{"id":12519,"date":"2021-05-24T07:00:53","date_gmt":"2021-05-24T06:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12519"},"modified":"2021-05-20T10:08:10","modified_gmt":"2021-05-20T09:08:10","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-19-os-mal-estares-da-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-19-os-mal-estares-da-modernidade\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (19) \u2013 Os mal-estares da modernidade"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Depois de, ao longo de dezassete textos, termos visto as duas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-18-uma-ordem-impessoal\/\">18<\/a>) vemos hoje o cap\u00edtulo 8, de t\u00edtulo \u00abOs mal-estares da modernidade\u00bb, o primeiro da parte III da obra. Corresponde \u00e0s pp. 299 a 322.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 67. \u00ab<em><u>The Nova Effect\u00bb.<\/u> \u2013 <\/em>Iniciamos agora a parte III da obra, <em>The Nova Effect<\/em> (pp. 297-419), considerando o primeiro dos quatro cap\u00edtulos que a integram: o cap\u00edtulo 8, de t\u00edtulo \u00abos mal-estares da modernidade\u00bb, correspondendo \u00e0s pp. 299 a 322.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por <em>Nova effect, <\/em>met\u00e1fora que toma da astronomia, designa Taylor o movimento que se segue \u00e0 passagem do <em>te\u00edsmo <\/em>ao <em>de\u00edsmo: <\/em>se, nesta altura, como se dera uma <em>compress\u00e3o <\/em>da no\u00e7\u00e3o de Deus, logo se segue uma subsequente <em>descompress\u00e3o, <\/em>trazendo consigo uma multitude de posi\u00e7\u00f5es, de cren\u00e7a e de descren\u00e7a, na sua diversidade imensamente superiores \u00e0quelas que existiam antes da <em>Idade Secular<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, descortina tr\u00eas fases (pp. 299-300):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Uma <em>primeira fase<\/em> na qual o humanismo exclusivo \u00e9 a \u00fanica alternativa vi\u00e1vel ao cristianismo, que acompanh\u00e1mos no parte anterior da obra (<em>Parte 2<\/em>);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Uma <em>segunda fase<\/em> na qual se multiplicam as perspectivas alternativas, resultando, em parte, do fogo cruzado entre as diferentes posi\u00e7\u00f5es, \u00e0 qual designa propriamente de <em>Nova Effect, <\/em>e que se prolonga at\u00e9 ao presente;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Uma <em>terceira fase<\/em>, com as caracter\u00edsticas da anterior, mas na qual essa diversidade de perspectivas, antes dispon\u00edveis apenas para as elites, se tornam dispon\u00edveis para a globalidade da popula\u00e7\u00e3o \u2013 fase que se inicia apenas na segunda metade do s\u00e9c. XX. Se a fase anterior \u00e9 caracterizada com recurso \u00e0 met\u00e1fora das <em>Novas<\/em> da astronomia, esta \u00faltima corresponder\u00e1 a um per\u00edodo de <em>Supernovas<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parte 2 incide sobre a segunda das referidas fases.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 68. <em><u>Luzes e sombras de uma \u201cidentidade protegida\u201d<\/u>. \u2013 <\/em>Resultado do conjunto de mudan\u00e7as reconduzidas \u00e0 no\u00e7\u00e3o de viragem antropoc\u00eantrica, com um <em>Eu protegido, <\/em>\u00e9 a ideia de <em>invulnerabilidade, <\/em>com um amplo conjunto de aspectos que se lhe associam: ter conseguido vencer o mundo experimentado como um lugar encantado; ter ultrapassado medos e receios de \u00e9pocas anteriores; julgar a hist\u00f3ria a partir de um olhar imparcial (pp. 300-301).