{"id":12945,"date":"2021-07-19T07:00:07","date_gmt":"2021-07-19T06:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12945"},"modified":"2021-07-15T10:39:03","modified_gmt":"2021-07-15T09:39:03","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-23-a-idade-da-mobilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-23-a-idade-da-mobilizacao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (23) \u2013 A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), iniciamos agora a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. Este \u00e9 o primeiro de tr\u00eas textos sobre o cap\u00edtulo 12, de t\u00edtulo <em>A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o. <\/em>Consideram-se hoje as pp. 377 a 419.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 81. <em><u>Um novo enfoque<\/u>. \u2013 <\/em>Com a parte IV da obra (\u00abNarrativas de seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb\/ <em>Narratives of Secularization<\/em>), que se prolonga pelas pp. 421-535, o escrito de Taylor adquire um novo rumo. Se, nas partes I a III, o enfoque estava colocado no <em>curso evolutivo <\/em>que desaguou na forma\u00e7\u00e3o de uma <em>Idade Secular, <\/em>na parte IV atenta-se no respectivo <em>resultado final<\/em>: como \u00e9 a sociedade que finalmente emergiu. Ali o olhar estava colocado no <em>processo <\/em>de forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade secular; agora a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 dada ao <em>estado <\/em>final dele resultante. N\u00e3o que n\u00e3o se versem dados aspectos integrantes da <em>hist\u00f3ria<\/em> contempor\u00e2nea, como \u00e9 especialmente vis\u00edvel no primeiro dos tr\u00eas cap\u00edtulos desta parte IV. Mas a inten\u00e7\u00e3o central \u00e9 j\u00e1 retratar o mundo contempor\u00e2neo ao Autor \u2013 e a n\u00f3s pr\u00f3prios, ali\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 82. <em><u>Algumas reflex\u00f5es preliminares sobre a seculariza\u00e7\u00e3o. Sequ\u00eancia.<\/u> <\/em>\u2013 O primeiro cap\u00edtulo desta parte IV da obra, o cap\u00edtulo 12, tem por t\u00edtulo \u00abA Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o\u00bb\/ <em>The Age of Mobilization, <\/em>e integra as pp. 423-472.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prop\u00f5e-se estudar a seguinte quest\u00e3o: como \u00e9 que as op\u00e7\u00f5es<em> descrentes <\/em>das elites, da <em>intelligentsia, <\/em>alastraram para o conjunto da sociedade? (pp. 423-424). \u00c9 procurada uma resposta com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades de Fran\u00e7a, a Gr\u00e3-Bretanha e os EUA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de se procurar responder \u00e0 quest\u00e3o, conv\u00e9m colocar em evid\u00eancia dois dados interessantes: primeiro, o c\u00e1lculo, feito por alguns autores, de que o <em>apogeu da pr\u00e1tica crist\u00e3 <\/em>em Fran\u00e7a ter\u00e1 ocorrido por 1870 (!), em plena segunda parte do s\u00e9c. XIX, portanto, j\u00e1 depois de a atitude descrente estar firmemente instalada em dados ambientes sociais; segundo, que, embora pouco acentuado nos EUA, o decl\u00ednio da pr\u00e1tica crist\u00e3 se torna claro a partir de 1960 (p. 424).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressemos \u00e0quela primeira quest\u00e3o. Qual seja a resposta que lhe seja dada, convoca a compreens\u00e3o do que \u00e9 a seculariza\u00e7\u00e3o e de quais as suas din\u00e2micas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor come\u00e7a por glosar algumas interpreta\u00e7\u00f5es gerais sobre a mat\u00e9ria, tecendo considera\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas sobre os termos em que se pode teorizar a seculariza\u00e7\u00e3o (pp. 425-429), logo advertindo para a necessidade de afastar reducionismos explicativos da mudan\u00e7a do lugar social da religi\u00e3o: decairia (i) porque falsa, tal como demonstrado pela ci\u00eancia; (ii) porque agora irrelevante ou in\u00fatil; (iii) porque baseada na autoridade. Tais \u00a0explica\u00e7\u00f5es, podendo n\u00e3o estar disseminadas no conjunto da popula\u00e7\u00e3o, est\u00e3o-no, por\u00e9m, em ambiente acad\u00e9mico: \u00aba exclus\u00e3o\/ irrelev\u00e2ncia da religi\u00e3o \u00e9 muitas vezes parte do <em>background <\/em>inadvertido das ci\u00eancias sociais, hist\u00f3ria, filosofia, psicologia. De facto, mesmo soci\u00f3logos da religi\u00e3o n\u00e3o crentes observam como os seus colegas doutros dom\u00ednios da disciplina expressam surpresa pela aten\u00e7\u00e3o dada a um t\u00e3o marginal fen\u00f3meno.