{"id":12680,"date":"2021-06-24T07:00:04","date_gmt":"2021-06-24T06:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12680"},"modified":"2021-06-08T11:16:41","modified_gmt":"2021-06-08T10:16:41","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-4-teresa-de-lisieux-e-joao-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-4-teresa-de-lisieux-e-joao-da-cruz\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 4 &#8211; Teresa de Lisieux e Jo\u00e3o da Cruz"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Teresa de Lisieux e Jo\u00e3o da Cruz<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Maria da Trindade, novi\u00e7a de Teresa de Lisieux, referiu nas suas notas: \u00abMuitas vezes, ela (Teresa) tinha-me expressado o seu desejo de que o nosso Padre S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz fosse declarado doutor da Igreja para acreditar aos seus escritos e para o bem de um maior n\u00famero de almas. Estou convencida de que ela, desde o c\u00e9u, trabalhou por este feliz e glorioso resultado que enche de alegria a todos os filhos do Carmelo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de estranhar que, de facto, a santa manifestasse este seu desejo, pois poderia estar ao corrente dos tr\u00e2mites que j\u00e1 ent\u00e3o se faziam neste sentido.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><strong> Cita\u00e7\u00f5es dos escritos sanjoaninos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o francesa das Obras Completas de Teresa anotam-se pontualmente os lugares em que aparecem o nome e os escritos de Jo\u00e3o da Cruz, e d\u00e3o-se as cita\u00e7\u00f5es correspondentes. Cita o <em>C\u00e2ntico <\/em>umas 50 vezes; a <em>Chama<\/em>, 16 vezes; a <em>Noite<\/em>, 3 vezes; poemas: <em>Sem arrimo e com arrimo<\/em>, 4 vezes; <em>Ap\u00f3s um amoroso lance<\/em>, uma vez; \u00ab<em>Ditos de Luz e Amor<\/em>\u00bb, 13 vezes; o <em>Epistol\u00e1rio<\/em>, 5 vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira vez que cita o santo \u00e9 numa carta a sua irm\u00e3 Celina de 18 de Julho de 1890. Transcreve-lhe numa folha uns textos do profeta Isa\u00edas, do Apocalipse, do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e termina copiando a estrofe oitava do poema <em>Numa noite escura<\/em>.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><strong> Declara\u00e7\u00e3o fundamental de Teresa<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 que lembrar a declara\u00e7\u00e3o fundamental da pr\u00f3pria santa: \u00ab<em>Ah! quantas luzes n\u00e3o extra\u00ed das obras do Nosso Pai S. Jo\u00e3o da Cruz!&#8230; Na idade de 17 e 18 anos, n\u00e3o tinha outro alimento espiritual<\/em>\u00bb. Deve ao Santo luzes e alimento espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os 17 e 18 anos de Teresa, em que andava mergulhada na leitura do Santo, coincidem com as festas do terceiro centen\u00e1rio da morte de frei Jo\u00e3o. Sabemos at\u00e9 quem pregou o tr\u00edduo em honra do santo no mosteiro de Lisieux. Maria dos Anjos, sua mestra de novi\u00e7as declara no Processo Apost\u00f3lico: \u00abela \u2013 Teresa \u2013 amava acima de tudo o santo Evangelho, os livros dos Santos, o C\u00e2nticos dos C\u00e2nticos, as <em>Obras de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/em>. Um dia, n\u00e3o sei se ela teria 17 anos, falou-me de certas passagens da m\u00edstica do Santo com uma compreens\u00e3o \u2013 intelig\u00eancia \u2013 t\u00e3o superior \u00e0 sua idade que fiquei completamente admirada\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.Outra confiss\u00e3o pessoal<\/strong>: \u00abMas mais tarde todos os livros me deixaram na aridez, e estou ainda neste estado. Se abro um livro escrito por um autor espiritual (mesmo o mais belo, o mais comovedor), sinto logo oprimir-se-me o cora\u00e7\u00e3o, e leio, por assim dizer, sem compreender; e, se compreendo, o meu entendimento para, sem poder meditar&#8230; Nesta impot\u00eancia, a Sagrada Escritura e a Imita\u00e7\u00e3o v\u00eam em meu aux\u00edlio. Encontro nelas um alimento s\u00f3lido e muito puro. Mas \u00e9 sobretudo o <em>Evangelho<\/em> que me vale durante as minhas ora\u00e7\u00f5es. Nele encontro tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e0 minha pobre alminha. Nele descubro sempre novas luzes, sentidos escondidos e misteriosos&#8230;\u00bb (Ms A 83 v).