{"id":12972,"date":"2021-07-22T13:26:00","date_gmt":"2021-07-22T12:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12972"},"modified":"2021-07-22T13:26:00","modified_gmt":"2021-07-22T12:26:00","slug":"bioetica-e-sociedade-louvar-as-virtudes-eticas-porque-todos-somos-cultores-de-bioetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/bioetica-e-sociedade-louvar-as-virtudes-eticas-porque-todos-somos-cultores-de-bioetica\/","title":{"rendered":"Bio\u00e9tica e sociedade | Louvar as virtudes \u00e9ticas porque todos somos cultores de bio\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Bio\u00e9tica e sociedade<br \/>\n(Parceria com o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica)<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Carlos Costa Gomes*<\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-8127\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Carlos-Costa-Gomes.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"250\" \/>Os dias que correm e que marcam o pulsar da vida, nos quais tantas vezes o ch\u00e3o nos pareceu fugir; nestes mesmos dias em que tantas certezas se tornaram em incertezas pondo \u00e0 prova a nossa vulnerabilidade e os limites da vida humana; nunca como neste tempo cada pessoa se tornou um cultor de bio\u00e9tica, ou dito de outro modo, a bio\u00e9tica saiu da sua c\u00e1tedra universit\u00e1ria e hospitalar para estar no lugar do qual nunca deveria ter sa\u00eddo \u2013 junto das pessoas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Segundo Charles Dickens no seu livro <em>Hist\u00f3ria em duas cidades<\/em>, no qual descreve a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, podemos ler: \u201cera o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos; era a idade da sabedoria, era a idade da loucura; era a \u00e9poca da f\u00e9 e a f\u00e9 da incredulidade; o per\u00edodo da luz e o per\u00edodo das trevas; a primavera da esperan\u00e7a e o inverno do desespero; t\u00ednhamos tudo \u00e0 nossa frente e nada t\u00ednhamos no horizonte\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Neste tempo marcado pelo COVID 19, vivemos um per\u00edodo, por um lado cheio de esperan\u00e7a; mas por outro, um tempo com um horizonte limitado. A urg\u00eancia sanit\u00e1ria imposta em nome da efic\u00e1cia do controlo desta doen\u00e7a p\u00f5e a descoberto um conjunto de outras patologias e doen\u00e7as que por este motivo deixaram de ser cuidadas. A pandemia provocou desigualdades e desmascarou as existentes e trouxe para a luz do dia as contradi\u00e7\u00f5es de um SNS fr\u00e1gil e de recursos limitados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Por isso, com a Pandemia COVID 19 todos n\u00f3s fomos cultores de bio\u00e9tica quando nos questionamos sobre os problemas e dilemas \u00e9ticos na atribui\u00e7\u00e3o dos recursos: para quem e quem deve ser dada a possibilidade do ventilador; quem deve primeiro ter acesso \u00e0 vacina e se deve ser obrigat\u00f3ria? Como devemos proteger os mais vulner\u00e1veis? Como garantir o respeito pela privacidade individual e coletiva? Deve ser obrigat\u00f3rio os certificados de imunidade?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Tudo isto foi (e \u00e9) lugar de discuss\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 nos profissionais de sa\u00fade, autoridades da sa\u00fade, na comunica\u00e7\u00e3o social, mas tamb\u00e9m entre amigos e na fam\u00edlia. Nunca como hoje, creio, a bio\u00e9tica demonstrou de modo relevante a sua import\u00e2ncia e fun\u00e7\u00e3o como instrumento \u00e9tico e moral no processo de delibera\u00e7\u00e3o pessoal e p\u00fablica. Se por um momento, algu\u00e9m pudesse ter d\u00favidas sobre o papel fundamental da necessidade \u00fatil da bio\u00e9tica no contexto social e biom\u00e9dico, os debates que desde do in\u00edcio da pandemia foram efetuados, mostram a sua efetividade e valor na delibera\u00e7\u00e3o partilhada e da decis\u00e3o pensada sobre as pol\u00edticas de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m sobre a rela\u00e7\u00e3o pessoal entre os profissionais de sa\u00fade com a pessoa