\u00e9-dado, como que inscrito e salvaguardado pelo <em>cosmos<\/em> envolvente \u2013 seja o <em>cosmos<\/em> natural, seja o <em>cosmos<\/em> social (pp. 446-447).\u00a0 E assim uma vez que, no quadro moral moderno, o ponto de partida j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 esse mesmo <em>cosmos, <\/em>mas os indiv\u00edduos, que reciprocamente se associam em vista do benef\u00edcio rec\u00edproco (Locke): cf. o que se viu nos nn.\u00ba 37 e ss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal capacidade de associa\u00e7\u00e3o em vista do benef\u00edcio rec\u00edproco, com quanto pressup\u00f5e de <em>constru\u00e7\u00e3o <\/em>da ordem social pelo homem, podia ser interpretada, por\u00e9m, como um contributo para a realiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio plano de Deus, n\u00e3o j\u00e1 atrav\u00e9s do contacto do <em>sagrado <\/em>(no sentido referido no n.\u00ba 16, <em>a)<\/em>)<em>,<\/em> presente no mundo exterior, mas atrav\u00e9s do prolongamento, na pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o modeladora da cidade, do prop\u00f3sito de Deus para a humanidade. \u00c9 neste sentido que o povo de um dado Estado se pode pensar como \u00abone people under God\u00bb (p. 447). Particularmente para o contexto norte americano, aqui se filia a no\u00e7\u00e3o, trabalhada por Robert Bellah (<a href=\"http:\/\/www.robertbellah.com\/articles_5.htm\">dispon\u00edvel na p\u00e1gina do Autor<\/a>) \u2013 e, se hoje pode ser colocada em causa, \u00e9 por entretanto terem mudado os termos da pr\u00f3pria sociedade (uns pretendendo <em>emancipar <\/em>o quadro constitucional da refer\u00eancia religiosa, outros vendo-o como uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o dos EUA) \u2013 da <em>religi\u00e3o civil <\/em>norte americana (p. 447), ligada \u00e0 <em>consci\u00eancia <\/em>de que o espa\u00e7o norte-americano era o <em>lugar <\/em>em que se estava a consumar, pela ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, o <em>prop\u00f3sito divino <\/em>para a humanidade (p. 448).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o para uma <em>Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o, <\/em>se particularmente tumultuosa no \u00e2mbito cat\u00f3lico, d\u00e1-se com maior naturalidade me \u00e2mbito protestante. Ainda em contexto europeu, particularmente no espa\u00e7o brit\u00e2nico, nota-se a crescente consci\u00eancia de que a perten\u00e7a religiosa deve ser volunt\u00e1ria. Assim, a diverg\u00eancia de formas de organiza\u00e7\u00e3o religiosa j\u00e1 estabelecidas d\u00e1-se mediante a constitui\u00e7\u00e3o de novas associa\u00e7\u00f5es: serve de primeiro exemplo o Metodismo (John Wesley), multiplicando-se depois as <em>free churches <\/em>nos EUA a partir de finais do s\u00e9c. XVIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O metodismo toma relevo na medida em que constitui um primeiro exemplo de uma realidade nova: a realidade de uma <em>denomina\u00e7\u00e3o<\/em>, termo que deve ser contraposto ao de <em>igreja. <\/em>Trata-se, penso, de uma contraposi\u00e7\u00e3o de grande valia sobretudo para quem, porque inserto numa mundivid\u00eancia cat\u00f3lica, tem natural dificuldade em compreender algumas din\u00e2micas pr\u00f3prias do mundo protestante \u2013 particularmente norte-americano e, hoje, em sociedades sob a influ\u00eancia destes novos movimentos, na Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica, \u00c1sia \u2013:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Uma <em>igreja<\/em> (no sentido de Troeltsch) tem em vista agrupar a totalidade dos membros de uma comunidade. \u00c9 o caso, por excel\u00eancia, da Igreja Cat\u00f3lica, mas tamb\u00e9m de algumas igrejas protestantes [ponto muito vis\u00edvel nas <em>Landeskirchen <\/em>alem\u00e3s]. Procuram como que definir um <em>paradigma <\/em>do religioso dentro de certo espa\u00e7o territorial demarcado. Mesmo as seitas religiosas, nota Taylor, podem ser perspectivadas como \u00abigrejas frustradas\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Uma <em>denomina\u00e7\u00e3o<\/em>, pelo contr\u00e1rio, constitui um \u00abcerto estilo de