{"id":12722,"date":"2021-06-21T07:00:12","date_gmt":"2021-06-21T06:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12722"},"modified":"2021-06-16T15:41:57","modified_gmt":"2021-06-16T14:41:57","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-21-a-universo-da-descrenca-em-expansao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-21-a-universo-da-descrenca-em-expansao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (21) \u2013 A Universo da Descren\u00e7a em Expans\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Depois de, ao longo de dezassete textos, termos visto as duas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-18-uma-ordem-impessoal\/\">18<\/a>), encontramo-nos j\u00e1 na sua terceira parte. Ap\u00f3s a leitura dos cap\u00edtulos 8 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-19-os-mal-estares-da-modernidade\/\">19<\/a>) e 9 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-20-o-sombrio-abismo-do-tempo\/\">20<\/a>), consideramos agora o cap\u00edtulo 10, de t\u00edtulo \u00abO Universo da Descren\u00e7a em Expans\u00e3o \u00bb, correspondendo \u00e0s p\u00e1ginas 352 a 376.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 75. <em><u>A Arte e o Romantismo. A terceira via.<\/u> \u2013 <\/em>As caracter\u00edsticas da mundivid\u00eancia <em>novecentistas <\/em>continuam a ser exploradas no cap\u00edtulo 10 da obra, de t\u00edtulo \u00abO Universo da Descren\u00e7a em Expans\u00e3o \u00bb (<em>The Expanding Universe of Unbelief)<\/em>, \u00e0s p\u00e1ginas 352 a 376.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor inicia o cap\u00edtulo tra\u00e7ando um paralelo entre o novo espa\u00e7o livre propiciado pelo imagin\u00e1rio c\u00f3smico moderno (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-20-o-sombrio-abismo-do-tempo\/\">74<\/a>) e a reconfigura\u00e7\u00e3o da arte no per\u00edodo rom\u00e2ntico, em que o acento deixa de estar no ideal de <em>mimesis <\/em>(imita\u00e7\u00e3o) e passa a estar colocado na <em>cria\u00e7\u00e3o<\/em>. Tal mudan\u00e7a \u00e9 acompanhada da eros\u00e3o de pontos de refer\u00eancia <em>publicamente <\/em>dispon\u00edveis, outrora ao dispor do discurso art\u00edstico (p. 352). Assim, \u00abonde antes a linguagem po\u00e9tica podia confiar em certas ordens de sentido publicamente dispon\u00edveis, agora tem de consistir numa linguagem de sensibilidade articulada\u00bb. A <em>cria\u00e7\u00e3o de uma linguagem<\/em> \u00e9, portanto, uma necessidade (p. 353), por forma a superar a referida indisponibilidade de uma linguagem p\u00fablica, mediante o recurso a s\u00edmbolos que ocupem o seu lugar \u2013 o que est\u00e1 apenas dispon\u00edvel para o poder criativo, ou para o g\u00e9nio (p. 357): \u00ab[o]s poemas consistem em encontrar palavras para n\u00f3s\u00bb (p. 353). Desenvolvimentos similares se encontram na pintura (por ex., Caspar David Friedrich).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m a m\u00fasica se torna \u00ababsoluta\u00bb<em>. <\/em>Diferentemente, por ex., do que ocorre com a m\u00fasica lit\u00fargica (ou \u2013 o exemplo \u00e9 tamb\u00e9m de Taylor \u2013 com a recita\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias por Bardos), em que a dimens\u00e3o <em>\u00f4ntica <\/em>\u2013 a realidade do culto, comunional \u2013 prevalece sobre o efeito est\u00e9tico, agora evolui no sentido de poder ser apreendida apenas e somente enquanto fen\u00f3meno com esta \u00faltima natureza est\u00e9tica (pp. 354-356, com exemplos e desenvolvimento).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja na m\u00fasica, seja na poesia, seja na pintura, as linguagens art\u00edsticas desvinculam-se de objectos determinados e precisos (p. 356). Mas, ainda assim, enquanto aptas a <em>mover <\/em>dimens\u00f5es profundas no ser humano. Nestes precisos termos, a via art\u00edstica oferece uma <em>via alternativa <\/em>\u00e0 <em>via te\u00edstica<\/em> de escapar \u00e0 ordem moral moderna. \u00abA ideia \u00e9: o mist\u00e9rio, a profundidade, a como\u00e7\u00e3o profunda, pode ser, tal qual sabemos, totalmente antropol\u00f3gica. Ateus, humanistas agarram-se a isto quando v\u00e3o a concertos, operas, l\u00eaem grande literatura. E assim pode complementar-se uma \u00e9tica e uma antropologia cient\u00edfica que permanece muito redutora e achatada.