{"id":12836,"date":"2021-07-05T07:00:20","date_gmt":"2021-07-05T06:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12836"},"modified":"2021-06-30T12:55:45","modified_gmt":"2021-06-30T11:55:45","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (22) \u2013 Traject\u00f3rias novecentistas"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Depois de, ao longo de dezassete textos, termos visto as duas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-18-uma-ordem-impessoal\/\">18<\/a>), encontramo-nos j\u00e1 na sua terceira parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a leitura dos cap\u00edtulos 8 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-19-os-mal-estares-da-modernidade\/\">19<\/a>), 9 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-20-o-sombrio-abismo-do-tempo\/\">20<\/a>) e de grande parte do cap\u00edtulo 10 (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-21-a-universo-da-descrenca-em-expansao\/\">glosa 21<\/a>), conclu\u00edmo-lo agora, assim o cap\u00edtulo 11, de t\u00edtulo \u00abTraject\u00f3rias novecentistas\u00bb, que corresponde \u00e0s p\u00e1ginas 377 a 419. Conclui-se assim a Parte III da obra (\u00abThe Nova Effect\u00bb).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 77. <em><u>O contra-iluminismo imanentista<\/u><\/em>. \u2013 Com a era rom\u00e2ntica, inaugura-se uma forma de <em>descren\u00e7a <\/em>diferente da <em>iluminista, <\/em>e que por alguns \u00e9 vista como o verdadeiro ponto de refer\u00eancia para a descren\u00e7a moderna: \u00abFoucault e outros observaram a viragem que a idade rom\u00e2ntica produziu no pensamento europeu, tornando cred\u00edvel um sentido de realidade profundo, sistem\u00e1tico, encontrando os seus princ\u00edpios norteadores bem por debaixo da superf\u00edcie imediatamente dispon\u00edvel, fosse nas teorias econ\u00f3micas de Marx, na \u00abpsicologia profunda\u00bb de Freud, ou nas genealogias de Nietzsche. (\u2026) Sob este ponto de vista, podemos ser tentados a dizer que a moderna descren\u00e7a come\u00e7a a\u00ed, e n\u00e3o, na verdade, na era do iluminismo\u00bb. Entre tais elementos, e no quadro posterior a Schopenhauer, est\u00e1 a valoriza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as \u00abirracionais, amorais, mesmo violentas\u00bb, tidas por essenciais para a vida humana e para a \u00abvitalidade, criatividade, vigor, e habilidade\u00bb da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica: quadro que bem contrasta com o do <em>optimismo <\/em>iluminista (p. 369).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramos assim uma perspectiva que contrasta com a iluminista, sem ser simplesmente <em>contra-iluminista <\/em>em sentido restaurativo (Bonald, De Maistre). A esta nova leitura designa Taylor <em>contra-iluminismo imanentista <\/em>(p. 369)<em>. <\/em>Perspectiva que se rebela contra uma verdadeira \u00abreligi\u00e3o secular de vida\u00bb, identificada com a ordem moral moderna do humanismo exclusivo, centrada na promo\u00e7\u00e3o da prosperidade humana, no combate a diferentes causas de priva\u00e7\u00e3o, etc. (pp. 370-371).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplesmente, esta reac\u00e7\u00e3o n\u00e3o se funda, nem na invoca\u00e7\u00e3o do <em>transcendente, <\/em>nem em certo <em>ethos <\/em>aristocr\u00e1tico de virtudes, de hero\u00edsmo, etc. Os tra\u00e7os desta corrente, de contornos ainda n\u00e3o claramente identificados, s\u00e3o apresentados por Taylor nos termos seguintes: recusa da l\u00f3gica de \u00abprimado da vida\u00bb do iluminismo; centralidade da dimens\u00e3o est\u00e9tica (arte moderna p\u00f3s-rom\u00e2ntica); \u00abos seus grandes batalh\u00f5es na academia moderna encontram-se situados nos departamentos de literatura\u00bb (p. 372); nova compreens\u00e3o da centralidade da morte; recusa do <em>nivelamento <\/em>moderno, em nome do grandioso, excepcional, her\u00f3ico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Incarnando esta perspectiva, \u00e9 nomeado Nietzsche, e, na sua senda, autores como Foucault, Derrida, Bataille,\u2026 