{"id":12906,"date":"2021-08-26T07:00:13","date_gmt":"2021-08-26T06:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12906"},"modified":"2021-09-07T14:03:52","modified_gmt":"2021-09-07T13:03:52","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-12-que-bem-sei-eu-a-fonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-12-que-bem-sei-eu-a-fonte\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 13 &#8211; QUE BEM SEI EU A FONTE\u2026"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">QUE BEM SEI EU A FONTE\u2026<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Enquanto frei Jo\u00e3o se encontra desolado por n\u00e3o poder celebrar a Missa nem receber a comunh\u00e3o, comp\u00f5e este belo poema, bem como o romance anterior, nas mesmas circunst\u00e2ncias hist\u00f3rico-an\u00edmicas da pris\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma pe\u00e7a liter\u00e1ria e espiritual toda ela atravessada pelos mist\u00e9rios da Trindade e da Eucaristia. A P\u00e1scoa de 1578 ocorreu a 30 de Mar\u00e7o. A festa da Trindade foi a 25 de Maio e o Corpus a 29 do mesmo m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerrado no seu c\u00e1rcere toledano, sem altar, sem flores, sem holocausto, sem obla\u00e7\u00e3o, sem incenso, sem poder celebrar missa nem abeirar-se da comunh\u00e3o, n\u00e3o encontrou melhor meio de celebrar os mist\u00e9rios da Sant\u00edssima Trindade e da Eucaristia do que cantando-os e contemplando-os, encarnando a sua devo\u00e7\u00e3o e a sua f\u00e9 no p\u00e3o e no vinho dos seus versos.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>Na Ficha 78 publicamos todo o texto do poema como a confiss\u00e3o de f\u00e9 daquele ilustre prisioneiro. O t\u00edtulo: \u00abcantar da alma que folga em conhecer a Deus por f\u00e9<em>\u00bb, <\/em>j\u00e1 nos indica o argumento e a tonalidade da composi\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Jo\u00e3o da Cruz a poesia torna-se m\u00fasica. Tudo s\u00e3o can\u00e7\u00f5es, cantares, glosas. Basta reler os t\u00edtulos dos seus poemas para nos convencermos disto. Assim, por exemplo: \u00abCan\u00e7\u00f5es da alma que goza de ter chegado ao alto estado da perfei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a uni\u00e3o com Deus pelo caminho da nega\u00e7\u00e3o espiritual\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abCan\u00e7\u00f5es entre a alma e o Esposo Cristo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abCan\u00e7\u00f5es da alma na \u00edntima comunica\u00e7\u00e3o de uni\u00e3o de amor de Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abCoplas da alma que padece por ver a Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Can\u00e7\u00f5es \u201cao divino\u201d de Cristo e da alma\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abCoplas feitas sobre um \u00eaxtase de alta contempla\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E mais <em>coplas e glosas \u201cao divino\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa palavra, em toda a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de frei Jo\u00e3o da Cruz ressoa aquela sua <em>m\u00fasica calada<\/em>, \u00abque ultrapassa todos os saraus e melodias do mundo\u00bb (CB 14-15, 25).<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li>Em todo o cantar perpassa um ardente desejo eucar\u00edstico que transborda incontido no fim. Sem d\u00favida, a \u00e2nsia amorosa subiu de tom durante a oitava do Corpus e o facto de se encontrar sem poder celebrar nem comungar, longe de ser uma atenuante foi um verdadeiro tormento e est\u00edmulo: verdadeiro mart\u00edrio. Acrescente-se a isto a reza do Of\u00edcio lit\u00fargico na obscuridade do seu pequeno c\u00e1rcere. As palavras de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, autor do Of\u00edcio do Corpus, de Santo Agostinho, Greg\u00f3rio, Ambr\u00f3sio, Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo foram novas fa\u00edscas no esp\u00edrito de frei Jo\u00e3o. A sua pena, n\u00e3o de estar preso, mas a que lhe dizia Cris\u00f3stomo numa das suas li\u00e7\u00f5es: \u00ab\u2026uma, \u00fanica seja a nossa dor ao ver-nos privados deste alimento\u00bb. A sua dor por n\u00e3o poder aproximar-se da Sagrada mesa era intens\u00edssima. E, n\u00e3o a acrescentava o doutor ang\u00e9lico recordando-lhe que \u00abningu\u00e9m pode, ningu\u00e9m \u00e9 capaz de exprimir a suavidade deste Sacramento por meio do qual se saboreia a do\u00e7ura espiritual na sua fonte?\u00bb.<\/li>\n<li>Nos dois primeiros versos afloram os elementos do t\u00edtulo: <em>que bem sei eu<\/em> traduz o \u00abfolgar\u00bb da alma que conhece. Sabe-o t\u00e3o bem, est\u00e1 t\u00e3o contente de conhecer a Deus por f\u00e9, que irrompe irremediavelmente a cantar. Escolhe como ve\u00edculo do seu gozo o canto, o cantar. Um canto um pouco velado pela melancolia. Deus torna-se a \u00abfonte que mana e corre\u00bb.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verso-estribilho: <em>mesmo sendo noite<\/em> repete-se literalmente (ou com alguma variante: <em>porque \u00e9 de noite<\/em>, como na pen\u00faltima estrofe, ou simplesmente <em>embora de noite<\/em>, como na \u00faltima), indica as trevas nas quais ou atrav\u00e9s das quais ou por meio das quais (n\u00e3o apesar das quais!) a alma possui esse gozo e conhecimento.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"5\">\n<li>O tema, enunciado no t\u00edtulo e nos primeiros versos, completa-se nos dois seguintes, resultando esta equival\u00eancia: Fonte=Deus, Noite=F\u00e9.