{"id":12894,"date":"2021-07-22T07:00:54","date_gmt":"2021-07-22T06:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12894"},"modified":"2021-07-09T15:23:30","modified_gmt":"2021-07-09T14:23:30","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-8-criterios-hermeneuticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-8-criterios-hermeneuticos\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 8 &#8211; CRIT\u00c9RIOS HERMEN\u00caUTICOS"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">CRIT\u00c9RIOS HERMEN\u00caUTICOS<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Os livros de Jo\u00e3o da Cruz, di-lo com autoridade a Bula de Canoniza\u00e7\u00e3o do Santo, est\u00e3o \u00abcheios de sabedoria celestial\u00bb. E no Breve do Doutoramento afirma-se que \u00abcont\u00eam t\u00e3o copiosa doutrina espiritual e adaptam-se t\u00e3o bem \u00e0 intelig\u00eancia dos leitores que com raz\u00e3o podem ser considerados como o c\u00f3digo e a escola da alma fie desejosa de empreender uma vida mais perfeita\u00bb. Chama-se tamb\u00e9m no Breve aos escritos sanjoaninos \u00abl\u00edmpida fonte do sentido crist\u00e3o e do esp\u00edrito da Igreja\u00bb.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos ficamos impressionados gratamente pela import\u00e2ncia e o valor atribu\u00eddo por sua Santidade Jo\u00e3o Paulo II ao magist\u00e9rio sanjoanino no Discurso-Homenagem tributado ao Santo em Seg\u00f3via a 4 de Novembro de 1982.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>De acordo com todos estes louvores e aprecia\u00e7\u00f5es, concordes com a experi\u00eancia, os estudos e as investiga\u00e7\u00f5es de tantas pessoas, podem formular-se algumas perguntas bastante \u00f3bvias:<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeira pergunta: como descobrir essa sabedoria celestial e beber ou assimilar essa doutrina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segunda pergunta: Como se deve ler S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respondendo a estas perguntas praticamente ao mesmo tempo pode-se afirmar com seguran\u00e7a: mantendo sempre a devida dist\u00e2ncia, que nas Obras do doutor m\u00edstico se encontram duas qualidades fundamentais que tamb\u00e9m aparecem juntas na Sagrada Escritura: a maior simplicidade e a mais sublime profundidade.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li>Por esta raz\u00e3o, no estudo ou leitura destes livros ningu\u00e9m se deve admirar de encontrar neles tanta franqueza e, ao mesmo tempo, se sentir cada vez mais estimulado a l\u00ea-los e rel\u00ea-los comprovando que nunca se termina de os estudar e sempre se descobrem novas riquezas em raz\u00e3o da profundidade do pensamento. Esta comprova\u00e7\u00e3o faz-nos entender que existem dois modos de ler S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: um, mais simples e corrente; outro, mais aprofundado.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro caso, o leitor fica com uma vis\u00e3o geral da sua doutrina. A sua mente vagueia ou evolui em todas a direc\u00e7\u00f5es e avan\u00e7a apoiando-se e detendo-se sobretudo nos s\u00edmbolos \u2013 um pouco superficialmente captados \u2013 nos exemplos, nas compara\u00e7\u00f5es, nas figuras&#8230;<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"4\">\n<li>No segundo caso, vai-se ao mais profundo, ao alto (em m\u00edstica alto e profundo \u00e9 o mesmo) e procura-se sobretudo a doutrina pura e o conte\u00fado vital das compara\u00e7\u00f5es, semelhan\u00e7as, s\u00edmbolos, figuras, etc. Estes dois modos ou estilos de leitura n\u00e3o s\u00e3o contr\u00e1rios, mas integram-se reciprocamente. Assim, penso, que faz o Santo ao escrever. Procurou dar a doutrina pura, \u00abvertical\u00bb, \u00absubstancial\u00bb diz ele (Subida, pr\u00f3logo, n. 8); mas sabendo muito bem que tratava temas dif\u00edceis e de dif\u00edcil compreens\u00e3o, procurou o modo de os tornar mais f\u00e1ceis e acess\u00edveis. Para conseguir isto serviu-se de compara\u00e7\u00f5es, semelhan\u00e7as, met\u00e1foras, s\u00edmbolos, etc., e de um modo quase representativo e at\u00e9 encenado, dramatizado, como encontramos, por exemplo, no C\u00e2ntico Espiritual, na Subida e na Noite (cf. CB pr\u00f3logo, n. 1-2).<\/li>\n<li>Dois exemplos concretos destes modos de escrever e, portanto, de ler.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">1\u00ba 2 S, c. 5: \u00abEm que se declara o que \u00e9 a uni\u00e3o da alma com Deus. P\u00f5e uma compara\u00e7\u00e3o\u00bb. Juntamente com a doutrina directamente exposta e expressa \u00abpara que se entenda melhor uma coisa e outra, ponhamos uma compara\u00e7\u00e3o\u00bb (ibid., n. 6): o raio do sol e a vidra\u00e7a. \u00c9 a \u00fanica compara\u00e7\u00e3o prometida no t\u00edtulo do cap\u00edtulo. Mas, para que fique mais claro, acrescenta outra: a imagem primorosa e esmaltada e quantos a olham com mais ou menos claro e limpo poder visual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2\u00ba 2 N, c. 10: explica de raiz a purifica\u00e7\u00e3o da noite do esp\u00edrito pela compara\u00e7\u00e3o do fogo e do madeiro \u00abpara maior claridade do dito e do que se h\u00e1-de dizer\u00bb (n. 