Numa sum\u00e1ria s\u00edntese do pensamento de Nietzsche, afirma Taylor: \u00abN\u00e3o existe nada maior do que o movimento da pr\u00f3pria vida (a vontade de poder). Mas isso perturba [<em>chafes<\/em>] a benevol\u00eancia, o universalismo, a harmonia, a ordem. Pretende reabilitar a destrui\u00e7\u00e3o e o caos, a causa\u00e7\u00e3o de sofrimento e explora\u00e7\u00e3o, como parte da vida que deve ser afirmada. A vida propriamente entendida tamb\u00e9m afirma a morte e a destrui\u00e7\u00e3o. Pretender outra coisa \u00e9 tentar restringi-la, domestic\u00e1-la, circunda-la, priv\u00e1-la das suas maiores manifesta\u00e7\u00f5es, que a tornam algo a que possas dizer \u201csim\u201d.\u00bb A disposi\u00e7\u00e3o para enfrentar a morte, colocando a vida sob valores como a honra ou a reputa\u00e7\u00e3o, torna-se central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja ou n\u00e3o por influ\u00eancia destes autores, \u00e9 tamb\u00e9m fruto deste <em>fluxo <\/em>de ideias uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tal como o fascismo (p. 373).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, pois, de uma perspectiva de <em>supera\u00e7\u00e3o <\/em>do absoluto do valor da vida humana <em>terrestre<\/em>, n\u00e3o para o enquadrar numa dimens\u00e3o <em>transcendente <\/em>\u00e0 exist\u00eancia humana (vida eterna), mas sendo radicalmente oposta \u00e0 perspectiva religiosa: <em>transcende <\/em>a vida, mas dentro dos limites do <em>puramente imanente<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes termos, a cultura moderna tem, n\u00e3o dois, mas tr\u00eas p\u00f3los: ao p\u00f3lo te\u00edstico e ao humanismo exclusivo acresce uma terceira perspectiva, que se op\u00f5e \u00e0quelas duas. E, a partir dos tr\u00eas p\u00f3los, s\u00e3o m\u00faltiplas as possibilidades de combina\u00e7\u00e3o existentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 78. <em><u>Dois exemplos. A tradi\u00e7\u00e3o francesa.<\/u> \u2013 <\/em>O \u00faltimo cap\u00edtulo da Parte III do escrito, o cap\u00edtulo 11, procura ilustrar, acompanhando duas realidades em particular, o modo como a <em>Nova <\/em>\u2013 assim designa Taylor a expans\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o humanismo exclusivo \u2013 se desenvolveu nalguns contextos em particular. O cap\u00edtulo tem por t\u00edtulo: \u00abTraject\u00f3rias Novecentistas\u00bb\/ <em>Nineteenth-Century Trajectories, <\/em>que se prolonga pelas pp. 377-419.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particular aten\u00e7\u00e3o come\u00e7a por merecer a Inglaterra, no per\u00edodo entre 1840 e 1940 (pp. 377-389, 391-412). S\u00e3o p\u00e1ginas de grande valia para ajudar a compreender o particularismo ingl\u00eas, e nas quais se glosam, entre outros, autores como Carlyle, Arnold, Humphry Ward, Mill, Trevelyan, Wordsworth, Pater, Wilde, ou o \u00abgrupo de Bloomsbury\u00bb. O intuito desta abordagem \u00e9 fazer percorrer, a olhos do Autor, a evolu\u00e7\u00e3o desenhada nos cap\u00edtulos anteriores por refer\u00eancia a realidades hist\u00f3ricas espec\u00edficas (a inglesa e, depois, a francesa), evolu\u00e7\u00e3o enriquecida com reflex\u00f5es sobre v\u00e1rios temas: <em>teodiceia <\/em>(pp. 387-389), religi\u00e3o universal (Saint Simon), a <em>quase religi\u00e3o <\/em>do positivismo (Comte) (pp. 389-390), as singular\u00edssimas <em>public schools <\/em>inglesas (pp. 398-399), a crise identit\u00e1ria gerada pela 1.