{"id":12878,"date":"2025-04-06T10:20:50","date_gmt":"2025-04-06T09:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12878"},"modified":"2025-05-26T15:13:20","modified_gmt":"2025-05-26T14:13:20","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-compreendo-porque-creio-variacoes-sobre-a-fe-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-compreendo-porque-creio-variacoes-sobre-a-fe-crista\/","title":{"rendered":"[Republica\u00e7\u00e3o: a pretexto dos 1700 anos do Conc\u00edlio de Niceia] Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Intelligo quia credo I (Compreendo porque creio) &#8211; Varia\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 crist\u00e3\u2026"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Intelligo quia credo<\/em> | <\/strong>Varia\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 crist\u00e3&#8230;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com <em>Ecos da Ria<\/em> &#8211; rubrica mensal<em>)<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicio, com esta reflex\u00e3o, uma rubrica dedicada ao estabelecimento de pontes entre a f\u00e9 crist\u00e3 e a racionalidade contempor\u00e2nea. Decidi intitul\u00e1-la \u2018intelligo quia credo\u2019, integrando a longu\u00edssima tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que se disp\u00f5e a compreender para melhor (e mais solidamente) acreditar (intelligo ut credam \u2013 compreendo para acreditar) e crer para, desse modo, melhor poder compreender (credo ut intelligam \u2013 creio para que possa compreender). A minha formula\u00e7\u00e3o recusa a, erroneamente atribu\u00edda a Tertuliano, ideia de que \u2018credo quia absurdum\u2019 (creio porque \u00e9 absurdo). Tertuliano n\u00e3o pretendeu afirmar tal ideia que contradiz o seu enorme esfor\u00e7o intelectual de tornar cred\u00edvel, para os seus t\u00e3o desafiantes tempos (ele que viveu entre finais do s\u00e9culo II e in\u00edcios do III), mas a sua convic\u00e7\u00e3o de que a ressurrei\u00e7\u00e3o era cred\u00edvel pelo seu car\u00e1cter surpreendente (como se fosse algo imposs\u00edvel!), gerou a ideia de que defendia que a f\u00e9 exclu\u00eda a raz\u00e3o e era tanto mais \u2018cred\u00edvel\u2019 quanto mais absurda. Longe disso!<br \/>\nO pressuposto que seguirei, ao longo das minhas reflex\u00f5es, ser\u00e1, exatamente, o de que f\u00e9 e raz\u00e3o s\u00e3o, parafraseando Jo\u00e3o Paulo II em Fides et Ratio, como que duas asas que necessitam uma da outra para que possa assim voar o conhecimento humano.<br \/>\nAfirmo que \u2018intelligo quia credo\u2019: compreendo porque acredito. N\u00e3o afirmo, aqui, um qualquer fide\u00edsmo ou uma apolog\u00e9tica gratuita, mas antes prenuncio a constata\u00e7\u00e3o que venho fazendo de que, sem o horizonte que lhe abre a f\u00e9, o ser humano e o que \u00e9 ser humano ficam em grave crise.<br \/>\nN\u00e3o apenas uma crise constat\u00e1vel, sociol\u00f3gica e eticamente (talvez a revis\u00e3o da hist\u00f3ria pudesse ser suficiente para sustentar a credibilidade dessa convic\u00e7\u00e3o), mas uma verifica\u00e7\u00e3o ainda mais radical e fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ateu que, por causa da ci\u00eancia, negou e, depois, reconheceu a exist\u00eancia de Deus<br \/>\nTomemos, para enunciar a tal crise em que ficamos sem a f\u00e9, o que nos mostrou, j\u00e1 em pleno s\u00e9culo XXI, o pensamento de Antony Flew, autor que gosto de revisitar.<br \/>\nFora, durante cerca de cinquenta anos, um dos grandes defensores do que poder\u00edamos designar como \u2018ate\u00edsmo epistemol\u00f3gico\u2019. Entendo por \u2018ate\u00edsmo epistemol\u00f3gico\u2019 aquela posi\u00e7\u00e3o que defende a inexist\u00eancia de Deus como resultado da verifica\u00e7\u00e3o de que o saber teol\u00f3gico foi suplantado pelo saber cient\u00edfico, ficando reduzida a cinzas a sua pretens\u00e3o de verdade.<br \/>\nEssa fora a convic\u00e7\u00e3o de Antony Flew, at\u00e9 que, em 2004, a sua honestidade intelectual o levou a reconhecer que errara. Flew constatava, nessa altura, que o simples esfor\u00e7o de fazer ci\u00eancia supunha, s\u00f3 por si, a possibilidade da exist\u00eancia de Deus. De outro modo, dizia, seria imposs\u00edvel fazer-se ci\u00eancia. E explicou a sua conclus\u00e3o.