{"id":12897,"date":"2021-07-29T07:00:29","date_gmt":"2021-07-29T06:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12897"},"modified":"2021-07-09T15:39:30","modified_gmt":"2021-07-09T14:39:30","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-9-chaves-de-interpretacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-9-chaves-de-interpretacao\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 9 &#8211; CHAVES DE INTERPRETA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">CHAVES DE INTERPRETA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Aos crit\u00e9rios hermen\u00eauticos expostos que ajudam na leitura de Jo\u00e3o da Cruz, julgo necess\u00e1rio acrescentar tamb\u00e9m algumas chaves de interpreta\u00e7\u00e3o que conduzam \u00e0 mesma compreens\u00e3o da mensagem sanjoanina.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crit\u00e9rio, tal como o vejo, \u00e9 algo mais reduzido. \u00c0s vezes \u00e9 diminuto, humilde, sempre \u00fatil. A chave \u00e9 mais ampla, mais larga e situa o escrito. Verdadeiras fontes luminosas, mentais e vivenciais a partir das quais se pensa o que se pensa e se escreve o que se escreve de um determinado modo e n\u00e3o de outro. Coordenadas do autor que servem ao leitor particularmente para localizar e apreciar como se deve os ensinamentos e as normas de conduta que lhe s\u00e3o oferecidas, as descri\u00e7\u00f5es totais do panorama da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o e os pequenos passos que o homem vai dando na sua aproxima\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio, e os passos de gigante dados pelo aut\u00eantico protagonista que \u00e9 Deus em Cristo.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>Em geral, as duas coisas \u2013 os crit\u00e9rios e as chaves \u2013 complementam-se e beneficiam-se mutuamente.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meu entender, as chaves principais e referenciais de Jo\u00e3o da Cruz s\u00e3o as seguintes: Chave eclesial. Chave cristologal. Chave teologal. Chave vivencial-experiencial. Chave apost\u00f3lica. Chave antropol\u00f3gica. Chave de liberta\u00e7\u00e3o e liberdade. Chave de antecipa\u00e7\u00e3o e protagonismo divino. Chave de enamoramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada uma destas chaves cont\u00e9m um mundo de riquezas interrelacionadas a cada passo umas com as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ordem aqui apresentada n\u00e3o significa a prioridade entre elas. Ao explica-las brevemente a seguir, o mais \u00fatil e sugestivo nalgum dos casos, ser\u00e1 oferecer os lugares sanjoaninos onde fica mais e melhor definida a chave em quest\u00e3o. O leitor rel\u00ea os textos e apercebe-se do seu conte\u00fado. N\u00e3o damos todos os textos, mas apenas os textos principais e comprovativos. Noutros casos, sem dar os textos, damos uma vis\u00e3o r\u00e1pida da chave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1\u00aa <em>Chave eclesial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Subida, pr\u00f3logo, 2; CB e CA, pr\u00f3logo, 4; CH B e CH A, pr\u00f3logo 1: submete previamente a sua doutrina como garantia de acerto ao ju\u00edzo e parecer da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Romance sobre o evangelho \u00abin principio erat Verbum\u00bb sobre a Sant\u00edssima Trindade: l\u00ea com esta chave concreta a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o que desemboca na Igreja Esposa e Corpo de Cristo, Cabe\u00e7a e Esposo. Tudo o que escreve sobre a uni\u00e3o da alma com Deus adv\u00e9m deste ponto de vista e desta subst\u00e2ncia \u00edntima. A comunh\u00e3o com Deus ou santifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o ou reden\u00e7\u00e3o aplicada \u00e0 pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 30, 7 e CA 21, 6: a Igreja \u00e9 a Esposa de Cristo, da qual e na qual Ele gera as almas e as santifica. Todas juntas e cada uma em particular \u00e9 adorno e coroa na cabe\u00e7a de Cristo. Real\u00e7am-se especialmente os m\u00e1rtires, os doutores e as virgens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 29, 1-3: o amor \u00e9 o mais cong\u00e9nito com a Igreja, o que lhe \u00e9 mais necess\u00e1rio e o que lhe traz mais proveitos e vantagens. O amor, quanto mais puro e limpo de esc\u00f3rias, tanto melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S 3, 5: a Igreja