\u00aa Guerra Mundial (pp. 407-410). Contudo, ao n\u00e3o assumirem relev\u00e2ncia central na economia global da exposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o ser\u00e3o aqui acompanhadas de perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 maior deten\u00e7a se justifica dar \u00e0 realidade francesa, tratada nas p\u00e1ginas que se seguem, ao menos pela profunda francofilia da cultura portuguesa ao longo do s\u00e9c. XIX e boa parte do s\u00e9c. XX. A compreens\u00e3o das din\u00e2micas pr\u00f3prias do espa\u00e7o de cultura franc\u00eas ajuda, por conseguinte, a compreender mais profundamente a pr\u00f3pria realidade portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo franc\u00eas ilustra uma passagem, n\u00e3o sem viol\u00eancia, de um modelo de sociedade organizado verticalmente para um outro de perfil horizontal (ison\u00f3mica). Nele se encontra presente uma vers\u00e3o particular da \u00abordem de benef\u00edcio rec\u00edproco, profundamente influenciada por Rousseau\u00bb, que \u00abse torna a base da tradi\u00e7\u00e3o republicana em Franca, e depois por toda a parte, que se torna explicitamente anti-crist\u00e3, quando n\u00e3o claramente ate\u00edsta. A democracia e os direitos humanos s\u00e3o concebidos como insepar\u00e1veis de uma vis\u00e3o dos seres humanos como inocentes ou fundamentalmente bons por natureza. A ordem pol\u00edtica adequada apenas pode desenvolver-se se reconhece e celebra esta natureza e as virtudes que lhe pertencem. A religi\u00e3o, em particular a doutrina crist\u00e3 do pecado original, n\u00e3o pode sen\u00e3o coloc\u00e1-lo em causa, destruindo as suas funda\u00e7\u00f5es. Uma sociedade livre tem de inculcar uma filosofia, e construir um imagin\u00e1rio social que \u00e9 fundado no humanismo exclusivo.\u00bb Linha que se expressa particularmente na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas tamb\u00e9m, posteriormente, no socialismo marxista. Exemplifica com o M\u00e9xico e Espanha (p. 412).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reac\u00e7\u00e3o foi a Restaura\u00e7\u00e3o (de Maistre), enquanto tentativa de revitaliza\u00e7\u00e3o do quadro social <em>barroco, <\/em>isto \u00e9, uma estrutura pol\u00edtico-social h\u00edbrida: ainda que de \u00edndole hier\u00e1rquica vertical, procura tamb\u00e9m justificar-se, n\u00e3o com base em argumentos de \u00edndole \u00f4ntica, mas relativos a crit\u00e9rios de bondade e efici\u00eancia (p. 413). Misturam-se duas diferentes perspectivas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: \u00abDeste modo, um ideal de ordem, nas suas diferentes variantes, que arranca do indiv\u00edduo e sublinha os direitos, as liberdades e a democracia, enfrenta um contra-ideal que sublinha a obedi\u00eancia, a hierarquia, a perten\u00e7a, mesmo o sacrif\u00edcio pelo conjunto.\u00bb A perspectiva da Restaura\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, acabaria por n\u00e3o vingar (p. 414) E, finalmente, encontram-se ainda movimentos que, de um inicial apelo ao cristianismo, dele se acabam por deslassar. O eixo central encontra-se noutros quadrantes (por ex., a conserva\u00e7\u00e3o de uma ordem hier\u00e1rquica de sociedade, a aspira\u00e7\u00e3o de grandeza e supera\u00e7\u00e3o, a recusa do diletantismo,\u2026). Exemplifica com a figura de Charles Maurras (pp. 414-416).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como seja, \u00e9 significativo apontar que este tipo de <em>associa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica <\/em>entre o cristianismo e formas restaurativas da sociedade acabou, nos dias de hoje, por perder quase toda a sua relev\u00e2ncia. \u00abO ideal moderno triunfou. Somos todos partid\u00e1rios dos direitos humanos.\u00bb \u00c9 precisamente neste novo quadro, o da ordem moral moderna, que tamb\u00e9m a religi\u00e3o se move. A isto acrescer\u00e1 o lugar particular ocupado pela religi\u00e3o na sociedade moderna, objecto da parte IV da obra (p. 419).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de concluirmos o cap\u00edtulo, vejamos brevemente algumas reflex\u00f5es sobre a 1.\u00aa Guerra Mundial e o seu impacto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 79. <em><u>Um aspecto particular: a 1.\u00aa Guerra Mundial.<\/u> \u2013 <\/em>Deve fazer-se, por fim, uma men\u00e7\u00e3o, breve, \u00e0 1.\u00aa Guerra Mundial. O entusiasmo gerado em torno da viragem do s\u00e9culo, junto de alguns sectores, pelo exerc\u00edcio das virtudes guerreiras \u2013 a grandeza, o hero\u00edsmo, a coragem (<em>dulce et decorum est pro patria mori<\/em>) \u2013, que levara a que muitos aclamassem a eclos\u00e3o da 1.