{"id":12460,"date":"2021-05-10T07:00:11","date_gmt":"2021-05-10T06:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12460"},"modified":"2021-05-19T18:15:14","modified_gmt":"2021-05-19T17:15:14","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-18-uma-ordem-impessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-18-uma-ordem-impessoal\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (18) \u2013 Uma ordem impessoal"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. A primeira parte da obra foi j\u00e1 conclu\u00edda (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">11<\/a> , <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">12<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">13<\/a>). Encontramo-nos agora na segunda parte da obra (\u201cO ponto de viragem\u201d), que hoje concluiremos. Ap\u00f3s a considera\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo 6 (ap\u00f3s as glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">14<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-15-deismo-providencialista-uma-sociedade-polida\/\">15<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-16-deismo-providencialista-o-eclipse-dos-fins-e-da-graca\/\">16<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-17-deismo-providencialista-tres-teses-sobre-o-humanismo-exclusivo\/\">17<\/a>), vemos hoje o cap\u00edtulo 7, que corresponde \u00e0s pp. 270-295.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 62. <em><u>De\u00edsmo. Ordem impessoal.<\/u> \u2013 <\/em>Se o De\u00edsmo \u00e9 caracterizado pela sua viragem antropoc\u00eantrica, implicando, por conseguinte, uma nova compreens\u00e3o do homem, tem tamb\u00e9m, num segundo n\u00edvel, consequ\u00eancias sobre a pr\u00f3pria compreens\u00e3o de Deus: de um <em>Deus pessoal, <\/em>interveniente no tempo e na hist\u00f3ria, passa-se a uma sua compreens\u00e3o <em>impessoal, <\/em>visto como n\u00e3o mais do que um \u00abarquitecto\u00bb que se limita a projectar as leis que governam o universo \u2013 a ponto, portanto, de se tornar <em>indiferente<\/em> para a vida humana, num primeiro momento, e, depois, mesmo crido inexistente (p. 270).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m neste ponto se afasta Taylor de uma qualquer teoria de explica\u00e7\u00e3o da seculariza\u00e7\u00e3o assenta na ideia de subtrac\u00e7\u00e3o: bastaria remover da compreens\u00e3o do universo o que estaria em excesso, e logo emergiria \u2013 como que evidentemente \u2013 a perspectiva impessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em lugar de tal interpreta\u00e7\u00e3o linear, sublinha os seguintes aspectos (pp. 275-279):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O <em>desencantamento do mundo,<\/em> com as caracter\u00edsticas j\u00e1 antes amplamente desenvolvidas (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">20, 21<\/a>); e<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Uma nova perspectiva da <em>hist\u00f3ria <\/em>(com novas interroga\u00e7\u00f5es a respeito da origem da humanidade, da linguagem, etc.)<em>, <\/em>e com consequ\u00eancias, tamb\u00e9m, na pr\u00f3pria hermen\u00eautica dos textos sagrados (p. 271).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a estes factores haver\u00e1 que acrescentar alguns outros (uma interessante cr\u00edtica de abordagens hist\u00f3ricas ditas \u00abneutrais\u00bb, das que como se limitam a deixar os \u00abfactos falar\u00bb, consta das pp. 272-274: abordagens que, afinal, \u00abn\u00e3o s\u00e3o um facto neutral e incontest\u00e1vel, mas parte da auto-representa\u00e7\u00e3o da descren\u00e7a iluminista\u00bb &#8211; p. 273). Entre os quais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Uma grelha interpretativa da realidade assente na rejei\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria (p. 274).