{"id":12919,"date":"2021-08-12T07:00:55","date_gmt":"2021-08-12T06:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12919"},"modified":"2021-07-10T12:45:04","modified_gmt":"2021-07-10T11:45:04","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-11-tres-poesias-voltas-ao-divino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-11-tres-poesias-voltas-ao-divino\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 11 &#8211; TR\u00caS POESIAS VOLTAS AO DIVINO"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">TR\u00caS POESIAS VOLTAS AO DIVINO<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Um pastorinho<\/em><\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Voltar ao divino era uma moda ou costume que consistia em tomar uma poesia profana, que normalmente cantava o amor puramente humano, e, com uns retoques, se mudava, acrescentava, transformava, tornando a pe\u00e7a tornava-se num poema ao amor divino.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volta ao divino, esta poesia fala de Cristo e da alma. Cristo \u00e9 apresentado na veste de Pastor e a alma de pastora, como no C\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro elemento substancial, al\u00e9m dos dois protagonistas, \u00e9 a \u00e1rvore, da qual se fala s\u00f3 explicitamente no fim. N\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a \u00e1rvore da Cruz.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>A composi\u00e7\u00e3o est\u00e1 cheia de teologia e psicologia amorosa: teologia da reden\u00e7\u00e3o; psicologia no modo de apresentar e, pouco a pouco, ir agravando as dores nascidas do amor diante da ingratid\u00e3o e o esquecimento, dores que se descobrem e coroam na morte de cruz: morte de amor.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem desejar um coment\u00e1rio mais denso deste poema pode consultar nas Obras do Santo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 11: onde se fala das dores e ang\u00fastias do amante na aus\u00eancia da pessoa amada;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 23: da reden\u00e7\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o dos homens por meio do sacrif\u00edcio de Cristo na \u00e1rvore da Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 22, 1: de Cristo Bom Pastor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S 7, 11: da solid\u00e3o de Cristo na morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cf. tamb\u00e9m em OC, p. 99, nota 18, e no ap\u00eandice (na 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o de Madrid 1980, pp. 1333-1334). Um dos textos profanos do poema \u201cvolto ao divino\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Atr\u00e1s de um amoroso lance<\/em><\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li>Nesta poesia, tamb\u00e9m \u00abvolta ao divino\u00bb, os quatro primeiros versos cont\u00eam o tema que se desenvolve e comenta nas estrofes seguintes.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta l\u00ea-la uma vez para se dar conta dos termos t\u00e9cnicos e das alus\u00f5es cont\u00ednuas \u00e0 falcoaria ou ca\u00e7a de aves \u00abque se fazia com falc\u00f5es, gavi\u00f5es e outros p\u00e1ssaros que perseguiam a presa at\u00e9 a ferir ou matar\u00bb (Dicion\u00e1rio da Academia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma composi\u00e7\u00e3o cheia de doutrina, especialmente sobre a virtude da esperan\u00e7a.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"4\">\n<li><em>Elementos substanciais<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus \u00e9 a ca\u00e7a, a presa a alcan\u00e7ar. A alma aparece representada numa ave de rapina (julgo tratar-se de falc\u00e3o), que se lan\u00e7a, que tenta e volta a tentar e, finalmente, consegue alcan\u00e7ar a presa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alma lan\u00e7a-se na aventura da ca\u00e7a do Senhor porque est\u00e1 cheia de amor e esperan\u00e7a. O princ\u00edpio que sustenta toda a doutrina \u00e9 \u00abquanto maior \u00e9 o amor e a esperan\u00e7a (=esperan\u00e7a de f\u00e9) tanto mais alto \u00e9 o voo da alma e tanto mais certo o \u00eaxito da ca\u00e7a\u00bb. Na \u00faltima estrofe encontramos a senten\u00e7a favorita do Santo: \u00abporque esperan\u00e7a do c\u00e9u tanto alcan\u00e7a quanto espera\u00bb, repetida quase literalmente em 2 N 21, 8; 3 S 7, 2, onde estabelece este princ\u00edpio: \u00abacerca de Deus, quanto mais a alma espera, mais alcan\u00e7a\u00bb. Nos Processos can\u00f3nicos ao interrogar-se sobre a sua firme esperan\u00e7a e confian\u00e7a, pergunta-se \u00e0s testemunhas: \u00abSe sabem se a esta f\u00e9 t\u00e3o viva acompanhava uma fervorosa esperan\u00e7a em Deus, t\u00e3o grande que costumava trazer ordinariamente na boca estas palavras: \u201c<em>oh esperan\u00e7a do c\u00e9u, que tanto alcan\u00e7as, quanto esperas<\/em>\u201d (BMC 14, 4, n\u00famero 12: Informa\u00e7\u00f5es. E no Interrogat\u00f3rio do Processo Apost\u00f3lico, ibid., p. 309).<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"5\">\n<li>Algum outro detalhe pode esclarecer o conte\u00fado doutrinal das p\u00e1ginas do Santo poeta. Neste caso, sabendo que se tratava de uma poesia \u00abvolta ao divino\u00bb, o estudo ou a considera\u00e7\u00e3o do suporte profano da poesia fornece j\u00e1 de por si uma chave interpretativa muito v\u00e1lida. Conhecer, por exemplo, as qualidades dos falc\u00f5es, gavi\u00f5es, etc., e o modo de os criar, domesticar, ensinar e adestrar para a ca\u00e7a e aplicar esses modos e qualidades e transferi-los para a alma ca\u00e7adora de Deus, enriqueceria muito o coment\u00e1rio.