\u00bb (p. 356)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este novo quadro alinha com o novo imagin\u00e1rio c\u00f3smico moderno. N\u00e3o como uma sua express\u00e3o \u2013 como ocorria em ordens morais pr\u00e9-modernas \u2013, dado que esse <em>espelho <\/em>\u00e9 dado pela linguagem da ci\u00eancia (p. 357), mas como um seu contrapeso, permitindo que as categorias est\u00e9ticas desempenhem finalidades \u00e9ticas (Schiller, p. 358): \u00abAssim a est\u00e9tica foi constitu\u00edda em categoria \u00e9tica, como fonte de respostas \u00e0 quest\u00e3o: como devemos viver? Qual \u00e9 o nosso m\u00e1ximo fim ou realiza\u00e7\u00e3o? Tal d\u00e1 um lugar crucial \u00e0 arte. A beleza \u00e9 o que nos vai salvar, completar. O que pode ser encontrado fora de n\u00f3s, na natureza, ou na <em>grandeur <\/em>do cosmos (\u2026) Mas com vista a nos abrirmos totalmente a isto, devemos estar disto totalmente conscientes, e para tal \u00e9 necess\u00e1rio articul\u00e1-lo nas linguagens da arte. Assim, a beleza criada, as obras de arte, s\u00e3o n\u00e3o apenas importantes <em>loci <\/em>de beleza capazes de nos transformar, s\u00e3o tamb\u00e9m vias essenciais de acesso \u00e0 beleza que n\u00e3o criamos. No per\u00edodo rom\u00e2ntico, a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica torna-se o mais alto dom\u00ednio da actividade humana.\u00bb (p. 359)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer dizer: encontra-se uma nova fonte de agir, a uma nova fonte de sentido, que, operando em termos puramente <em>imanentes, <\/em>se constitui como alternativa, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 via crente, como tamb\u00e9m ao ideal \u00abiluminista\u00bb (p. 359) \u2013 sem preju\u00edzo de poder ser articulada tamb\u00e9m em termos religiosos (<em>v.g. Teologia est\u00e9tica <\/em>de von Balthasar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Cf., justamente como proposta de ponte de contacto com esta sensibilidade, os nn.\u00ba 106 a 109 e 175 do recente <em>Direct\u00f3rio para a Catequese.<\/em>]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O per\u00edodo rom\u00e2ntico, pois, n\u00e3o s\u00f3 eleva a <em>beleza <\/em>a chave para a realiza\u00e7\u00e3o do homem, como desenvolve <em>linguagens subtis <\/em>(<em>subtler languages, <\/em>termo de Wasserman), agora tornadas necess\u00e1rias. E a nova linguagem art\u00edstica <em>absoluta <\/em>desenvolve-se sem qualquer necessidade de <em>compromisso \u00f4ntico, <\/em>isto \u00e9, sem <em>necessidade <\/em>de refer\u00eancias objectivas precisas (p. 359) \u2013 embora as possa tamb\u00e9m haver, conforme se observou j\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um \u00edcone que espelha este novo espa\u00e7o <em>amb\u00edguo, interm\u00e9dio, <\/em>\u00e9 a <em>m\u00fasica<\/em>: \u00abEstou a pensar no modo como a m\u00fasica executada publicamente, numa sala de concertos ou de \u00f3pera, se torna uma actividade especialmente importante e s\u00e9ria na Europa e Am\u00e9rica burguesas novecentistas. As pessoas come\u00e7am a assistir a concertos com uma intensidade quase religiosa. A analogia n\u00e3o \u00e9 deslocada. A execu\u00e7\u00e3o tem qualquer coisa de um rito, e conservou-o at\u00e9 aos dias de hoje. Existe a sensa\u00e7\u00e3o de que algo de grandioso est\u00e1 a ser dito nesta m\u00fasica. Tamb\u00e9m isto ajudou a criar uma esp\u00e9cie de espa\u00e7o interm\u00e9dio, nem explicitamente crente, mas tamb\u00e9m n\u00e3o ate\u00edsta, uma esp\u00e9cie de espiritualidade indefinida.