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes ainda de considerarmos poss\u00edveis raz\u00f5es explicativas da emerg\u00eancia desta nova grelha de an\u00e1lise, veremos sumariamente algumas tens\u00f5es entre o Cristianismo e o quadro filos\u00f3fico grego. Com efeito, n\u00e3o foi a era moderna aquela na qual pela primeira vez a compreens\u00e3o crist\u00e3 de Deus teve de dialogar com uma mundivid\u00eancia hostil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 63. <em><u>Patr\u00edstica e Filosofia grega.<\/u> \u2013 <\/em>Em certa medida, observa Taylor, esta resist\u00eancia \u00e0 compreens\u00e3o de um Deus pessoal, que por isso interv\u00e9m e com quem se entra em rela\u00e7\u00e3o no tempo e na hist\u00f3ria, j\u00e1 ocorrera aquando do embate do cristianismo com a cultura grega no per\u00edodo patr\u00edstico (p. 275). Tal raz\u00e3o convida a atentar sumariamente neste confronto e nos seus termos fundamentais: trata-se, afinal, da interessante e importante quest\u00e3o da <em>heleniza\u00e7\u00e3o <\/em>do cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema surgiu aquando do esfor\u00e7o de traduzir a teologia crist\u00e3 numa cultura dominada pelo quadro filos\u00f3fico <em>plat\u00f3nico <\/em>e <em>neoplat\u00f3nico\u00b8 <\/em>com o consequente risco de distor\u00e7\u00e3o de alguns dos seus conte\u00fados fundamentais. Destacam-se os seis seguintes pontos, igualmente centrais para aquela grande corrente filos\u00f3fica (enfim, para ao menos algumas das posi\u00e7\u00f5es que nela se filiam, e a que se chamaram genericamente de <em>plat\u00f3nicas<\/em>) e para o Cristianismo, mas nos quais se divisam fortes tens\u00f5es decorrentes de os mesmos <em>significantes<\/em> apontarem para diferentes <em>significados<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A no\u00e7\u00e3o de corpo<em>. <\/em>\u2013 No platonismo, o <em>corpo <\/em>tem um lugar subordinado, mesmo degradado, no confronto com a <em>alma. <\/em>Seria apenas esta que participaria da ordem do absoluto, a quem por isso caberia a fun\u00e7\u00e3o de dominar o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas no quadro de emerg\u00eancia do cristianismo (a cultura judaica) o \u00f3rg\u00e3o central \u00e9 o <em>cora\u00e7\u00e3o, <\/em>assim se designando o car\u00e1cter, o modo de ser e a op\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da pessoa. O <em>cora\u00e7\u00e3o <\/em>\u00e9 a s\u00edntese de toda a pessoa. O bin\u00f3mio fundamental n\u00e3o assenta na distin\u00e7\u00e3o entre <em>corpo <\/em>e <em>alma, <\/em>mas na diferen\u00e7a entre o cora\u00e7\u00e3o voltado para Deus e o cora\u00e7\u00e3o empedernido; ou, dizendo-o noutros termos, entre um <em>cora\u00e7\u00e3o <\/em>dividido ou unificado. Cita Taylor a este respeito a c\u00e9lebre passagem de <em>Ez <\/em>36, 26: \u00abDar-vos-ei um cora\u00e7\u00e3o novo e introduzirei em v\u00f3s um esp\u00edrito novo: arrancarei do vosso peito o cora\u00e7\u00e3o de pedra e vos darei um cora\u00e7\u00e3o de carne.\u00bb (pp. 275-276)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Muito belo \u00e9, a este respeito, o princ\u00edpio do Pr\u00f3logo da <em>Regra de S\u00e3o Bento, <\/em>que cito na recente edi\u00e7\u00e3o de 2020 das Edi\u00e7\u00f5es Ora &amp; Labora \u2013 Mosteiro de Singeverga, a\u00ed onde nos fala do ouvido do cora\u00e7\u00e3o: \u00abEscuta, filho, os preceitos do Mestre e inclina o ouvido do teu cora\u00e7\u00e3o\u00bb.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Eternidade e hist\u00f3ria. \u2013 Enquanto num quadro plat\u00f3nico se aspira a uma <em>eternidade <\/em>est\u00e1tica, no quadro judaico, e depois crist\u00e3o, a nova considera\u00e7\u00e3o do <em>corpo <\/em>conduz a uma valoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria <em>hist\u00f3ria<\/em> e da <em>temporalidade, <\/em>dado que a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 interpretada em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com Deus: \u00abA rela\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o humano com Deus era uma hist\u00f3ria de queda e de reconcilia\u00e7\u00e3o. Tal era insepar\u00e1vel da hist\u00f3ria humana; era a narrativa central desta hist\u00f3ria.