\u00aa Guerra Mundial, termina com um profundo colapso: \u00abA um n\u00edvel profundo, a Guerra era uma crise de civiliza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, colocava em quest\u00e3o a assun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de que os Estados beligerantes eram realmente civilizados, ou mesmo, mais profundamente, a pr\u00f3pria ideia de civiliza\u00e7\u00e3o.\u00bb (p. 416) \u00c9 certo que algum deste <em>orgulho <\/em>\u00e9 recobrado na 2.\u00aa Guerra Mundial \u2013 escreve-o Taylor a prop\u00f3sito de Inglaterra \u2013, que pode ser interpretada, a partir do \u00e2ngulo dos aliados, como um combate em defesa da civiliza\u00e7\u00e3o (p. 409). S\u00e3o muitos valiosas, por conseguinte, as reflex\u00f5es \u00e0s pp. 415-418, que acrescem \u00e0s das pp. 407-410.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo o caso, n\u00e3o deixa a 1.\u00aa Guerra Mundial de abrir uma forte cesura na autocompreens\u00e3o europeia. Com efeito, colocava-se directamente em causa o ideal moderno de ordem, que assentava na <em>promo\u00e7\u00e3o da paz<\/em>, e n\u00e3o num conflito gerador de perdas de n\u00edvel, diria, <em>industriais<\/em>. (p. 418).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste novo estado de coisas decorrem tamb\u00e9m consequ\u00eancias para a compreens\u00e3o e para o lugar da f\u00e9 no espa\u00e7o ocidental:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A crise civilizacional espoletada pela 1.\u00aa Guerra Mundial atinge tamb\u00e9m um certo tipo de cultura crist\u00e3, posto que o cristianismo, nas suas diferentes dimens\u00f5es, se encontrava ligado \u2013 com maior ou menor relevo, com maior ou menor justi\u00e7a \u2013 ao ideal de <em>civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> em nome do qual se avan\u00e7ara para a guerra, e que pelo horror do conflito fora colocado em causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Ocasionou o desenvolvimento de formas <em>n\u00e3o crentes <\/em>de organiza\u00e7\u00e3o vertical da sociedade, que lograram persuadir, ali\u00e1s, muitos daqueles que na 1.\u00aa Guerra Mundial haviam combatido e, contudo, se descobriam n\u00e3o apreciados, mesmo tra\u00eddos, pela sociedade pela qual se haviam sacrificado. \u00c9 neste caldo que emergem figuras tais como Hitler e Mussolini. Linha esta \u00faltima, a fascista, que, por um lado exalta certos elementos de uma organiza\u00e7\u00e3o vertical da sociedade (lideran\u00e7a, sacrif\u00edcio, obedi\u00eancia), e assim se op\u00f5e a via democr\u00e1tica ou liberal, tamb\u00e9m, por outro, se op\u00f5e e recusa frontalmente a moralidade crist\u00e3 (p. 418).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Na sua muito interessante <em>A History of Christianity, <\/em>Penguin, 2010 (ed. Paperback), o historiador ingl\u00eas Diarmaid MacCulloch d\u00e1 por t\u00edtulo ao apartado da sua obra relativo \u00e0 1.\u00aa Guerra Mundial \u00abUma Guerra que matou a Cristandade\u00bb (pp. 915-927). Selecciono uma breve passagem que permite complementar as reflex\u00f5es de Taylor: \u00ab[A 1\u00aa Guerra Mundial] envolveu quatro imperadores crist\u00e3os \u2013 os imperadores alem\u00e3o e austr\u00edaco, o Czar russo e o Imperador-Rei brit\u00e2nico -, mas tais governantes tenderam a ignorar a sua f\u00e9 comum para se combaterem reciprocamente.\u00bb (p. 916)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tal <em>colapso <\/em>em nada tem de afectar uma viv\u00eancia <em>pessoal<\/em> e <em>eclesial <\/em>da f\u00e9, abala certamente a sua presen\u00e7a p\u00fablica, no modo como at\u00e9 ent\u00e3o se articulava com imagin\u00e1rios sociais p\u00fablicos amplamente partilhados.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 80. <em><u>Recapitula\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos da obra. Posf\u00e1cio<\/u><\/em>. \u2013 Resumamos brevemente as primeiras tr\u00eas partes da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Parte I (cap. 1 a 5, nn.