{"id":12655,"date":"2021-06-07T07:00:28","date_gmt":"2021-06-07T06:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12655"},"modified":"2021-06-03T19:31:45","modified_gmt":"2021-06-03T18:31:45","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-20-o-sombrio-abismo-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-20-o-sombrio-abismo-do-tempo\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (20) \u2013 O sombrio abismo do tempo"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Depois de, ao longo de dezassete textos, termos visto as duas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-18-uma-ordem-impessoal\/\">18<\/a>), encontramo-nos j\u00e1 na sua terceira parte. Ap\u00f3s a leitura do cap\u00edtulo 8 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-19-os-mal-estares-da-modernidade\/\">19<\/a>), consideramos agora o cap\u00edtulo 9, de t\u00edtulo \u00abO sombrio abismo do tempo\u00bb, correspondendo \u00e0s p\u00e1ginas 322 a 351.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 71. <em><u>O s\u00e9c. XIX<\/u>. \u2013 <\/em>Quais as mudan\u00e7as do quadro <em>mundividencial <\/em>que surgem no s\u00e9c. XIX, e que contribuem para alicer\u00e7ar um quadro \u00abnatural\u00bb de descren\u00e7a? Tal \u00e9 objecto do cap\u00edtulo 9, de t\u00edtulo \u00abO sombrio abismo do tempo\u00bb (<em>The Dark Abyss of Time<\/em>), ainda que o tratamento do tema se estenda ao cap\u00edtulo seguinte (cap. 10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o s\u00e9c. XIX se apresente como um per\u00edodo de firme expans\u00e3o da <em>descren\u00e7a <\/em>religiosa \u2013 \u00a0e com muitas alternativas, al\u00e9m do <em>humanismo exclusivo <\/em>(a primeira alternativa que surgiu), \u00e0 cren\u00e7a religiosa \u2013, constitui tamb\u00e9m um per\u00edodo em que, sobretudo na sua primeira metade, se deu certo recobro da pr\u00e1tica crente: em Inglaterra, com o <em>evangelicalismo, <\/em>as pr\u00e1ticas de piedade pr\u00f3prias da <em>High Church <\/em>e o aumento de membros em igrejas dissidentes; em Fran\u00e7a, com a Restaura\u00e7\u00e3o; nos EUA, com o \u00absegundo despertar\u00bb (<em>second Awakening<\/em>), suficiente para relegar para uma posi\u00e7\u00e3o subalterna o de\u00edsmo dos <em>Founding Fathers <\/em>a favor de um \u00abconsenso evang\u00e9lico\u00bb (p. 322).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o <em>antropocentrismo <\/em>se reafirma a partir da segunda metade do s\u00e9c. XIX \u2013 um antropocentrismo agora j\u00e1 n\u00e3o apenas de algumas elites sociais \u2013, rompe, portanto, n\u00e3o s\u00f3 com o quadro religioso pr\u00e9-de\u00edsta, como tamb\u00e9m com as reconfigura\u00e7\u00f5es religiosas que, elas pr\u00f3prias, lhe procuravam j\u00e1 dar resposta. Mas agora era um antropocentrismo j\u00e1 mais profundamente enraizado, porque firmado no quadro mundividencial pr\u00f3prio do seu per\u00edodo hist\u00f3rico (p. 323).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 72<u>. <em>Os alicerces naturais da descren\u00e7a religiosa<\/em><\/u><em>. \u2013 <\/em>Por outras palavras: trata-se de per\u00edodo em que se firmaram mais profundamente os <em>alicerces naturais <\/em>da descren\u00e7a religiosa. Assim como, noutra \u00e9poca, a f\u00e9 como que estava naturalmente alicer\u00e7ada (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5 e ss<\/a>.), agora \u00e9 a descren\u00e7a que chama a favor da <em>aquiesc\u00eancia natural <\/em>a essa confiss\u00e3o de perspectiva fundamental certos elementos do mundo envolvente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atente-se nas duas seguintes transi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O modo como evoluiu a passagem da no\u00e7\u00e3o de <em>cosmos <\/em>\u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>universo<\/em> (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">11<\/a> e ss.), implicando a transforma\u00e7\u00e3o do modo como o mundo \u00e9 <em>imaginado<\/em> \u2013 isto \u00e9, o modo como evoluiu o conjunto de compreens\u00f5es partilhadas tamb\u00e9m a respeito do funcionamento do mundo envolvente (cf., <em>sp., <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">37<\/a> e ss., para a no\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rio social), agora dando forma a um verdadeiro \u00abimagin\u00e1rio c\u00f3smico\u00bb. Ora, a evolu\u00e7\u00e3o deste <em>imagin\u00e1rio c\u00f3smico <\/em>condiciona de modo decisivo o modo como se enquadram certos elementos pr\u00f3prios da f\u00e9, mas tamb\u00e9m, por ex., doutrinas cosmol\u00f3gicas, a compreens\u00e3o do lugar da natureza, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Particularmente significativa foi ainda a mudan\u00e7a do conceito de <em>natureza\u00b8<\/em> justificando-se, por isso, que lhe seja dada uma abordagem particular, pelas suas implica\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel <em>moral <\/em>e <em>est\u00e9tico <\/em>(p. 323).