\u00bb A <em>eternidade<\/em>, no cristianismo, n\u00e3o \u00e9 a <em>nega\u00e7\u00e3o <\/em>do hist\u00f3rico, mas a recapitula\u00e7\u00e3o de todo o tempo (p. 276). Toda a hist\u00f3ria \u00e9, pois, interpretada a partir deste seu fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Indiv\u00edduos. \u2013 Se, naquela primeira perspectiva (refere a este respeito Plotino), a eternidade \u00e9 vista como a <em>perda da individualidade<\/em>, no quadro judaico-crist\u00e3o a identidade \u00e9 central, pois s\u00e3o os indiv\u00edduos, na sua concretude, que interv\u00eam no tempo e na hist\u00f3ria. Contraste-se, ainda, com a no\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica de <em>forma<\/em>, que, abstraindo da mat\u00e9ria, \u00e9 um simples arqu\u00e9tipo indistingu\u00edvel<em>. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Conting\u00eancia. \u2013 No quadro filos\u00f3fico cl\u00e1ssico, com a distin\u00e7\u00e3o entre <em>forma <\/em>e <em>mat\u00e9ria, <\/em>os <em>acidentes <\/em>respeitam apenas \u00e0 mat\u00e9ria, n\u00e3o \u00e0s formas; deste modo, n\u00e3o chega a conting\u00eancia a tocar o fundamental. Mas no quadro judaico-crist\u00e3o s\u00e3o as <em>concretas hist\u00f3rias, <\/em>marcadas pelas suas m\u00faltiplas vicissitudes, que t\u00eam o primeiro relevo \u2013 a grandeza da ac\u00e7\u00e3o est\u00e1 na plena assun\u00e7\u00e3o da realidade concreta, como quando o samaritano ocorre ao desvalido. O que contrasta com uma perspectiva <em>total <\/em>da realidade que abstrai desses m\u00faltiplos momentos concretos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(e) Emo\u00e7\u00f5es. \u2013 Se, no quadro plat\u00f3nico, o ideal \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, posto que Deus \u00e9 visto como <em>ap\u00e1tico, <\/em>isto \u00e9, caracterizado pela sua <em>insensibilidade<\/em>, j\u00e1 a centralidade \u00abdo corpo, do cora\u00e7\u00e3o, do indiv\u00edduo\u00bb traz consigo o primeiro relevo das emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[A ponto, afinal, de a <em>miseric\u00f3rdia <\/em>poder dizer o <em>ser de Deus<\/em>. Miseric\u00f3rdia que \u00e9 um verdadeiro <em>vulc\u00e3o emocional<\/em>, posto que, nas l\u00ednguas b\u00edblicas, um dos campos lexicais que pela palavra \u00e9 traduzido aponta para o <em>ventre materno que se revolve,<\/em> lugar de emo\u00e7\u00f5es e como\u00e7\u00e3o. Cf. Ant\u00f3nio Couto, <em>A Miseric\u00f3rdia. Lugar e Modo <\/em>(Minima Theologica 7), Letras e Coisas, 2016, p\u00e1g. 7].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(f) Deus pessoal. \u2013 Pressuposta pelo quadro judaico-crist\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 num Deus pessoal. Ou, na linha do desenvolvimento patr\u00edstico, a compreens\u00e3o de Deus enquanto <em>comunh\u00e3o de pessoas. <\/em>Por isso, a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 interpretada como a participa\u00e7\u00e3o nessa espec\u00edfica comunh\u00e3o que \u00e9 pr\u00f3prio Deus, realizada em comunh\u00e3o humana obtida no espa\u00e7o eclesial: \u00ab(\u2026) a comunh\u00e3o tem de integrar pessoas nas suas identidades concretas, como seres corporais que estabelecem as suas identidades nas suas hist\u00f3rias, nas quais a conting\u00eancia tem lugar. Deste modo, o conceito que permite dar um sentido de conjunto \u00e9 comunh\u00e3o, ou amor, definindo quer a natureza de Deus, quer a nossa rela\u00e7\u00e3o com Ele.\u00bb (p. 279)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 64. <em><u>A ordem impessoal<\/u><\/em><u>. <em>Consequ\u00eancias vivenciais.<\/em><\/u> \u2013 N\u00e3o \u00e9 a era moderna, portanto, o primeiro momento no qual o Cristianismo se debate com uma mundivid\u00eancia que lhe \u00e9 estranha. Mas o que h\u00e1 nela de particular?