<br \/>\nQuem faz ci\u00eancia parte de um princ\u00edpio inabal\u00e1vel (axioma): h\u00e1 inteligibilidade no universo. Se n\u00e3o supuser a exist\u00eancia de inteligibilidade, ningu\u00e9m far\u00e1 ci\u00eancia. Tudo ser\u00e1 absurdo e imposs\u00edvel de estudar. Ora, tal pressuposto obriga a perguntar sobre a raz\u00e3o que justificar\u00e1 a exist\u00eancia de inteligibilidade no universo. Flew enuncia duas possibilidades: ou a inteligibilidade \u00e9 fruto de acasos que se sobrep\u00f5em a acasos, numa cadeia quase infinita de casualidades (bili\u00f5es de bili\u00f5es de acasos que se concatenam de forma a gerar a inteligibilidade que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para se fazer ci\u00eancia); ou, ent\u00e3o, diz Flew, h\u00e1 que supor que o universo corresponde \u00e0 inteligibilidade que nele depositou, como condi\u00e7\u00e3o, uma Origem inteligente e infinita que lhe concedeu, desde o primeiro momento, essa potencialidade de ser intelig\u00edvel.<br \/>\nFace a estas duas possibilidades, Flew recorda um crit\u00e9rio para se optar pela melhor. O crit\u00e9rio recolhe-o da pr\u00f3pria ci\u00eancia que define, \u00e0 luz do princ\u00edpio designado como \u2018navalha d\u2019Ockam\u2019, que a explica\u00e7\u00e3o mais simples para um fen\u00f3meno \u00e9 a mais v\u00e1lida. Ora, com este crit\u00e9rio, Flew pergunta qual a possibilidade mais simples e mais cred\u00edvel e conclui que supor a exist\u00eancia de uma Origem Inteligente como condi\u00e7\u00e3o para compreender a inteligibilidade do universo \u00e9 a hip\u00f3tese mais plaus\u00edvel.<br \/>\nCom a mesma ci\u00eancia com que rejeitara a possibilidade da exist\u00eancia de Deus, Flew concluiria, a partir de 2004 (em portugu\u00eas, pode ler-se com muito interesse, o seu Deus n\u00e3o existe, editado pela Al\u00eatheia), que essa exist\u00eancia \u00e9, afinal, a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da mesma ci\u00eancia. (Talvez a abrang\u00eancia do mar o torne t\u00e3o \u2018opaco\u2019 e improv\u00e1vel para o peixe, poder\u00edamos n\u00f3s concluir\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tamb\u00e9m a hist\u00f3ria do pensamento evidencia a crise do Humano sem Deus<\/strong><br \/>\nNo mesmo sentido que nos leva a concluir o racioc\u00ednio de A. Flew, tamb\u00e9m a hist\u00f3ria recente da filosofia parece demonstrar-nos a intr\u00ednseca rela\u00e7\u00e3o entre a exist\u00eancia de Deus e a condi\u00e7\u00e3o humana. Repare-se que, em finais do s\u00e9culo XIX, Nietzsche afirmara, no seu livro A gaia ci\u00eancia, que Deus morrera. (E n\u00e3o se referia \u00e0 morte de Cristo na Cruz, mas \u00e0 morte de Deus como Absoluto.) Afirmara-o em nome da liberdade humana; em nome do Homem. Mas, curiosamente, n\u00e3o foi preciso esperar muito mais de meio s\u00e9culo para que a pr\u00f3pria filosofia, pela pena de Michel de Foucault, viesse afirmar que o homem morrera. Deus morre, em Nietzsche; o Homem morre, em Foucault.<br \/>\nEstas constata\u00e7\u00f5es n\u00e3o pretendem ser, como atr\u00e1s afirm\u00e1vamos, apologia gratuita, mas interpela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe n\u00e3o aponta para um horizonte transcendente a vida que levamos do ber\u00e7o at\u00e9 \u00e0 tumba, quem \u00e9 o ser que leva os andrajos com que se faz essa vida? Mas ser\u00e1, ent\u00e3o, &#8211; dir\u00e3o, alguns -, a f\u00e9 apenas o fruto de uma necessidade de dar sentido \u00e0 vida que ficar\u00e1 absurda sem a f\u00e9? Aceitamos o repto a que tentaremos responder em outros momentos. Fiquemos, agora, pela constata\u00e7\u00e3o do horizonte que nos aponta a pr\u00f3pria epistemologia (reflex\u00e3o sobre o que \u00e9 conhecer e sobre o que podemos conhecer): sem Deus, sem a possibilidade, pelo menos, de que Deus exista, nem ci\u00eancia poderemos fazer, diz-nos Antony Flew, nem humanos seremos, como tristemente constatou Foucault.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1023340\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1023340\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelligo quia credo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12880,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[173,55,224],"tags":[],"class_list":["post-12878","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-intelligo-quia-credo","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-nos-1700-anos-de-niceia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12878"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12878\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19356,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12878\/revisions\/19356"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}