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6.<\/strong><em>Crit\u00e9rios mais particulares<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixando de lado os crit\u00e9rios mais gerais aplic\u00e1veis \u00e0 leitura de qualquer texto \u2013 n\u00e3o se deixar levar por preconceitos, entrar na mente e g\u00e9neros liter\u00e1rios do autor, etc. \u2013, conv\u00e9m prestar aten\u00e7\u00e3o nalguns mais particulares e pr\u00f3prios de Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1\u00ba <em>Perspectivas pr\u00e1ticas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o da Cruz, ao escrever, tem uma inten\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica incontorn\u00e1vel: por exemplo, veja-se Subida, todo o pr\u00f3logo, que confirma isto; 2 N 22, 2; Cautelas, n. 1; Avisos a um religioso n. 1 e 10. Estas duas pequenas obras s\u00e3o do princ\u00edpio ao fim uma proclama\u00e7\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do autor; mas, al\u00e9m disso, nos n\u00fameros citados di-lo do modo mais contundente. \u00abDitos de Luz e Amor\u00bb, pr\u00f3logo redigido em forma de ora\u00e7\u00e3o a Deus Pai. Leia-se especialmente a \u00faltima parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em virtude desta inten\u00e7\u00e3o de utilidade pr\u00e1tica que se pode rastrear mil vezes nos seus livros, o autor, conscientemente, deixa de parte muitas coisas que, na sua opini\u00e3o, n\u00e3o v\u00eam ao caso, mas que um leitor demasiado exigente na linha te\u00f3rica poderia desejar ou exigir. Destas perspectivas ou inten\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas deriva o facto de que escreva para ser pr\u00e1tico-pr\u00e1tico, quase sempre com a preocupa\u00e7\u00e3o de ensinar o caminho mais recto, e, portanto, mais breve (ou, se quisermos ao contr\u00e1rio: mais breve porque mais recto) para chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o: veja-se Cautelas: \u00ab&#8230; chegar em breve\u00bb (n. 1). Avisos a um religioso: \u00ab&#8230; muito em breve\u00bb (n. 10). Subida-t\u00edtulo: \u00ab&#8230; trata de como poder\u00e1 uma alma dispor-se para chegar em breve \u00e0 divina uni\u00e3o\u00bb (1 S 13, nn. 1, 2, 4, 7, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta preocupa\u00e7\u00e3o pesa continuamente sobre ele levando-o a ser claro e breve, embora nem sempre p consegue, como ele pr\u00f3prio confessa em 2 S 14, 14.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2\u00ba <em>Desde o cume<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esta ep\u00edgrafe, que provavelmente n\u00e3o cont\u00e9m bem o que quero dizer, procuro lembrar que Jo\u00e3o da Cruz escreveu, ou, pelo menos come\u00e7ou a escrever, as suas Obras maiores supondo que a alma cuja \u00abditosa ventura\u00bb ou aventura espiritual ia cantar e contar tinha j\u00e1 chegado \u00e0 meta, ao cimo ou cume da perfei\u00e7\u00e3o, do Monte da Perfei\u00e7\u00e3o, \u00e0 uni\u00e3o perfeita com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja-se: Subida-t\u00edtulo das \u00abcan\u00e7\u00f5es em que a alma canta a ditosa ventura que teve em passar pela noite escura da f\u00e9, em desnudez e purga\u00e7\u00e3o sua, \u00e0 uni\u00e3o do Amado\u00bb. Os pr\u00f3prios tempos dos verbos o mostram. Pense-se no \u00absai\u00bb que \u00e9 o verbo principal das tr\u00eas primeiras can\u00e7\u00f5es de Subida-Noite, embora s\u00f3 apare\u00e7a escrito na primeira estrofe, Este mesmo verbo, neste mesmo tempo passado surge no C\u00e2ntico, na primeira estrofe: \u00absa\u00ed tr\u00e1s de ti\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto mais expl\u00edcito na Noite: anota\u00e7\u00e3o imediata \u00e0 transcri\u00e7\u00e3o destas can\u00e7\u00f5es. As express\u00f5es seguintes, numas afirma\u00e7\u00f5es t\u00e3o expl\u00edcitas, refor\u00e7am este crit\u00e9rio: \u00abestando j\u00e1 na perfei\u00e7\u00e3o\u00bb; \u00abtendo j\u00e1 passado\u00bb, \u00abgrande dita e ventura ter passado por ele\u00bb; \u00abgozosa de ter passado\u00bb; \u2018tanto bem se seguiu\u00bb. Em CB 1, 2-5 observa-se tamb\u00e9m esta suposi\u00e7\u00e3o subjacente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em CH B, pr\u00f3logo, e em CH A, pr\u00f3logo, n. 4, nas duas redac\u00e7\u00f5es fica tamb\u00e9m claro que a alma que fala est\u00e1 \u00abj\u00e1 t\u00e3o transformada e qualificada interiormente em fogo de amor que n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 unida neste fogo, mas faz j\u00e1 viva chama nela\u00bb. Portanto, quando Jo\u00e3o da Cruz escreve as suas grandes Obras f\u00e1-lo com um olhar retrospectivo. Uma esp\u00e9cie de recorda\u00e7\u00e3o, de reconto de algo j\u00e1 sucedido. Como algu\u00e9m depois \u2013 e valha a compara\u00e7\u00e3o \u2013 de ter subido aos Alpes, olho desde o alto, desde o cume, e rev\u00ea com os olhos e indica com o dedo os caminhos percorridos, os perigos superados, os estorvos ou inimigos ou dificuldades encontradas, as