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daquelas seis caracter\u00edsticas, a sexta e \u00faltima \u00e9 com o Cristianismo, tal como antes compreendido, inteiramente incompat\u00edvel. Na ordem impessoal moderna, desaparece inteiramente, com efeito, aquele tipo espec\u00edfico de comunh\u00e3o humana que \u00e9 nutrida pela pr\u00f3pria comunh\u00e3o divina (p. 280)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o eclipse de Deus enquanto<em> comunh\u00e3o<\/em>, importa encontrar uma outra realidade que desempenhe a mesma fun\u00e7\u00e3o. Tal sub-rogado, a ocupar o lugar pr\u00f3prio da \u00abespiritualidade\u00bb (em sentido rigoroso: da participa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito do pr\u00f3prio Deus), h\u00e1-de ser a <em>moralidade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alguns, a moralidade vir\u00e1 a ser identificada mediante uma raz\u00e3o exercida abstraindo das pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es (Kant).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para outros, a moralidade dever-se-ia fundar precisamente nas emo\u00e7\u00f5es (p. 288).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, em qualquer um dos casos, d\u00e1-se o movimento rigorosamente inverso \u00e0quele que est\u00e1 na origem da f\u00e9 crist\u00e3. Nesta confessa-se a Incarna\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus, que desce ao encontro do mundo para o chamar mais intimamente a si. Agora d\u00e1-se o exacto inverso: movimento de separa\u00e7\u00e3o do mundo e de Deus, para que possam ser inteiramente independentes, vivendo o homem a sua pr\u00f3pria moralidade. De modo muito acutilante, Taylor designa-o <em>excarna\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 65. <em><u>Contexto da emerg\u00eancia da grelha de leitura impessoal<\/u><\/em>. \u2013 A ascens\u00e3o desta grelha de leitura do mundo, assente numa ordem impessoal, \u00e9 coerente com outros fen\u00f3menos do s\u00e9c. XVIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, com efeito, de um per\u00edodo no qual a condi\u00e7\u00e3o humana tende a ser vista como imersa em diferentes ordens de cariz impessoal (p. 280):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O antigo <em>cosmos<\/em> d\u00e1 lugar a um <em>universo <\/em>pensado como regido por leis causais: um universo \u00abinsens\u00edvel, indiferente, como uma m\u00e1quina, ainda que sustentemos que foi designado como uma m\u00e1quina para nosso benef\u00edcio\u00bb (p. 280).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Dos imagin\u00e1rios sociais modernos resulta que a sociedade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 olhada como uma rede de rela\u00e7\u00f5es, mas como uma \u00abordem categorial, igualit\u00e1ria, na qual todos nos relacionamos em acesso directo com a sociedade, que deve ela pr\u00f3pria ser compreendida objectivamente\u00bb (p. 281; cf. os nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">37 e ss<\/a>.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Deste novo pensamento a partir de \u00abordens impens\u00e1veis\u00bb resulta a pr\u00f3pria recompreens\u00e3o da Igreja: j\u00e1 n\u00e3o uma <em>rede de rela\u00e7\u00f5es <\/em>fundadas na <em>ag\u00e1pe <\/em>(o pr\u00f3prio Deus que Se comunica), mas uma sociedade \u00abcategorial\u00bb (assim Taylor a designa) estruturada a partir de certos c\u00f3digos comportamentais, nomeadamente de \u00edndole normativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota ali\u00e1s Taylor que as duas grandes correntes \u00e9ticas hoje dominantes, <em>utilitarista <\/em>e <em>neo-kantiana,<\/em> s\u00e3o \u00e9ticas de <em>crit\u00e9rios de ac\u00e7\u00e3o <\/em>traduzidos em <em>regras de comportamento <\/em>\u2013 diferentemente da, por ex. \u00e9tica aristot\u00e9lica ou