militante e a Igreja triunfante. Converg\u00eancias e diverg\u00eancias. Texto transcrito sinopticamente antes ao falar da B\u00edblia como fonte dos escritos sanjoaninos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 40, 7: o matrim\u00f3nio espiritual na Igreja militante e o matrim\u00f3nio glorioso na Igreja triunfante. O daqui desemboca no dali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 33, 8: a Igreja, casa de Deus, quer militante quer triunfante. Numa e noutra Ele distribui \u00abos melhores e principais bens\u00bb e acumula-os em quem \u00e9 mais seu amigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Carta de 12 de Outubro de 1589 a Dona Joana de Pedraza: \u00abir pelo caminho plano da lei de Deus e da Igreja\u00bb \u00e9 levar caminho de salva\u00e7\u00e3o e santifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CA e CB na sua totalidade: a estrutura, a dramatiza\u00e7\u00e3o deste livro est\u00e1 montada sobre este pressuposto da Igreja-Esposa de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2\u00aa <em>Chave cristologal<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Preferimos a express\u00e3o chave cristologal a chave cristol\u00f3gica. Como n\u00e3o dizemos virtudes teol\u00f3gicas mas teologais, assim falamos de algo mais vital e pessoal que talvez se desvaneceria ou n\u00e3o se sublinharia t\u00e3o bem dizendo teol\u00f3gicas \u2013 como se tratasse de algo mais doutrinal do que vivencial \u2013 assim aqui escolhemos a express\u00e3o cristologal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do que j\u00e1 aparece na chave anterior na qual Cristo \u00e9 o Esposo da Igreja e da cada pessoa baptizada, Jo\u00e3o da Cruz tem v\u00e1rios cap\u00edtulos extraordin\u00e1rios sobre a miss\u00e3o de Cristo na vida do mundo, das almas, da Igreja. A doutrina contida nestes lugares sobre o mist\u00e9rio de Cristo e as suas dimens\u00f5es (cf. CB 36, 10-13; CB 37, 3-5) \u00e9 de um alcance t\u00e3o amplo que faz que tudo o que se refere a Ele se torne chave de interpreta\u00e7\u00e3o de todo o seu magist\u00e9rio escrito. Pedra de toque e pedra angular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os principais lugares dos seus livros, com a categoria que lhe vamos atribuindo, s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S c. 22: a Palavra, a Palavra definitiva do Pai para a f\u00e9 e para a vida. \u00c9 o Tudo. O \u00fanico mediador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S c. 7: Cristo, por palavra e obra, e com o seu exemplo, convida, arrasta, atrai todos ao seu seguimento. Cf. tamb\u00e9m CB 25, especialmente os nn. 2-4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 1 S 13, 3-4: as normas fundamentais para a imita\u00e7\u00e3o de Cristo em qualquer circunst\u00e2ncia da pr\u00f3pria exist\u00eancia e do pr\u00f3prio dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S c. 21: ao explicar a palavra \u00abdisfar\u00e7ada\u00bb, aparece a transfigura\u00e7\u00e3o das virtudes teologais em virtudes cristologais sem mais. A alma enamorada reveste-se delas porque, \u00abtocada pelo amor do Esposo: Cristo\u00bb, pretende cair-lhe \u00abem gra\u00e7a e ganhar-lhe a vontade\u00bb, e n\u00e3o encontra melhor meio que as virtudes teologais com as quais \u00abganhar\u00e1 a gra\u00e7a e a vontade do seu Amado\u00bb, tal como deseja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 1 S 14, 2: o segredo do adiantamento no caminho da uni\u00e3o com Deus est\u00e1 em saber enamorar-se de Cristo. Quem n\u00e3o se enamora, n\u00e3o arrisca. Quem n\u00e3o arrisca n\u00e3o triunfa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB 23: Cristo redime, santifica, desposa consigo. Ra\u00edzes cr\u00edsticas do baptizado e passagem do homem redimido (n. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB can\u00e7\u00f5es 4 e 5, CA, as mesmas: a interpela\u00e7\u00e3o do homem \u00e0s criaturas e a resposta delas. No fim da estrofe cinco aparece em todo o seu esplendor a cria\u00e7\u00e3o e a reden\u00e7\u00e3o, nas quais interv\u00e9m o Filho de Deus como resplendor da gl\u00f3ria do Pai e figura da sua subst\u00e2ncia (Hb 1, 3). Tudo fica revestido de formosura, redimido, resgatado com o poder e \u00aba gl\u00f3ria da sua ressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb. Tudo leva a marca de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3\u00aa <em>Chave teologal<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia que Jo\u00e3o da Cruz d\u00e1 ao teologal fica j\u00e1 praticamente indicada e, al\u00e9m disso, personalizada ou referida esta dimens\u00e3o ao ideal mais aut\u00eantico que \u00e9 Cristo, ao falar na chave anterior do que significa e porque se leva a cabo esse \u00abdisfar\u00e7ar-se\u00bb de virtudes teologais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O itiner\u00e1rio espiritual est\u00e1 feito por estas virtudes, como se pode ver na s\u00edntese que oferece a partir delas em 2 S c. 6 e em 2 N c. 21, identificando como of\u00edcio e fun\u00e7\u00e3o peculiar das mesmas \u00abapartar a alma de tudo o que \u00e9 menos que Deus\u00bb e \u00abjunt\u00e1-la com Deus\u00bb. A estrutura e a organiza\u00e7\u00e3o da Subida est\u00e3o fundadas sobre esta fun\u00e7\u00e3o teologal. Vai-se seguindo a alma na consecu\u00e7\u00e3o desta meta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os esquemas mentais que possamos ter das \u00abvirtudes teologais\u00bb t\u00eam valor quando se tornam em vida teologal. Pode ver-se em OC pp. 153-154 o que o teologal abrange enquanto vida; e, mais adiante, o que significa \u00abprojecto teologal\u00bb, p. 155 ss, e como estas virtudes s\u00e3o os meios mais pr\u00f3prios para realizar o prop\u00f3sito da uni\u00e3o ou comunh\u00e3o com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4\u00aa <em>Chave vivencial-experiencial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o da Cruz escreve j\u00e1 numa \u00e9poca e desde uma altura da sua vida em que teve e continua a ter grandes experi\u00eancias espirituais, grandes viv\u00eancias. Certifica-nos de tais experi\u00eancias, especialmente nos pr\u00f3logos das duas grandes obras e nalguns outros lugares, como dissemos. Por isso, n\u00e3o se podem esquecer tais experi\u00eancias, n\u00e3o s\u00f3 como fonte do escrito, pois a experi\u00eancia \u00e9 m\u00e3e da ci\u00eancia, mas como chave de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplo da aten\u00e7\u00e3o que esta experi\u00eancia viva do divino merece gosto de citar uma passagem de CH B 1, 32 e de CH A 1, 26. Mais adiante nas nossas conclus\u00f5es ao coment\u00e1rio da figura do Monte voltamos sobre este texto do Santo (ver ali o n. 7\u00ba: Tudo-Nada). A argumenta\u00e7\u00e3o do Santo conclui com esta frase definitiva: \u00abTodas as coisas s\u00e3o nada para ela, e ela (a alma) \u00e9 nada para os seus olhos. S\u00f3 o seu Deus \u00e9 tudo para ela\u00bb. \u00c9 como alertamos: quando Jo\u00e3o da Cruz fala de tudo e nada n\u00e3o se deve esquecer o vivencial, que d\u00e1 sentido muito mais profundo \u00e0s palavras, que n\u00e3o ficam em puras explica\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas ou mentais ou de tipo mais ou menos filos\u00f3fico, mas est\u00e3o a oferecer-nos esse \u00absentir\u00bb de Deus e da alma que est\u00e1 posta nesse mesmo \u00absentir divino\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na chave vivencial ou experiencial \u2013 para n\u00e3o apresentar uma nova \u2013 podemos integrar ou acrescentar \u00abo trinit\u00e1rio\u00bb, isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua com Deus Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, pois tudo o que dir\u00e1 do teologal, do cristologal, do eclesial, etc., n\u00e3o se pode desvincular desta realidade de Deus Trino e Uno. A Igreja, por exemplo, surge da Trindade e a sua meta n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o o seu princ\u00edpio (cf. Romance: versos 77-98). O Deus com o qual a alma se une n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o Deus-Amor; Deus Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. Um Deus que se antecipa sempre, como explica em CH B 3, 28.