{"id":12315,"date":"2021-04-12T07:00:19","date_gmt":"2021-04-12T06:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12315"},"modified":"2021-04-10T15:13:13","modified_gmt":"2021-04-10T14:13:13","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-16-deismo-providencialista-o-eclipse-dos-fins-e-da-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-16-deismo-providencialista-o-eclipse-dos-fins-e-da-graca\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (16) \u2013 De\u00edsmo providencialista. O eclipse dos fins e da Gra\u00e7a."},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. A primeira parte da obra foi j\u00e1 conclu\u00edda (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">11<\/a> , <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">12<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">13<\/a>). Encontramo-nos agora j\u00e1 na segunda parte da obra (\u201cO ponto de viragem\u201d), prosseguindo (ap\u00f3s as glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">14<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-15-deismo-providencialista-uma-sociedade-polida\/\">15<\/a>) a abordagem do cap\u00edtulo intitulado <em>De\u00edsmo providencialista<\/em> (pp. 221-269). Atentaremos hoje nas pp. 242-255.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 55. <em><u>Sequ\u00eancia. O eclipse dos fins.<\/u> \u2013 <\/em>Vimos j\u00e1, ao princ\u00edpio do presente cap\u00edtulo, quatro significativas mudan\u00e7as <em>antropoc\u00eantricas <\/em>que contribu\u00edram para a emerg\u00eancia do <em>De\u00edsmo Providencialista<\/em> (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">50<\/a>). Falou-se, ent\u00e3o, do <em>eclipse dos fins; da Gra\u00e7a; do Mist\u00e9rio; da th\u00e9osis. <\/em>Destes quatro, os dois primeiros s\u00e3o vistos como cruciais, conduzindo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dos outros dois restantes, e s\u00e3o objecto de an\u00e1lise particular a partir das pp. 242 e ss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, a afirma\u00e7\u00e3o da ideia de que o \u00fanico fim de Deus <em>para a humanidade<\/em> seria a realiza\u00e7\u00e3o de uma ordem que houvera ideado para a respectiva felicidade e bem-estar (p. 242) esvazia de significado, portanto, os fins transcendentes, propriamente religiosos (cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">4<\/a>). A <em>introdu\u00e7\u00e3o de uma ordem de vida <\/em>e a <em>reac\u00e7\u00e3o \u00e0 desordem <\/em>nas pr\u00f3prias vidas \u2013 resultante do desconforto com a assimetria entre os diferentes <em>estados de vida <\/em>(cf. n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">8<\/a>)<em>, <\/em>como agora repetido (pp. 242-242), mas j\u00e1 antes largamente tratado \u2013 configura um dos eixos motivadores centrais da ac\u00e7\u00e3o reformadora (a remontar, no limite, \u00e0 reforma gregoriana), que justamente intentou dar uma nova forma aos padr\u00f5es de vida de grande parte da popula\u00e7\u00e3o (cf. n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">13 e ss<\/a>.): \u00abA ideia come\u00e7a lentamente a crescer, desenvolvendo-se atrav\u00e9s de diferentes etapas por v\u00e1rios s\u00e9culos, de um mundo aqui e agora em que nenhuns compromissos t\u00eam de ser feitos com qualquer princ\u00edpio alternativo. A promessa da <em>Parous\u00eda, <\/em>de que Deus ser\u00e1 tudo em tudo, pode ser realizada aqui, ainda que numa forma reduzida que exige certas limita\u00e7\u00f5es.\u00bb (p. 243)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semelhante ideia ser\u00e1 sucessivamente repetida em diferentes momentos de tentativa de imprimir uma <em>nova ordem <\/em>\u00e0 sociedade: realmente, o processo que se narrou nos nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">13<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">32<\/a> \u00e9 integrado por distintos movimentos, de diferente proveni\u00eancia e inten\u00e7\u00e3o, mas sempre com o elemento comum de desejo de transforma\u00e7\u00e3o do todo social. Esta constante ac\u00e7\u00e3o de reforma, que se torna mesmo uma das caracter\u00edsticas da cristandade latina do segundo mil\u00e9nio (pp. 243-244), expande-se depois ao servi\u00e7o de objectivos de outra natureza, meramente civis (inicialmente com uma inten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ela religiosa \u2013 cf., por ex., o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">16<\/a> \u2013, mas depois, justamente com o estreitamento da dimens\u00e3o propriamente religiosa-transcendente, consolidando a sua dimens\u00e3o meramente civil), tendo o \u00abfim mais ambicioso, modificar os h\u00e1bitos e pr\u00e1tica de vida, n\u00e3o s\u00f3 religiosas, mas tamb\u00e9m civis, de popula\u00e7\u00f5es inteiras; incutindo formas de vida ordenadas, s\u00f3brias, disciplinadas, produtivas\u00bb: o ideal da civiliza\u00e7\u00e3o (p. 244).