{"id":12395,"date":"2021-04-26T07:00:27","date_gmt":"2021-04-26T06:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12395"},"modified":"2021-04-22T11:39:20","modified_gmt":"2021-04-22T10:39:20","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-17-deismo-providencialista-tres-teses-sobre-o-humanismo-exclusivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-17-deismo-providencialista-tres-teses-sobre-o-humanismo-exclusivo\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (17) \u2013 De\u00edsmo providencialista. Tr\u00eas teses sobre o humanismo exclusivo"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. A primeira parte da obra foi j\u00e1 conclu\u00edda (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">11<\/a> , <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">12<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">13<\/a>). Encontramo-nos agora j\u00e1 na segunda parte da obra (\u201cO ponto de viragem\u201d), terminando hoje (ap\u00f3s as glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">14<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-15-deismo-providencialista-uma-sociedade-polida\/\">15<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-16-deismo-providencialista-o-eclipse-dos-fins-e-da-graca\/\">16<\/a>) a abordagem do cap\u00edtulo intitulado <em>De\u00edsmo providencialista<\/em> (pp. 221-269). Atentaremos desta vez nas pp. 255-269.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 58. <em><u>Pressupostos ontol\u00f3gicos do novo quadro moral.<\/u> \u2013 <\/em>Um importante ponto que Taylor n\u00e3o deixa de observar \u00e9 a circunst\u00e2ncia de qualquer quadro moral pressupor certos elementos <em>ontol\u00f3gicos<\/em>: n\u00e3o s\u00f3 oferece um quadro de refer\u00eancia comportamental, como tamb\u00e9m \u00abuma imagem do que \u00e9 a vontade de Deus, ou o universo, ou n\u00f3s pr\u00f3prios, que torna essas normas apropriadas e poss\u00edveis de serem realizadas\u00bb (p. 255). Este ponto, que era <em>claramente vis\u00edvel<\/em> no mundo pr\u00e9-moderno, com os seus <em>alicerces da f\u00e9 natural, <\/em>tidos por firmemente ancorados no mundo exterior (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">12<\/a>), como se encontra obscurecido neste novo quadro, a ponto de se poder pensar que a nova ordem moral n\u00e3o pressup\u00f5e qualquer ontologia (pp. 255-256).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela existe, por\u00e9m: \u00e9 o pressuposto de que uma certa <em>ordem de benef\u00edcio rec\u00edproco <\/em>pode ser realizada pelo ser humano, mediante a verifica\u00e7\u00e3o de dadas condi\u00e7\u00f5es, tais como o treino ou a disciplina que permitem que a benevol\u00eancia e a justi\u00e7a, tidas como caracter\u00edsticas naturais do homem, venham ao de cima (p. 256) \u2013 caracter\u00edsticas que s\u00e3o vistas como <em>pr\u00f3prias<\/em>, isto \u00e9, integrantes da dimens\u00e3o <em>\u00f4ntica<\/em> da pessoa, e n\u00e3o apenas como uma simples ilus\u00e3o. E que precisamente por essa sua natureza s\u00e3o vistas como aptas a poderem sustentar mediatamente um discurso <em>universalista<\/em> (p. 256). Tal quadro pode assim tornar-se um alicerce (<em>the charter<\/em>) da descren\u00e7a moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte, as fontes de ac\u00e7\u00e3o moral <em>imanentizam-se <\/em>(p. 257), assim se explicando o curso de teorias oitocentistas como as dos \u201csentimentos morais\u201d. \u00c9 uma <em>imanentiza\u00e7\u00e3o <\/em>que, pelo paradoxo a que j\u00e1 nos acostum\u00e1mos, teve tamb\u00e9m raz\u00f5es de \u00edndole religiosa, nomeadamente a passagem de uma religi\u00e3o centrada em ac\u00e7\u00f5es exteriores para a centralidade da dimens\u00e3o interior. Sendo certo que h\u00e1 reconfigura\u00e7\u00f5es religiosas neste novo quadro (cf. o que se disse sob o <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">n.