{"id":12741,"date":"2021-06-25T22:19:03","date_gmt":"2021-06-25T21:19:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12741"},"modified":"2021-06-25T22:19:13","modified_gmt":"2021-06-25T21:19:13","slug":"pe-pedro-miranda-a-criacao-musical-como-analogia-da-criacao-divina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pe-pedro-miranda-a-criacao-musical-como-analogia-da-criacao-divina\/","title":{"rendered":"Pe. Pedro Miranda | A cria\u00e7\u00e3o musical como analogia da cria\u00e7\u00e3o divina"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\">Teo<em>fonias<\/em> | &#8230; porque discretas s\u00e3o as melodias de Deus!<\/h5>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Pe. Pedro Carlos Lopes de Miranda<\/h3>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>(Ou\u00e7a, em widget lateral, a obra aqui apresentada)<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A PROP\u00d3SITO DE UMA EXECU\u00c7\u00c3O DA 8\u00aa SINFONIA DE BEETHOVEN EM DIA DO SAGRADO CORA\u00c7\u00c3O DE JESUS: a cria\u00e7\u00e3o musical como analogia da cria\u00e7\u00e3o divina.*<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Coimbra, S\u00e9 Nova, 11 de Junho de 2021<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Elevado sobre a cruz, com admir\u00e1vel amor deu a sua vida por n\u00f3s e do seu lado trespassado fez brotar sangue e \u00e1gua, donde nasceram os sacramentos da Igreja\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.Eis a sec\u00e7\u00e3o central e pr\u00f3pria do Pref\u00e1cio da Missa da solenidade do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Existe sempre um risco latente de cedermos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de distinguir de forma simplista o amor criador de Deus Pai, do amor salvador de Deus Filho, Jesus Cristo. Naturalmente, o amor salvador, manifestado na caridade do sofrimento fiel e paciente de Jesus at\u00e9 ao alto da cruz toca-nos, sensibiliza-nos mais facilmente. Ou n\u00e3o fossem tocantes das nossas fibras mais \u00edntimas e espont\u00e2neas as sete \u00faltimas palavras de Cristo na Cruz e o que elas revelam do seu \u00edntimo humano e divino ao longo daquelas horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, quando rezamos o grandioso hino cristol\u00f3gico da Carta aos Colossenses (Col 1, 12-20), embrenhamo-nos numa grandiosa vis\u00e3o do mist\u00e9rio, do des\u00edgnio \u00fanico de Deus criador e salvador. O hino come\u00e7a por apresentar Cristo como Redentor\u2014 <em>Ele [o Pai] nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino de seu amado Filho. N\u2019Ele encontramos a reden\u00e7\u00e3o, o perd\u00e3o dos pecados<\/em>. Mas, como que para fundamentar, alicer\u00e7ar a autoridade e verdade da reden\u00e7\u00e3o, em que \u00e9 Deus Pai que liberta, que transfere, mas \u00e9 o Filho que instaura o reino de liberdade e de luz para onde os pecadores s\u00e3o transferidos pelo Pai, recua depois \u00e0 presen\u00e7a do Filho na cria\u00e7\u00e3o: <em>Ele \u00e9 a imagem de Deus invis\u00edvel, o Primog\u00e9nito de toda a criatura. N\u2019Ele foram criadas todas as coisas, no c\u00e9u e na terra, vis\u00edveis e invis\u00edveis, Tronos e Domina\u00e7\u00f5es Principados e Potestades, por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele \u00e9 anterior a todas as coisas e por Ele tudo subsiste.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, num outro hino cristol\u00f3gico do Ap\u00f3stolo, na carta aos Ef\u00e9sios (Ef 1, 3-10), come\u00e7a-se por afirmar o des\u00edgnio criador do Pai como j\u00e1 de antem\u00e3o referido a Jesus Cristo no que a n\u00f3s diz respeito: <em>Ele [o Pai] nos escolheu<strong>, antes da cria\u00e7\u00e3o do mundo<\/strong>, para sermos santos e irrepreens\u00edveis, em caridade, na sua presen\u00e7a. Ele nos predestinou, de sua livre vontade, para sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, \u2026; n\u2019Ele temos a reden\u00e7\u00e3o, pelo seu sangue, a remiss\u00e3o dos nossos pecados.