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o da Cruz deixou de iluminar e alimentar a Teresa de Lisieux as partir dos seus 18 anos? A resposta \u00e9 clara, conforme as declara\u00e7\u00f5es das suas irm\u00e3s de comunidade: continuou a ilumin\u00e1-la e a ser o seu mestre, embora lesse, como fazia o pr\u00f3prio Jo\u00e3o da Cruz, sobretudo a Sagrada Escritura, especialmente os evangelhos.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"5\">\n<li><strong> Significado dos textos sanjoaninos na vida e doutrina de Teresa<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relendo as obras de Teresa podemos ver como Jo\u00e3o da Cruz foi o seu alimento, isto \u00e9, podemos ver como assimilou os seus ensinamentos e como aplicava a si mesma com consci\u00eancia reflexa passagens e doutrinas do Santo. E como por meio da linguagem sanjoanina \u2013 dos seus textos \u2013 exprime as suas experi\u00eancias e nos aproxima do que acontecia na sua alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos aduzir muitos exemplos. Mas bastam alguns:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Bebi do meu Amado na adega interior<\/em>: Pouco antes da mencionada confiss\u00e3o pessoal sobre a sua leitura dos livros do Santo, disse: \u00abAgora apenas me guia o abandono. N\u00e3o tenho nenhuma outra b\u00fassola!&#8230; N\u00e3o posso pedir mais nada com ardor, excepto o cumprimento perfeito da vontade de Deus sobre a minha alma, sem que as criaturas possam p\u00f4r obst\u00e1culos. Posso dizer estas palavras do <em>C\u00e2ntico Espiritual <\/em>do N. Pai S. Jo\u00e3o da Cruz: \u00ab<em>Bebi do meu Amado na adega interior<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 muito dizer que tudo isto se realizou na sua alma, se pensarmos que o Santo dedica estas duas can\u00e7\u00f5es j\u00e1 a cantar a vida da alma chegada \u00e0 mais alta perfei\u00e7\u00e3o. Teresa escreve isto uns meses depois de se ter oferecido ao Amor Misericordioso em 1895.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este tipo de alega\u00e7\u00f5es de uma passagem e o consequente coment\u00e1rio personalizado fazem ver uma vez mais que se serve do Santo para fazer uma leitura da sua alma, e desde essa leitura entende e enriquece o pr\u00f3prio texto sanjoanino.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"6\">\n<li><strong> Sem outra luz nem <em>guia excepto a que no cora\u00e7\u00e3o ardia<\/em><\/strong><em>: <\/em>Pouco mais \u00e0 frente, ao falar dos seus catorze anos, enaltece-se dizendo que se os s\u00e1bios lhe perguntassem, \u00absem d\u00favida teriam ficado admirados ao ver uma crian\u00e7a de catorze anos compreender os segredos da perfei\u00e7\u00e3o, segredos que toda a sua ci\u00eancia lhes n\u00e3o pode descobrir, pois para os possuir \u00e9 preciso ser pobre de esp\u00edrito\u00bb. Nesta altura, explica a sua posi\u00e7\u00e3o: \u00abComo diz S. Jo\u00e3o da Cruz: <em>Sem outra luz nem guia excepto a que no cora\u00e7\u00e3o ardia<\/em>.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Um pouquinho de puro amor<\/em>. No mesmo contexto do seu grande discernimento vocacional e eclesial, reaparecem as palavras de Jo\u00e3o da Cruz. Teresa escreve: \u00ab\u00d3 meu Jesus! eu amo-Te! Amo a Igreja, minha M\u00e3e. Sei que \u00abo mais pequeno acto de puro amor lhe \u00e9 mais \u00fatil que todas as outras obras juntas\u00bb, que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a cita\u00e7\u00e3o da famosa e pol\u00e9mica can\u00e7\u00e3o 29 de CB: \u00abUm pouquinho de puro amor&#8230; faz mais proveito \u00e0 Igreja, embora pare\u00e7a n\u00e3o fazer nada, que todas as demais obras juntas\u00bb (n. 