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ao mesmo tempo, este quadro <em>de\u00edsta <\/em>traz consigo um conjunto de fontes de <em>mal-estar <\/em>a que n\u00e3o consegue dar devida resposta. Independentemente de uma r\u00e9plica de fonte propriamente religiosa, h\u00e1 um amplo conjunto de problemas de <em>perda de sentido, <\/em>resultante desta imanentiza\u00e7\u00e3o do mundo, que perduram at\u00e9 ao presente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Nota-se, desde o princ\u00edpio do de\u00edsmo, a preocupa\u00e7\u00e3o de muitos em encontrarem <em>fontes espirituais alternativas<\/em>, mesmo quando recusavam o Cristianismo ortodoxo (p. 302). Esta \u00abpress\u00e3o cruzada\u00bb \u2013 recusa, por um lado, do Cristianismo ortodoxo, mas tamb\u00e9m da alternativa de\u00edsta \u2013 ajudar\u00e1 ao <em>Nova Effect. <\/em>Por isso o quadro de \u00abalternativas espirituais\u00bb \u00e9 extremamente inst\u00e1vel, uma vez que todas elas est\u00e3o sob a press\u00e3o de algumas outras concorrentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0(b) Uma aguda <em>perda de<\/em> <em>sentido<\/em>, que constitui um problema <em>novo <\/em>da modernidade \u2013 ao tempo de Lutero, observa Taylor, quando muito o problema seria o inverso, de <em>excesso <\/em>de sentido (p. 303). \u00c9 interessante notar que, como tamb\u00e9m aponta, o problema da <em>perda de sentido <\/em>est\u00e1 estreitamente ligado ao da <em>identidade protegida<\/em> (<em>buffered identity<\/em>), pois o <em>Eu<\/em> que, na sua pretensa invulnerabilidade, se isola e enclaustra, tamb\u00e9m se <em>fecha<\/em> ao sentido. Deste modo, a pretens\u00e3o de <em>invulnerabilidade, <\/em>se, a um tempo, garante certa <em>seguran\u00e7a <\/em>ao sujeito, por outro traz consigo a sensa\u00e7\u00e3o da referida <em>perda de sentido <\/em>(p. 303).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal <em>perda <\/em>traz consigo o desejo de explorar novas realidades que possam ser experimentadas como dadoras de sentido \u2013 simplesmente, imp\u00f5e-se a incerteza acerca do seu <em>real valor, <\/em>fragilidade t\u00e3o maior qu\u00e3o mais (i) variadas sejam essas experi\u00eancias, e (ii) qu\u00e3o mais aqueles que professam diferentes perspectivas se assemelham entre si em todos os outros aspectos. O que abala a <em>confian\u00e7a <\/em>da f\u00e9, numa sociedade multicultural, n\u00e3o \u00e9 a <em>pluralidade <\/em>enquanto tal, mas sim que a <em>f\u00e9 <\/em>diferente \u2013 ou a op\u00e7\u00e3o \u00e9tica, ou o modelo de vida,\u2026 \u2013 possa ser interpretado como uma <em>op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel <\/em>para o pr\u00f3prio, dado que esse outro se assemelha ao pr\u00f3prio nos demais aspectos da vida. Pois s\u00f3 a\u00ed surge a pergunta: \u00abPorqu\u00ea a minha op\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a deles?\u00bb (p. 304)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo que o pr\u00f3prio <em>de\u00edsmo impessoal <\/em>\u00e9 objecto de cr\u00edtica, tamb\u00e9m o cristianismo o continua a ser, na linha do per\u00edodo hist\u00f3rico anterior (pp. 305-307).<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"69\">\n<li><em><u>Diagn\u00f3stico do mal-estar imanentista.<\/u> \u2013 <\/em>O <em>mal-estar <\/em>resultante da imanentiza\u00e7\u00e3o do mundo (<em>malaises of immanence<\/em>) manifesta-se nos seguintes campos:<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A j\u00e1 referida perda de sentido, ou a sua fragilidade<em>, <\/em>porque subitamente se esvai; a perda do <em>sentido do sentido <\/em>(express\u00e3o de Luc Ferry), isto \u00e9, do <em>sentido de refer\u00eancia <\/em>que d\u00e1 significado aos <em>sentidos parciais; <\/em>sensa\u00e7\u00e3o de <em>vazio <\/em>e de <em>falta de resson\u00e2ncia <\/em>(pp. 307-309);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A <em>aguda <\/em>sensa\u00e7\u00e3o de vazio em momentos centrais da vida, como o nascimento, o casamento ou a morte, nos quais se sente a necessidade de soleniza\u00e7\u00e3o, e de uma certa liga\u00e7\u00e3o ao sagrado. A imanentiza\u00e7\u00e3o total torna tais momentos puramente neutrais \u2013 e por isso os ritos religiosos continuam a ser procurados neste \u00e2mbito, mesmo no contexto de uma sociedade secular (p. 309);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) A sensa\u00e7\u00e3o de vazio no pr\u00f3prio <em>quotidiano, <\/em>particularmente em sociedades comerciais, industriais ou de consumo, com um desejo de <em>fuga <\/em>de um ambiente vital tido como carecido de significado (p. 309).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplesmente, a tentativa de resolver este mesmo mal-estar n\u00e3o \u00e9 necessariamente o retorno ao quadro pr\u00e9-secular, sem qualquer apelo religioso: por ex., no comprometimento social; no regresso \u00e0 \u201cnatureza\u201d (Rousseau), etc. (pp. 310-311).