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, cria\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o, mais do que duas etapas do cumprimento do des\u00edgnio de Deus, s\u00e3o duas mo\u00e7\u00f5es do mesmo Amor de Deus, duas mo\u00e7\u00f5es do mesmo e \u00fanico cora\u00e7\u00e3o de Deus feito carne no cora\u00e7\u00e3o humano e divino de Jesus. E o pref\u00e1cio da missa do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus diz, tamb\u00e9m de modo imediatamente consequente com esta cristologia, que Cristo nos redimiu <em>dando a vida<\/em>\u2014 <em>entregando-se a Si mesmo por n\u00f3s<\/em>, se traduzido mais \u00e0 letra\u2014 express\u00e3o que pode ser entendida no sentido de cria\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de vida, ao modo como S. Maximiliano Kolbe, m\u00e1rtir da caridade, ou Santa Gianna Beretta Molla, m\u00e1rtir da maternidade, reflectem a paix\u00e3o de Jesus. Assim se torna mais vis\u00edvel a mo\u00e7\u00e3o criadora do Amor de Deus no <strong><em>nascimento<\/em><\/strong><em>,<\/em> do lado de Cristo morto, dos Sacramentos da Igreja, pelos quais vivem os homens regenerados no baptismo. A reden\u00e7\u00e3o, o nosso resgate do pecado e da morte \u00e9, em suma, uma nova cria\u00e7\u00e3o, pela qual o eterno des\u00edgnio de Deus persiste e prevalece sobre a nossa rebeldia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. \u00c9 tamb\u00e9m pr\u00f3prio da cria\u00e7\u00e3o, no sentido de \u201crealidade criada\u201d, permanecer no ser atendo-se \u00e0s leis pr\u00f3prias, das quais o Criador a dotou, de modo que podemos reconhecer e afirmar uma certa autonomia, que n\u00e3o independ\u00eancia, da criatura em rela\u00e7\u00e3o ao criador. Eis a afirma\u00e7\u00e3o da transcend\u00eancia do Criador em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 criatura. E o mesmo podemos afirmar quando consideramos as pessoas re-criadas pela regenera\u00e7\u00e3o em Cristo no baptismo: a ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9, necess\u00e1ria a essa recria\u00e7\u00e3o, a esse nascer de novo, e \u00e0 perman\u00eancia nessa vida nova, \u00e9 uma coopera\u00e7\u00e3o verdadeiramente humana e dependente do uso da liberdade com a qual fomos criados. \u00c9 bem conhecida a senten\u00e7a de S. Agostinho: <em>Deus, que te criou sem ti, n\u00e3o te salvar\u00e1 sem ti.<\/em> E pode-se dizer que isto se entende tanto referindo-se \u00e0 cria\u00e7\u00e3o inicial, como \u00e0 reden\u00e7\u00e3o, \u00e0 re-cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o para a vida nova: Deus, que te regenerou sem ti\u2014 porque Jesus \u00e9 um dom absolutamente gratuito \u00e0 humanidade\u2014 n\u00e3o completar\u00e1 essa obra sem ti, sem a tua inicial e perseverante ades\u00e3o livre na f\u00e9 e na obedi\u00eancia da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Ora, o mesmo S. Agostinho, no seu Tratado sobre a Trindade, vislumbra uma poderosa analogia de Deus Trindade na pessoa quando esta se manifesta enquanto mente\/consci\u00eancia que conhece e ama, analogia que n\u00e3o podemos aqui desenvolver. \u00c9 a pessoa que \u00e9 a analogia de Deus Trindade, n\u00e3o o inverso. Quer dizer, primeiro, o santo fil\u00f3sofo colocou-se diante do que Deus revela de Si mesmo e se imp\u00f5e como exig\u00eancia \u00e0 f\u00e9, pela qual ele se entrega a essa revela\u00e7\u00e3o, para depois, pela sua intelig\u00eancia, encontrar no que conhece de si mesmo, uma poderosa analogia do pr\u00f3prio Deus, que lhe permite aproximar-se mais inteiro da fundura sem fundo do mist\u00e9rio de Deus, com a f\u00e9 e com a raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem; o meu prop\u00f3sito \u00e9 fazer exerc\u00edcio semelhante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o divina, recordando uma verifica\u00e7\u00e3o antiga: pode encontrar-se no acto da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, nomeadamente musical, uma poderosa analogia do acto criador e redentor de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos por nos dar conta do fen\u00f3meno significativo de que s\u00f3 \u00e0 actividade art\u00edstica se aplica, no senso e na linguagem comuns, o termo cria\u00e7\u00e3o, de si um termo religioso, uma vez que implica o Criador. Os cientistas descobrem, os t\u00e9cnicos inventam, e no pr\u00f3prio termo