crist\u00e3 tradicionais (p. 282). De onde resultam valores \u00faltimos tamb\u00e9m diferentes: uma \u00ab\u00e9tica do c\u00f3digo, da lei\u00bb procura ser uma <em>\u00e9tica de liberdade; <\/em>numa \u00e9tica crist\u00e3, o valor fundamental \u00e9 a <em>rela\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese: \u00abtodas estas formas de ordem impessoal: a natural, a pol\u00edtica e a \u00e9tica dep\u00f5em contra o Cristianismo ortodoxo, e a sua compreens\u00e3o de Deus como um agente pessoal. H\u00e1 uma certa ideia de dignidade humana \u2013 de facto, aquela proposta, entre outros, por Kant \u2013 que se afigura incompat\u00edvel com a f\u00e9 crist\u00e3\u00bb (p. 283).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro modo de explicar a ascens\u00e3o da <em>ordem impessoal <\/em>assenta no movimento de <em>objectiva\u00e7\u00e3o da sociedade<\/em> pr\u00f3prio da era moderna (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">50 e 51<\/a>), e das consequ\u00eancias que dele resultam: \u00abobjectivar um certo dom\u00ednio \u00e9 priv\u00e1-lo da sua for\u00e7a em n\u00f3s, ou pelo menos colocar entre par\u00eanteses os significados que tem para n\u00f3s nas nossas vidas\u00bb (p. 283). Esta objectiva\u00e7\u00e3o resulta da perspectiva mecanicista de compreens\u00e3o da sociedade que se afirma no s\u00e9c. XVII: se um mundo visto como <em>cosmos<\/em> apenas pode ser compreendido, no seu sentido, se houver uma atitude de interesse da pessoa, j\u00e1 num mundo enquanto simples <em>universo<\/em> a indiferen\u00e7a torna-se a \u00fanica atitude poss\u00edvel (p. 284). A pessoa <em>desagrega-se <\/em>do meio envolvente (<em>disengagement<\/em>). A \u00fanica realidade \u00e9 a mente, apenas sobrando, neste quadro cartesiano, a possibilidade de \u00a0<em>reconstruir <\/em>a realidade a partir de ideias claras e distintas (p. 285).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semelhante perspectiva, que deu largo fruto no dom\u00ednio das ci\u00eancias naturais \u2013 \u00e0 qual subjaz uma<em> \u00e9tica<\/em> de \u00abliberdade, controlo, invulnerabilidade, e consequentemente dignidade\u00bb \u2013, foi, depois, alargada aos diferentes dom\u00ednios da cultura. Mas \u2013 conforme se deve ressalvar! \u2013 foi alargada n\u00e3o por raz\u00f5es \u00abcient\u00edficas\u00bb, mas de \u00edndole meramente <em>\u00e9tico<\/em>, a deverem ser discutidas nesse mesmo plano<em>, <\/em>ainda que mascaradas por uma sua outra pretensa natureza (p. 286). Mas precisamente essa expans\u00e3o da perspectiva mundividencial pr\u00f3pria das referidas ci\u00eancias naturais \u2013 e depois sociais, etc. \u2013 veio a colocar em crise a compreens\u00e3o da f\u00e9. Exemplos de pontos de tens\u00e3o entre as perspectivas te\u00edsticas e as exig\u00eancias da ordem pessoal s\u00e3o os <em>milagres<\/em> \u2013 cuja adequada compreens\u00e3o em muito depende, na verdade, do quadro pressuposto que se adopte (p. 287) \u2013 ou as pr\u00e1ticas de <em>piedade popular<\/em> (pp. 287-288)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese: \u00abColocando tudo isto em conjunto, podemos agora ver com um certo tipo de <em>framework <\/em>de compreens\u00e3o se constitui: alimentado pela forte presen\u00e7a de ordens impessoais, c\u00f3smica, social e moral; modelado pelo poder da posi\u00e7\u00e3o desagregadora, e o seu prest\u00edgio \u00e9tico, e ratificada pela sensa\u00e7\u00e3o de que a alternativa era, com base num retrato depreciativo e at\u00e9 certo ponto tem\u00edvel, feito pelas elites, da religi\u00e3o popular, podia nascer a sensa\u00e7\u00e3o inabal\u00e1vel de vivermos numa ordem imanente, impessoal, que espelhava, para todos os que nela habitassem, todos os fen\u00f3menos que se adequassem a este <em>framework<\/em>.\u00bb (p. 288).