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5\u00aa <em>Chave apost\u00f3lica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o indicamos com este t\u00edtulo a doutrina de Jo\u00e3o da Cruz sobre o apostolado, mas a realidade, a vontade de exercer um grande apostolado escrevendo os seus livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta chave (que se integra harmonicamente com o crit\u00e9rio dado anteriormente: perspectivas pr\u00e1ticas) influi muito no modo de escrever, na argumenta\u00e7\u00e3o, no sair, \u00e0s vezes, do contexto em que se move, pela urg\u00eancia do seu contexto mais vital, a preocupa\u00e7\u00e3o por fazer o bem, por iluminar o caminho e ajudar o caminhante. Tudo isto se pode identificar nos seus escritos, como o fazem ver dois exemplos muito simples: <em>Subida<\/em>, <em>pr\u00f3logo<\/em>, onde fala desta preocupa\u00e7\u00e3o-chave; e CH B 3, 27 ss, e CH A 3, 26 ss, quando empreende e leva por diante com ardor singular a famosa digress\u00e3o dos tr\u00eas cegos e isso em raz\u00e3o do mais puro e fino apostolado, reconhecendo ali mesmo \u00abque \u00e9 fora do prop\u00f3sito do que vamos falando\u00bb e prometendo voltar mais adiante \u00abao prop\u00f3sito\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta chave apost\u00f3lica detecta-se nas suas grandes obras, e tamb\u00e9m nas que parecem pequenas e que o s\u00e3o no volume material, n\u00e3o no calor e no conte\u00fado (cf. \u00abDitos de Luz e Amor\u00bb pr\u00f3logo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As obras sanjoaninas levam muita carga experiencial e vivencial, de qual fal\u00e1vamos na chave anterior, mas n\u00e3o levam menos carga apost\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6\u00aa <em>Chave antropol\u00f3gica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria provavelmente melhor dizer chave humana, que tem menos de teoria do que tudo o que se chame de \u00abantropol\u00f3gico\u00bb. Mas, fica assim; n\u00e3o h\u00e1 muito a discutir para ver que tudo o que se disse antes tem como destinat\u00e1rio o homem concreto: \u00abo homem de carne e osso, o que nasce, sofre e morre \u2013 sobretudo morre \u2013, o que come e bebe, e joga, dorme, e pensa, e quer; o homem que se v\u00ea e a quem se ouve, o irm\u00e3o, o verdadeiro irm\u00e3o\u00bb, como grita Unamuno j\u00e1 no cap\u00edtulo 1 <em>Do sentimento tr\u00e1gico<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja existe para este homem, a Trindade \u00e9 a sua origem e a sua meta, Cristo \u00e9 o seu caminho e companheiro de viagem. O teologal n\u00e3o \u00e9 uma abstrac\u00e7\u00e3o ou uma considera\u00e7\u00e3o de virtudes fora do sujeito. Trata-se da pessoa humana guiada, levada, encaminhada, vivificada, estimulada por essas energias divinas que s\u00e3o as virtudes teologais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vivencial divino \u00e9 t\u00e3o humano e exaltador da pessoa humana; e a preocupa\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica de Jo\u00e3o da Cruz f\u00e1-lo prestar aten\u00e7\u00e3o particularmente \u00e0 realidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que mais adiante diremos na <em>S\u00edntese sanjoanina<\/em> sobre o homem \u00e9 uma confirma\u00e7\u00e3o plena da import\u00e2ncia e alcance que esta chave tem no estudo de Jo\u00e3o da Cruz. Mas, se por acaso fizesse falta um exemplo, poderia aduzir-se o de 2 N 11, 4, onde com poder e grande simplicidade diz o que pensa do homem, de todo o homem, de tudo o que \u00e9 humano, na sua rela\u00e7\u00e3o mais profunda e comprometida com Deus, que \u00e9 a do amor perfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui entrariam em jogo os mil e um conhecimentos sobre a pessoa humana que possamos ter. As luzes da psicologia e de todas as ci\u00eancias do homem, s\u00e3o sempre bem vindas \u00e0 oficina do int\u00e9rprete sanjoanino, para leituras e releituras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7\u00aa <em>Chave de liberta\u00e7\u00e3o e liberdade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescenta-se aqui esta chave n\u00e3o pela preocupa\u00e7\u00e3o da moda, mas pela pura e abundante doutrina sanjoanina centrada na liberta\u00e7\u00e3o. Tendo investigado e escrito sobre o assunto: <em>A liberta\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/em>, em Teresianum (EphCarm) 36 (1985) pp. 421-454, considero-a uma chave imprescind\u00edvel. O seu alcance nos livros sanjoaninos capta-se na trama b\u00edblica-dogm\u00e1tica, na biogr\u00e1fica-existencial, no baptismo e no processo libertador, no dinamismo teologal libertador e unitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma chave intimamente relacionada com as outras, por exemplo, com a chave <em>cristologal<\/em>, pelo simples facto de que toda a teologia e espiritualidade sanjoanina da liberta\u00e7\u00e3o centram-se em Cristo Salvador. Com a chave antropol\u00f3gica, pois a voca\u00e7\u00e3o mais alta e