inven\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente etimologicamente algo de descoberta. Os artistas criam. N\u00e3o \u00e9 que nas patentes de inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o esteja presente uma certa dimens\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o, mas, na realidade, o inventor n\u00e3o pode sen\u00e3o descobrir o modo de trazer \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de acto as pot\u00eancias da mat\u00e9ria tal como ela existe na natureza. Por isso, mais inventa, mais descobre, do que cria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artista, o compositor\u2014 para nos centrarmos agora no nosso caso\u2014 parte certamente de algo que lhe \u00e9 dado, dos sons de altura diferente que a tradi\u00e7\u00e3o organizou em modos, dos ritmos que a tradi\u00e7\u00e3o organizou em regularidades mais ou menos est\u00e1veis, mas a depend\u00eancia da obra final em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mat\u00e9ria bruta de partida n\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel\u2014 por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o, em que tal depend\u00eancia \u00e9 mensur\u00e1vel, na medida em que depende totalmente das leis f\u00edsicas de que tal mat\u00e9ria bruta foi dotada. Na obra musical, tal depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel, porque a possibilidade aberta pela mat\u00e9ria bruta \u00e9 simplesmente infinita, do que resulta que, se quando se inventa um trans\u00edstor, se pode imediatamente fabricar em s\u00e9rie milhares de trans\u00edstores, que s\u00e3o cada um deles um trans\u00edstor\u2014 o do meu r\u00e1dio, distinto do do meu vizinho\u2014, quando Beethoven criou uma sua sinfonia passou a haver, que n\u00e3o havia antes, uma sinfonia n\u00ba tal, que \u00e9 aquela, \u00fanica e irrepet\u00edvel como uma pessoa \u00e9 \u00fanica e irrepet\u00edvel. Um pl\u00e1gio total de uma sinfonia de Beethoven n\u00e3o vem a ser a 10\u00ba sinfonia de Beethoven, para a qual ele escreveu, de facto, esbo\u00e7os, mas que n\u00e3o chegou a terminar; como n\u00e3o se pode chamar tal aos exerc\u00edcios\u2014 que os h\u00e1\u2014 de compor uma sinfonia com aquele material socorrendo-se do conhecimento profundo da t\u00e9cnica e da orquestra\u00e7\u00e3o t\u00edpicas de Beethoven. Entretanto, mesmo que se possa falar em t\u00e9cnica e orquestra\u00e7\u00e3o t\u00edpicas de Beethoven, que s\u00e3o reconhec\u00edveis, ele poderia ter escrito 41 sinfonias como Mozart, mas escreveu e completou apenas nove.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 aqui consider\u00e1mos a iman\u00eancia do criador \u00e0 criatura, isto \u00e9, da depend\u00eancia total da criatura em rela\u00e7\u00e3o ao criador quanto a vir ao ser: sem Beethoven n\u00e3o haveria as sinfonias n\u00ba 1\u00aa e, 2\u00aa etc \u201cde Beethoven\u201d, que \u00e9 o que elas s\u00e3o, uma vez que na sua identidade e ser participam totalmente do seu criador. E quando se trata de uma obra de autor an\u00f3nimo, tamb\u00e9m assim a identidade da obra participa do seu criador, mesmo que n\u00e3o seja conhecido por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o acto criador de Deus tamb\u00e9m coloca e causa uma transcend\u00eancia do criador em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 criatura, de modo que a criatura tem a sua vida pr\u00f3pria, mais ou menos como, desde que se forma no feto o sistema circulat\u00f3rio, este \u00e9 completamente aut\u00f3nomo do da m\u00e3e. \u00c9 da percep\u00e7\u00e3o e senso comum que os romances, as pinturas, as esculturas, as obras musicais e m\u00fasico-dram\u00e1ticas t\u00eam a sua vida pr\u00f3pria e fazem muito frequentemente, no p\u00fablico que interage com elas, um percurso muito diferente, por vezes muito contrastante at\u00e9, daquele que o seu autor imaginava ou desejava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os compositores rom\u00e2nticos, de que Beethoven foi uma prim\u00edcia, deixaram-nos literariamente a imagem de perseguirem o ideal de plasmarem as suas obras com a sua vida interior mais profunda, ao sabor dos acontecimentos por vezes mais dram\u00e1ticos