\u00bb (p. 429)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exposi\u00e7\u00e3o prossegue com uma reflex\u00e3o acerca das <em>pr\u00e9-compreens\u00f5es <\/em>(<em>unthought<\/em>) que guiam o discurso, <em>qualquer discurso<\/em>, incluindo o do pr\u00f3prio Taylor, sobre o papel da religi\u00e3o na modernidade, analisando tamb\u00e9m diferentes teorias da seculariza\u00e7\u00e3o (pp. 429-437). No caso, e como ali\u00e1s j\u00e1 antecipado ao princ\u00edpio da obra (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">2<\/a>), Taylor pressup\u00f5e uma compreens\u00e3o da religi\u00e3o que n\u00e3o se resume \u00e0 assun\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do \u00abtranscendente\u00bb ou \u00absupernatural\u00bb, mas que pressup\u00f5e a dimens\u00e3o de <em>transforma\u00e7\u00e3o <\/em>da pr\u00f3pria pessoa \u2013 no caso crist\u00e3o, a inser\u00e7\u00e3o no Amor de Deus \u2013, t\u00e3o fortemente contrastante com a <em>ordem moral moderna, <\/em>que olha tais perspectivas de transforma\u00e7\u00e3o com grande suspeita (p. 430). E assim a ponto de a perspectiva de <em>transforma\u00e7\u00e3o <\/em>(crist\u00e3, mas tamb\u00e9m judaica, budista,\u2026) e a perspectiva <em>laica, secular, <\/em>operarem como dois p\u00f3los opostos, que reciprocamente se desafiam, e que ocasionam a tens\u00e3o pr\u00f3pria do mundo moderno: \u00abTodos est\u00e3o vulner\u00e1veis, no sentido de que podem surgir circunst\u00e2ncias em que sentem a for\u00e7a da solicita\u00e7\u00e3o oposta. E se n\u00e3o sentem, muitas vezes os pr\u00f3prios filhos v\u00e3o sentir.\u00bb (p. 435; cf. o n.\u00ba 3). (Ali\u00e1s, confessa o pr\u00f3prio Taylor a sua pr\u00f3pria mo\u00e7\u00e3o: \u00abI am moved by the life of Francis of Assisi\u00bb (p. 436)).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 apenas de decl\u00ednio a interpreta\u00e7\u00e3o de Taylor. Pois al\u00e9m do decl\u00ednio em compara\u00e7\u00e3o com per\u00edodos de <em>apogeu <\/em>do religioso, nota-se sobretudo \u2013 como se vai repetindo ao longo de toda a obra \u2013, n\u00e3o o desaparecimento, mas a reconfigura\u00e7\u00e3o do lugar do religioso: \u00ab(\u2026) houve certamente um \u201cdecl\u00ednio\u201d na religi\u00e3o. A cren\u00e7a religiosa existe agora num espectro de escolhas que incluem diversas formas de recusa e rejei\u00e7\u00e3o; a f\u00e9 crist\u00e3 existe num espectro onde se encontra tamb\u00e9m um amplo conjunto de outras op\u00e7\u00f5es espirituais. Mas o que \u00e9 interessante na hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas o decl\u00ednio, mas uma nova coloca\u00e7\u00e3o do sagrado ou do espiritual em rela\u00e7\u00e3o com a vida individual e social. Esta nova coloca\u00e7\u00e3o \u00e9 agora a ocasi\u00e3o de recomposi\u00e7\u00f5es da vida espiritual em novas formas, e de novas vias de viver em, ou sem, rela\u00e7\u00e3o com Deus.\u00bb (p. 437)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que se estudar\u00e1 no presente cap\u00edtulo e no subsequente. Longe de um simples decl\u00ednio, o novo quadro moderno, caracterizado pela press\u00e3o cruzada resultante de p\u00f3los opostos \u2013 e que, com efeito, acabou por conduzir a um decl\u00ednio da profiss\u00e3o de f\u00e9 no mundo ocidental \u2013, \u00e9 tamb\u00e9m um per\u00edodo de <em>recomposi\u00e7\u00e3o <\/em>da pr\u00e1tica religiosa e da estrutura\u00e7\u00e3o eclesial (v. o que se escreveu sob o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">4.b)<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veremos, assim, como mediante a recomposi\u00e7\u00e3o eclesial desde o s\u00e9c. XIX \u2013 <em>A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013: ao mesmo tempo que declina uma forma tradicional de compreens\u00e3o da f\u00e9, emergiram novas pr\u00e1ticas crentes e viv\u00eancias eclesiais. No cap\u00edtulo seguinte, avan\u00e7aremos para uma nova reconfigura\u00e7\u00e3o, ainda em curso, a um tempo colocando em crise o modelo anterior, por outro lado, e de novo, implicando novas reconfigura\u00e7\u00f5es: <em>A Idade da Autenticidade. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 83. <em><u>Dois tipos ideais. O modelo do <\/u><\/em><u>anci\u00e9n regime (i)<em>. Caracter\u00edsticas.<\/em><\/u><em> \u2013 <\/em>Para explicar a transi\u00e7\u00e3o de uma <em>descren\u00e7a <\/em>ao n\u00edvel das elites para uma sua expans\u00e3o pelo conjunto da sociedade, ocorrida no per\u00edodo dos \u00faltimos dois s\u00e9culos \u2013 e, bem assim, as recomposi\u00e7\u00f5es em reac\u00e7\u00e3o \u2013, pergunta com que se iniciara o cap\u00edtulo (n.\u00ba 81), Taylor prop\u00f5e a contraposi\u00e7\u00e3o entre dois <em>tipos ideais <\/em>de organiza\u00e7\u00e3o eclesial (p. 437):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O modelo do <em>anci\u00e9n regime;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) O modelo da <em>Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o <\/em>(1800-1950\/60)<em>. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compreens\u00e3o de ordem subjacente \u00e0quele <em>primeiro<\/em> modelo, o do <em>anci\u00e9n regime,<\/em> \u00e9 de \u00edndole vertical, hier\u00e1rquica, com fundamenta\u00e7\u00e3o religiosa \u2013 ou, ent\u00e3o, num tempo m\u00edtico que se perde de vista \u2013, forte estrutura\u00e7\u00e3o social (Rei, bispos, nobres, cidade, par\u00f3quia), em que \u00abcada um tem o seu lugar. De facto, pertencemos \u00e0 sociedade mais amplo mediante a nossa perten\u00e7a ao microcosmos local.\u00bb Do ponto de vista eclesial, nota-se a centralidade da <em>par\u00f3quia <\/em>(mesmo no quadro da Reforma) e das suas ritualiza\u00e7\u00f5es que estruturam o tempo e a comunidade (p. 438), com uma forte dimens\u00e3o festiva (p. 440). Em todo o caso, entrecruzando-se \u2013 em <em>simbiose<\/em> \u2013 elementos ortodoxos com pr\u00e1ticas religiosas populares: convivem, por conseguinte, elementos religiosos <em>pr\u00e9- <\/em>e <em>p\u00f3s-axiais <\/em>(p. 439; nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">34 a 36<\/a>). Interessante \u00e9 que essa <em>simbiose <\/em>\u00e9 valorada diferentemente pelas <em>elites <\/em>e pelas <em>massas populares: <\/em>as primeiras olhando-a com suspeita, e intentando reconfigur\u00e1-la ou aboli-la; as segundas valorizando-a. Neste quadro religioso, a perten\u00e7a religiosa e a perten\u00e7a a uma comunidade nacional, mas sobretudo local, encontram-se estreitamente ligadas (p. 440).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 84. <em><u>O modelo do <\/u><\/em><u>anci\u00e9n regime (ii)<em>. Eros\u00e3o.<\/em><\/u><em> \u2013 <\/em>Todo o per\u00edodo moderno, por\u00e9m, conduz a uma crescente hostilidade das elites em rela\u00e7\u00e3o a esta s\u00edntese da religi\u00e3o popular, fruto do movimento de <em>desencantamento <\/em>com efeitos corrosivos sobre alguns elementos da religiosidade popular (p. 440; para essa hostilidade, cf., por ex., o que se escreveu sob o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">15<\/a>). Precisamente por a religi\u00e3o popular ter uma forte dimens\u00e3o colectiva (cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">7<\/a>), as elites, a partir dos v\u00e9rtices da sociedade, encontravam-se em posi\u00e7\u00e3o privilegiada para a colocar em causa, justamente ao recusarem a sua participa\u00e7\u00e3o nas ritualiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. O simples facto dessa recusa \u2013 ou da destrui\u00e7\u00e3o de elementos \u00absagrados\u00bb (para esta no\u00e7\u00e3o, cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">16.a)<\/a>) \u2013, sem que se notem consequ\u00eancias de maior sobre os pr\u00f3prios, ser poss\u00edvel, \u00e9, j\u00e1 de si, um meio de priva\u00e7\u00e3o do poder do pr\u00f3prio sagrado (a mesma estrat\u00e9gia, nota Taylor, que um S\u00e3o Bonif\u00e1cio usara em rela\u00e7\u00e3o aos pag\u00e3os germanos, ou que os mission\u00e1rios crist\u00e3os usaram no M\u00e9xico em rela\u00e7\u00e3o aos templos e cultos locais). Sem preju\u00edzo, o espa\u00e7o deixado assim em vazio pode ser preenchido mediante uma reapropria\u00e7\u00e3o de algumas pr\u00e1ticas anteriores que se associam \u00e0s novas orienta\u00e7\u00f5es prevalecentes \u2013 veja-se o exemplo da Reforma inglesa (p. 441).