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras do Santo s\u00e3o para ela luz, alimento, est\u00edmulo, inspira\u00e7\u00e3o, e confirmam-na na sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica e mission\u00e1ria, nas suas convic\u00e7\u00f5es do valor da ora\u00e7\u00e3o e do sacrif\u00edcio, etc., mas tamb\u00e9m lhe trazem interroga\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es sadias e humildes.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"7\">\n<li><strong> Quanto mais quereis dar, mais fazeis desejar&#8230;<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se noutra passagem sanjoanina \u00abo amor n\u00e3o se paga sen\u00e3o de si mesmo, com amor\u00bb encerrou Teresa o seu ideal de vida ou o ideal da sua empresa como usavam os antigos cavaleiros nas juntas e torneios, de modo parecido no Acto de Oferecimento ao Amor Misericordioso surge uma senten\u00e7a de Jo\u00e3o da Cruz de grande alcance ou resson\u00e2ncia no esp\u00edrito do oferecimento. \u00abBem sei, \u00f3 meu Deus, <em>quanto mais quereis dar, mais fazeis desejar<\/em>\u00bb. O texto sanjoanino \u00e9 da Carta de 8 de Julho de 1589 a Leonor de S\u00e3o Gabriel. Ali podemos ler: \u00abSua Majestade f\u00ea-lo para seu maior proveito; porque, <em>quanto mais quer dar<\/em>, <em>tanto mais faz desejar<\/em>, at\u00e9 nos deixar vazios para nos encher de bens\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Meu Amado, as montanhas<\/em>&#8230; Escrevendo a Celina em 1892, diz-lhe: \u00abCelina, as vastas solid\u00f5es, os horizontes encantadores que se abrem diante de ti devem dizer-te muitas coisas \u00e0 alma? Eu n\u00e3o vejo nada disso, mas digo com S. Jo\u00e3o da Cruz: \u00ab<em>Tenho no meu Amado, as montanhas, os vales solit\u00e1rios, nemorosos<\/em>, etc.\u00bb (CB 14-15)&#8230; E este Bem-amado ensina a minha alma, fala-lhe no sil\u00eancio, nas trevas&#8230;\u00bb.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"8\">\n<li><strong> \u00abOra\u00e7\u00e3o de alma enamorada\u00bb&#8230;<\/strong> Escreve a Celina em Outubro de 1892: \u00abJesus p\u00f4s por assim dizer todas as coisas sob os nossos p\u00e9s. Ent\u00e3o pod\u00edamos dizer com S. Jo\u00e3o da Cruz: \u201c<em>Tudo \u00e9 meu, tudo \u00e9 para mim, a terra \u00e9 minha, os c\u00e9us s\u00e3o meus, Deus \u00e9 meu e a M\u00e3e do meu Deus \u00e9 minha<\/em>\u201d\u00bb.<\/li>\n<li><strong> Chamadas nas obras do Santo: sublinhados, cruzinhas&#8230;<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos de alegar aqui o testemunho de um mudo, mas muito eloquente testemunho que esteve presente junto da cabeceira de Teresa na sua \u00faltima doen\u00e7a. Refiro-me \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o francesa das Obras do Santo; ao volume do C\u00e2ntico Espiritual e da Chama de Amor viva; publicado em 1875; dois tomos reunidos ou encadernados num s\u00f3. Este volume cont\u00e9m umas cruzinhas aqui e ali pelas quais podemos rastrear a alma sanjoanina de Teresa durante esses meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celina escreveu a l\u00e1pis na capa do livro: \u00abOs sinais deste livro e as cruzinhas foram postas pela irm\u00e3 Teresa do Menino Jesus durante a sua \u00faltima doen\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Madre In\u00eas fala tamb\u00e9m destas cruzinhas: \u00ab&#8230; como lhe falasse do seu desejo de morrer de amor, perguntando-lhe como saber\u00edamos que tinha amado a Deus \u201cat\u00e9 morrer\u201d, ela assinalou com uma cruzinha, a l\u00e1pis, no livro esta passagem do mesmo autor (de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz), referente \u00e0s almas consumadas no amor perfeito\u00bb: \u00ab&#8230; morrem com \u00edmpetos e encontros saborosos de amor, etc.