<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"70\">\n<li><em><u>Eixos de cr\u00edtica.<\/u><\/em> \u2013 Para sistematizar os diferentes eixos de cr\u00edtica ao de\u00edsmo impessoal, prop\u00f5e Taylor os seguintes agrupamentos das diferentes reac\u00e7\u00f5es ao quadro de\u00edsta. S\u00e3o p\u00e1ginas de grande densidade, que se re\u00fanem aqui apenas nos seus t\u00f3picos fundamentais.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) <em>Reac\u00e7\u00f5es motivadas pela falta de resson\u00e2ncia. \u2013 <\/em>Questiona-se (i) a <em>falta de densidade, <\/em>de <em>resson\u00e2ncia <\/em>do quadro de\u00edsta, postulando-se formas de comprometimento mais intensas do que aquelas que s\u00e3o pressupostas pelo De\u00edsmo. Em todo o caso, esta cr\u00edtica teve tamb\u00e9m a resposta de outros alinhamentos mais radicais do humanismo, como o de Rousseau. Numa outra linha, (ii) com Kant, a mera refer\u00eancia ao auto-interesse ou \u00e0 simpatia \u00e9 vista como insuficiente para fundar a ordem moral. Seguiram-se reac\u00e7\u00f5es de diferente proveni\u00eancia: quer propriamente religiosas; quer de refor\u00e7o do humanismo exclusivo. Finalmente, a (iii) coloca-se em causa identifica\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o com o mero moralismo, isto \u00e9, a tendencial identifica\u00e7\u00e3o da vida religiosa com o cumprimento de ditames comportamento \u2013 em que o louvor a Deus, por ex., n\u00e3o tem qualquer lugar (pp. 311-313).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) <em>Reac\u00e7\u00f5es no quadro rom\u00e2ntico. \u2013 <\/em>Ligadas \u00e0 procura de um sentido, ainda assim dentro de um quadro humanista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro mediante a procura de (i) um ideal de <em>unidade <\/em>entre o <em>desejo <\/em>e as mais altas formas de o <em>significar, <\/em>por ex., mediante a procura da <em>beleza, <\/em>em que a \u00e9tica se conjuga com a est\u00e9tica: em que a dimens\u00e3o <em>apetitiva <\/em>do ser humano n\u00e3o \u00e9 vista como contrastante com o \u00abdesejo corrente\u00bb. Taylor glosa a este respeito a no\u00e7\u00e3o de <em>Spiel <\/em>(jogo) dada por Schiller: \u00abA beleza como a forma mais profunda de unidade, que era tamb\u00e9m a mais elevada forma de ser, oferece a defini\u00e7\u00e3o do verdadeiro fim da vida; \u00e9 isto que nos leva a ir al\u00e9m do moralismo, por um lado, e da mera prossecu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio interesse esclarecido, por outro.\u00bb (p. 313; sobre Schiller, cf. tb. as pp. 358-359). Linha de leitura, esta, que n\u00e3o deixou de ter grande impacto (Goethe, H\u00f6lderlin). A partir deste ponto de vista (n\u00e3o sem antecedentes, \u00e9 certo: Shaftesbury, Rousseau), a cr\u00edtica ao \u00abdisciplinamento moderno\u00bb pode assentar em dois vectores: quer na ideia de que reprime a dimens\u00e3o sensitiva da pessoa; quer na de que aliena a pessoa das suas emo\u00e7\u00f5es profundas (p. 314).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Note-se que, mesmo no campo te\u00edstico, semelhante tipo de preocupa\u00e7\u00f5es conduziu a reconfigura\u00e7\u00f5es religiosas. Nalguns casos, permitindo voltar a sublinhar a dimens\u00e3o \u00edntima ou emocional (Pietismo; Wesley e o Metodismo), em risco de perda na sequ\u00eancia da ordem impessoal moderna \u2013 mesmo que depreciativamente apodadas de \u00abentusi\u00e1sticas\u00bb. Noutros, conduzindo a uma rejei\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a religiosa anterior, precisamente quando interpretada como repressora da dimens\u00e3o sensitiva (p. 314). Quer dizer: o mesmo movimento pode espoletar, quando conjugado com outros elementos, respostas de diferente natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se esta primeira reac\u00e7\u00e3o protesta contra a <em>cis\u00e3o <\/em>ou <em>conflito <\/em>que a ordem moderna introduz entre a dimens\u00e3o racional e sensitiva, uma outra linha cr\u00edtica sublinha, agora, (ii) o efeito nefasto da divis\u00e3o com a realidade envolvente, <em>natural <\/em>ou <em>humana <\/em>(p. 315). J\u00e1 n\u00e3o, por conseguinte, a separa\u00e7\u00e3o <em>interior, <\/em>mas a separa\u00e7\u00e3o <em>do exterior. <\/em>\u00abO que as formas modernas de raz\u00e3o e de ordem disciplinadora separou pode ser visto como uma realidade tripla: a mente racional foi separada da sua pr\u00f3pria natureza apetitiva; da comunidade, que ent\u00e3o amea\u00e7a desintegrar-se; e da grande corrente da vida na natureza.