{"id":12419,"date":"2021-04-30T07:00:12","date_gmt":"2021-04-30T06:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12419"},"modified":"2021-04-30T20:32:57","modified_gmt":"2021-04-30T19:32:57","slug":"modos-de-interaccao-entre-ciencia-e-religiao-perspectivas-nona-perspectiva-temporal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interaccao-entre-ciencia-e-religiao-perspectivas-nona-perspectiva-temporal\/","title":{"rendered":"Modos de interac\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | PERSPECTIVAS | Nona Perspectiva: Temporal"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"text-align: right;\"><em>Perspectivas<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Nona Perspectiva: Temporal<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel possuir o tempo quando sabemos t\u00e3o pouco o que \u00e9, realmente, o tempo? Talvez o tempo n\u00e3o se possua e, por isso, n\u00e3o fa\u00e7a sentido dizer que temos ou n\u00e3o temos tempo. O tempo talvez seja, acima de tudo, uma experi\u00eancia. Mas creio que a grande dificuldade que temos em compreender a perspectiva temporal da nossa exist\u00eancia seja por termos apenas uma palavra para essa experi\u00eancia. Os gregos tinham tr\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando procuramos usar uma palavra como \u201ctempo\u201d para expressar a realidade complexa a isso subjacente, corremos o risco de a compreender menos bem e essa poder\u00e1 ser a g\u00e9nese das dificuldades que temos em lidar com a perspectiva temporal. Os gregos reconheciam tr\u00eas dimens\u00f5es dessa perspectiva e, por isso, criaram a <em>Fraternidade do Tempo<\/em> com os irm\u00e3os mitol\u00f3gicos Aion, Chronos e Kairos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aion \u00e9 o irm\u00e3o do tempo c\u00edclico, ilimitado, um deus das eras que inspirava o sentido religioso da experi\u00eancia que faziam do tempo. Chronos \u00e9 o irm\u00e3o do tempo sequencial, com um acontecimento depois do outro, fragmentado, quantitativo, n\u00e3o p\u00e1ra e tem uma s\u00f3 direc\u00e7\u00e3o: em frente. Kairos \u00e9 o irm\u00e3o do tempo certo, tempo criado pelos eventos em si, tempo que perdura e faz mem\u00f3ria, tempo de sermos e nos tornarmos naquilo que poderemos ser. N\u00e3o h\u00e1 uma perspectiva temporal certa de entre estas tr\u00eas sen\u00e3o a que procura harmoniz\u00e1-las, de modo a que a nossa vida n\u00e3o seja demasiado et\u00e9rea, fragmentada ou desligada da narrativa dos outros e do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo <em>&#8220;aionol\u00f3gico\u201d<\/em> d\u00e1-nos a esperan\u00e7a de uma exist\u00eancia eterna. O tempo cronol\u00f3gico permite distinguir o passado, do presente, e do futuro, ajudando-nos a reconhecer os ritmos e a sincroniz\u00e1-los. O tempo <em>\u201ckairol\u00f3gico\u201d<\/em> leva-nos a uma experi\u00eancia de liberdade, escuta, interioriza\u00e7\u00e3o, pensar, descansar, ou seja, a um tempo de aprendizagem existencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem rejeita a possibilidade da eternidade, reduz a sua perspectiva temporal ao sequencial ou ao tempo certo. O resultado pode ser uma vida ditada pelos eventos, ou \u00e0 deriva pelo pr\u00f3ximo evento, sem nunca tomar consci\u00eancia do significado mais profundo do fio de ouro que a hist\u00f3ria nos revela. Quem rejeita a possibilidade do antes, agora e depois, reduz a sua perspectiva temporal \u00e0 eternidade e ao tempo certo. Esse corre o risco de ficar eternamente \u00e0 espera do tempo certo para fazer seja o que for, vivendo na permanente ansiedade do \u201cainda n\u00e3o\u201d, perdendo a oportunidade do \u201cj\u00e1, mas n\u00e3o ainda\u201d que o momento presente escatol\u00f3gico lhe oferece. Quem rejeita a possibilidade do tempo certo, reduz a sua perspectiva temporal ao eterno e sequencial, nunca vivendo realmente o presente onde tudo o que \u00e9 mais concreto na vida tem sabor e torna-a plena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se pensas que pensar no tempo \u00e9 uma perda de tempo, s\u00f3 o tempo o dir\u00e1. Ou se pensas que o tempo de viver bem o tempo j\u00e1 passou, fica sabendo que podes sempre recome\u00e7ar. E se pensas que as pessoas \u00e0 tua volta n\u00e3o compreendem a raz\u00e3o de andares a correr atr\u00e1s do tempo, talvez seja o momento de parar para pensar nas raz\u00f5es que te levam a viver assim. E se o tempo \u00e9 uma perspectiva t\u00e3o complexa assim, valer\u00e1 a pena questionar o que \u00e9 o tempo? Podemos responder como Santo Agostinho que \u2014 <em>se n\u00e3o me perguntarem, eu sei o que \u00e9, mas se mo perguntarem, n\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia.<\/em> Mas a import\u00e2ncia da pergunta est\u00e1 na abertura que gera de nos deixarmos transformar por esta perspectiva, vivendo-a intensamente. Pois, onde h\u00e1 uma raz\u00e3o, h\u00e1 tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem orienta a sua vida pela quantidade de coisas que consegue fazer no m\u00ednimo tempo poss\u00edvel, desorienta-a. E quem perde a direc\u00e7\u00e3o, perde a raz\u00e3o de fazer, pensar e viver seja o que for. O tempo vivido em cada momento sugere colocarmos, por vezes, o cora\u00e7\u00e3o nas coisas que n\u00e3o passam. Outras vezes, sugere que pintemos o dia seguinte no dia anterior como prepara\u00e7\u00e3o para fazer bem cada coisa. E ainda, outras vezes, sugere que paremos, e contemplemos dentro e fora de n\u00f3s a vida que desabrocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica perspectiva temporal porque a unicidade de cada pessoa torna cada perspectiva temporal \u00fanica. Por isso, na partilha de experi\u00eancias do modo como vivemos o nosso tempo podemos sempre inspirar e ser inspirados. Pois, mesmo que n\u00e3o o possuamos, nada nos impede de <em>dar tempo<\/em> a quem precisa. Mas como posso dar tempo quando o tempo n\u00e3o se possui? Posso amar. Do nada, o amor tudo cria, e, misteriosamente, at\u00e9 o tempo que ningu\u00e9m possui.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: <em>A persist\u00eancia da mem\u00f3ria<\/em> | Salvador Dal\u00ed [1931] &#8211; <a title=\"\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Museu_de_Arte_Moderna_(Nova_Iorque)\">Museu de Arte Moderna<\/a>,\u00a0<a title=\"Nova Iorque\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nova_Iorque\">Nova Iorque<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12421,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62],"tags":[],"class_list":["post-12419","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12419"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12423,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12419\/revisions\/12423"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12421"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}