<\/li>\n<li>Bastaria recordar como os falc\u00f5es s\u00e3o tremendamente atrevidos e audazes e obedecem s\u00f3 e sempre por fome. As tr\u00eas virtudes teologais produzem no homem o vazio, a desnudez, o desprendimento de todas as coisas criadas e, portanto, nas pot\u00eancias dessa mesma pessoa humana: mem\u00f3ria, entendimento e vontade nasce e aumenta a fome e a sede de Deus que, especialmente, para o fim da ilumina\u00e7\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o da alma s\u00e3o intoler\u00e1veis (cf. CH 3, nn. 18-22: da fome produzida na mem\u00f3ria pela esperan\u00e7a fala ali mesmo, n. 21). N\u00e3o sendo uma fome produzida \u00e0 for\u00e7a de bra\u00e7os ou de vontade, ou puramente activa, h\u00e1 que pensar logo numa esp\u00e9cie de fome infusa ou infundida e aumentada activamente por Deus para que se tenha mais fome e sede d\u2019Ele.<\/li>\n<li>Este tema de alta presa n\u00e3o se limita a esta poesia. Para intuir o que pode significar na mente e na imagina\u00e7\u00e3o do poeta: cf. como em CB 31, 8 e em CA 22, 4, se chama a Deus \u00abdivina ave das alturas\u00bb, e, feitas as aplica\u00e7\u00f5es pertinentes, conclui-se: \u00ab\u2026 coisa muito cred\u00edvel \u00e9 que a ave de baixo voo (= a alma) possa prender a \u00e1guia real (= Deus) muito subida, se ela se abaixa querendo ser presa\u00bb. Domingo de Soto no seu <em>Tratado do amor de Deus<\/em>, em sintonia com S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, chama \u00e0 alma \u00abgeneroso sacre\u00bb (variedade de falc\u00e3o) e, depois de ter feito uma descri\u00e7\u00e3o impressionante e de como h\u00e1 que \u00absacudir as asas do seu desejo e da sua esperan\u00e7a e encher-se de amor e de uma sant\u00edssima coragem\u00bb no voo para o divino, conclui com ternura: \u00abPorque Deus n\u00e3o \u00e9 gar\u00e7a que foge, mas \u00e9 incomparavelmente maior o seu desejo de que o alcancemos para nos comunicar a sua Divindade e a sua gl\u00f3ria de que o que n\u00f3s temos de O alcan\u00e7ar e gozar d\u2019Ele\u00bb.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Por toda a formosura<\/em><\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"8\">\n<li>Com as duas anteriores \u00e9 uma poesia \u00abvolta ao divino\u00bb. O tema a comentar encontra-se nos quatro primeiros versos. Nos \u00faltimos resume-se toda a poesia, as estrofes interm\u00e9dias s\u00e3o o coment\u00e1rio.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentido geral \u00e9 o de uma composi\u00e7\u00e3o toda ela dedicada, em tens\u00e3o, a exaltar a transcend\u00eancia de Deus sobre todas as coisas criadas: doces, formosas, altas\u2026; todas distam infinitamente de Deus e est\u00e3o, s\u00e3o-nos oferecidas como meios que nos remetem, nos aproximam, nos levam a Deus, e n\u00e3o nos afastam d\u2019Ele.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"9\">\n<li>A alma sabendo por f\u00e9 e conhecendo por experi\u00eancia que a do\u00e7ura, a formosura, a suavidade de Deus transcende todas as coisas e encontrando-se, ao mesmo tempo, tocada pelo amor ardente do mesmo Deus, n\u00e3o se pode apegar a nada, nem se perde por nada, nem por ningu\u00e9m.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guiada e empurrada pela f\u00e9 e o amor aspira sempre e de todos os modos a \u00ab<em>um n\u00e3o sei qu\u00ea que se alcan\u00e7a por ventura<\/em>\u00bb: Deus. Em CB 7, 9-10 e em 7, 9-11 comenta o verso: um n\u00e3o sei qu\u00ea que ficam balbuciando\u00bb nesse mesmo sentido fundamental de transcend\u00eancia. Podem ler-se tamb\u00e9m as can\u00e7\u00f5es CB 6, 8, 9, 10. A express\u00e3o \u00abnunca eu me perderei\u00bb pode ilustrar-se desde o coment\u00e1rio de CB 29, 7-11 e CA 20, 3-7, quando interpreta \u00abdireis que me perdi, que, andando enamorada, me dei por perdida e fui ganhada\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o geral<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"10\">\n<li>Por estas poucas p\u00e1ginas dedicadas a ilustrar, de modo sum\u00e1rio, estas cinco poesias de entre as n\u00e3o comentadas pelo Santo poeta, se pode compreender a import\u00e2ncia doutrinal das mesmas e de qualquer outro texto. Estes poemas, e mesmo os n\u00e3o comentados aqui, s\u00e3o como recria\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, \u00e0s vezes antecipa\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes tamb\u00e9m s\u00ednteses das suas grandes obras ou de alguma sec\u00e7\u00e3o das mesmas; e tornam-se sempre expoentes do seu pensamento e testemunho das suas viv\u00eancias, substanciadas assim em verso directo ou tamb\u00e9m \u00abvolto ao divino\u00bb.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: right;\">*Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. Pp. 200 -202.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/lars_nissen-2780243\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3719233\">Lars_Nissen<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3719233\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12920,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-12919","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12919"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12921,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12919\/revisions\/12921"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12920"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}