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta linha de leitura ajusta-se, diga-se por fim, ao modo de compreens\u00e3o da hist\u00f3ria atrav\u00e9s de est\u00e1dios evolutivos (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">48<\/a>), nos termos do qual a compreens\u00e3o tradicional do Cristianismo podia ser vista como pertencente um per\u00edodo j\u00e1 ultrapassado \u2013 entendimento que foi ganhando relevo desde o s\u00e9c. XIX. \u00abEsta poder\u00e1 compreens\u00e3o de uma ordem impessoal inescap\u00e1vel, unindo o social imagin\u00e1rio, uma \u00e9tica epist\u00e9mica, e a consci\u00eancia hist\u00f3rica, tornou-se uma das (num certo sentido n\u00e3o reconhecida) <em>id\u00e9es forces <\/em>da Idade Moderna. At\u00e9 ao presente.\u00bb (pp. 288-290)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ressalva-se apenas, em conclus\u00e3o do presente apertado, que h\u00e1 correntes \u00abcrist\u00e3s\u00bb que se desenvolveram dentro deste mesmo quadro da <em>ordem impessoal<\/em>. Especial aten\u00e7\u00e3o \u00e9 dada na obra ao chamado <em>unitarismo <\/em>(pp. 290-292).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 66. <em><u>Um terceiro factor<\/u><\/em><u>. <em>\u00abA religi\u00e3o nos limites da simples raz\u00e3o.\u00bb<\/em><\/u> \u2013 Depois da <em>viragem antropol\u00f3gica <\/em>e da <em>ordem impessoal, <\/em>surge, ainda, uma terceira caracter\u00edstica, agora respeitante \u00e0 pr\u00f3pria religi\u00e3o. Em lugar das atitudes fundamentais da f\u00e9, tal como se expressava at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 \u00abfidelidade pessoal, ora\u00e7\u00e3o de peti\u00e7\u00e3o, a tentativa de aplacar ou de implicar Deus no nosso destino\u00bb \u2013, uma \u00abreligi\u00e3o fundada na realidade\u00bb. Doravante \u00ab[\u00e9] baseada na Natureza, ou na Raz\u00e3o apenas.\u00bb \u00c9-lhe totalmente estranha sequer a ideia de Revela\u00e7\u00e3o (p. 292). Haver\u00e1 apenas de <em>expelir <\/em>as diferentes falsas religi\u00f5es, recuperando uma subjacente verdade comum; obtendo assim \u00abpaz, conc\u00f3rdia e ajuda rec\u00edproca\u00bb (p. 293).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este quadro de\u00edsta reconfigura tamb\u00e9m, portanto, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a <em>religi\u00e3o<\/em>, desvinculando-a de uma \u00abcerta pr\u00e1tica comunit\u00e1ria de vida religiosa, nas quais se entretecem aspectos de ora\u00e7\u00e3o, f\u00e9 e esperan\u00e7a\u00bb (p. 293). Primeiro haveria que <em>pensar <\/em>sobre Deus; e s\u00f3 depois abra\u00e7ar uma concreta op\u00e7\u00e3o religiosa: \u00abuma apolog\u00e9tica que, em retrospectiva, parece estar a abrir a porta ao ate\u00edsmo no preciso momento em que pensa que o impediu de modo mais efectivo.\u00bb (p. 294)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma: estamos j\u00e1 numa sociedade <em>moderna<\/em>, na qual a <em>cren\u00e7a <\/em>deixou de ser uma evid\u00eancia, secularizada no terceiro sentido a princ\u00edpio avan\u00e7ado (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">1<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ei-la, afinal, a <em>Idade Secular<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/8385-8385\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=196541\">Reimund Bertrams<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=196541\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12461,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12460","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12460","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12460"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12460\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12521,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12460\/revisions\/12521"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12461"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12460"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12460"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}