\u00ba 3<\/a>), nas quais, em lugar da descren\u00e7a, emergem novas pr\u00e1ticas dentro do novo contexto de refer\u00eancia: tal \u00e9 vis\u00edvel, por ex., em movimentos como o <em>Pietismo <\/em>ou o <em>Metodismo,<\/em> ou, j\u00e1 do lado cat\u00f3lico, em devo\u00e7\u00f5es como a do ao <em>Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus<\/em> (pp. 257-258).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>lugar <\/em>da \u201cbenevol\u00eancia\u201d pode ser explicado de duas formas diferentes, conforme j\u00e1 abordado (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-16-deismo-providencialista-o-eclipse-dos-fins-e-da-graca\/\">57<\/a>): pode ser vista, primeiro, como o resultado de se abandonar um ponto de vista parcial de abordagem da realidade, preferindo uma perspectiva universalista; pode ser vista, em alternativa, como uma caracter\u00edstica integrante da natureza profunda da pessoa, que teria uma original propens\u00e3o para a <em>simpatia<\/em>, nublada somente pelo intercurso social (pp. 256-257). Se as duas perspectivas valoram de forma diferente a racionalidade e as institui\u00e7\u00f5es sociais \u2013 ali vistas como condi\u00e7\u00e3o compossibilitante da <em>benevol\u00eancia<\/em>, aqui como obst\u00e1culo a uma espont\u00e2nea manifesta\u00e7\u00e3o do \u00edntimo da pessoa (Rousseau) \u2013, s\u00e3o poss\u00edveis s\u00ednteses entre ambas: \u00abKant \u00e9 um bom exemplo: a nossa natureza numenal \u00e9, de facto, algo que nos \u00e9 inato; mas \u00e9 necess\u00e1ria uma longa disciplina da raz\u00e3o para vir ao de cima\u00bb (p. 257).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguro \u00e9 que esta <em>conquista <\/em>(<em>achievement<\/em>) do <em>humanismo exclusivo<\/em>, no sentido de <em>novidade <\/em>na hist\u00f3ria da humanidade (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-16-deismo-providencialista-o-eclipse-dos-fins-e-da-graca\/\">57<\/a>), se tornou uma perspectiva disseminada, referencial, na <em>Idade Secular, <\/em>seja qual for o ju\u00edzo \u2013 positivo ou negativo \u2013 que sobre ela se formule (pp. 258-259).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 59. <em><u>Tr\u00eas teses sobre o humanismo exclusivo. Primeira tese: a sua conex\u00e3o com uma \u00e9tica de liberdade e de benef\u00edcio rec\u00edproco<\/u>. \u2013 <\/em>Sustenta Taylor, portanto, tr\u00eas teses acerca do humanismo exclusivo: \u00abO que aqui sustento pode ser dividido em tr\u00eas subpartes. Primeiro, tenho estado a dizer que aquilo a que chamo humanismo exclusivo surgiu em conex\u00e3o \u2013 na verdade, como um feixe alternativo de fontes morais de \u2013 uma \u00e9tica de liberdade e de benef\u00edcio rec\u00edproco. Segundo, quero dizer que \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o podia ter surgido de qualquer outra forma. Mas, terceiro, quero afirmar ainda que esta origem ainda tem relevo hoje; que o elenco bem mais amplo de posi\u00e7\u00f5es de descren\u00e7a, ainda hoje existente, ainda \u00e9 marcada por esta origem numa \u00e9tica de uma ordem beneficente.\u00bb (p. 259)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos pelo primeiro ponto, aquele que, segundo nota o pr\u00f3prio Taylor, ser\u00e1 de mais f\u00e1cil aceita\u00e7\u00e3o, e que historicamente teve lugar nos s\u00e9culos XVII e XVIII. O exemplo a que recorre para ilustrar a mudan\u00e7a de sensibilidade \u00e9tica \u00e9 a reac\u00e7\u00e3o negativa \u00e0 revoga\u00e7\u00e3o do \u00c9dito de Nantes por Lu\u00eds XIV (1685), que espelha justamente a indisponibilidade de pensar nos velhos termos a ordem social, sendo agora incompreens\u00edvel, no quadro de uma ordem \u201cbeneficente\u201d, a adop\u00e7\u00e3o de tais medidas contra uma parte da popula\u00e7\u00e3o (Huguenotes): \u00abA liberdade, em particular a liberdade de cren\u00e7a, come\u00e7a a tornar-se um valor em si pr\u00f3pria, um aspecto crucial de qualquer ordem pol\u00edtica aceit\u00e1vel\u00bb (p. 260).