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, \u00e9 per\u00edodo em que se consolidam os efeitos do <em>desencantamento do mundo <\/em>(n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">6<\/a>): \u00abN\u00e3o se trata apenas de que as teorias do <em>cosmos <\/em>\u00a0n\u00e3o s\u00e3o j\u00e1 acreditadas; elas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mesmo capazes de ser compreens\u00edveis por inteiro\u00bb. E assim, precisamente, pela mudan\u00e7a do quadro pressuposto \u2013 do <em>imagin\u00e1rio partilhado <\/em>\u2013 que permitia a resson\u00e2ncia do respectivo sentido (p. 324). Realmente, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma perspectiva do <em>cosmos, <\/em>\u00e0 maneira grega, que periga. Tamb\u00e9m fica colocada em crise a compreens\u00e3o judaico-crist\u00e3 da Cria\u00e7\u00e3o, na qual o mundo \u00e9 visto como um <em>locus <\/em>em que Deus se manifesta, que pode ser inteligido, etc. O ponto, como n\u00e3o deixa de observar Taylor, n\u00e3o est\u00e1 agora em sublinhar o que \u00e9 <em>crido <\/em>ou <em>n\u00e3o <\/em>como verdadeiro, mas qual a <em>experi\u00eancia<\/em> imediata do mundo em redor: \u00abMuitos ainda sustentam que o universo \u00e9 criado por Deus, que em certo sentido \u00e9 ainda regido pela sua Provid\u00eancia. Mas estou a tratar \u00e9 do modo como o universo \u00e9 espontaneamente imaginado, e por conseguinte experimentado. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 usual sentir o universo imediata e aproblematicamente como ordenado em vista de um prop\u00f3sito, ainda que a reflex\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e desenvolvimento espiritual possam conduzir a v\u00ea-lo dessa forma.\u00bb (p. 325)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo pode ser <em>crido <\/em>como habitado por Deus, mas n\u00e3o \u00e9 assim <em>experimentado. <\/em>A cren\u00e7a religiosa, portanto, corre o risco de tornar-se agora apenas <em>cren\u00e7a <\/em>intelectual<em>, <\/em>e j\u00e1 n\u00e3o <em>experi\u00eancia<\/em> vital (p. 328).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, e a este ponto pretende Taylor chegar: n\u00e3o se trata, simplesmente, de uma nova teoria (da evolu\u00e7\u00e3o) destronar uma outra, anterior; mas de uma mudan\u00e7a no quadro pressuposto de sentido (p. 325). A \u00eanfase, portanto, \u00e9 colocada nos \u00abimagin\u00e1rios sociais\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 73. <em><u>Do confronto de teorias \u00e0 mudan\u00e7a do quadro pressuposto<\/u><\/em>. \u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as novas teorias emergentes para explica\u00e7\u00e3o do funcionamento do mundo contrastam de modo significativo com compreens\u00f5es tradicionalmente veiculadas ao n\u00edvel te\u00edstico:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Contrastam, primeiro, uma vez que a compreens\u00e3o de que o mundo se expande para al\u00e9m de limites nitidamente discern\u00edveis: ora no espa\u00e7o \u2013 seja ao n\u00edvel dos grandes espa\u00e7os (espa\u00e7o astron\u00f3mico), seja ao n\u00edvel dos microespa\u00e7os (espa\u00e7o infinitesimal) \u2013, seja ao n\u00edvel do tempo. De um intervalo de anos demarcado (5\u00a0000 ou 6\u00a0000 anos), o mundo prov\u00e9m daquilo a que Buffon (1707-1788), citado por Taylor, designa por \u00abo sombrio abismo do tempo\u00bb (<em>le sombre ab\u00eeme du temps),<\/em> que nos oculta a nossa pr\u00f3pria origem (p. 326). Abismo sombrio porque insond\u00e1vel, dif\u00edcil de compreender, de imaginar (p. 327).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Contrastam, depois, pelo sacrif\u00edcio de uma compreens\u00e3o est\u00e1tica e invari\u00e1vel do mundo a favor de uma outra din\u00e2mica e evolutiva \u2013 mudan\u00e7a iniciada no s\u00e9c. XVII e consumada com a <em>Origem das Esp\u00e9cies <\/em>de Darwin (p. 327).