emo\u00e7\u00f5es sentidas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntamente com este modo de escrever, que podemos chamar hist\u00f3rico biogr\u00e1fico, Jo\u00e3o da Cruz procura aproximar-se da alma que quer ensinar (veja-se, por exemplo, CB 1, 6), e segue-a, precede-a ou acompanha-a, sempre como indicador do caminho e guia, na sua caminhada para a meta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui surge a pergunta ou d\u00favida, \u00e0a vezes: a passagem actual da alma corresponde sempre com quanto se diz ou escreve a um ponto determinado do caminho? A dificuldade est\u00e1 em averiguar qual destes dois homens que o escritor leva dentro prevalece: o historiador-bi\u00f3grafo espiritual ou o pr\u00e1tico-guia actual e montanhista da alma que vai sendo encaminhada. Exemplo: 1 S 15, 2. Sendo Jo\u00e3o da Cruz um poeta e a alma dos seus poemas alma enamorada, pode surpreender-nos em cada momento com antecipa\u00e7\u00f5es mentais ou desiderativas e estar a cantar como j\u00e1 possu\u00eddo o que ainda \u00e9 algo por vir. Assim sucede em CB 20-21, em que fala, melhor, veio a falar de virtudes perfeitas como j\u00e1 possu\u00eddas \u00abpelo desejo que tem desta perfeita uni\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3\u00ba <em>\u00c0s voltas com o inef\u00e1vel<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos livros de Jo\u00e3o da Cruz, especialmente nos mais extensos, abordam-se argumentos ou temas obscuros e dif\u00edceis: mist\u00e9rios de f\u00e9, da vida divina em n\u00f3s, etc. Estas realidades sobrenaturais conservam sempre a sua obscuridade nativa intacta. Por isso, n\u00e3o nos devemos admirar de encontrar nos livros de Jo\u00e3o da Cruz coisas n\u00e3o t\u00e3o claramente expostas. O autor sabe-o de sobra, melhor do que o leitor, e sente a incapacidade de se expressar: veja-se: 2 S 26, 1; 2 N 17, 3-5; CH B 3, 1; CH B 4, 7; CB 39, 5. Al\u00e9m do desgosto de n\u00e3o se poder explicar melhor, tamb\u00e9m ironiza quando no pr\u00f3logo da Subida, n. 8, diz: \u00abE, porque esta doutrina \u00e9 sobre a noite escura, pela qual a alma h\u00e1-de ir a Deus, n\u00e3o se admire o leitor se lhe parecer algo obscura\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pede-lhe que n\u00e3o julgue imposs\u00edveis certas comunica\u00e7\u00f5es de Deus \u00e0s almas: veja-se, CH B, pr\u00f3logo, n. 2; CH B 1, 5: leia-se todo o texto, advertindo na for\u00e7a do Santo quando diz: \u00abMas a todos estes eu respondo&#8230;\u00bb. Os destinat\u00e1rios da sua resposta s\u00e3o aqueles que \u00abn\u00e3o o entendendo por ci\u00eancia nem o sabendo por experi\u00eancia, ou n\u00e3o o acreditar\u00e3o, ou ter\u00e3o por demasia, ou pensar\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 tanto como \u00e9 em si\u00bb. Pede novamente ao leitor que n\u00e3o pense que quem conta estas experi\u00eancias ou viv\u00eancias est\u00e1 a inventar ou a exagerar: CH B 2, 5 \u00abn\u00e3o vos admireis que Deus chegue algumas almas at\u00e9 aqui\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 v\u00e1lido o conselho ou a ordem posta na Subida, pr\u00f3logo, 8, de ler e reler o escrito. Al\u00e9m disso, quando nos encontramos com temas ou realidades que tocam mais de perto ou em cheio o inef\u00e1vel e ante o qual o Santo auto4 se sentiu aniquilado, perdido e incapaz de explicar mais as coisas, essa mesma incapacidade \u00e9 um novo testemunho da realidade sentida ou experimentada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4\u00ba <em>Part\u00edculas explicativas e ponderativas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um modo muito simples para descobrir os argumentos ou temas mais interessantes e candentes para o autor e para o leitor \u00e9 ir seguindo as part\u00edculas exclamativas ou ponderativas que usa com tanta profus\u00e3o: \u00abOh!\u201d, \u201cah\u201d, \u00abai\u201d, \u201cqu\u00e3o\u201d&#8230; O pr\u00f3prio Jo\u00e3o da Cruz explica o valor ou alcance destas part\u00edculas: \u00abA alma emprega nas quatro can\u00e7\u00f5es os termos oh e qu\u00e3o para encarecer o sentimento e apre\u00e7o com que fala, pois eles denotam grande afecto. Os quais, cada vez que se dizem, d\u00e3o a entender do interior mais do que o que se diz com a l\u00edngua\u00bb (CH B &#8211; CH A 1, 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Jo\u00e3o da Cruz, portanto, estas part\u00edculas exclamativas ou ponderativas n\u00e3o s\u00e3o puras f\u00f3rmulas ou simples recursos ret\u00f3ricos, mas servem para +encarecer\u00bb, e diz mais com alguma delas, estrategicamente situadas, que com muitas palavras. Servem concretamente para encarecer e ponderar o inef\u00e1vel e para sublinhar o mais importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos: Nas can\u00e7\u00f5es da Chama: na primeira usa \u201cOh!\u201d uma vez; na segunda usa \u201cOh!\u201d quatro vezes; na terceira usa \u201cOh!\u201d uma vez; na quarta usa \u201cqu\u00e3o!\u201d duas vezes. Isto na poesia. Nos coment\u00e1rios h\u00e1 um verdadeiro dil\u00favio de exclama\u00e7\u00f5es: veja-se CH B 2, nn. 5-8; nn. 16-20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cOh!