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, \u00e9 neste per\u00edodo que se formam os <em>imagin\u00e1rios sociais modernos <\/em>j\u00e1 antes explorados (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">37<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">47<\/a>). \u00c9 o per\u00edodo dos quatro eclipses j\u00e1 antes tratados (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">50<\/a>; v. tb. p. 261): eclipse dos <em>fins<\/em>; da <em>Gra\u00e7a<\/em>; do <em>Mist\u00e9rio<\/em>; da <em>theiosis<\/em>. As mesmas fontes na origem da \u00e9tica de liberdade e beneficente contribuem, pois, para a afirma\u00e7\u00e3o do humanismo exclusivo (pp. 259-261): \u00abEm suma, a identidade protegida (<em>buffered identity<\/em>), capaz de controlo disciplinado e benevol\u00eancia, criou o seu pr\u00f3prio sentido de dignidade e de poder, as suas pr\u00f3prias satisfa\u00e7\u00f5es interiores, e estes podiam pender a favor do humanismo exclusivo\u00bb (p. 262).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a estes factores acrescenta agora Taylor um outro, de pendor negativo: \u00aba raiva, mesmo o \u00f3dio, ao Cristianismo ortodoxo\u00bb (pp. 262-264): \u00ab[p]or muitas vias, poderia terminar-se a rejeitar o Cristianismo, por, ao chamar a algo mais do que a realiza\u00e7\u00e3o humana, ser visto como inimigo implac\u00e1vel do bem da pessoa [<em>human good<\/em>]; e, ao mesmo tempo, uma nega\u00e7\u00e3o da dignidade da identidade protegida auto-suficiente\u00bb (p. 264). Mas tamb\u00e9m neste factor, de ordem negativa, o humanismo exclusivo funda a sua rejei\u00e7\u00e3o do Cristianismo tamb\u00e9m por raz\u00f5es provindas da sua <em>\u00e9tica de liberdade <\/em>e da sua <em>ordem beneficiente<\/em> \u2013 e das <em>satisfa\u00e7\u00f5es morais <\/em>capaz de gerar na implanta\u00e7\u00e3o deste novo quadro, que o torna uma alternativa \u00e0 via religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Visto a partir de um diferente \u00e2ngulo, a substitui\u00e7\u00e3o de um quadro de tens\u00e3o entre a esfera \u201cpol\u00edtica\u201d e esfera \u201creligiosa\u201d, vis\u00edvel em diferentes dimens\u00f5es da sociedade pr\u00e9-moderna (poder pol\u00edtico e poder religioso; c\u00f3digo e contra-c\u00f3digo; diferentes estados de vida; etc.), pela afirma\u00e7\u00e3o de um <em>\u00fanico quadro mundividencial <\/em>(cf. pp. 264-266), impondo-se uma <em>uniformiza\u00e7\u00e3o <\/em>do padr\u00e3o comportamental individual e social:\u00a0 \u00abn\u00e3o existe mais uma esfera aut\u00f3noma do \u201cespiritual\u201d em que se pode levar uma vida de ora\u00e7\u00e3o fora do <em>saeculum; <\/em>e n\u00e3o existe a outra alterna\u00e7\u00e3o, entre ordem e anti-ordem, que o Carnaval representa. Existe apenas esta ordem incessante de pensamento e ac\u00e7\u00e3o correcta, que deve ocupar todo o espa\u00e7o pessoal e social\u00bb (p. 266). Ora, justamente esta <em>uniformiza\u00e7\u00e3o <\/em>de esferas conduz a que <em>nela <\/em>(agora ordem \u00fanica) se adoptem os fins pr\u00f3prios dos dom\u00ednios seculares, como a <em>prosperidad<\/em>e ou o <em>benef\u00edcio rec\u00edproco<\/em>, assim se compossibilitando uma viragem antropoc\u00eantrica (p. 266): \u00abapenas precisa do passo [adicional] de sustentar que estes bens seculares s\u00e3o o ponto central de todo o c\u00f3digo social\u00bb (p. 267).