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta, por\u00e9m, apontar estas <em>desconformidades <\/em>para justificar a ascens\u00e3o do novo quadro: a partir dos dados da Filosofia da Ci\u00eancia, \u00e9 sabido que mesmo elementos que n\u00e3o sejam enquadrados por uma teoria prevalecente podem ser desconsiderados, ou interpretados de modo n\u00e3o contrastante, desde que o quadro pressuposto pela teoria prevalecente seja conservado. O que explica a mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a nova teoria: mas a exist\u00eancia de <em>frameworks <\/em>alternativos, primeiro (e havia-os: Epicuro\/ Lucr\u00e9cio; Descartes,\u2026); e o desvanecimento das antigas ideias do cosmos, segundo (o que estava concretamente a consumar-se: p. 328).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especificamente ao n\u00edvel religioso, \u00e9 neste quadro de matriz <em>mecanicista <\/em>que a apolog\u00e9tica crist\u00e3 procura \u00abprovas de Deus\u00bb e da respectiva benevol\u00eancia, precisamente pela perda do sentido da experi\u00eancia imediata de Deus (pp. 328-330). Como tamb\u00e9m o texto b\u00edblico deixa de ser olhado na densidade e rugosidade dos seus significados (\u00absupress\u00e3o do coment\u00e1rio b\u00edblico em m\u00faltiplos n\u00edveis, com as suas analogias, correspond\u00eancias, tipos\u00bb &#8211; p. 330), passando a ser visto como texto meramente hist\u00f3rico (p. 330). Tal tipo de <em>fundamentalismo b\u00edblico <\/em>(<em>criacionismo<\/em>) n\u00e3o \u00e9 menos fruto da <em>pr\u00e9-compreens\u00e3o <\/em>pr\u00f3pria do quadro moderno do que ali\u00e1s com certa postura ateia (<em>darwinismo ideol\u00f3gico<\/em>) que pretende combater: ambas as perspectivas partilhando da hostilidade em rela\u00e7\u00e3o ao <em>Mist\u00e9rio <\/em>\u00abintra-c\u00f3smico\u00bb, em que, na ordem do <em>criado, <\/em>tudo estaria livre para ser compreendido pela ci\u00eancia (p. 331).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma: \u00abA pura confronta\u00e7\u00e3o entre \u201creligi\u00e3o\u201d e \u201cci\u00eancia\u201d \u00e9 uma quimera, ou melhor, uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Na realidade, deparamos com um combate entre pensadores com agendas complexas, em v\u00e1rios n\u00edveis, e \u00e9 por isso que a hist\u00f3ria real parece t\u00e3o confusa e desorientadas \u00e0 luz de uma confronta\u00e7\u00e3o ideal, como [Paolo] Rossi [em <em>The Dark Abyss of Time<\/em>] t\u00e3o bem mostra.\u00bb (p. 332)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ilustrar esta permeabilidade de motiva\u00e7\u00f5es, recenseia Thomas Burnet e Vico, exemplos de autores que, sob fogo cruzado, procuraram articular algo da vis\u00e3o religiosamente ortodoxa do mundo e algo do que prov\u00e9m do novo quadro em emerg\u00eancia; e cujas obras espelham a entrada do novo imagin\u00e1rio c\u00f3smico na sensibilidade religiosa. Merece particular aten\u00e7\u00e3o a no\u00e7\u00e3o de <em>sublime <\/em>(no sentido que vir\u00e1 a revestir no s\u00e9c. XVIII, expressando algo como o <em>assombro <\/em>perante grandes manifesta\u00e7\u00f5es do mundo natural) [a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa de <em>Pseudo-Longino, Do Sublime <\/em>(s\u00e9c. I)<em>, <\/em>da autoria de Marta V\u00e1rzeas, por cujo interm\u00e9dio a categoria do <em>sublime <\/em>entrou na linguagem liter\u00e1ria, e, depois, na est\u00e9tica, encontra-se <a href=\"https:\/\/digitalis-dsp.uc.pt\/bitstream\/10316.2\/38162\/1\/Do%20Sublime.pdf\">disponibilizada gratuitamente<\/a> pela Imprensa da Universidade de Coimbra]<em>, <\/em>servindo para explorar \u2013 uma vez mais \u2013 como o afastamento de antigos significados s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante o surgimento de novas alternativas de sentido<em>, <\/em>n\u00e3o bastando para o efeito uma hist\u00f3ria de ordem puramente negativa (pp. 332-347). Tal exposi\u00e7\u00e3o permite ilustrar, a partir da obra de diferentes autores, elementos que expressam, mas de forma superadora, muitos dos mal-estares gerados pelo quadro moderno, e que constituem novas perspectivas que permanecem at\u00e9 ao presente (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-19-os-mal-estares-da-modernidade\/\">70<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 