\u201d aparece muito frequentemente como detector de temas e realidades de uma import\u00e2ncia singular na vida e na conduta do crente, do espiritual. Dou apenas alguns in\u00edcios: \u00abOh, se soubessem os espirituais&#8230;!\u00bb (1 S 5, 4); \u00abOh, quem pudesse aqui agora dar a entender&#8230;!\u00bb (2 S 7, 5); \u00abOh, quem pudesse dar a entender at\u00e9 onde&#8230;!\u00bb (2 S 7, 6); \u00abOh, se se acabasse j\u00e1 de entender&#8230;!\u00bb (CB 36, 13). O \u201coh!\u201d serve tamb\u00e9m, esclarece o Santo, \u00abpara desejar muito e muito rogar persuadindo\u00bb (CH B 1, 2). Com esta dupla fun\u00e7\u00e3o de desejar e rogar persuadindo usa-o dirigindo-se a Deus e ao leitor. Como exemplo inigual\u00e1vel este \u00faltimo pode-se citar a grande interpela\u00e7\u00e3o: \u00abOh almas, criadas para estas grandezas e a elas chamadas, que fazeis? Em que vos entretendes? As vossas pretens\u00f5es s\u00e3o baixezas e os vossos haveres mis\u00e9rias. Oh! miser\u00e1vel cegueira dos olhos da vossa alma, pois para tanta luz est\u00e3o cegos e, para vozes t\u00e3o sublimes, est\u00e3o surdos, n\u00e3o vendo que ao procurar grandezas e gl\u00f3rias vos tornais miser\u00e1veis e baixos, ignorantes e indignos de tantos bens!\u00bb (CB 39, 7; CA 38, 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podem ver-se outros lugares parecidos: CH B 2, 28; 2 N 16, 7, 12; CH B 3, 38, 68, etc. Al\u00e9m destes casos, e muitos outros, em que se dirige aos leitores, \u00e0 alma, um dos textos mais fortes quando se dirige a Deus para lhe falar dos homens encontra-se em 2 N 19, 4, no qual, em lugar do \u201cOh!\u201d usa o \u201cai!\u201d e o \u201cqu\u00e3o!\u201d. Inicia assim o seu lamento sobre a pouca generosidade e o pouco agradecimento dos mortais: \u00abAi, Deus e Senhor meu! Qu\u00e3o muitos h\u00e1 que andam a buscar a sua consola\u00e7\u00e3o&#8230;\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na poesia \u00abNuma noite escura\u00bb, o \u201coh!\u201d est\u00e1 a indicar o cora\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia da alma que canta a sua ditosa ventura e, por isso, diz com todo o encarecimento e efus\u00e3o: \u00abOh ditosa ventura!\u00bb, repetindo este terceiro verso na primeira e na segunda estrofe. De igual modo, a estrofe quinta deste poema cont\u00e9m tr\u00eas vezes a exclama\u00e7\u00e3o, como em ap\u00f3strofe, \u00e0 <em>noite personificada<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Oh noite que guiaste!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Oh noite am\u00e1vel mais que a alvorada!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Oh noite que juntaste<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Amado com amada,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>amada no Amado transformada!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo parecido ao que dissemos das exclama\u00e7\u00f5es e pondera\u00e7\u00f5es h\u00e1 que diz\u00ea-lo das interroga\u00e7\u00f5es, seis, por exemplo, usadas na \u00abOra\u00e7\u00e3o de alma enamorada\u00bb, al\u00e9m do sinal de exclama\u00e7\u00e3o com que t\u00eam que adorn\u00e1-la para captar o \u00edmpeto e o ardor oracional, de vocativos, das segundas pessoas, etc. Todo deste conjunto significa algo e n\u00e3o s\u00f3 para quem escreve mas para quem l\u00ea e toma nota e interpreta simples mas inteligentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer leitor pode encontrar muito facilmente muitos outros exemplos de exclama\u00e7\u00f5es, pondera\u00e7\u00f5es, interroga\u00e7\u00f5es. Encerro este ponto com um \u00faltimo exemplo de pondera\u00e7\u00e3o pelo qual se v\u00ea como o Santo sabe insistir e sublinhar as coisas. J\u00e1 no fim dos cap\u00edtulos em que fala dos danos dos apetites desordenados (1 S c. 4-10) assin\u00e1-la fortemente a situa\u00e7\u00e3o: \u00e9 grande l\u00e1stima considerar como os apetites t\u00eam a pobre alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Qu\u00e3o<\/em> desgra\u00e7ada consigo mesma, <em>qu\u00e3o <\/em>seca para o pr\u00f3ximo e <em>qu\u00e3o<\/em> pesada e pregui\u00e7osa para as coisas de Deus\u00bb (1 S 10, 4). Noutro lugar, comentando a for\u00e7a do \u00abqu\u00e3o!\u00bb evang\u00e9lico do texto de S\u00e3o Mateus 7, 14, enfatiza o que com aquela pequena part\u00edcula se significa: na qual autoridade devemos muito notar aquela exagera\u00e7\u00e3o e encarecimento que contem em si aquela part\u00edcula quam (qu\u00e3o!). Porque \u00e9 como se dissesse: de verdade \u00e9 muito estreita, mais do que pensais\u00bb (2 S 7, 2). Tamb\u00e9m no texto sobre os apetites, antes citado, o leitor aprender\u00e1 que s\u00e3o muitos mais os males do que se pode pensar. A aten\u00e7\u00e3o neste campo a elementos t\u00e3o diminutos como s\u00e3o, de facto, as palavras exclamativas e ponderativas p\u00f5e nas m\u00e3os do leitor todos estes temas: importantes, inef\u00e1veis, e, sobretudo, p\u00f5em-no em sintonia com o autor, dando-lhe com grande facilidade o seu contexto