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que inicialmente fora o <em>fruto <\/em>de uma espec\u00edfica inten\u00e7\u00e3o religiosa, acabou, portanto, por ser um decisivo <em>factor <\/em>determinante para o obscurecimento dessa mesma dimens\u00e3o da exist\u00eancia humana, como j\u00e1 referido: \u00abO investimento tremendo na reforma, e assim na disciplina, que inspira um sentimento de superioridade no seio de crist\u00e3os latinos e ex-latinos, quando contemplam outras cren\u00e7as religiosas ou mesmo outras igrejas crist\u00e3s, este imenso esfor\u00e7o parece ter, ele pr\u00f3prio, obscurecido os elementos essenciais da f\u00e9, e ter conduzido a que algo secund\u00e1rio fosse colocado a substituir o fim prim\u00e1rio de centrar tudo em Deus. Esta foi a primeira mudan\u00e7a.\u00bb (p. 244)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 56. <u>O <em>eclipse da Gra\u00e7a. A emergente \u201cnatureza humana\u201d<\/em><\/u><em>. \u2013 <\/em>Em raz\u00e3o do estreitamento dos fins, que deixam de englobar o transcendente, diminui tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da Gra\u00e7a: se os fins se tornam meramente imanentes, ent\u00e3o o homem disp\u00f5e j\u00e1 das for\u00e7as necess\u00e1rias para a respectiva realiza\u00e7\u00e3o (p. 244). Para que tal ocorra, por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio um <em>sub-rogado, <\/em>isto \u00e9, algo que permita a \u00abexperi\u00eancia de realiza\u00e7\u00e3o moral (<em>moral fullness<\/em>), identificar o lugar da nossa maior capacidade e inspira\u00e7\u00e3o moral, sem refer\u00eancia a Deus, mas dentro dos poderes puramente intrahumanos\u00bb (pp. 244-245). Como foi poss\u00edvel tal passagem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num primeiro momento, a alternativa humanista s\u00f3 poderia passar por uma tentativa de substitui\u00e7\u00e3o da <em>ag\u00e1pe <\/em>crist\u00e3 (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">2<\/a>) ou da no\u00e7\u00e3o de benevol\u00eancia desinteressada neo-est\u00f3ica (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">27<\/a>). Precisamente a <em>benevol\u00eancia <\/em>e um certo tipo de <em>universalismo, <\/em>aspira\u00e7\u00e3o a justi\u00e7a universal, tornam-se caracter\u00edsticas das principais correntes \u00e9tico-filos\u00f3ficas da \u00e9poca: do humanismo exclusivo oitocentista; do utilitarismo; da \u00e9tica kantiana; das doutrinas dos direitos humanos; da promo\u00e7\u00e3o da felicidade humana e do respetivo bem-estar. Para que estes fins emergissem, por\u00e9m, e se tornassem princ\u00edpios de ac\u00e7\u00e3o, n\u00e3o bastaria a eros\u00e3o do quadro anterior (\u00abteorias de subtrac\u00e7\u00e3o\u00bb) \u2013 foi e \u00e9 necess\u00e1rio um princ\u00edpio positivo que permita a respectiva afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, o novo eixo a partir do qual brota a for\u00e7a de actua\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de <em>natureza humana<\/em>. No\u00e7\u00e3o que adquire agora novos sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, embora apele \u00e0 no\u00e7\u00e3o de natureza, nega \u2013 diferentemente da mundivid\u00eancia religiosa crist\u00e3 ou de outras mundivid\u00eancias cl\u00e1ssicas (Plat\u00e3o, Estoicismo) \u2013 que tal pressuponha uma qualquer dimens\u00e3o transcendente, superior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro, embora seja imanentista \u2013 como o era, por ex., o epicurismo (cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">4, b)<\/a>) \u2013, n\u00e3o deixa de herdar aspectos do passado <em>te\u00edstico<\/em>, ou pelo menos n\u00e3o imanent\u00edstico, da cristandade