{"id":12888,"date":"2025-04-08T07:00:53","date_gmt":"2025-04-08T06:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12888"},"modified":"2025-05-26T15:13:35","modified_gmt":"2025-05-26T14:13:35","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-iii-creio-num-so-deus-que-e-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-iii-creio-num-so-deus-que-e-trindade\/","title":{"rendered":"[Republica\u00e7\u00e3o: a pretexto dos 1700 anos do Conc\u00edlio de Niceia] Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Intelligo quia credo III &#8211; Creio num s\u00f3 Deus\u2026 que \u00e9 Trindade!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Intelligo quia credo<\/em> | <\/strong>Varia\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 crist\u00e3&#8230;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com <em>Ecos da Ria &#8211; <\/em>rubrica mensal<em>)<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Domingo ap\u00f3s domingo, os crist\u00e3os professam \u2018credo in unum Deum\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00edamos, em anteriores reflex\u00f5es, que a formula\u00e7\u00e3o \u2018in unum Deum\u2019 repercute a ideia de uma ades\u00e3o que \u00e9 mais do que assentimento intelectual, mas caminho <em>em dire\u00e7\u00e3o a<\/em> Deus, <em>orienta\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o<\/em> para a realidade fundante de toda a exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa, agora, refletir sobre a natureza pr\u00f3pria d\u2019Aquele \u00abunum Deum\u00bb a Quem adere o cora\u00e7\u00e3o que se abre \u00e0 f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tal, socorramo-nos do que nos v\u00e3o dizendo os melhores de entre os melhores te\u00f3logos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos por refer\u00eancia, para a nossa reflex\u00e3o, duas ideias estruturantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porque o homem \u00e9 imagem de Deus, o que dizemos de Deus repercute-se no que entenderemos ser o Homem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira recolhemo-la de Romano Guardini (1885-1968), um dos grandes te\u00f3logos do s\u00e9culo XX, de ascend\u00eancia e nascimento italianos, mas cujo percurso teol\u00f3gico desenvolveu na Alemanha, tendo sido, inclusive, perseguido e silenciado pelo regime nazi. Este te\u00f3logo escolhe, para t\u00edtulo de uma das suas luminosas obras, a seguinte afirma\u00e7\u00e3o \u2018quem sabe de Deus conhece o homem\u2019. Tal decorre de uma no\u00e7\u00e3o estruturante (uma esp\u00e9cie de axioma teol\u00f3gico): o homem \u00e9 ser criado \u00e0 imagem de Deus, pelo que o que soubermos de Deus repercutir-se-\u00e1 no entendimento sobre o pr\u00f3prio Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da presen\u00e7a de Deus na hist\u00f3ria chegamos \u00e0 pr\u00f3pria natureza de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta primeira ideia associemos uma segunda, desta feita, recolhida de Karl Rahner (1904-1984), tamb\u00e9m te\u00f3logo do contexto alem\u00e3o, que nos diz que chegamos ao conhecimento da natureza de Deus a partir do que o pr\u00f3prio Deus revela de si. De modo \u2018t\u00e9cnico\u2019, Rahner diz que se chega \u00e0 \u2018Trindade imanente\u2019 (quem \u00e9 Deus em si mesmo) a partir da \u2018Trindade econ\u00f3mica\u2019 (quem \u00e9 Deus para a humanidade, isto \u00e9, no seu processo de revelar-se \u2013 a palavra \u2018economia\u2019, no contexto teol\u00f3gico, tem este significado: \u2018desenvolve-se no contexto hist\u00f3rico, nas circunst\u00e2ncias pr\u00f3prias da hist\u00f3ria\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Dizendo de modo mais simples: sabemos de Deus aquilo que Deus revelou de Si mesmo, atrav\u00e9s de palavras e acontecimentos em que se manifestou a Sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o e, por ela, podemos chegar ao que \u00e9 o mesmo Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, conjugando estas duas ideias \u2013 a de que a revela\u00e7\u00e3o de Deus ocorre a partir do modo como Deus se mostra e a de que o que se disser de Deus se repercute no que se dever\u00e1 pensar sobre o Homem \u2013 \u00e9 poss\u00edvel constatar, desde j\u00e1, que a conce\u00e7\u00e3o de Deus proposta pelo cristianismo \u00e9 algo estruturante para toda a restante reflex\u00e3o crist\u00e3 e, com ela, para a compreens\u00e3o sobre o Homem, o mundo, as suas rela\u00e7\u00f5es e o seu pr\u00f3prio fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas perguntemo-nos, ent\u00e3o, como se revela Deus, quem diz Deus que \u00e9.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenhamos consci\u00eancia, desde j\u00e1, de que a reflex\u00e3o b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 teoria, n\u00e3o \u00e9 abstra\u00e7\u00e3o; parte da experi\u00eancia. Assim foi com a revela\u00e7\u00e3o de Deus como sendo Criador. O povo hebreu toma consci\u00eancia da natureza criadora de Deus a partir da sua experi\u00eancia de Deus que liberta. Aquele que liberta do mal hist\u00f3rico \u00e9, tamb\u00e9m, Aquele que liberta da inexist\u00eancia, do nada de n\u00e3o existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, e num processo cont\u00ednuo e coerente, o novo testamento \u00e9 caminho que parte da experi\u00eancia de Deus que se apresenta, simultaneamente, como fonte inacess\u00edvel e palavra que se revela, origem e for\u00e7a que queima por dentro, presen\u00e7a verbalizada e \u2018aus\u00eancia\u2019 que seduz e conduz. \u00c9 na diversidade da revela\u00e7\u00e3o que o povo crist\u00e3o desvenda o revelar-se de Deus que se define, no dizer de S. Jo\u00e3o (1 Jo 4,8), como amor. Repare-se que a express\u00e3o utilizada por S. Jo\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u2018Deus tem amor\u2019. Em grego, \u2018Jo\u00e3o afirma \u00abo the\u00f3s ag\u00e1p\u00ea est\u00edn | o qeos agaph estin \u00bb (Deus \u00e9 amor).