mental, psicol\u00f3gico e espiritual mais do que l\u00f3gico em muitas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5\u00ba <em>Quest\u00f5es acidentais<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 nas Obras de Jo\u00e3o da Cruz quest\u00f5es acidentais, digress\u00f5es, nascidas de uma inten\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica bem determinada. Tais quest\u00f5es constituem uma esp\u00e9cie de pequenos tratados dentro das grandes obras e h\u00e1 que t\u00ea-las muito em conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 1 N, c. 1-7: defeitos dos principiantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH B 3, nn. 27-67; CH A 3, 26-58: sobre os tr\u00eas cegos que podem induzir a engano a alma. Os tr\u00eas cegos s\u00e3o o pai espiritual, o dem\u00f3nio, a pr\u00f3pria alma. Pela presen\u00e7a dos cegos, a digress\u00e3o \u00e9 conhecida, j\u00e1 correntemente, como a digress\u00e3o dos tr\u00eas cegos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S c. 5: a uni\u00e3o da alma com Deus. Escreve-se para que o leitor entenda melhor o que se vai dizer da\u00ed em diante e o que se disse at\u00e9 ao momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH B 2, 27-30; CH A 2, 23-26: porqu\u00ea h\u00e1 t\u00e3o poucos que chegam \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o com Deus. 2 N c. 19-20: dos dez graus de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Santo d\u00e1-se perfeitamente conta de que, por vezes, sai do contexto l\u00f3gico ou do coment\u00e1rio que est\u00e1 a fazer, mas, cede \u00e0 utilidade pr\u00e1tica que \u00e9 o que mais lhe interessa. O caso mais claro \u00e9 a digress\u00e3o dos tr\u00eas cegos. Luta consigo mesmo, quer e n\u00e3o quer falar do caso. Por fim, f\u00e1-lo, com a inten\u00e7\u00e3o de ajudar os outros. E come\u00e7a com uma exclama\u00e7\u00e3o: \u00abOh, que bom lugar era este para avisar as almas&#8230;\u00bb (CH B 3, 27; CH A 3, 26). \u00c9 um exemplo perfeito do que s\u00e3o as digress\u00f5es, da sua raz\u00e3o de ser e da sua import\u00e2ncia para o autor e o leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6\u00ba <em>As d\u00favidas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semelhantes \u00e0s digress\u00f5es s\u00e3o as d\u00favidas, met\u00f3dicas ou metodol\u00f3gicas, que suscita deliberadamente ou a prop\u00f3sito, e \u00e0s quais costuma responder extensamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua consci\u00eancia de escritor f\u00e1-lo explicar a raz\u00e3o de ser dessas d\u00favidas. Preparando-se para escrever um dos melhores cap\u00edtulos da sua obra (2 S c. 22), confessa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAs d\u00favidas v\u00e3o-nos saindo das m\u00e3os e, por isso, n\u00e3o podemos correr com a pressa que quer\u00edamos. Porque, assim como as levantamos, estamos necessariamente obrigados a esclarec\u00ea-las, para que a verdade da doutrina fique sempre clara e na sua for\u00e7a. Mas este bem h\u00e1 nestas d\u00favidas sempre, que, ainda que nos impe\u00e7am um pouco o passo, todavia servem para mais doutrina e claridade da nossa inten\u00e7\u00e3o como ser\u00e1 a d\u00favida presente\u00bb (2 S 22, 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As d\u00favidas servem-lhe para reordenar ou reelaborar, \u00e0s vezes, argumentos tratados, programar ou antecipar outros e com elas uma vez que as \u00abdesata\u00bb, como ele diz, ficam abertas na exposi\u00e7\u00e3o novas fontes de luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00ab<em>Porqu\u00ea Deus concede \u00e0s almas vis\u00f5es sobrenaturais?<\/em>\u00bb \u00c9 a subst\u00e2ncia da d\u00favida proposta em 2 S 16, 13, \u00e0 qual responde, conforme promete no n. 14 do mesmo cap. 16, no seguinte 2 S 17, declarando o fim e o estilo que Deus tem em comunicar \u00e0 alma bens espirituais por meio do sentido. Na resposta, depois de voltar a p\u00f4r a d\u00favida (2 S 17, 1), ultrapassa, e muito, beneficamente, os limites da d\u00favida proposta; e assim, \u00e9 um dos melhores e mais importantes cap\u00edtulos, centrado todo ele na pedagogia de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00ab<em>Como n\u00e3o ser\u00e1 l\u00edcito agora na lei da gra\u00e7a perguntar por via sobrenatural, como o era na lei antiga<\/em>\u00bb (2 S c. 22: t\u00edtulo). Cap\u00edtulo extraordin\u00e1rio sobre a miss\u00e3o de Cristo na economia da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>Desejo e posse de Deus<\/em>: CH B 3, 23-26; CH A 3, 22-25.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>Sobre a gl\u00f3ria essencial<\/em>: CB 38, 5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>Mortifica\u00e7\u00e3o total dos apetites pequenos e grandes<\/em>: 1 S 1-2. Relativamente a esta mesma mat\u00e9ria prop\u00f5e outras duas d\u00favidas: 1 S 12, 1-3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>Se os aproveitados j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam nunca que se aproveitar da via da medita\u00e7\u00e3o e discurso e formas naturais<\/em>: 2 S 15, 1-5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00ab<em>Como pode a alma sofrer t\u00e3o forte comunica\u00e7\u00e3o na fraqueza da carne?