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Equival\u00eancia e, por isso, chave interpretativa do poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 um ir passando e gostando contemplativo os mist\u00e9rios da f\u00e9: desde Deus Uno e Trino at\u00e9 \u00e0 Eucaristia, passando pela cria\u00e7\u00e3o do universo. \u00c9 um Credo, uma ora\u00e7\u00e3o, um cantar.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"6\">\n<li>A subst\u00e2ncia do poema reduz-se a isto:<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Fonte que mana e corre, sem origem, clar\u00edssima, eterna, bel\u00edssima, insond\u00e1vel, sem solo \u00abe que ningu\u00e9m pode atravess\u00e1-la\u00bb, essa fonte tripartida, trina, t\u00e3o capaz e omnipotente nos Tr\u00eas, da qual t\u00eam origem todas as coisas n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o DEUS Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, e esta eterna fonte est\u00e1 escondida na Eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quarto verso: <em>que bem sei eu onde tem a sua guarida<\/em>, a alma cantora e enamorada afirma saber onde se encontra a fonte por mais escondida que esteja. Na nona e \u00faltima estrofe descobre-nos onde se encontra: \u00ab<em>escondida neste p\u00e3o vivo<\/em>\u00bb. Deste este p\u00e3o vivo onde p\u00f4s a sua manida (= morada, tenda, aposento, esconderijo, sacr\u00e1rio\u2026) para nos dar vida, a vida, o Senhor est\u00e1 a chamar, convocar as criaturas e desta \u00e1gua se fartam, \u00e0s escuras, porque \u00e9 de noite\u00bb.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"7\">\n<li>Jo\u00e3o da Cruz sentia na Eucaristia a vida de Deus, o Deus vivo e, por isso, pode chamar tamb\u00e9m vivo ao p\u00e3o, que \u00e9 e produz a vida, como \u00abchama \u00e0 chama viva; n\u00e3o porque n\u00e3o seja sempre viva, mas porque lhe faz tal efeito, que a faz viver espiritualmente em Deus e sentir vida de Deus\u00bb (CH 1, 6).<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, desde o p\u00e3o vivo o Senhor est\u00e1 a chamar e a convocar a Igreja, a edificar a sua Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro verso da pen\u00faltima estrofe: \u00abaqui est\u00e1 a chamar as criaturas\u00bb \u00e9 um convite para a fonte e a fartar-se e parece compendiar as chamadas do Senhor no evangelho, em particular, reconfirma a verdade da promessa de Cristo: \u00abEu sou o p\u00e3o da vida. Quem vem a mim n\u00e3o mais ter\u00e1 fome e quem cr\u00ea em mim jamais ter\u00e1 sede\u00bb (Jo 6, 35).<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"8\">\n<li>Na \u00faltima estrofe rompe-se o dique da emo\u00e7\u00e3o contida, da sede e da fome eucar\u00edstica do faminto e sedento Jo\u00e3o da Cruz:<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esta a viva fonte que desejo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>neste p\u00e3o de vida eu a vejo,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>embora de noite!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Concluindo<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que a alma canta e todas as verdades e mist\u00e9rios da vida de Deus Uno e Trino, os seus atributos: a eternidade, a beleza, a transcend\u00eancia; as suas obras: a cria\u00e7\u00e3o, a reden\u00e7\u00e3o, os sacramentos, etc., que t\u00e3o bem conhece, t\u00e3o admiravelmente, n\u00e3o os conhece sen\u00e3o por meio da f\u00e9, <em>embora seja noite<\/em>, melhor ainda, <em>porque \u00e9 de noite<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo passa pela f\u00e9, tudo passa pela Eucaristia. A Eucaristia passa pela f\u00e9; a f\u00e9 passa pela Eucaristia. Sem f\u00e9 n\u00e3o se sabe, nem sequer se pode suspeitar o que o p\u00e3o vivo cont\u00e9m; e, por conseguinte, n\u00e3o se poder\u00e1 morrer dessa sede e dessa fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Para obter um coment\u00e1rio mais amplo deste poema consultem-se nas Obras Completas do Santo estes pontos: a correspond\u00eancia Deus=fonte (2 S 21, 2; 3 S 19, 7; CB 12, 9); a correspond\u00eancia F\u00e9=noite (1 S 2, 1, 4-5; 2 S 3).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lembro tamb\u00e9m a doutrina da semelhan\u00e7a entre a f\u00e9 e Deus: \u00abA semelhan\u00e7a que existe entre ela e Deus \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o existe outra diferen\u00e7a sen\u00e3o ver ou acreditar em Deus. Assim como Deus \u00e9 infinito, tamb\u00e9m ela no-l\u2019O apresenta infinito; sendo Uno e Trino, tamb\u00e9m ela no-l\u2019O apresenta Uno e Trino; assim como Deus \u00e9 treva para o nosso entendimento, tamb\u00e9m ela cega e deslumbra o nosso entendimento\u00bb (2 S 9, 1). Cf. tamb\u00e9m CB 12: \u00ab\u00d3 cristalina fonte!\u00bb, mas, nesta can\u00e7\u00e3o, a fonte n\u00e3o \u00e9 Deus, mas a f\u00e9.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">*Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. Pp. 197 -199.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tama66-1032521\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3412242\">Peter H<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3412242\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12907,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-12906","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12906"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12906\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13139,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12906\/revisions\/13139"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12907"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}