e entretecedores da sua vida, e h\u00e1 at\u00e9 ensaios biogr\u00e1ficos deles que pretendem ir ao encontro disso mesmo, de descobrir nas suas obras express\u00e3o dessa correla\u00e7\u00e3o \u00edntima entre elas e a vida ou o momento mais ou menos conjuntural da biografia do compositor. Ainda que n\u00e3o se possa negar totalmente que possa haver essa rela\u00e7\u00e3o, mesmo que ela n\u00e3o seja expl\u00edcita\u2014 como, por exemplo, a Grande Missa de Mozart, que ele comp\u00f4s em cumprimento de uma promessa pela sua mulher\u2014 no entanto, no acto de criar \u00e9 um dinamismo e uma compet\u00eancia muito espec\u00edficos da pessoa do criador que entram em ac\u00e7\u00e3o, independentes do estado de esp\u00edrito em que ele se encontre agora ou depois, pelo que podemos e devemos imaginar um compositor em ac\u00e7\u00e3o de criar como\u2014 num exemplo extremo\u2014 um palha\u00e7o a terminar o seu n\u00famero mesmo depois de saber que a sua m\u00e3e ou a sua mulher morreu. Termin\u00e1-lo-\u00e1 certamente, conforme o criou e planeou para a execu\u00e7\u00e3o, e ningu\u00e9m o notar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, os documentos dizem-nos que as 7\u00aa e 8\u00aa sinfonias de Beethoven foram escritas simultaneamente, sobretudo no ver\u00e3o de 1812, e estreadas tamb\u00e9m simultaneamente, isto \u00e9, no mesmo concerto, dois anos depois da sua conclus\u00e3o, em 1814. Ora, do ver\u00e3o de 1812, mais exactamente de 6 e 7 de Junho, data um dos dois documentos mais \u00edntimos e mais famosos do compositor, a saber, a que ficou conhecida com a \u201ccarta \u00e0 imortal amada\u201d, uma bel\u00edssima carta de amor, cuja destinat\u00e1ria ficou para sempre desconhecida\u2014 apesar de v\u00e1rios palpites muito plaus\u00edveis\u2014 por n\u00e3o ter nunca chegado \u00e0s suas m\u00e3os; o documento foi encontrado bastantes anos depois da morte do compositor entre os seus pap\u00e9is. A carta revela um estado de esp\u00edrito exaltad\u00edssimo no amor a uma mulher que nomeia apenas por iniciais\u2014 n\u00e3o se sabe porqu\u00ea\u2014 e uma express\u00e3o muito ardente e espiritual, m\u00edstica at\u00e9, desse amor. Eis um pequenino excerto que merece ser contemplado, qual texto de uma m\u00edstica ou m\u00edstico crist\u00e3o: <em>Meu anjo, meu tudo, meu eu!\u2026 Porqu\u00ea este desgosto profundo, quando a necessidade o exige? Seria poss\u00edvel o nosso amor sem tantos sacrif\u00edcios, sem exigir tudo? Seria poss\u00edvel que n\u00e3o fosses tudo para mim e eu tudo para ti? Por amor de Deus, contempla a natureza e rende o teu esp\u00edrito \u00e0 evid\u00eancia. O amor exige tudo e com raz\u00e3o: assim eu de ti, tu de mim. Se estiv\u00e9ssemos unidos, esta dor n\u00e3o te afectaria mais do que a mim. A minha viagem foi horr\u00edvel\u2026 <\/em>[viagem que os separou, certamente].<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> E no entanto, que podemos encontrar disto em duas sinfonias t\u00e3o diferentes, compostas em simult\u00e2neo, \u00e0s quais subjazem ideias, pontos de partida e de chegada musicais t\u00e3o diferentes? Nas palavras do compositor, as obras como que se lhe apresentam, no momento inicial, e ele rende-se-lhes. Ou\u00e7amo-lo referindo-se ao processo criativo: <em>Altero muito, desprezo e experimento novamente at\u00e9 ficar satisfeito. Come\u00e7o ent\u00e3o a trabalhar mentalmente, alargando aqui, restringindo ali\u2026\u00a0E como tenho consci\u00eancia daquilo que tento fazer, nunca perco de vista a ideia fundamental. Esta eleva-se cada vez mais, e cresce ante os meus olhos at\u00e9 que vejo e ou\u00e7o a sua imagem, moldada e completa, ali de p\u00e9, frente a essa vis\u00e3o mental<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>.