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus define-se, no entender de S. Jo\u00e3o (de acordo com a interpreta\u00e7\u00e3o de Ricardo de S. Victor [ca. 1110-1173] que aqui seguimos), como rela\u00e7\u00e3o, o que contraria a l\u00f3gica que toda a hist\u00f3ria da filosofia teve (e continua a sustentar). Na verdade, na tabela das categorias de Arist\u00f3teles, a rela\u00e7\u00e3o era considerada um acidente, isto \u00e9, n\u00e3o definia a ess\u00eancia de algo; era-lhe acrescentada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem sabe da natureza trinit\u00e1ria de Deus sabe o que realiza a humanidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conce\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria de Deus introduz essa novidade que \u00e9 extremamente fecunda e que, como temos vindo a defender em diversos contextos de reflex\u00e3o, est\u00e1 na origem de uma das maiores d\u00edvidas da humanidade ao cristianismo: a ideia de que a rela\u00e7\u00e3o define a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana, a condi\u00e7\u00e3o de pessoa, conceito fundamental para se compreender quem \u00e9 Deus e, por isso, tamb\u00e9m, quem \u00e9 o Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, ao afirmar que \u00abcredo in unum Deum\u00bb que \u00e9 \u00abPai todo-poderoso\u00bb, que \u00e9 \u00abUnum dominum Iesum Christum\u00bb e \u00abSpiritum Sanctum\u00bb, rejeitando-se qualquer possibilidade de trite\u00edsmo, s\u00f3 restava ao cristianismo sustentar que a rela\u00e7\u00e3o era definidora da pr\u00f3pria natureza das coisas porque essa era a sua marca desde a sua cria\u00e7\u00e3o, na medida em que a rela\u00e7\u00e3o faz parte dAquele que \u00e9 a sua fonte. A ideia de pessoa \u00e9 isso que, no fundamental, afirma. Muito mais do que a individua\u00e7\u00e3o, a ideia de pessoa vinca a rela\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do pr\u00f3prio existir. Existe-se em rela\u00e7\u00e3o, na rela\u00e7\u00e3o e da rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que de Deus podemos afirmar que \u00e9 tr\u00eas pessoas, mas n\u00e3o tr\u00eas \u2018indiv\u00edduos\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como temos vindo a sustentar, com outra terminologia, poderemos afirmar que para haver rela\u00e7\u00e3o imp\u00f5em-se duas condi\u00e7\u00f5es, simultaneamente presentes em Deus: a identidade e a alteridade. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o se estas duas condi\u00e7\u00f5es se verificarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o houver alteridade, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o por excesso de coincid\u00eancia; se n\u00e3o houver identidade, n\u00e3o haver\u00e1 rela\u00e7\u00e3o por excesso de \u2018dist\u00e2ncia\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Trindade n\u00e3o ser\u00e1, ent\u00e3o, \u00e0 luz deste conjunto de constata\u00e7\u00f5es, um mist\u00e9rio incompreens\u00edvel e inacess\u00edvel, mas sim, como defende a teologia contempor\u00e2nea, uma realidade que ilumina as restantes realidades (assim deve entender-se o que seja \u2018mist\u00e9rio\u2019, na perspetiva crist\u00e3), torna-se uma realidade que, pela densidade do seu significado, podemos vislumbrar, mas sempre escapando-nos a toda a delimita\u00e7\u00e3o definitiva. Mist\u00e9rio diz de algo que \u00e9 t\u00e3o profundo na sua significa\u00e7\u00e3o que tateamos a sua natureza mas muito continua a esquivar-se ao nosso dom\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante destas no\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poderemos sen\u00e3o concluir da natureza intrinsecamente relacional da condi\u00e7\u00e3o humana que podemos conhecer ao sabermos quem \u00e9 Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se Deus \u00e9 amor, que outra coisa poder\u00e1 realizar o que \u00e9 ser Homem sen\u00e3o amar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Aos leitores interessados, deixamos a seguinte sugest\u00e3o de leitura: Alexandre Palma \u2013 <em>A Trindade \u00e9 um mist\u00e9rio. Mas podemos falar disso<\/em>. Prior Velho: Paulinas Editora, 2014.)<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><i>Imagem: Os tr\u00eas anjos que visitaram Abra\u00e3o, como\u00a0s\u00edmbolo\u00a0da Trindade. (Gn 18)<\/i>\u00a0\u00cdcone ortodoxo por\u00a0Andrei Rublev<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelligo quia credo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12889,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[173,55,224],"tags":[],"class_list":["post-12888","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-intelligo-quia-credo","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-nos-1700-anos-de-niceia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12888"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12888\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19358,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12888\/revisions\/19358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12889"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}