profunda do crist\u00e3o \u00e9 a liberdade; com a chave teologal, pois o caminho da liberta\u00e7\u00e3o tra\u00e7ada percorre-se e realiza-se por meio das virtudes teologais e das noites escuras. Est\u00e1 projectada como \u00abliberdade de\u00bb e \u00abliberdade para\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8\u00aa <em>Antecipa\u00e7\u00e3o e protagonismo divino<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A antecipa\u00e7\u00e3o e o protagonismo divino tornam-se evidentes a quem considerar a raiz baptismal da vida espiritual, tal como a prop\u00f5e Jo\u00e3o da Cruz no C\u00e2ntico B 23, 6. Ao reconsiderar todo o itiner\u00e1rio espiritual em Chama B 3, nn. 27-67, afirma que o que primeiro se h\u00e1-de saber e nunca esquecer \u00e9 que se a alma busca a Deus, muito mais a busca Deus a alma e actua em consequ\u00eancia. Se faltasse alguma coisa, podem ler-se as can\u00e7\u00f5es 31, 32 e 33 do C\u00e2ntico B, repletas desta mesma doutrina. Na primeira dir\u00e1 com ternura e delicadeza: \u00ab&#8230; coisa muito cred\u00edvel \u00e9 que a ave de baixo voo possa prender a \u00e1guia real, muito subida, se ela para baixo querendo ser presa\u00bb. A compara\u00e7\u00e3o sublinha o gesto de um Deus que nos olhou e amou primeiro, para que possamos responder a este olhar e amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isto, vertido na categoria do protagonista, significa que Deus o leva sempre e que a criatura humana vai secundando-o, como pode, Jo\u00e3o da Cruz ensina que neste encontro de Deus com o homem \u00abo principal amante\u00bb \u00e9 Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9\u00aa <em>Enamoramento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta chave do enamoramento abrange n\u00e3o s\u00f3 a atitude da alma enamorada de Deus, mas a de Deus enamorado da pessoa humana, pois o enamoramento \u00e9 m\u00fatuo e \u00abum amor acende outro amor\u00bb, \u00abporque nos enamorados a ferida de um \u00e9 de ambos e os dois t\u00eam um mesmo sentimento\u00bb (CB 13, 9). Esta chave do enamoramento h\u00e1 que aplic\u00e1-la inevitavelmente para entrar na din\u00e2mica dos conselhos que o Santo vai dando; ele mesmo leva o leitor e a alma a comprovar o valor da chave em ordem \u00e0 efic\u00e1cia, const\u00e2ncia e perseveran\u00e7a no itiner\u00e1rio empreendido, \u00abporque para vencer todos os apetites\u00bb e negar os gostos de todas as coisas, com cujo amor e afei\u00e7\u00e3o se costuma inflamar a vontade para gozar deles, era preciso outra inflama\u00e7\u00e3o maior de outro amor melhor, que \u00e9 o do seu Esposo, para que, tendo o seu gosto e for\u00e7a neste, tivesse valor e const\u00e2ncia para, facilmente, negar todos os outros\u00bb (1 S 14, 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o e pergunta complementar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aplica\u00e7\u00e3o destas chaves tem que se fazer de modo simples. N\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de entender e trata-se sobretudo de atender \u00e0 luz que projectam sobre todo o magist\u00e9rio sanjoanino. Saber coorden\u00e1-las, melhor ainda, ver a coordena\u00e7\u00e3o que existe entre elas \u00e9 o que d\u00e1 mais luz e mais e gosto na leitura e estudo dos textos de Jo\u00e3o da Cruz. E todos eles s\u00e3o abrangidos por esta luz m\u00faltipla. O leitor poder\u00e1 encontrar por sua conta mais alguma chave. N\u00e3o dissemos que as indicamos todas, mas estas nove s\u00e3o bem principais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria bom fazermos uma \u00faltima pergunta sobre a chave eclesial: a eclesiologia de Jo\u00e3o da Cruz est\u00e1 em sintonia com a nossa eclesiologia actual, de modo que a chave sanjoanina sirva ao leitor de hoje n\u00e3o s\u00f3 para compreender o pensamento do Santo mas tamb\u00e9m para alimentar o seu \u00absentido da Igreja\u00bb?