\u00bb (p. 315)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com base neste elemento, prop\u00f5em-se programas de reconstru\u00e7\u00e3o ou de constru\u00e7\u00e3o, ou mesmo as duas coisas ao mesmo tempo, de uma unidade perdida (Novalis, <em>Christenheit, oder Europa; <\/em>Carlyle, <em>Past and Present<\/em>, para o primeiro aspecto; H\u00f6lderlin e o jovem Hegel, para o segundo). \u00c9 assim corrente ao tempo a leitura da realidade como evoluindo em espiral (<em>mater narratives of a spiral form<\/em>): \u00abraz\u00e3o contra emo\u00e7\u00e3o, humanos contra natureza, etc. Isto, por seu turno, faculta a possibilidade de reconstituir uma unidade, mais complexa e mais rica, que resolva a oposi\u00e7\u00e3o, enquanto preserve os seus termos. Atrav\u00e9s de Hegel, esta forma narrativa passou a Max, e exerceu uma imensa influ\u00eancia na hist\u00f3ria moderna.\u00bb (p. 315)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos elementos sublinhados no ponto anterior, e que pode ser autonomizado, \u00e9 a reac\u00e7\u00e3o contra o <em>Eu protegido <\/em>(<em>buffered self<\/em>). Isto \u00e9, reac\u00e7\u00e3o que se funda (iii) na perda de acesso a <em>fontes de sentido <\/em>mediante o corte com a realidade envolvente (pp. 315-316). Serve de paralelo cr\u00edtico, por ex., com a cultura grega, em que essa reuni\u00e3o estava bem presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, a reac\u00e7\u00e3o (iv) motivada pelo mal-estar com o crescente uso da racionalidade instrumental nos diferentes dom\u00ednios \u2013 quer com respeito ao mundo envolvente, quer nas rela\u00e7\u00f5es humanas. \u00abNo esfor\u00e7o de controlar as nossa vidas, ou de controlar a natureza, destru\u00edmos muito do que nelas h\u00e1 de profundo e de valioso. Ficamos cegos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia de equil\u00edbrios que podem ser perturbados, mas n\u00e3o criados pela racionalidade instrumental. O mais importante desses, nos debates contempor\u00e2neos, \u00e9 obviamente o que respeita ao equil\u00edbrio biol\u00f3gico de toda a nossa biosfera.\u00bb (p. 317) Reac\u00e7\u00e3o, pois, que perdura \u2013 na verdade, que bem cresceu em intensidade \u2013 at\u00e9 ao presente, seja em variantes n\u00e3o crentes, seja, tamb\u00e9m, sob variantes crentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Recentemente, sob o prisma cat\u00f3lico, h\u00e1-de sublinhar-se a Enc\u00edclica do Papa Francisco <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html\"><em>Laudato Si\u2019<\/em><\/a>, de 24 de Maio de 2015.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) <em><u>Reac\u00e7\u00f5es ao optimismo moderno<\/u>. \u2013 <\/em>Um terceiro grupo de reac\u00e7\u00f5es tem como denominador comum a den\u00fancia do \u00aboptimismo\u00bb do quadro moderno (p. 317). As diferentes linhas de recusa a seguir elencadas podem conjugar-se umas com as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode recusar-se, primeiro, a (i) compreens\u00e3o de\u00edsta da Provid\u00eancia divina como simplesmente excessivamente optimista, porque inapta para explicar trag\u00e9dias efectivamente ocorridas. \u00abA ocasi\u00e3o mais famosa para esta objec\u00e7\u00e3o foi o terramoto de Lisboa de 1755.\u00bb Do ponto de vista liter\u00e1rio, a ridiculariza\u00e7\u00e3o do optimismo moderno \u00e9 patente no <em>C\u00e2ndido <\/em>de Voltaire (p. 317). Pelo contr\u00e1rio, a verdadeira dignidade na vida humana passaria por enfrentar os seus abismos, por reconhecer a sua \u00abtrag\u00e9dia\u00bb (p. 318).