74. <em><u>Implica\u00e7\u00f5es \u00e9tico-morais da nova no\u00e7\u00e3o de ordem c\u00f3smica<\/u>. \u2013 <\/em>Em resultado das novas perspectivas, a ordem c\u00f3smica natural passa a ser perspectivada nos seguintes termos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Enquanto produto do \u00abtempo profundo e de espa\u00e7os insond\u00e1veis\u00bb (p. 347), a pessoa pode compreender-se como estreitamente ligada \u00e0 natureza (uma das fontes da consci\u00eancia ecol\u00f3gica);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) O embate com o mundo natural na sua imensid\u00e3o pode, a um tempo, preencher a pessoa de sentimentos de <em>admira\u00e7\u00e3o <\/em>e de <em>grandeza <\/em>\u2013 o homem como <em>cana pensante, <\/em>segundo Pascal \u2013; mas, ao mesmo tempo, desacreditar tamb\u00e9m vis\u00f5es benignas da natureza (p. 347).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com este pano de fundo que, por ex., as teorias de Freud adquirem resson\u00e2ncia: \u00abA ideia de que uma natureza profunda que perdemos, e que podemos achar dif\u00edcil reencontrar, a ideia de que tem de ser recuperada, compreendida, especialmente atrav\u00e9s do recontar da nossa hist\u00f3ria, a ideia de que esta natureza profunda pode ser em parte selvagem e amoral, todos estes s\u00e3o <em>frameworks<\/em> \u00f3bvios para a autocompreens\u00e3o, compreens\u00edveis intuitivamente para qualquer pessoa, o que quer que pense das teorias em particular.\u00bb (p. 348)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, afinal, de uma nova perspectiva que contrasta com o mecanicismo cartesiano: \u00abA imagem cartesiano de total auto-possess\u00e3o talvez s\u00f3 tenha sido poss\u00edvel na transi\u00e7\u00e3o entre os dois grandes <em>outlooks <\/em>c\u00f3smicos, o estruturado pela ordem das ideias, e o vasto universo de abismos em que habitamos.\u00bb (p. 349)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este quadro psico-fisiol\u00f3gico acaba por dominar a segunda metade do s\u00e9c. XIX, perdurando at\u00e9 ao presente. A teoria da evolu\u00e7\u00e3o, por um lado, e a heran\u00e7a rom\u00e2ntica, por outro, contribuem para o sentido da pessoa de que \u00e9 um mist\u00e9rio, um abismo para ela pr\u00f3pria (p. 349). Tamb\u00e9m a natureza j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas <em>buc\u00f3lica<\/em>, como em Virg\u00edlio, mas \u00e9 procurada pelo desejo de encontro com o seu lado <em>selvagem<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>imagin\u00e1rio c\u00f3smico moderno, <\/em>por conseguinte, ajuda \u00e0 expans\u00e3o do materialismo: seja por colocar em causa certa perspectiva c\u00f3smica b\u00edblica; seja por encontrar \u00abfontes morais\u00bb alternativas, de <em>mist\u00e9rio intra-c\u00f3smico <\/em>que estava ausente no De\u00edsmo, atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o com a natureza profunda<em>, <\/em>interior ou exterior ao homem (p. 350). Mas tamb\u00e9m pode ser lido em chave te\u00edstica, incitando ao regresso \u00e0 cren\u00e7a religiosa. Como pode admitir ainda novas leituras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas este novo quadro n\u00e3o \u00e9 inteiramente captur\u00e1vel por nenhuma perspectiva singular. Precisamente por isso, \u00ababriu um espa\u00e7o em que as pessoas podem oscilar entre, e em redor, de todas estas op\u00e7\u00f5es, sem terem de estacionar clara e definitivamente em nenhuma delas\u00bb (p. 351).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuaremos a explorar este novo quadro mundividencial no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/felixmittermeier-4397258\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2183637\">FelixMittermeier<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2183637\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12656,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12655","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12655","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12655"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12655\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12657,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12655\/revisions\/12657"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12656"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}