doente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Rela\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade com a pessoa doente \u2013 em tempo de COVID 19 e em outros tempos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A doen\u00e7a provocada pelo v\u00edrus COVID 19, como outras doen\u00e7as, \u00e9 um acontecimento biogr\u00e1fico e que nenhum profissional de sa\u00fade, seja o m\u00e9dico ou o enfermeiro, entender\u00e1 a doen\u00e7a da pessoa que o procura se n\u00e3o estabelecer com ela um clima de empatia e confian\u00e7a; se n\u00e3o conhecer como pessoa humana com um projeto de vida, uma certa situa\u00e7\u00e3o pessoal, profissional e familiar; e uma integra\u00e7\u00e3o em determinado estrato social e econ\u00f3mico. Por isso, a consulta da doen\u00e7a a que nos referimos \u2013 mas tamb\u00e9m as outras doen\u00e7as \u2013 nunca pode ser apressada, desatenta, sem benevol\u00eancia nem simpatia pela pessoa doente que procura ajuda do profissional de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Se por um lado, a pessoa doente que procura ajuda no m\u00e9dico e no enfermeiro e, confiadamente, se entrega para curar e tratar, quando poss\u00edvel, mas cuidar sempre, a sua doen\u00e7a; por outro lado, tamb\u00e9m se entrega, em primeira inst\u00e2ncia, enquanto pessoa. Na circunst\u00e2ncia de se estar doente a pessoa deixa a fam\u00edlia, o trabalho, a vida social e vai procurar no profissional de sa\u00fade a seguran\u00e7a e o apoio para a sua vulnerabilidade e fragilidade e dele espera receber os melhores cuidados.\u00a0 A doen\u00e7a provocada pelo O COVID 19, apesar de se j\u00e1 muito conhecer, h\u00e1 ainda muito para a compreender; se j\u00e1 sabemos muito sobre ela, h\u00e1 tamb\u00e9m um caminho longo para a \u201celiminar\u201d. Por\u00e9m, seja qual for a complexidade ou a gravidade desta doen\u00e7a, a rela\u00e7\u00e3o do profissional de sa\u00fade com a pessoa doente deve ser a de fazer tudo para que nunca se rompa o v\u00ednculo da confian\u00e7a \u2013 a confian\u00e7a \u00e9 como um perfume leve e suave de quem passa por n\u00f3s e em n\u00f3s deixa a sua frag\u00e2ncia. Cuidar de uma pessoa doente \u00e9 dar-lhe o tempo n\u00e3o medido pelos ponteiros do rel\u00f3gio, mas medido pelo tempo do \u201csaber\u201d que n\u00e3o tem medida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Os dois momentos fundamentais da vida \u00e9 o nascimento e a morte. Nestes dois momentos a interven\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade deve ser uma interven\u00e7\u00e3o cujo imperativo categ\u00f3rico do respeito pela vida humana, da dignidade da pessoa e dos seus direitos \u00e9 fundamental. N\u00e3o \u00e9 necessariamente bom e adequado para a pessoa doente tudo aquilo que sobre ela, tecnicamente, o profissional pode e sabe fazer. A t\u00e9cnica biom\u00e9dica tem, como limite natural, o melhor bem para a pessoa doente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Numa rela\u00e7\u00e3o profissional de sa\u00fade pessoa doente, os m\u00e9dicos e enfermeiros, n\u00e3o devem considerar a pessoa doente como um paciente com paci\u00eancia para esperar, como espectadores de rituais m\u00e9dicos ou de enfermagem mais ou menos misteriosos e salv\u00edficos, mas sempre como pessoas com direitos que lhe est\u00e3o associados \u00e0 gest\u00e3o da sua doen\u00e7a. A responsabilidade civil dos atos cl\u00ednicos pode ser agravada, e quase sempre gera conflitos, quando a pessoa doente \u00e9 apenas um paciente \u00e0 espera da cura que por vezes n\u00e3o acontece. O direito de julgar \u2013 por n\u00e3o saber e n\u00e3o ter sido informada \u2013 a qualidade do servi\u00e7o prestado &#8211; \u00a0como consumidor dos servi\u00e7os e cuidados de sa\u00fade; de fazer um ju\u00edzo negativo sobre profissionais de sa\u00fade por m\u00e1 qualidade dos servi\u00e7os e dos cuidados recebidos, quer por erro de diagn\u00f3stico, quer por complica\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas s\u00e3o fatores de grandes conflitos porque n\u00e3o se envolveu a pessoa doente na decis\u00e3o sobre o que nela se vai fazer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Em tempo de COVID 19 a pessoa doente \u00e9 mais paciente