<\/em>\u00bb; CH B 4, 11-12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00ab<em>Porqu\u00ea, pois, a luz divino que, como dizemos, ilumina e purga a alma das suas ignor\u00e2ncias, a chama aqui a alma noite escura?<\/em>\u00bb. Esta d\u00favida posta nos termos transcritos em 2 N 5, 2, ocupa-o ao longo deste cap\u00edtulo e dos seguintes, inclu\u00eddo o 10, escrito \u00abpara maior claridade do que se disse e do que se h\u00e1-de dizer\u00bb (n. 1). Mas, n\u00e3o termina aqui, continua a ramificar-se at\u00e9 ao cap. 15, de modo que, toda a primeira estrofe, no seu coment\u00e1rio, est\u00e1 constru\u00edda sobre a d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o da Cruz enamorado do di\u00e1logo, a sua forma pedag\u00f3gica predilecta no magist\u00e9rio oral, n\u00e3o se desmente no magist\u00e9rio escrito e continua com o mesmo sistema pedag\u00f3gico. As suas d\u00edvidas s\u00e3o, na pr\u00e1tica, perguntas e mais perguntas. Manifesta-o com f\u00f3rmulas como estas: \u00abparece que h\u00e1 muito que o leitor deseja perguntar\u00bb (1 S 11, 1); \u00abdir\u00e1 algu\u00e9m\u00bb (3 S 2, 7-8); \u00abdir\u00e1s porventura\u00bb (3 S 2, 13); \u00abe se me disseres\u00bb (3 S 3, 4); \u00abdir\u00e1s tamb\u00e9m\u00bb (Ibid.,); \u00abe se ainda r\u00e9plicas\u00bb (3 S 3, 5). A digress\u00e3o dos tr\u00eas cegos est\u00e1 cheia destes incisos, perguntas e respostas, r\u00e9plica e contra-r\u00e9plica: \u00abPortanto n\u00e3o digas\u00bb (CH B 3, 47); \u00abou dir\u00e1s que\u00bb (Ibid., n. 48, 49): \u00abMas j\u00e1 que queres dizer\u00bb (Ibid., n. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7\u00ba <em>Declara\u00e7\u00f5es gerais<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As grandes Obras (Subida-Noite, C\u00e2ntico, Chama) s\u00e3o, como j\u00e1 se disse, coment\u00e1rios a algumas das suas poesias. Segue este m\u00e9todo: p\u00f4-las-ei (as can\u00e7\u00f5es) primeiro juntas, e depois pondo cada can\u00e7\u00e3o, declar\u00e1-la-ei brevemente; e depois, pondo cada verso, declar\u00e1-lo-ei de por si\u00bb (CH B, pr\u00f3logo, n. 4: cf. Subida, argumento; CB, pr\u00f3logo, n. 4). \u00c9 este o seu estilo, como comentador dos seus pr\u00f3prios poemas. \u00c9 no C\u00e2ntico e na Chama onde mais e melhor do que na Subida e Noite segue as can\u00e7\u00f5es, ajustando-se a elas nos coment\u00e1rios, mesmo quando se conceda as suas digress\u00f5es, se encontram estas declara\u00e7\u00f5es gerais a cada uma das estrofes, ou ao grupo de duas, como no caso da 14-15 (CB) ou 13-14 (CA), e 20-21 (CB) ou 29-30 (CA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para repassar rapidamente o conte\u00fado das Obras, especialmente do C\u00e2ntico e da Chama, bastaria ler a can\u00e7\u00e3o e a declara\u00e7\u00e3o geral corrrespondent5e. E no CB as anota\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, a estrofe e a declara\u00e7\u00e3o geral. Consegue-se assim uma vis\u00e3o sint\u00e9tica sucessiva e r\u00e1pida dos temas com o menor esfor\u00e7o e o maior proveito, como j\u00e1 dissemos noutra ficha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8\u00ba <em>Recapitula\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das declara\u00e7\u00f5es gerais sint\u00e9ticas mencionadas, o mesmo Santo oferece recapitula\u00e7\u00f5es muito concisas. T\u00eam a vantagem de ser n\u00e3o antecipa\u00e7\u00f5es ou adiantamentos de algo que deseja ou promete dizer ou expor. S\u00e3o passagens nas quais se esfor\u00e7a \u2013 e costuma consegui-lo \u2013 por redizer, sucintamente, o que j\u00e1 foi exposto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 3 S 15, 1: do modo de governar a mem\u00f3ria. \u00c9 um resumo bem conseguido de todos os cap\u00edtulos anteriores sobre a mem\u00f3ria e a esperan\u00e7a. \u00abEmbora no que foi dito fica bem dado a entender, todavia, resumindo-lho (ao leitor, aceit\u00e1-lo-\u00e1 mais facilmente\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 N 21, 11: do of\u00edcio das virtudes teologais. N\u00e3o se pode dizer mais nem melhor em menos palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S 6, 2-4: a din\u00e2mica teologal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 N 22, 2: porque se p\u00f4s a escrever Subida-Noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 1 S 14, 1: resumo apertad\u00edssimo de tudo o que foi dito anteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH B 1, 36; CH A 1, 30: resumo de toda a can\u00e7\u00e3o em forma de ora\u00e7\u00e3o: \u00abOh chama do Esp\u00edrito Santo&#8230;\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH A 2, 31: recopila\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o: Falta em CH B.