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha resposta \u00e9 que o pensamento de Jo\u00e3o da Cruz neste campo concreto \u00e9 do mais actual e, por isso mesmo, a sua chave \u00e9 duplamente v\u00e1lida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fixo-me unicamente numa afirma\u00e7\u00e3o substancial assumida e repetida pelo Conc\u00edlio sobre a ess\u00eancia e a miss\u00e3o da Igreja, concebida como \u00absacramento\u00bb de Cristo, a saber, como sinal e instrumento da gra\u00e7a invis\u00edvel de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os textos conciliares em que a Igreja \u00e9 definida ou designada como \u00absacramento\u00bb s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abA Igreja, em Cristo, \u00e9 como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u00bb (LG 1); Deus chamou-os e constituiu-os em Igreja, a fim de que ela seja para todos e cada um sacramento vis\u00edvel desta unidade salutar\u00bb;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abCristo, elevado sobre a terra, atraiu todos a Si; ressuscitado de entre os mortos, infundiu nos disc\u00edpulos o Seu Esp\u00edrito vivificador e por Ele constituiu a Igreja, Seu corpo, como universal sacramento da salva\u00e7\u00e3o\u00bb (LG 48);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00a0\u00abFoi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admir\u00e1vel de toda a Igreja (SC 5);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00ab&#8230; Todo o bem que o Povo de Deus pode prestar \u00e0 fam\u00edlia dos homens durante o tempo da sua peregrina\u00e7\u00e3o deriva do facto que a Igreja \u00e9 o \u00absacramento universal da salva\u00e7\u00e3o\u00bb (LG 48), manifestando e actuando simultaneamente o mist\u00e9rio do amor de Deus pelos homens\u00bb (GS 45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fixando a aten\u00e7\u00e3o particularmente no primeiro texto no qual se afirma que a Igreja \u00e9 sacramento da \u00ab\u00edntima uni\u00e3o com Deus\u00bb, \u00e9 evidente que os escritos de Jo\u00e3o da Cruz t\u00eam precisamente como \u00fanico tema a uni\u00e3o da alma, a uni\u00e3o do homem com Deus, da qual a Igreja \u00e9 sacramento no sentido indicado. Deste modo, a realidade mais profunda da Igreja coincide plenamente com o mais nuclear dos escritos sanjoaninos. E um texto de Paulo VI no Conc\u00edlio redobra a validade deste horizonte eclesial sanjoanino quando disse: \u00abNa verdade, a realidade da Igreja n\u00e3o se esgota na sua estrutura hier\u00e1rquica, na sua liturgia, nos seus sacramentos nem nas suas normas jur\u00eddicas. A sua ess\u00eancia \u00edntima, a principal fonte da sua efic\u00e1cia santificadora, h\u00e1-de buscar-se na sua m\u00edstica uni\u00e3o com Cristo\u00bb (21 de Novembro de 1964).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando escreve e quanto escreve sobre este tema, est\u00e1, objectivamente, a escrever sobre a Igreja. Isto, objectivamente falando. Mas, Jo\u00e3o da Cruz deu-se conta, com consci\u00eancia reflexa, de que a Igreja surgiu para isto, de que \u00e9 isto? Penso que sim. Favorece esta interpreta\u00e7\u00e3o saber que para o Santo a uni\u00e3o da alma com Deus n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a alian\u00e7a, e a alian\u00e7a vivida. Na sua express\u00e3o maior chamar\u00e1 a esta uni\u00e3o matrim\u00f3nio espiritual, desenvolvendo como poucos e como nunca na espiritualidade o s\u00edmbolo nupcial, que \u00e9 uma das imagens principais, j\u00e1 bem presente na B\u00edblia, da qual nos servimos para manifestar tamb\u00e9m \u00aba natureza \u00edntima da Igreja\u00bb (LG 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A equival\u00eancia mencionada \u2013 uni\u00e3o=matrim\u00f3nio=alian\u00e7a \u2013 leva-nos ao fundo das coisas, a saber, \u00e0 origem trinit\u00e1ria-cristologal da Igreja; \u00e0 sua nupcialidade; a Cristo como Esposo e Cabe\u00e7a da sua Esposa a Igreja; a Cristo como Esposo de cada alma fiel dentro da Igreja; e indica-nos a validade desta chave de interpreta\u00e7\u00e3o que engloba todas as outras.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">*Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. pp. 173 -179.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/jplenio-7645255\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3186876\">jplenio<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3186876\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12898,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-12897","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12897","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12897"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12897\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12899,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12897\/revisions\/12899"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}