do que pessoa. Os limites a interven\u00e7\u00f5es em pessoas idosas foram sumamente aplicados. Os mist\u00e9rios desta realidade continuam dentro das quatro paredes das unidades de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m dentro da intimidade dos profissionais de sa\u00fade. A quest\u00e3o n\u00e3o passa apenas pela falta de recursos t\u00e9cnicos ou humanos, estes s\u00e3o sempre limitados; a quest\u00e3o n\u00e3o passa apenas pela racionaliza\u00e7\u00e3o dos recursos ou pelo racionamento das interven\u00e7\u00f5es e da disponibilidade das enfermarias e dos cuidados intensivos. A quest\u00e3o central \u00e9 uma quest\u00e3o de bio\u00e9tica. \u00c9 sobre a responsabilidade de cada um e do dever assumido enquanto profissionais de sa\u00fade na sua rela\u00e7\u00e3o com as pessoas doentes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Racionalizar, racionar e limitar o acesso deve ser sempre dialogado, explicado, comunicado com todos intervenientes. Esconder por detr\u00e1s de uma escala de fragilidade para decidir sobre as probabilidades ou possibilidades de terapias a realizar \u00e9 eticamente aceit\u00e1vel quando o quadro cl\u00ednico \u00e9 severo e sem condi\u00e7\u00f5es para se obter benef\u00edcios; mas \u00e9 eticamente conden\u00e1vel que seja aplicada uma escala de fragilidade considerando a pessoa doente como paciente, como sujeito passivo, e que resulta numa agressividade na rela\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">No s\u00e9culo XXI, de acordo com Daniel Serr\u00e3o, cujo pensamento seguimos neste texto, ser\u00e1 o tempo de homens e mulheres com a 4\u00aa idade e que ter\u00e3o necessidades espec\u00edficas de apoio social e cl\u00ednico. N\u00e3o s\u00e3o candidatas a interven\u00e7\u00f5es de transplanta\u00e7\u00e3o e de cuidados intensivos desproporcionais. Por isso, \u00e9 necess\u00e1ria uma nova medicina e uma nova enfermagem que n\u00e3o \u00e9 preditiva, nem preventiva, nem curativa, mas uma medicina e enfermagem de acompanhamento. Acompanhar estas pessoas com doen\u00e7as carece de uma nova aprendizagem para gerir as suas capacidades no refor\u00e7o da autonomia que passa por aprender com estes homens e mulheres da 4.\u00aa idade a sabedoria real de que s\u00e3o deposit\u00e1rios. Sobretudo, \u00e9 imprescind\u00edvel a linguagem da afetividade e a pr\u00e1tica do amor que s\u00e3o o melhor rem\u00e9dio para os que na solid\u00e3o se sentem e na qual, n\u00e3o raras vezes, morrem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio, para estes homens e mulheres (para tantas outras pessoas v\u00edtimas do COVID 19 e de outras doen\u00e7as severas) uma nova medicina e uma nova enfermagem. Para estes homens e mulheres carregados de anos de vida, os m\u00e9dicos e os enfermeiros do futuro devem louvar as virtudes \u00e9ticas dos m\u00e9dicos e dos enfermeiros do presente, como estes t\u00eam sabido louvar as virtudes \u00e9ticas dos m\u00e9dicos e dos enfermeiros do passado.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\"><span class=\"s1\">*Presidente do Centro de Estudos de Bio\u00e9tica | <\/span><span class=\"s1\">Professor na ESSNORTECVP | Membro da Academia &#8216;Fides et Ratio&#8217;<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/anncapictures-1564471\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3156771\">anncapictures<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3156771\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bio\u00e9tica e sociedade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12973,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[72,136],"tags":[],"class_list":["post-12972","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica-e-sociedade","category-carlos-costa-gomes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12972","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12972"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12972\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12974,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12972\/revisions\/12974"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12973"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}