\u00bb Um outro poss\u00edvel \u00edcone \u00e9 o turismo (n\u00e3o necessariamente religioso) quando dirigido a lugares tipicamente ricos em significado religioso (p. 360). S\u00e3o caracter\u00edsticas de \u00e9poca que, ali\u00e1s, espelham as <em>incertezas <\/em>pr\u00f3prias da identidade moderna (p. 361), na oscila\u00e7\u00e3o entre a descren\u00e7a e a busca de pontos s\u00f3lidos de aponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[R\u00fcdiger Safranski, na obra <em>Nietzsche <\/em>(Carl Hanser Verlag: M\u00fcnchen, 2019), pp. 9 e ss., serve-se justamente da <em>M\u00fasica<\/em> para introduzir um Autor novecentista como Nietzsche, com reflex\u00f5es que se tornam compreens\u00edveis dentro destas coordenadas de sentido. Algumas passagens: \u00abO mundo verdadeiro \u00e9 M\u00fasica. A M\u00fasica \u00e9 o imensur\u00e1vel [<em>das Ungeheuere<\/em>]. Quem a ouve pertence ao Ser. Assim Nietzsche a viveu. A M\u00fasica era tudo. Em nenhum caso deveria terminar. Contudo tamb\u00e9m ela cessa, e por isso surge o problema de como continuar a viver quando a M\u00fasica j\u00e1 passou. (\u2026) O regresso a um mundo sem M\u00fasica \u00e9 um problema sobre o qual Nietzsche reflectiu sem cessar. Existe uma vida al\u00e9m da M\u00fasica, mas como se aguenta de p\u00e9? <em>Sem M\u00fasica toda a vida seria um erro, <\/em>escreveu ele certa vez.\u00bb (tradu\u00e7\u00e3o minha)]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazendo um agrafo ao cap\u00edtulo anterior, conclui Taylor: \u00abA passagem do cosmos para o universo teve duas importantes consequ\u00eancias. Permitiu o desenvolvimento de formas mais profundas e s\u00f3lidas de materialismo e descren\u00e7a, e deu tamb\u00e9m um novo formato \u00e0 press\u00e3o cruzada sofrida pela identidade protegidas entre a cren\u00e7a e a descren\u00e7a. A par do desenvolvimento da arte p\u00f3s-rom\u00e2ntica, tal ajuda a criar um espa\u00e7o neutral entre elas.\u00bb (p. 361)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 76. <em><u>Causas para a consolida\u00e7\u00e3o da descren\u00e7a<\/u>. \u2013 <\/em>Deve-se a v\u00e1rias causas a expans\u00e3o, ao longo do s\u00e9c. XIX, do universo da descren\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Pelas mesmas causas que j\u00e1 antes motivaram, no s\u00e9c. XVIII, a recusa da cren\u00e7a religiosa: a simpatia com o ideal de <em>poder <\/em>e de <em>invulnerabilidade <\/em>da identidade, persuasivo para quem n\u00e3o \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s cr\u00edticas que se lhe dirigem;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Sendo um dos valores fundamentais do <em>humanismo exclusivo <\/em>o altru\u00edsmo, a resson\u00e2ncia de duas cr\u00edticas que aquele dirigia ao <em>Cristianismo<\/em> (se s\u00e3o procedentes ou n\u00e3o, \u00e9 uma outra quest\u00e3o): o <em>humanismo exlusivo <\/em>seria <em>melhor <\/em>do que o Cristianismo, pois que postulava a exig\u00eancia de uma ac\u00e7\u00e3o correcta mesmo sem qualquer \u00abpr\u00e9mio\u00bb posterior \u2013 isto \u00e9, a benevol\u00eancia seria um fim em si \u2013; e seria puramente universal, sem ter a tenta\u00e7\u00e3o de excluir da considera\u00e7\u00e3o her\u00e9ticos ou descrentes (p. 361). Este argumento \u00e9 particularmente relevante no quadro brit\u00e2nico, por ex. no utilitarista J. S. Mill (p. 398). A ades\u00e3o a um tal quadro conduz \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da descren\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Um outro factor passa pela afirma\u00e7\u00e3o do valor do <em>desejo <\/em>e da <em>sensualidade<\/em> humanas, que denunciaria as exig\u00eancias, tidas por falsas, colocadas para quem sentisse voca\u00e7\u00e3o espiritual. A valoriza\u00e7\u00e3o de tal dimens\u00e3o da vida humana era vista como mais bem enquadrada numa mundivid\u00eancia naturalista (p. 362), e n\u00e3o numa vida religiosa te\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estes factores, provindos de per\u00edodo anterior (ainda que n\u00e3o necessariamente com os mesmos acentos), acrescenta Taylor dois outros: o impacto da ci\u00eancia e da cultura letrada (<em>scholarship<\/em>) por um lado; e o novo imagin\u00e1rio c\u00f3smico, por outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Quanto ao primeiro \u2013 a respeito da ci\u00eancia, pense-se na teoria da evolu\u00e7\u00e3o; na cultura letrada, pense-se na abordagem hist\u00f3rico-cr\u00edtica aos livros b\u00edblicos \u2013, importa o facto de se ter dado lugar a