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo desafio \u00e0 Igreja do <em>Anci\u00e9n R\u00e9gime <\/em>surge atrav\u00e9s da Revolu\u00e7\u00e3o francesa, seja pelo firme e frontal ataque \u00e0 pratica religiosa institu\u00edda, seja pela tentativa de apresentar uma ideologia totalmente alternativa \u2013 seguindo-se um conflito entre a linha <em>cat\u00f3lica <\/em>e <em>republicana <\/em>na modela\u00e7\u00e3o da identidade francesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reac\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica d\u00e1-se atrav\u00e9s da <em>Restaura\u00e7\u00e3o, <\/em>mediante um imagin\u00e1rio social <em>barroco <\/em>(n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">42<\/a>)<em>, <\/em>com elementos de compromisso, portanto, entre uma configura\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica da sociedade de modo crist\u00e3o (a alian\u00e7a entre o trono e o altar, mas que pode ser reconfigurada em termos democr\u00e1ticos, conservando a Igreja a fun\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o moral da sociedade: f\u00f3rmula da <em>democracia crist\u00e3<\/em>) e certos elementos horizontais. Mas, no que respeita \u00e0 Igreja, \u00e9 ainda perspectivada como englobando o conjunto da sociedade, tamb\u00e9m como factor de coes\u00e3o social de interesse para a respectiva organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (p. 442).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, trata-se de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social <em>durkheimiana, <\/em>atenta a identifica\u00e7\u00e3o entre o <em>factor religioso<\/em> e de <em>coes\u00e3o social<\/em>: para o Catolicismo ultramontano, preponderando o <em>dado religioso<\/em>; para Durkheim, a fun\u00e7\u00e3o de <em>coes\u00e3o social<\/em> (p. 442).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naturalmente que este esfor\u00e7o de Restaura\u00e7\u00e3o contou tamb\u00e9m com oposi\u00e7\u00e3o <em>secularista liberal<\/em>, com relevantes n\u00edveis de dissid\u00eancia religiosa ao n\u00edvel das classes m\u00e9dias e das classes oper\u00e1rias (p. 442) \u2013 tamb\u00e9m pela associa\u00e7\u00e3o entre a Igreja montana-ultrabarroca e formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (mon\u00e1rquicas-hier\u00e1rquicas) perspectivadas como essencialmente hostis a estes grupos (pp. 442-443). Outros poss\u00edveis factores de desagrega\u00e7\u00e3o, aponta Taylor, s\u00e3o (i) a dificuldade de conservar uma Igreja comum perante o crescente fosso, pr\u00f3prio da Idade moderna, entre a <em>elite <\/em>e as <em>massas populares; <\/em>(ii) assim como o fosso entre classes, que coloca seriamente em crise o <em>sentido de perten\u00e7a <\/em>a uma mesma comunidade, a um mesmo corpo. Tal fissura conduz pode conduzir \u00e0 quest\u00e3o de se saber por quem a Igreja <em>toma partido. <\/em>Se a quest\u00e3o for colocada nestes termos \u2013 se \u00e9 leg\u00edtimo coloca a quest\u00e3or nestes termos, j\u00e1 de si implicando uma clivagem, \u00e9 um outro problema \u2013, torna-se f\u00e1cil a identifica\u00e7\u00e3o da Igreja com o <em>status quo <\/em>pol\u00edtico-econ\u00f3mico (p. 443).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, tal quadro de composi\u00e7\u00e3o eclesial <em>durkheimiano <\/em>v\u00ea-se fortemente colocado em crise com os processos de <em>urbaniza\u00e7\u00e3o <\/em>e de <em>industrializa\u00e7\u00e3o<\/em> que desenra\u00edzam a pessoa do respectivo ambiente paroquial que estrutura a sua exist\u00eancia (p. 443). Conjugando-se com os factores antes descritos, a consequ\u00eancia n\u00e3o pode ser sen\u00e3o de <em>aliena\u00e7\u00e3o religiosa<\/em>: vazio, por\u00e9m, que desta vez podia ser ocupado por op\u00e7\u00f5es puramente seculares \u2013 por ex., movimentos de ideologia socialista (p. 444).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o tempo, se \u00e9 de abalo, \u00e9 tamb\u00e9m de reconfigura\u00e7\u00e3o eclesial: devemos, por isso, olhar mais de perto para a <em>Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><i>Imagem: A Liberdade Guiando o Povo<\/i>\u00a0(1830) | Eug\u00e8ne Delacroix\u00a0 &#8211; Museu do Louvre\u00a0&#8211; Paris.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12946,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12945","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12945"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12947,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12945\/revisions\/12947"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}