\u00ba 5 a 48), assistimos \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de reforma \u2013 e, especialmente, da <em>Reforma<\/em> (s\u00e9c. XVI) \u2013 que colocou em crise muitos dos alicerces de uma f\u00e9 que, por eles protegida, brotava como que naturalmente. Consider\u00e1mos, tamb\u00e9m, uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as compreensivas na compreens\u00e3o da <em>natureza<\/em>, do <em>mundo exterior<\/em>, da <em>racionalidade<\/em> que contribu\u00edram para colocar em crise tais alicerces. Pela conjuga\u00e7\u00e3o de tais factores introduz-se uma forte cesura entre o <em>Eu <\/em>e o <em>mundo, <\/em>acentua-se a <em>subjectividade, <\/em>e ganha relevo o ideal de ordena\u00e7\u00e3o transformadora pelo Eu \u2013 de si pr\u00f3prio e da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Parte II (cap. 6 e 7, nn.\u00ba 49 a 66), olh\u00e1mos um instante interm\u00e9dio entre os per\u00edodos <em>secular <\/em>e <em>n\u00e3o secular, <\/em>o do <em>De\u00edsmo: <\/em>ainda se aceita ent\u00e3o a no\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Deus, mas evanesce o sentido pr\u00e1tico da respectiva presen\u00e7a. Em lugar da cren\u00e7a pessoal, emergem ordens impessoais. A viv\u00eancia da <em>ag\u00e1pe<\/em> \u00e9 substitu\u00edda por uma \u00ab\u00e9tica de liberdade e de benef\u00edcio rec\u00edproco\u00bb. Na segunda fase deste per\u00edodo, que corresponde aos s\u00e9c. XVII e XVIII, d\u00e1-se a passagem, em certas elites europeias, para o <em>humanismo exclusivo<\/em> iluminista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na parte III, assistimos \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de uma <em>Idade Secular <\/em>(cap. 8 a 10, nn.\u00ba 67 a 79) \u2013 o que n\u00e3o significa uma <em>Idade ateia. <\/em>Com efeito, o <em>humanismo exclusivo, <\/em>apesar de bem mais consolidado no s\u00e9c. XIX, n\u00e3o <em>substitui <\/em>a alternativa crente, mas encontra-se em <em>tens\u00e3o <\/em>com ela (n.\u00ba <em>1.c)<\/em>). Mais: a estes dois p\u00f3los, (i) <em>te\u00edstico <\/em>e (ii) <em>ate\u00edstico <\/em>ou <em>agn\u00f3stico, <\/em>vem a acrescer uma (iii) <em>terceira via<\/em>, de <em>contra-iluminismo imanentista,<\/em> a que se reconduzem as perspectivas que, reagindo aos desconfortos da modernidade mas sem recuarem ao te\u00edsmo, colocam em primeiro plano, como fonte de <em>sentido, <\/em>n\u00e3o a dimens\u00e3o \u00abracional\u00bb no sentido iluminista, mas a emocional, art\u00edstica, est\u00e9tica, do profundo, etc. Dos m\u00faltiplos cruzamentos entre estes tr\u00eas p\u00f3los resulta a multiplica\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma \u00faltima reflex\u00e3o sobre o processo de seculariza\u00e7\u00e3o encontra-se no ep\u00edlogo do trabalho (pp. 773-776).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como se situa a religi\u00e3o \u2013 sobretudo a religi\u00e3o crist\u00e3 \u2013 ante o resultado deste percurso hist\u00f3rico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta quest\u00e3o, cuja resposta permitir\u00e1 concluir o olhar sobre a forma\u00e7\u00e3o da <em>Idade Secular \u2013<\/em> pois nos trar\u00e1 at\u00e9 ao presente do aqui e agora, da pr\u00e1tica religiosa <em>hoje <\/em>assumida e praticada \u2013 se dedicar\u00e1 a parte IV da obra.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\">Imagem: Representa\u00e7\u00e3o do assassinato\u00a0do arquiduque\u00a0Francisco Fernando da \u00c1ustria-Hungria\u00a0por\u00a0Gavrilo Princip, um estudante\u00a0s\u00e9rvio\u00a0da\u00a0B\u00f3snia, momento a que, tradicionalmente, se associa a cria\u00e7\u00e3o do pretexto para a I Guerra Mundial<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12837,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12836","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12836"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12836\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12839,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12836\/revisions\/12839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12837"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}