espiritualidade, mas dentro de um corpo mais vasto que inclui outras. O seu status desejado \u00e9 an\u00e1logo, sob certo ponto de vista, ao das ordens religiosas dentro da Igreja Cat\u00f3lica. (\u2026) As denomina\u00e7\u00f5es s\u00e3o como grupos de afins. (\u2026) O seu caminho \u00e9 o melhor para si, podem mesmo pensar que o melhor <em>tout court, <\/em>mas n\u00e3o os separa de outras denomina\u00e7\u00f5es reconhecidas. Existem, por conseguinte, num espa\u00e7o com outras \u201cigrejas\u201d, de tal natureza que, num outro sentido geral, todo esse grupo constitui \u201ca igreja\u201d. A injun\u00e7\u00e3o de pertencer a esta igreja da tua escolha \u00e9 uma injun\u00e7\u00e3o de pertencer \u00e0 \u201cigreja\u201d neste sentido mais amplo, sendo as fronteiras delimitadas pelo limite de escolhas permitidas.\u00bb (pp. 449-450)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surgimento de <em>denomina\u00e7\u00f5es <\/em>e a <em>Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o <\/em>est\u00e3o associados: com efeito, uma <em>denomina\u00e7\u00e3o <\/em>pensa-se como uma realidade que deve ser criada, constitu\u00edda, mobilizando meios e pessoas. Ao mesmo tempo, a mesma din\u00e2mica que mobiliza no campo religioso (<em>Great Awakening<\/em>) serve de for\u00e7a motriz, ao n\u00edvel pol\u00edtico, para a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia de 1776.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob dado ponto de vista, este novo quadro de organiza\u00e7\u00e3o afigura-se como especialmente apto a acomodar clivagens sociais \u2013 com efeito, \u00e9 sempre poss\u00edvel criar uma nova <em>denomina\u00e7\u00e3o <\/em>para enquadrar uma realidade outra que n\u00e3o estivesse devidamente representada nos grupos associativos j\u00e1 constitu\u00eddos (p. 450). Do ponto de vista da espiritualidade, esta forma denominacional refor\u00e7a alguns eixos centrais da Reforma (condi\u00e7\u00e3o pecadora e necessidade de abertura \u00e0 Gra\u00e7a), sublinhando-se particularmente (i) a natureza pessoal do acto de f\u00e9, (ii) muitas vezes associada a uma dimens\u00e3o emocional intensa (<em>amazing grace<\/em>). Tendo por fruto (iii) uma vida ordenada (da\u00ed a centralidade da <em>temperan\u00e7a<\/em>, mormente em rela\u00e7\u00e3o com o \u00e1lcool, jogos, apostas, promiscuidade sexual, etc.). J\u00e1 antes se expusera de modo desenvolvido a rela\u00e7\u00e3o entre a Reforma e a \u00abordena\u00e7\u00e3o\u00bb da sociedade e da pr\u00f3pria vida pessoal (nn.\u00ba 16, <em>b), <\/em>22, 28, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um aspecto interessante \u2013 citando-se Callum Brown \u2013 \u00e9 a <em>demoniza\u00e7\u00e3o <\/em>das qualidades masculinas e a <em>feminiza\u00e7\u00e3o <\/em>da piedade. Requeria-se, assim, que o <em>var\u00e3o <\/em>fosse \u00abeducado, disciplinado, e trabalhasse duramente. Sobriedade, dilig\u00eancia e disciplina eram as principais virtudes\u00bb: precisamente deste modo se tornaria <em>respeit\u00e1vel <\/em>e <em>bom cidad\u00e3o, <\/em>assim se tra\u00e7ando a ponte entre este <em>evangelismo-pentescostalismo <\/em>e o pr\u00f3prio ideal democr\u00e1tico norte-americano (p. 451). Os efeitos deste tipo de convers\u00f5es, tamb\u00e9m no que respeita \u00e0 radical ordena\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, sentem-se hoje tamb\u00e9m em quadrantes geogr\u00e1ficos diferentes da sua origem (Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica, \u00c1sia). Tal facto permite ali\u00e1s a Taylor duas observa\u00e7\u00f5es de grande pertin\u00eancia: \u00e9 ainda cedo (i) para concluir se ter\u00e3o ou n\u00e3o por consequ\u00eancia um desvanecimento da f\u00e9 religiosa, como ocorreu na modernidade europeia, em que a progressiva confian\u00e7a na capacidade humana foi sucedida da perda do sentido da presen\u00e7a de Deus; depois, (ii) servem para mostrar como raz\u00f5es de natureza religiosa continuam a operar, no mundo contempor\u00e2neo, como fort\u00edssimas fontes de ac\u00e7\u00e3o moral (pp. 452-453).