<\/em> Quer dizer, h\u00e1 uma ideia inicial que, a partir do momento que surge, come\u00e7a a ter a sua vida e exig\u00eancia pr\u00f3pria, que o compositor s\u00f3 tem como que descobrir e respeitar; mais ou menos como uma personagem de um romance que ganha vida pr\u00f3pria e cuja coer\u00eancia o escritor ter\u00e1 que respeitar. Mas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel servindo-se da totalidade da sua compet\u00eancia, do seu <em>metier, <\/em>do seu saber fazer de compositor. Quanto mais vastos os seus recursos t\u00e9cnicos, mas longe pode ir no conhecimento dessa como que personagem que se vai formando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem; o mesmo compositor naquele estado ardentemente apaixonado h\u00e1 pouco desvelado, simultaneamente criou na 7\u00aa o que algu\u00e9m chamou uma \u201corgia r\u00edtmica\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e na 8\u00aa algo t\u00e3o diferente, caracterizada por uma \u201cboa \u00edndole e, pondo de parte uma ou duas explos\u00f5es\u201d, pela sua \u201curbanidade\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> E, diz ainda o mesmo cr\u00edtico que estou a citar, \u201cque, longe de ser um retrocesso \u00e0 sua <em>primeira maneira <\/em>[isto \u00e9, <em>haydn-mozartiana<\/em> da 1\u00aa e 2\u00aa sinfonias], \u00e9 efectivamente uma das suas mais maduras obras-primas\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> De facto, conta o seu primeiro bi\u00f3grafo que ele justificava a recep\u00e7\u00e3o fria da 8\u00aa, no mesmo concerto de estreia da 7\u00aa, exactamente pelo seu maior valor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta rela\u00e7\u00e3o entre o criador musical e a sua obra, esta iman\u00eancia e transcend\u00eancia do autor \u00e0 sua obra, pode surgir-nos, ent\u00e3o, como analogia do acto criador de Deus, n\u00e3o s\u00f3, mas sobretudo, depois que, exactamente com Beethoven, o compositor deixou de ser um \u201ccriado de libr\u00e9\u201d, como Haydn, seu mestre ainda foi e, tamb\u00e9m quase sempre, o pr\u00f3prio Mozart. Beethoven, a pulso, livrou o compositor da condi\u00e7\u00e3o de assalariado, de criado, pelo que tornou o acto criador ao menos potencialmente mais espiritual, contanto que livre da press\u00e3o da sobreviv\u00eancia. Vivendo uma f\u00e9 crist\u00e3 muito marcada pelos ideais imanentistas do iluminismo e da revolu\u00e7\u00e3o, precisou dessa emancipa\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica para ser espiritual, coisa que os antigos, como Bach e tantos outros, n\u00e3o precisaram para serem verdadeiramente espirituais no acto de criar, uma vez que, para eles, antes do estatuto social e econ\u00f3mico est\u00e1 a sua condi\u00e7\u00e3o humana, sem mais, face a Deus e ao destino eterno n\u2019Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados recentemente 250 anos sobre o seu nascimento, Beethoven merece o nosso reconhecimento por, a seu modo, nos ter mostrado eloquentemente o cumprimento do mandato do criador\u2014 <em>crescei e multiplicai-vos, dominai a terra <\/em>(Gn 1, 28)\u2014 como via para conhecermos e reconhecermos a bondade desse \u00fanico criador que \u00e9 Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> In Emil LUDWIG, <em>Beethoven<\/em>, 3\u00aa ed, Ed Aster, Lisboa, s\/d, p. 71<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> In A. K. HOLLAND, <em>L. van Beethoven<\/em>, in Ralph HILL (Coord), <em>Sinfonia, <\/em>Ed. Ulisseia, Lisboa-Rio de Janeiro, s\/d, p. 101.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibidem p. 119<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> ibidem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> ibidem<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/simonschmid614-5632108\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5879646\">simonschmid614<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5879646\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teofonias | &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12742,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[162,163],"tags":[],"class_list":["post-12741","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pe-pedro-miranda","category-teofonias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12741"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12741\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12785,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12741\/revisions\/12785"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12742"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}