um quadro de compreens\u00e3o que se ajusta de modo muito pr\u00f3ximo a uma perspectiva <em>materialista <\/em>do mundo, tornando-a mais <em>plaus\u00edvel<\/em> a via de descren\u00e7a, e menos plaus\u00edveis outras leituras alternativas (p. 362). N\u00e3o tanto, por\u00e9m, ao n\u00edvel de afirma\u00e7\u00f5es de pormenor, mas sobretudo ao n\u00edvel da <em>forma de abordagem. <\/em>Com efeito, uma leitura do mundo como resultante<em> apenas<\/em> de leis <em>gerais <\/em>e <em>necess\u00e1rias <\/em>a serem devidamente investigadas afigura-se incompat\u00edvel com a aceita\u00e7\u00e3o de um Deus providente que interv\u00e9m no tempo e na hist\u00f3ria (pp. 362-363). Se adoptada aquela primeira <em>forma mentis, <\/em>\u00aba f\u00e9 num Deus pessoal pertence a um ponto de vista menos adulto, onde a pessoa ainda tem a necessidade de sentir uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com as coisas; ainda n\u00e3o est\u00e1 preparada para enfrentar a verdade \u00faltima. Uma linha de pensamento desta natureza, constantemente a ganhar for\u00e7a, percorre o pensamento e cultura modernas, desde Espinosa, passando por Goethe, at\u00e9 ao momento presente.\u00bb (p. 363)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perspectiva naturalmente t\u00e3o mais forte qu\u00e3o mais infantilizada for a perspectiva da f\u00e9 (pp. 364-365): \u00abDe tudo isto podemos ver como o apelo do materialismo cientifico n\u00e3o \u00e9 tanto devido \u00e0 for\u00e7a das suas conclus\u00f5es singulares como ou quadro epistemol\u00f3gico subjacente, e por raz\u00f5es \u00e9ticas. \u00c9 visto como o est\u00e1dio da maturidade, da coragem, da virilidade, destronando os medos infantis e a sentimentalidade.\u00bb (p. 365)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cf., sobre a rela\u00e7\u00e3o entre as <em>formas de f\u00e9 <\/em>e a <em>convers\u00e3o ao materialismo, <\/em>as pp. 365-366.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(e) Justamente esta linha de leitura \u00e9 refor\u00e7ada pelo novo imagin\u00e1rio c\u00f3smico: \u00abO vasto universo, no qual facilmente n\u00e3o se d\u00e1 pela presen\u00e7a de um Deus pessoal ou um fim benigno, parece ser impessoal no sentido mais amea\u00e7ador, cego e indiferente ao nosso destino. Uma compreens\u00e3o em termos de uma lei causal impessoal parece ser pedida por um novo profundo sentido de realidade no universo.\u00bb (p. 363)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal perspectiva alinha, ali\u00e1s, com a perspectiva do \u00abobservador imparcial\u00bb (Hutcheson) pr\u00f3pria da ordem moral moderna (v. n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">50<\/a>) (p. 364). A hist\u00f3ria pode, a partir desta perspectiva, ser lida em vista do <em>desencantamento<\/em>, culminando numa <em>ordem universal impessoal <\/em>e numa certa <em>ordem moral. <\/em>(Note-se, por\u00e9m, que, entre as elites do s\u00e9x. XIX, para algumas a sa\u00edda n\u00e3o foi a via materialista, mas a adop\u00e7\u00e3o de perspectivas \u00abespiritualistas\u00bb, como, por ex., mediante a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 Parapsicologia. Linhas, tamb\u00e9m estas, que continuam at\u00e9 ao presente (p. 364)).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conjuga\u00e7\u00e3o destes v\u00e1rios factores conduziu a que a perspectiva materialista possa hoje, para grandes massas da popula\u00e7\u00e3o, poder ser perspectivada como simplesmente <em>senso comum <\/em>(p. 366), circunscrevendo o horizonte daquilo que pode ser potencialmente crido (p. 374). E, ao mesmo tempo, \u00e9 mais profundo, mais enraizado: se, por um lado, n\u00e3o deixa de se fazer sentir uma forte perda de sentido, por outro, ela surge associada a uma forte invulnerabilidade \u2013 se nenhum sentido est\u00e1 a\u00ed presente no mundo, ent\u00e3o o homem <em>est\u00e1 libertado <\/em>de qualquer compromisso. Tal no\u00e7\u00e3o, j\u00e1 presente no Epicurismo (que, precisamente por essa desvincula\u00e7\u00e3o, propugnava a <em>ataraxia<\/em>), \u00e9 combinada com uma dimens\u00e3o activa no materialismo moderno: o homem a propor os seus pr\u00f3prios fins; a descobri-los na sua dimens\u00e3o mais profundas, mas sempre a ser o pr\u00f3prio (<em>auto-<\/em>), e n\u00e3o um sentido radicalmente outro que o chama do exterior, a definir a real ordem das coisas. E podendo construir uma ordem \u00abde liberdade e de benef\u00edcio rec\u00edproco\u00bb no seio de um universo hostil: \u00abEstamos sozinhos no universo, e isto atemoriza; mas tamb\u00e9m pode ser emocionante.