\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tr\u00eas passagens de Chama delimitadas com cruzinhas referem-se \u00e0 primeira can\u00e7\u00e3o no coment\u00e1rio ao verso: <em>rompe a tela deste doce encontro<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Testemunhas mudas, mas muito eloquentes, estes textos que falam da morte de amor, do caminho para chegar em breve a esse estilo ou tipo de morte, etc., e da raz\u00e3o da alma enamorada querer essa pressa e essa ruptura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Registo de bristol<\/em>: Al\u00e9m das cruzinhas indicadas temos para detectar as predilec\u00e7\u00f5es de Teresa por certas passagens do C\u00e2ntico Espiritual as indica\u00e7\u00f5es escritas num registo de bristol (esp\u00e9cie de cartolina acetinada) pela mesma santa doente. A sua irm\u00e3 indica como \u00abelas testemunham as outras leituras de Teresa. Reconhece-se facilmente a escrita tremida, t\u00edpica do per\u00edodo da enfermaria, tra\u00e7ada a l\u00e1pis. Teresa tinha certamente bom tino para acertar com o melhor do santo.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"10\">\n<li>Todos os textos sanjoaninos citados (e omitimos mutos outros) e comentados por Teresa de Lisieux dizem bem claro e bem alto da proximidade da disc\u00edpula ao seu mestre e dos benef\u00edcios que tal proximidade acima do tempo e do espa\u00e7o lhe proporcionou. Dizem tamb\u00e9m como as palavras do Santo lhe servem para conseguir ler a sua pr\u00f3pria alma: os seus sentimentos, os seus desejos, as suas viv\u00eancias ou experi\u00eancias espirituais. \u00c9 o seu testemunho pessoal directo.<\/li>\n<li><strong> Testemunhos alheios<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho nascido das pr\u00f3prias obras de Santa \u00e9 refor\u00e7ado e enriquecido pelas declara\u00e7\u00f5es daquelas que a acompanharam mais de perto e a conheceram bem e podem certificar como ningu\u00e9m sobre esta rela\u00e7\u00e3o afectuosa e afectiva e espiritual de Teresa de Lisieux com o seu pai e mestre e guia Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celina declara no Processo Ordin\u00e1rio: \u00abamava muito a S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, porque tinha saboreado particularmente as suas obras\u00bb. E no Processo Apost\u00f3lico especifica: No Carmelo aprendeu a gostar as obras de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, as quais gostou particularmente\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ao contar coisas, recorda: \u00ab&#8230; ao chegar ao mosteiro \u2013 Celina entrou no convento a 14 de Setembro de 1894 \u2013 fui testemunha do seu entusiasmo quando parava diante do gr\u00e1fico da SUBIDA DO MONTE CARMELO do nosso santo padre Jo\u00e3o da Cruz, e fazia-me reparar na linha na qual ele tinha escrito: \u201caqui n\u00e3o h\u00e1 caminho, porque para o justo n\u00e3o h\u00e1 lei\u201d. E, por causa da sua emo\u00e7\u00e3o, faltava-lhe o \u00e2nimo para traduzir a sua felicidade. Esta senten\u00e7a ajudou-a muito a tornar-se independente nas suas explora\u00e7\u00f5es do amor puro, que muitos rotulavam de presun\u00e7\u00e3o. O seu atrevimento chegou at\u00e9 procurar e encontrar um <em>caminho<\/em> completamente novo, o da inf\u00e2ncia espiritual; o qual \u00e9 t\u00e3o direito e breve que deixa de ser caminho, pois vai parar de um s\u00f3 golpe ao cora\u00e7\u00e3o mesmo de Deus. Creio que toda a sua ora\u00e7\u00e3o se encaminhava a procurar a \u00abci\u00eancia do amor\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria da Trindade, a novi\u00e7a predilecta de Teresa de Lisieux n\u00e3o acaba de contar coisas. Entre outras recorda:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abTeresa do Menino Jesus tinha um amor particular\u00edssimo ao nosso pai S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, amor cheio de reconhecimento pelo bem, a for\u00e7a e o \u00e2nimo tirados dos seus escritos. Gostava de falar disto comigo e citava-me de mem\u00f3ria as passagens que mais a tinham impressionado\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abTeresa alimentava um afecto filial para com a nossa Madre Santa Teresa e o nosso pai S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. Sobretudo as obras deste \u00faltimo a inflamavam de amor\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAs Obras do Santo tinham-na encandilado; recitava de mem\u00f3ria longas passagens do C\u00e2ntico Espiritual e da Chama de amor viva, e dizia-me, que no momento das suas grandes prova\u00e7\u00f5es, estas obras a tinham reconfortado e lhe tinham feito um grande bem\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abEste \u00e9 o santo por excel\u00eancia do amor\u00bb, dizia-me. E, de facto, n\u00e3o via nos seus escritos sen\u00e3o a sua doutrina do amor levada at\u00e9 ao grau mais sublime, enquanto tantas almas ficam bloqueadas nas suas ren\u00fancias e na morte \u00e0 natureza e se assustam de tudo isto. Na realidade, o \u00abcaminhito\u00bb de Santa Teresa do Menino Jesus n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o caminho \u00abestreito\u00bb e h\u00e1 que tornar-se muito pequenos para entrar por ele\u00bb. Um dia disse-me: \u201co \u00fanico meio para fazer r\u00e1pidos progressos no caminho do amor, \u00e9 permanecer sempre pequena em tudo. Assim eu agora canto com N. P. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: <em>Abati-me tanto, tanto<\/em>, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria da Trindade pintou, em 1895, para a ermida do Santo, e para a sua festa de 24 de Novembro, em papel especial o desenho do <em>Monte<\/em>. Teresa \u00abmostrou-me toda a sua satisfa\u00e7\u00e3o por isto e chamou a minha aten\u00e7\u00e3o para estas duas senten\u00e7as que lhe eram muito queridas: \u00ab<em>quando com pr\u00f3prio amor n\u00e3o o quis \/ deu-se-me tudo sem ir atr\u00e1s disso<\/em>\u00bb e \u00ab<em>j\u00e1 por aqui n\u00e3o h\u00e1 caminho, pois para o justo n\u00e3o h\u00e1 lei<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abDo C\u00e2ntico Espiritual gostava de me citar as can\u00e7\u00f5es: <em>quanto tu meolhavas<\/em>&#8230; (CB 32); <em>n\u00e3o queiras desprezar-me.<\/em>.. (CB 33) e <em>gozemo-nos, amado.<\/em>.. (CB 36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abMas ver-me-ia obrigada a citar demasiado; n\u00e3o consigo reproduzir aquele seu acento penetrante, sublinhando que a sua pequena via \u2013 o seu caminhito \u2013 de humildade e de amor n\u00e3o era sen\u00e3o a senda do nosso santo Padre Jo\u00e3o da Cruz; o nosso <em>nada<\/em>, o <em>tudo<\/em> de Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria da Trindade conta tamb\u00e9m o seguinte: Perguntei uma vez \u00e0 irm\u00e3 Teresa: \u201cquem vos ensinou a vossa \u201cpequena via do amor\u201d que dilata tanto o cora\u00e7\u00e3o? Respondeu-me: Foi s\u00f3 Jesus que me instruiu, nenhum livro, nenhum te\u00f3logo mo ensinou&#8230; Quando se apresentou a ocasi\u00e3o de abrir a minha alma, fui t\u00e3o pouco compreendida que disse a Deus como S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: \u00ab<em>N\u00e3o queiras enviar-me \/ de hoje mais mensageiro \/ que n\u00e3o sabem dizer-me o que quero<\/em>\u00bb.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"12\">\n<li><strong> Fisionomia e discipulado sanjoaninos de Teresa<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escutadas as refer\u00eancias sanjoaninas que se encontram nos escritos de Teresa e conhecidos alguns testemunhos alheios que falam do tema, real\u00e7amos alguns dados:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De tudo o que foi dito at\u00e9 aqui, emerge clara e n\u00edtida a fisionomia sanjoanina de Teresa de Lisieux. Os textos de Jo\u00e3o da Cruz alegados por ele certificam-no; e o seu valor aumenta e