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 No C\u00e2ntico gosta de dar, ao princ\u00edpio da nova can\u00e7\u00e3o, o conte\u00fado da anterior ou anteriores. Vejam-se: CB 3, 1; CB 4, 1; CB 7, 1; CB 22, 2 e tamb\u00e9m o n. 3 em que fala do esquema ou distribui\u00e7\u00e3o mais geral\u00a0 de toda a obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9\u00ba <em>Vis\u00f5es sint\u00e9ticas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o da Cruz d\u00e1, \u00e0s vezes, vis\u00f5es sint\u00e9ticas de toda a vida espiritual, de todo o caminho para Deus, em duas ou tr\u00eas p\u00e1ginas e at\u00e9 em pouqu\u00edssimas linhas. N\u00e3o s\u00e3o nem declara\u00e7\u00f5es gerais das can\u00e7\u00f5es nem as recapitula\u00e7\u00f5es j\u00e1 referidas. Estas s\u00ednteses s\u00e3o precios\u00edssimas para a compreens\u00e3o dos seus ensinamentos e para ver o poder de s\u00edntese da mente do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 2 S 5, 5: apoiando-se no pr\u00f3logo do evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o (1, 13) reduz muito bem o itiner\u00e1rio espiritual a: renascer por gra\u00e7a, morrer a tudo o que \u00e9 homem velho, levantar-se ou elevar-se sobre si ao sobrenatural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CB, 23: toda a estrofe, mas, sobretudo, no n. 6 apresenta as perspectivas da vida do baptizado e os ritmos humanos do seu desenvolvimento espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH B 2, 32-36; CH A 2, 28-30: o itiner\u00e1rio espiritual na base da dial\u00e9ctica homem velho e homem novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A poesia <em>suma da perfei\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 realmente um resumo do que se deve fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 As Cautelas e o desenho do Monte da Perfei\u00e7\u00e3o h\u00e1 que catalog\u00e1-los entre as s\u00ednteses melhor conseguidas no seu g\u00e9nero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH B 1, 11-13; CH A, 11-13: o centro mais profundo da alma \u00e9 Deus. O modo de caminhar e entrar n\u2019Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CH B 4, 14-16; CH A 4, 14-16: a presen\u00e7a de Deus no ser humano e como se alcan\u00e7a a intimidade mais plena com este Deus t\u00e3o presente e t\u00e3o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A carta de 12 de Outubro de 1589 a Dona Joana de Pedraza \u00e9 tamb\u00e9m um modelo nisto: uma esp\u00e9cie de s\u00edntese e programa de uma grande vida espiritual \u00e0 base das virtudes teologais: \u00abf\u00e9 obscura e verdadeira\u00bb, \u00abesperan\u00e7a certa\u00bb, \u00abcaridade inteira\u00bb e sempre em tens\u00e3o para o eterno, a partir da temporalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10\u00ba <em>G\u00e9neros liter\u00e1rios<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreender bem o pensamento de Jo\u00e3o da Cruz, a import\u00e2ncia, o alcance e os limites das suas afirma\u00e7\u00f5es \u00e9 elementar ter sempre em conta o g\u00e9nero liter\u00e1rio usado por ele. Os g\u00e9neros liter\u00e1rios, comparados, felizmente, a estilos arquitect\u00f3nicos, foram definidos como \u00abformas gerais e art\u00edsticas do pensamento com as suas caracter\u00edsticas e leis pr\u00f3prias; s\u00e3o as classes ou categorias em que se enquadram as obras do esp\u00edrito\u00bb (C. Vincent).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma coisa \u00e9 certa: Jo\u00e3o da Cruz quer sempre, directa ou indirectamente, ensinar, melhor ainda, ajudar a quem ler para utilidade pessoal ou tamb\u00e9m alheia, como no caso dos padres ou directores espirituais. Mas o modo que segue na exposi\u00e7\u00e3o do seu pensamento n\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo. Portanto, uma frase directa e intencionalmente did\u00e1ctica n\u00e3o tem o mesmo sentido de uma express\u00e3o po\u00e9tica ou de enamorado, ou de umas p\u00e1ginas altamente pol\u00e9micas ou apolog\u00e9ticas (cf. CB 29, 1-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca esque\u00e7amos que estamos diante de um grande poeta, mesmo quando escreva na prosa mais plana. A poesia n\u00e3o \u00e9 contra a m\u00edstica ou contra a vida espiritual, mas, antes, a seu favor, mas h\u00e1 que entender e calibrar essa linguagem plena, repleta de figuras, compara\u00e7\u00f5es e semelhan\u00e7as, como o pr\u00f3prio autor adverte no pr\u00f3logo do C\u00e2ntico (n. 1). O Santo \u00e9 um contemplativo, enamorado e artista que fala, al\u00e9m de uma alma simplesmente enamorada que, como tal, se expressa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No pr\u00f3logo do C\u00e2ntico, n. 3, faz-se um dos maiores elogios poss\u00edveis da \u00abteologia escol\u00e1stica, com que se entendem as verdades divinas\u00bb; mas, acima dela, enaltece-se o exerc\u00edcio \u00abda m\u00edstica, que se sabe por amor, em que n\u00e3o somente se sabem, mas juntamente se gostam\u00bb as verdades. E precisamente para esta teologia m\u00edstica pediu antes compreens\u00e3o e alertou os seus leitores para que se saibam situar diante da m\u00edstica, que podemos considerar tamb\u00e9m como g\u00e9nero liter\u00e1rio (cf. Ibid., nn. 1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O g\u00e9nero liter\u00e1rio do