{"id":12830,"date":"2021-07-01T07:00:21","date_gmt":"2021-07-01T06:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12830"},"modified":"2021-07-01T01:28:28","modified_gmt":"2021-07-01T00:28:28","slug":"modos-de-interaccao-entre-ciencia-e-religiao-perspectivas-decima-primeira-perspectiva-transcendente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interaccao-entre-ciencia-e-religiao-perspectivas-decima-primeira-perspectiva-transcendente\/","title":{"rendered":"Modos de interac\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | PERSPECTIVAS | D\u00e9cima Primeira Perspectiva: Transcendente"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"text-align: right;\"><em>Perspectivas<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">D\u00e9cima Primeira Perspectiva: Transcendente<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt; text-align: justify;\">H\u00e1 muito tempo, numa aula de matem\u00e1tica, um professor falava de equa\u00e7\u00f5es transcendentais. Para um crente, o olhar deveria ficar desperto, mas confesso que n\u00e3o retenho qualquer mem\u00f3ria de um sentimento de espanto. H\u00e1 pouco tempo, voltei a cruzar-me com esta express\u00e3o e deixei-me levar pela curiosidade. A raz\u00e3o de uma fun\u00e7\u00e3o ser transcendente \u00e9 por \u201ctranscender\u201d a \u00e1lgebra, ou seja, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser expressa como uma sequ\u00eancia finita de termos usando as opera\u00e7\u00f5es alg\u00e9bricas \u2014 +, -, \u00d7, \u00f7, ^, \u221a \u2014 como \u00e9 o caso do logaritmo, um exemplo de uma fun\u00e7\u00e3o transcendente. S\u00e3o fun\u00e7\u00f5es que est\u00e3o <em>para al\u00e9m<\/em> das opera\u00e7\u00f5es simples que lhes podem dar origem e, por isso, s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es que d\u00e3o origem a muitas outras. A perspectiva que abre o nosso horizonte, de modo a irmos \u201cpara al\u00e9m\u201d da percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel do mundo \u00e9 a <em>transcendente.<\/em><\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt; text-align: justify;\">Em Teilhard de Chardin, sacerdote jesu\u00edta e paleont\u00f3logo, lemos que o transcendente corresponde a tudo o que est\u00e1 para al\u00e9m do \u201ctempo\u201d e do \u201cespa\u00e7o\u201d. N\u00e3o se pode dizer, em rigor, ser uma dimens\u00e3o sem tempo ou espa\u00e7o, por estar para al\u00e9m desses e, por isso, refere-se a um n\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade que exige um algo mais da nossa compreens\u00e3o. A perspectiva transcendente, procura, antes de tudo, o <em>todo<\/em> que \u00e9 mais do que a soma das partes. Por isso, talvez esta seja uma perspectiva imposs\u00edvel de apreender por n\u00f3s pr\u00f3prios, mas de nos deixarmos apreender por ela. E da\u00ed o desafio que nos apresenta por sermos seres cuja experi\u00eancia psicossom\u00e1tica acontece no tempo e no espa\u00e7o. Seria preciso algo ou algu\u00e9m que nos transportasse para a dimens\u00e3o da realidade transcendente para nos abrir a possibilidade de encontrar o horizonte de significado aberto por esta perspectiva. Penso, por exemplo, no \u201cMundo Plano\u201d (<em>Flatland<\/em>) de Edwin Abbott.<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt; text-align: justify;\">Para o mundo plano, uma esfera que o atravessa come\u00e7a por ser um pequeno ponto, transformando-se num c\u00edrculo perfeito e volta a um ponto antes de desaparecer. No plano da nossa exist\u00eancia, a perspectiva transcendente \u00e9 acolhida na medida em que as suas manifesta\u00e7\u00f5es nos transformam a partir do nosso interior. Por\u00e9m, de um modo t\u00e3o profundo que se torna dif\u00edcil verbaliz\u00e1-lo. Ali\u00e1s, a dificuldade em partilharmos aos outros a nossa experi\u00eancia da perspectiva transcendente prov\u00e9m da forma mais imediata com que o fazemos: a imagina\u00e7\u00e3o. Ora, se o que imaginamos considerarmos como irreal, ser\u00e1 dif\u00edcil aceitar esta perspectiva. Contudo, por que raz\u00e3o sequer imaginamos se a imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pertencesse \u00e0 realidade?<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt; text-align: justify;\">Quantas coisas materiais que hoje fazem parte do nosso quotidiano n\u00e3o foram fruto da imagina\u00e7\u00e3o? A imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 irreal, mas uma porta para a dimens\u00e3o transcendente da realidade. Depois, com o tempo e a evolu\u00e7\u00e3o da nossa compreens\u00e3o do mundo, encontramos, pouco a pouco, um sentido e significado do transcendente imaginado at\u00e9 que se incarne, de algum modo, na nossa realidade sens\u00edvel. Por outro lado, o que nos transcende mant\u00e9m a mente aberta a acolher a mais impensadas ou irreais ideias. E n\u00e3o se deve confundir a imagina\u00e7\u00e3o com a ilus\u00e3o. A ilus\u00e3o \u00e9 uma concretiza\u00e7\u00e3o fechada de algo imposs\u00edvel que se materializa aos nossos olhos. Por isso, quando deixa de ser um entretenimento, sujeitamo-nos a ser desiludidos porque iludidos. Com o transcendente que percepcionamos pela imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt; text-align: justify;\">O que nos transcende pela imagina\u00e7\u00e3o impulsiona-nos a ir para al\u00e9m de n\u00f3s pr\u00f3prios, de modo a criarmos um lugar interior aberto a acolher amanh\u00e3 o imposs\u00edvel de hoje. O transcendente anima-nos na procura do profundo escondido no interior de cada coisa neste mundo para nos revelar o seu \u201cmist\u00e9rio.\u201d \u00c9 habitual entendermos por \u201cmist\u00e9rio\u201d um enigma a resolver, mas o sentido profundo e transcendente desta palavra expressa uma \u201crealidade escondida\u201d, sendo a mais \u00f3bvia: a Eucaristia.<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt; text-align: justify;\">\u00c9 um peda\u00e7o de p\u00e3o. Para as crian\u00e7as parece uma bolacha fina sem sabor. Ou, como disse um amigo ao provar uma h\u00f3stia que n\u00e3o estava consagrada \u2014 <em>\u00absabe a miluvit\u00bb<\/em> (uma papa do meu tempo). A mim n\u00e3o sabia a miluvit, mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o me interessava o sabor. Diziam-me que era Jesus e eu vivia como se assim fosse, at\u00e9 que um dia algo inesperado aconteceu-me. Estava numa missa de um encontro internacional de jovens e fui comungar. Recebi o Senhor. Ajoelhei-me e comecei a chorar. Porqu\u00ea? Era esse o meu dilema. N\u00e3o havia qualquer motivo para verter l\u00e1grimas. Apenas uma vontade enorme de me confessar a seguir, o que parece contradit\u00f3rio, pois, a confiss\u00e3o precede a comunh\u00e3o sacramental, mas a l\u00f3gica de Deus \u00e9 diferente da nossa. Creio, hoje, que chorei por experimentar o b\u00e1lsamo da perspectiva transcendente, atrav\u00e9s da qual fazia a experi\u00eancia de me sentir profundamente amado por Deus.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=744115\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=744115\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12831,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62],"tags":[],"class_list":["post-12830","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12830","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12830"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12830\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12841,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12830\/revisions\/12841"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}