acrescenta se se considerarmos os pontos estrat\u00e9gicos em que s\u00e3o alegados, a zona ou \u00e2mbito cronol\u00f3gico a que se referem e muito mais, sem d\u00favida, o espa\u00e7o interior que recobrem ou as viv\u00eancias que revelam, os novos horizontes teologais que desenvolvem, a confian\u00e7a e o amor que evangelizam no meio de uma press\u00e3o ambiental jansenista e rigorista imperante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas p\u00e1ginas s\u00e3o palavra repleta de sanjoanismo, isto \u00e9, incluem em si mais sentido que aquele que manifestam e se entregam ao discurso daquele que ouve ou l\u00ea inteligentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estes contributos afirmados por ela juntam-se os testemunhos daqueles que a conheceram e se aperceberam da sua profunda vincula\u00e7\u00e3o com a pessoa e os escritos de Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo tudo isto t\u00e3o certo e t\u00e3o importante, creio que o mais interessante e chamativo em Teresa \u00e9 a impregna\u00e7\u00e3o que tinha do sanjoanismo, e que transcendia de toda a sua pessoa. Exalava sanjoanismo; cheirava a Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a sua fisionomia \u00e9 sanjoanina, o seu discipulado, o seu ser disc\u00edpula, n\u00e3o o \u00e9 menos. Basta recordar alguns extremos. Celina diz no Processo ordin\u00e1rio: \u00abA serva de Deus nunca teve propriamente falando um director espiritual\u00bb. Perante esta afirma\u00e7\u00e3o perguntavam-lhe os do tribunal: \u201cabstinha-se a Serva de Deus intencionadamente de consultar os directores espirituais?\u201d E Celina responde: \u2018N\u00e3o, sempre que vinham ao Carmelo pregadores de retiros ou confessores extraordin\u00e1rios, solicitava longamente os seus conselhos; mas Nosso Senhor permitiu que s\u00f3 raras vezes encontrasse neles as luzes que buscava\u00bb. Para ela, sem d\u00favida, dos principais directores ou ajudantes do grande Director que tinha em Cristo foi para Teresa Jo\u00e3o da Cruz com as suas obras e por meio da empatia que reinava entre ela e frei Jo\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 evidente que Teresa n\u00e3o se contenta com a cita\u00e7\u00e3o erudita de Jo\u00e3o da Cruz, mas as suas palavras servem-lhe de ve\u00edculo para nos transmitir as suas viv\u00eancias espirituais. \u00c9 uma boa leitora de Jo\u00e3o da Cruz que assim e deste modo faz a sua releitura e aplica a si mesma aquela doutrina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas categorias de santos que estabelece nas primeiras p\u00e1ginas da <em>Hist\u00f3ria de uma alma<\/em> aparece a dos \u00absantos doutores, que iluminaram a Igreja com a luz da sua doutrina\u00bb. Para ela a luz da doutrina de frei Jo\u00e3o da Cruz foi cem por cento enriquecedora.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"13\">\n<li><strong> Final:<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teresa de Lisieux, consangu\u00ednea espiritual de Jo\u00e3o da Cruz, com a mesma voca\u00e7\u00e3o no Carmelo, \u00e9 um dos melhores expoentes da sobreviv\u00eancia do doutor m\u00edstico na Igreja. E ao ser ela mesma declarada Doutora da Igreja relan\u00e7ava novamente o doutoramento de Jo\u00e3o da Cruz, dada a influ\u00eancia do Santo na sua alma, na sua mente, na emin\u00eancia da sua doutrina.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<p style=\"text-align: right;\">*Jos\u00e9 Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. Pp. 117 -122.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: Teresa de Lisieux<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12682,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-12680","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12680"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12683,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12680\/revisions\/12683"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}