aviso, senten\u00e7a breve, apotegma pelo qual Jo\u00e3o da Cruz sentia predilec\u00e7\u00e3o, est\u00e1 bem representado nos seus \u00abDitos de Luz e Amor\u00bb. A senten\u00e7a r\u00e1pida e urgente h\u00e1 que a saber integrar e interpretar pedagogicamente. N\u00e3o \u00e9 nenhum atentado contra as suas normas pedag\u00f3gicas de ordem, suavidade, acomodar-se \u00e0 pessoa humana, ao seu passo, ao seu ir pouco a pouco (2 S 17, 2-3; CB 23, 6). Os ditos s\u00e3o est\u00edmulos para empreender e seguir o caminho de Deus conforme a sua vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conselhos finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em plano de conselhos finais puramente pr\u00e1ticos, recordaria: ler absolutamente tudo; semelhan\u00e7as, cita\u00e7\u00f5es da Escritura e as suas explica\u00e7\u00f5es, embora alguma vez possam parecer pouco pertinentes; pois acontece que \u00e0s voltas com algumas destas interpreta\u00e7\u00f5es que a alguns leitores lhes parecem pouco agrad\u00e1veis, o Santo deixa cair frases, princ\u00edpios, esclarecimentos muito importantes. Em O. C., pp. 37-38, podem ver-se outros conselhos al\u00e9m da leitura integral, tais como a sintonia espiritual, a sobriedade do discurso intelectual, a criatividade do leitor, a leitura sapiencial, a leitura existencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o leitor m\u00edstico, \u00abas almas limpas e enamoradas\u00bb s\u00e3o as mais capacitadas e habilitadas, em igualdade de circunst\u00e2ncias, para sentir, gostar e entender a palavra de Deus contida na b\u00edblia (CH B 1, 5). Acontece algo semelhante coma leitura de Jo\u00e3o da Cruz? \u00c9 poss\u00edvel, tendo em conta a subst\u00e2ncia e a un\u00e7\u00e3o b\u00edblica com que ele soube enriquecer e ungir os seus livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo quando se trate de uma breve poesia \u00e9 de suma utilidade ter presentes as circunst\u00e2ncia hist\u00f3ricas e an\u00edmicas concretas, a situa\u00e7\u00e3o vital do autor quando escreve. Exemplo singular: <em>que bem sei eu a fonte<\/em>&#8230;, composta na escurid\u00e3o da pris\u00e3o de Toledo com uma fome insaciada e insaci\u00e1vel de Eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenha-se tamb\u00e9m presente na leitura d doutor m\u00edstico essa esp\u00e9cie de \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d divina que guiou a sua pena em circunst\u00e2ncias e da qual ele tinha plena consci\u00eancia (C\u00e2ntico, pr\u00f3logo, nn. 1-2; CH pr\u00f3logo, n. 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb pode coincidir em parte com o que chamamos mais acima ci\u00eancia infusa e pode tamb\u00e9m ultrapass\u00e1-la, pois n\u00e3o se refere s\u00f3 ao conte\u00fado mas ao estilo e \u00e0 vibra\u00e7\u00e3o com que escreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora pare\u00e7a um conselho j\u00e1 embebido em todos os anteriores, h\u00e1 que ler, como conselho final, o conselho dado pelo pr\u00f3prio Jo\u00e3o da Cruz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abE, porque esta doutrina \u00e9 sobre a noite escura, pela qual a alma h\u00e1-de chegar a Deus, n\u00e3o se admire o leitor se lhe parecer um tanto ou quanto obscura. Julgo que isso ser\u00e1 apenas ao princ\u00edpio, quando come\u00e7ar a ler. Depois, \u00e0 medida que for lendo, ir\u00e1 entendendo melhor o que leu, porque vai-se explicando uma coisa com outra. E, se voltar a ler uma segunda vez, ainda lhe parecer\u00e1 mais claro e a doutrina mais sadia\u00bb (Subida, pr\u00f3logo, n. 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este conselho referente a Subida-Noite tem valor universal em toda a leitura e em todo o estudo sanjoanino: uma primeira leitura, uma segunda, uma terceira, e o leitor ir\u00e1 descobrindo novos horizontes, novas riquezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de livros que se possam despachar com uma simples olhar; h\u00e1 que aprofund\u00e1-los. H\u00e1 que am\u00e1-los, h\u00e1 que sabore\u00e1-los e l\u00ea-los mil vezes, se quisermos beneficiar da luz e do calor que cont\u00eam. Finalmente, para entender a Jo\u00e3o da Cruz \u2013 n\u00e3o superficial, mas profundamente \u2013 \u00e9 muito necess\u00e1ria a empatia, isto \u00e9, essa comunh\u00e3o afectiva e intelectual entre ele e os seus leitores, entre ele e os seus seguidores.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">*Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. Pp. 162 -172.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: Sepulcro de S. Jo\u00e3o da Cruz, em \u00dabeda, Espanha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12895,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-12894","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12894"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12894\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12896,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12894\/revisions\/12896"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12895"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}