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do modelo de rela\u00e7\u00e3o entre a organiza\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno religioso e a comunidade pol\u00edtica, cabe concluir que a reconfigura\u00e7\u00e3o religiosa pode operar em dois diferentes n\u00edveis, que podem apoiar-se reciprocamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Ao n\u00edvel do <em>conjunto da sociedade<\/em> e da <em>respectiva identidade pol\u00edtica<\/em>: nos EUA, a Rep\u00fablica assegura a liberdade das diferentes igrejas;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Mediante um <em>conjunto de igrejas<\/em> que \u00absust\u00eam o <em>\u00e9thos<\/em> religioso que a Rep\u00fablica pressup\u00f5e\u00bb (p. 454). Igrejas que, ao mesmo tempo que competem entre si, convergem em m\u00faltiplos aspectos, uma \u00absinergia do seu efeito \u00e9tico. De modo que, conjuntas, constituem um vasto corpo, uma \u201cigreja\u201d\u00bb (p. 454). Quadro que inicialmente \u2013 para alguns at\u00e9 hoje \u2013 n\u00e3o inclu\u00eda mesmo os <em>cat\u00f3licos<\/em> no espa\u00e7o norte-americano, mas que, para outros, foi sendo progressivamente alargado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 87. <em><u>Tra\u00e7os pol\u00edtico-institucionais de um modelo denominacional.<\/u><\/em> \u2013 Daqui resultam alguns tra\u00e7os pr\u00f3prios da sociedade norte americana, enquanto sociedade marcada por um esquema eclesial assente em <em>denomina\u00e7\u00f5es<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Porque nenhuma denomina\u00e7\u00e3o pretende ser uma <em>igreja <\/em>em sentido englobante, ent\u00e3o a perten\u00e7a \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui, antes pressup\u00f5e a perten\u00e7a a um todo mais vasto, que, em certos termos, se pode identificar com o pr\u00f3prio Estado, constitu\u00eddo enquanto povo \u00abunder God\u00bb. A sociedade politicamente organizada pode ser vista como tendo uma miss\u00e3o providencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Entendendo-se que o <em>prop\u00f3sito divino <\/em>(<em>divine Design<\/em>) inclui o ideal da liberdade, ent\u00e3o este pode ser pensado como implicando, ao n\u00edvel eclesiol\u00f3gico, o reconhecimento da possibilidade de uma pluralidade de denomina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Assim, o modelo denominacional exclui a identifica\u00e7\u00e3o entre<em> uma <\/em>igreja e <em>o <\/em>Estado, mas, em certos termos, pressup\u00f5e <em>um <\/em>Estado que como serve de \u00absobre-arqui-\u201cigreja\u201d\u00bb que enquadre as diferentes denomina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 88. <u>Modelo <em>neo-durkheimiano<\/em><\/u><em>. \u2013 <\/em>A este modelo de enquadramento das igrejas designa Taylor de <em>neo-durkheimiano. <\/em>Contrap\u00f5e-se ao <em>durkheimiano <\/em>(n.\u00ba 84) nos dois seguintes aspectos: pela irrelev\u00e2ncia do <em>sagrado<\/em> (para esta no\u00e7\u00e3o, cf., de novo, o n.\u00ba 16.a)), como \u00e9 pr\u00f3prio do ambiente protestante; e por nenhuma igreja em particular ter o exclusivo da representa\u00e7\u00e3o da liga\u00e7\u00e3o entre a estrutura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade e a dimens\u00e3o religiosa (p. 454). Entre o modelo <em>durkheimiano <\/em>e <em>neo-durkheimiano <\/em>situa, como forma interm\u00e9dia, realidades tais como a dos compromisso \u00abbarroco\u00bb pr\u00f3prio da Igreja cat\u00f3lica (ver n.\u00ba 85), que ainda conjugam elementos pr\u00f3prios de uma ordem \u00ab\u00f4ntica\u00bb com os da dimens\u00e3o mobilizadora, desencantada: modelo, neste caso, <em>paleo-durkheimiano.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contrapor os v\u00e1rios modelos, \u00e9 de sublinhar que o modelo <em>neo-durkheimiano <\/em>conserva altos n\u00edveis de pr\u00e1tica religiosa. Ao n\u00e3o haver uma identifica\u00e7\u00e3o tendencialmente global entre a dimens\u00e3o religiosa e <em>uma <\/em>igreja, as resist\u00eancias que esta enfrente n\u00e3o t\u00eam de conduzir necessariamente \u00e0 recusa da f\u00e9 religiosa: podem, t\u00e3o-s\u00f3, dar lugar \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma nova denomina\u00e7\u00e3o. Existe como que um canal que permite que as resist\u00eancias \u00e0 <em>praxis<\/em> religiosa institucionalizada possam desaguar na <em>cria\u00e7\u00e3o <\/em>de novas formas de viv\u00eancia religiosa e n\u00e3o na sua recusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, \u00e9 modelo que goza de certo suporte pol\u00edtico, precisamente por a \u00abperten\u00e7a religiosa ser central para a identidade pol\u00edtica\u00bb \u2013 e, mesmo, para uma como que \u00abidentidade civilizacional\u00bb, servindo de padr\u00e3o distintivo de outras culturas, sejam de \u00abpovos \u201cb\u00e1rbaros\u201d, ou \u201cselvagens\u201d, ou (na linguagem contempor\u00e2nea mais polida) \u201cmenos desenvolvidos\u201d\u00bb (p. 455; para a oposi\u00e7\u00e3o entre o mundo civilizado e \u00abselvagem\u00bb, cf. o que escreveu sob o n.\u00ba 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caracter\u00edstica social que perdura para l\u00e1 do avan\u00e7o secularizador\u2026 Escreve Taylor: \u00ab[o] que pretendo sublinhar acerca do patriotismo brit\u00e2nico e, depois, americano, fundado, como estava a princ\u00edpio, no sentido de cumprimento do des\u00edgnio de Deus, \u00e9 que a identidade nacional se fundava numa auto-arrogada preemin\u00eancia em concretizar uma dada superioridade civilizacional. (\u2026) Este sentido de superioridade, inicialmente religioso na ess\u00eancia, pode e foi objecto de uma \u201cseculariza\u00e7\u00e3o\u201d, na medida em que o sentido de superioridade civilizacional se autonomiza da Provid\u00eancia, e \u00e9 atribu\u00eddo \u00e0 ra\u00e7a, ao Iluminismo, ou ent\u00e3o a alguma combina\u00e7\u00e3o dos dois. Mas o ponto de identificar aqui este sentido de ordem \u00e9 que oferece um outro lugar, por assim dizer, no qual Deus se pode fazer presente nas nossas vidas, ou no nosso imagin\u00e1rio social; n\u00e3o apenas como o autor do Prop\u00f3sito (<em>Design<\/em>) que define a nossa identidade pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m do Prop\u00f3sito que define a nossa ordem civilizacional.\u00bb (p. 456) Ponto, na verdade, n\u00e3o totalmente dissociado do poder politicamente hegem\u00f3nico de facto de quem, porventura por isso, tem semelhantes pretens\u00f5es (p. 457).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, s\u00e3o ainda exemplos de realidades <em>neo-durkheimianas <\/em>algumas realidades tais como a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional, em contextos de n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o com o poder pol\u00edtico prevalecente (o que exclui, por isso, o modelo <em>durkheimiano<\/em>), a partir de elementos religiosos (Pol\u00f3nia, Irlanda), servindo que o factor religioso serve de elemento mobilizador (\u00abo sentimento de perten\u00e7a ao grupo e \u00e0 confiss\u00e3o fundem-se, e as quest\u00f5es morais tendem a ser codificadas em categorias religiosa\u00bb) \u2013 e com certo sucesso. Mas mesmo uma realidade n\u00e3o religiosa como o ideal da <em>Rep\u00fablica <\/em>(ideal republicano franc\u00eas) pode pensar-se nestes termos (p. 458); da mesma forma que o alargamento do sufr\u00e1gio se pode pensar como estrat\u00e9gia de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (p. 467).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, o factor religioso opera como elemento dispon\u00edvel para a constru\u00e7\u00e3o da identidade pol\u00edtica, mormente quando n\u00e3o condicionado por viv\u00eancias anteriores (modelo barroco) que tornam essa linguagem indesejada (p. 459).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/dodo71-10873202\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4748316\">Doroth\u00e9e QUENNESSON<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4748316\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13006,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13005","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13005","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13005"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13005\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13007,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13005\/revisions\/13007"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}