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica, naturalmente, \u00e9 dirigida \u2013 continua a s\u00ea-lo \u2013 tamb\u00e9m ao Cristianismo, nomeadamente quando apresentado em termos meramente \u00abde\u00edsticos\u00bb, sem enquadrar devidamente a quest\u00e3o do sofrimento humano (p. 318). \u00abUma imagem excessivamente benigna da condi\u00e7\u00e3o humana deixa de fora algo crucial, que tamb\u00e9m nos importa. (\u2026) Juntamente com alegria, existe imenso sofrimento inocente; e para al\u00e9m disto tudo, o sofrimento \u00e9 negado, a hist\u00f3ria das v\u00edtimas distorcida, finalmente esquecida, nunca rectificada ou compensada. A par da comunh\u00e3o, h\u00e1 divis\u00e3o, aliena\u00e7\u00e3o, despeito, esquecimento rec\u00edproco, nunca reconciliado e reunido de novo.\u00bb N\u00e3o deixa de notar Taylor que, ao eliminar-se este elemento, um dos elementos do mist\u00e9rio central do Cristianismo \u2013 a Crucifix\u00e3o de Jesus na Cruz \u2013 perde todo o seu significado (p. 319). Quando o Cristianismo n\u00e3o enquadre tais elementos, pode chegar a ser entendido enquanto conjunto de narra\u00e7\u00f5es infantis que sirvam de fuga \u00e0 realidade (p. 318). Uma vis\u00e3o que exclua tais elementos, ou deixa um espa\u00e7o vazio, ou, simplesmente, abre totalmente a porta \u00e0 descren\u00e7a (p. 319).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma segunda linha rejeita no quadro moderno a sua (ii) n\u00e3o considera\u00e7\u00e3o das virtudes de excel\u00eancia, por ex., as virtudes do hero\u00edsmo ou as virtudes guerreiras, vendo nela um grande nivelamento das virtudes humanas, por ex., depreciada enquanto meramente \u201cburguesa\u201d (a partir de diferentes \u00e2ngulos, e com diferentes inten\u00e7\u00f5es, Tocqueville; Baudelaire; Nietzsche; Maurras; Sorel). \u00c9 cr\u00edtica que pode ser feita a partir de uma perspectiva religiosa, lamentando-se por ex. o pouco espa\u00e7o que a ordem moderna deixa para, tamb\u00e9m, formas particularmente exigentes de vida religiosa (p. 319).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rejeita-se, a partir de um outro \u00e2ngulo, (iii) a compreens\u00e3o de felicidade subjacente \u00e0 ideia de ordem moderna, identificada, por ex., com a mera frui\u00e7\u00e3o de pequenos prazeres vulgares; forma de felicidade vista como degradante ou irrealista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, investe-se (iv) contra o facto de o humanismo moderno n\u00e3o enquadrar a quest\u00e3o da morte: \u00abA morte \u00e9 simplesmente a nega\u00e7\u00e3o, a \u00faltima nega\u00e7\u00e3o, da realiza\u00e7\u00e3o; deve ser combatida, e deve ser atrasada at\u00e9 ao \u00faltimo momento.\u00bb (p. 320)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reagindo a este estado de coisas, muitas perspectivas de linha n\u00e3o nitidamente te\u00edstica procuram sublinhar a import\u00e2ncia do momento da morte, ou da sua imin\u00eancia, como ponto de refer\u00eancia para a compreens\u00e3o da pr\u00f3pria vida (Mallarm\u00e9, Heidegger, Camus, Celan, Becket). \u00abEstranhamente, muitos elementos remanescentes de uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa emergem nestes e noutros escritos, ao mesmo tempo que \u00e9 claro nalguns casos que pretendem rejeitar a religi\u00e3o, ao menos tal como tem sido entendida.\u00bb (p. 321).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa palavra: o advento da modernidade n\u00e3o marcou o <em>fim da hist\u00f3ria<\/em>. Pelo contr\u00e1rio, continua ela, e de forma bem tumultuosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00f3xima glosa continuaremos a explorar a mundivid\u00eancia novecentista, que largamente condiciona as possibilidades de experi\u00eancia religiosa que no mesmo per\u00edodo possam ter lugar.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/comfreak-51581\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1702512\">Comfreak<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1702512\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12522,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12519"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12525,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12519\/revisions\/12525"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}