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 60. <u>Cont. \u2013<\/u> <em><u>Segunda tese. Necessidade de um semelhante modo de emerg\u00eancia<\/u>. \u2013 <\/em>A segunda tese \u00e9 que s\u00f3 nestes termos se poderia dar a passagem de um quadro de refer\u00eancia crist\u00e3o para um quadro de refer\u00eancia n\u00e3o crist\u00e3o, isto \u00e9, mediante um quadro \u00e9tico que conseguisse oferecer sub-rogados para as <em>formas existenciais <\/em>pr\u00f3prias de uma exist\u00eancia crist\u00e3: \u00abComo poderia em tal \u00e9poca ser combatida a imensa for\u00e7a da religi\u00e3o na vida humana, a n\u00e3o ser usando uma modalidade de poderosas ideias \u00e9ticas que a mesma religi\u00e3o ajudara a consolidar?\u00bb (p. 267)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que quest\u00f5es de <em>verdade <\/em>ou <em>falsidade <\/em>da religi\u00e3o, \u00e9 a <em>viv\u00eancia<\/em> experiencial de uma nova ordem moral, com quanto implica de quadro envolvente de toda a ac\u00e7\u00e3o humana, que permite colocar em causa o anterior quadro de cren\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 61. <u>Cont. \u2013<\/u> <em><u>Terceira tese. Relev\u00e2ncia desta rela\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao presente<\/u>. \u2013 <\/em>O humanismo exclusivo continua a definir-se por <em>contraposi\u00e7\u00e3o <\/em>ao quadro te\u00edstico anterior: Deus continua a ser uma refer\u00eancia mesmo para o discurso <em>agn\u00f3stico<\/em> ou <em>ateu, <\/em>que n\u00e3o se define sen\u00e3o por refer\u00eancia ao que <em>n\u00e3o acredita <\/em>ou ao que <em>nega<\/em>. Isto \u00e9, continua a ser impens\u00e1vel \u00abuma condi\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia de religi\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o mere\u00e7a a designa\u00e7\u00e3o de descren\u00e7a\u00bb (p. 269), mas se afirme de modo perfeitamente aut\u00f3nomo. Ao mesmo tempo, o pr\u00f3prio <em>humanismo exclusivo<\/em> se torna um novo quadro de refer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese: \u00abTodas as quest\u00f5es presentes acerca do secularismo e da cren\u00e7a s\u00e3o afectadas por uma dupla historicidade (\u2026). Por um lado, a descren\u00e7a e o humanismo exclusivo definem-se eles pr\u00f3prios por rela\u00e7\u00e3o a modos anteriores de cren\u00e7a, quer em rela\u00e7\u00e3o ao te\u00edsmo ortodoxo, quer em rela\u00e7\u00e3o a compreens\u00f5es <em>encantadas<\/em> do mundo; e esta defini\u00e7\u00e3o conserva-se insepar\u00e1vel da descren\u00e7a hoje. Por outro lado, formas de descren\u00e7a surgidas depois, assim como todas as tentativas de redefinir e de recuperar a cren\u00e7a definem-se elas pr\u00f3prias por rela\u00e7\u00e3o a este pioneiro (<em>path-breaking<\/em>) humanismo de liberdade, disciplina e ordem.\u00bb (p. 269).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo quando <em>a-teu, <\/em>o quadro \u201csecular\u201d n\u00e3o \u00e9 de verdadeira <em>supera\u00e7\u00e3o<\/em> da dimens\u00e3o religiosa, mas de <em>tens\u00e3o <\/em>conflituante com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00f3xima glosa veremos o cap\u00edtulo seguinte, concluindo assim a segunda parte da obra. Veremos uma outra caracter\u00edstica deste per\u00edodo: a sua <em>no\u00e7\u00e3o impessoal de ordem<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/comfreak-51581\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=845847\">Comfreak<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=845847\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12396,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12395","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12395"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12395\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12397,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12395\/revisions\/12397"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12396"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}