\u00bb (p. 368) Experi\u00eancia que pode ser vivida de v\u00e1rias formas, mas tamb\u00e9m com admira\u00e7\u00e3o por um mundo mesmo que de fei\u00e7\u00f5es meramente materiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(f) Finalmente, \u00e9 tamb\u00e9m de referir o contributo do <em>imagin\u00e1rio social moderno, <\/em>com diferentes realidades marcadas pela categoria da <em>simultaneidade <\/em>pr\u00f3pria da no\u00e7\u00e3o moderna de tempo (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">47<\/a>)<em>, <\/em>que assim contribui para o desaparecimento de um quadro de refer\u00eancia que ancorava formas tradicionais de religi\u00e3o. \u00c9 neste quadro, ali\u00e1s, que encontramos na Santa S\u00e9 uma figura como Pio IX com a censura a vastos elementos da cultura moderna, precisamente porque\u00a0 pressentidos como justamente colocando em causa baluartes da f\u00e9 \u2013 pense-se no famoso <em>Syllabus<\/em> (pp. 368-369).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Ali\u00e1s, se hoje o referido <em>Syllabus <\/em>se afigura \u2013 quando n\u00e3o matizado do ponto de vista hist\u00f3rico \u2013 incompreens\u00edvel, \u00e9 tamb\u00e9m porque aquilo que visava defender j\u00e1 ser uma realidade <em>desaparecida<\/em>. A f\u00e9 viva que <em>sobreviveu <\/em>no quadro moderno \u00e9 aquela que se continuou e continua a afirmar apesar da perda de \u00abalicerces naturais\u00bb, tamb\u00e9m de ordem social, com que antes podia contar.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de <em>desencantamento <\/em>\u2013 de um cosmos pleno de significados ou mesmo de uma ordem impessoal, ainda assim com o reconhecimento de um prop\u00f3sito benigno e de um Criador ben\u00e9volo \u2013 consuma-se agora na <em>nova ordem c\u00f3smica, <\/em>nascida do <em>sombrio abismo do tempo <\/em>(n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-20-o-sombrio-abismo-do-tempo\/\">73<\/a>)<em>, <\/em>na qual o sentido da presen\u00e7a de Deus pode inteiramente evanescer (p. 375). N\u00e3o quer isto dizer que n\u00e3o possa ainda assim haver leituras te\u00edsticas, enquadr\u00e1veis neste novo quadro (h\u00e1-as); simplesmente, \u00e9 poss\u00edvel, quando elas n\u00e3o sejam adoptadas, sentir que o universo em redor confirma essa aus\u00eancia de sentido que o transcenda. Isto \u00e9, se em 1500 era <em>imposs\u00edvel <\/em>n\u00e3o ser interpelado pela forte carga de sentido experimentada na vida corrente, e de sentido <em>te\u00edstico, <\/em>\u00e9 perfeitamente poss\u00edvel a partir da consuma\u00e7\u00e3o da Idade moderna: \u00ab\u00e9 o sentido de uma aus\u00eancia; de que toda a ordem, de que todo o sentido prov\u00e9m de n\u00f3s. N\u00e3o encontramos qualquer eco no exterior. (\u2026) Emergiu uma ra\u00e7a de humanos que experimenta o seu mundo como totalmente imanente. Em certos aspectos, podemos entender que esta realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria da escurid\u00e3o, mas n\u00e3o deixa por isso de ser uma realiza\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria.\u00bb (p. 376)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O retrato novecentista \u2013 e a parte III da obra \u2013 termina na pr\u00f3xima glosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem <i>&#8211;<\/i>\u00a0<i>O viajante sobre o mar de n\u00e9voa<\/i>, 1818 | Caspar David Friedrich [1774-1840]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12723,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12722"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12724,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12722\/revisions\/12724"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}