latina, ainda que o recoloque num novo quadro. Assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) \u00c9-lhe central a ideia de reordena\u00e7\u00e3o da sociedade de acordo com a raz\u00e3o instrumental, em vista da promo\u00e7\u00e3o de fins humanos;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Seja a partir do passado crist\u00e3o, seja atrav\u00e9s do neo-estoicismo, herdou uma pretens\u00e3o <em>universalista, <\/em>de que em princ\u00edpio <em>todos <\/em>dever\u00e3o participar desta nova ordem social, removendo-se sucessivamente as barreiras que a tanto se oponham;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Finalmente, sup\u00f5e uma inclina\u00e7\u00e3o natural do homem de agir para o bem dos semelhantes. Sendo que o semelhante j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas aquele a quem estamos ligados por la\u00e7os de amizade ou de perten\u00e7a pol\u00edtica (mesma <em>polis<\/em>), mas qualquer pessoa. O que era uma pretens\u00e3o central do cristianismo \u2013 a supera\u00e7\u00e3o das barreiras de perten\u00e7a, para acolher o pr\u00f3ximo na sua alteridade (par\u00e1bola do bom samaritano) \u2013, plenamente realizada apenas enquanto <em>dom de Deus <\/em>que Se d\u00e1 inteiramente, em Cristo, ultrapassando todas as lealdades particulares de perten\u00e7a (p. 246), \u00e9 agora visto como t\u00e3o-s\u00f3 um aspecto da normal psicologia humana: uma inclina\u00e7\u00e3o j\u00e1 natural do homem, que apenas n\u00e3o vem ao de cima quando limitada pelas circunst\u00e2ncias. Assim, o que outrora era visto como Gra\u00e7a \u00e9 agora visto como um poder j\u00e1 inaptamente ao dispor do homem. O moderno humanismo, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas um regresso ao passado; mas uma incorpora\u00e7\u00e3o, reformuladora, de alguns elementos centrais crist\u00e3os, relidos por\u00e9m em chave antropoc\u00eantrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Veja-se, sob um outro ponto de vista, as diferen\u00e7as entre as duas seguintes compreens\u00f5es de <em>fraternidade: <\/em>enquanto decorr\u00eancia da experi\u00eancia de uma comum <em>filia\u00e7\u00e3o, <\/em>o que pressup\u00f5e uma tamb\u00e9m comum profiss\u00e3o de f\u00e9; ou enquanto gen\u00e9rica e descaracterizada <em>filantropia<\/em>.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora: esta tend\u00eancia humana \u00e9 vista como aceit\u00e1vel apenas quando dentro do quadro de racionalidade que se pretende regente do todo da sociedade. Tudo o que ultrapasse tais barreiras \u00e9 visto como uma \u201cextravag\u00e2ncia\u201d, como forma de \u201centusiasmo\u201d: \u00abo sucessor da <em>ag\u00e1pe <\/em>tem de ser mantido dentro com limites de medida, da raz\u00e3o instrumental, e mesmo do bom gosto\u00bb (p. 247; cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-15-deismo-providencialista-uma-sociedade-polida\/\">54<\/a>). Da\u00ed, pois, a hostilidade de autores da \u00e9poca (Hume, Gibbon) para com, por ex., o monasticismo, as miss\u00f5es, a profecia, a prega\u00e7\u00e3o emocional de um John Wesley (Metodismo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 57. <em><u>Duas notas acerca do sub-rogado da ag\u00e1pe. Os seus fundamentos<\/u> \u2013 <\/em>Este <em>sub-rogado <\/em>da ag\u00e1pe goza de algumas caracter\u00edsticas particulares que permitem espelhar algumas das caracter\u00edsticas da \u00e9poca (pp. 247-250):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Tratou-se de um meio que permitiu propulsionar a passagem para o humanismo exclusivo. Com efeito, a <em>ag\u00e1pe <\/em>(ou a caridade) respeita \u00e0 conduta individual; implica a tomada em considera\u00e7\u00e3o do outro; sup\u00f5e a adop\u00e7\u00e3o das devidas disposi\u00e7\u00f5es interiores para poder ser vivida. A mudan\u00e7a de <em>sentido <\/em>\u2013 passagem da <em>ag\u00e1pe <\/em>para um <em>seu sub-rogado <\/em>\u2013 resulta do momento em que se assume que este <em>poder <\/em>de criar uma tal ordem est\u00e1 j\u00e1 plenamente ao dispor do ser humano. Este sub-rogado permite, pois, uma transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o abrupta, como que despercebida, entre dois quadros \u00e9tico-morais na verdade fundamentalmente distintos (diferentemente seria caso a passagem fosse directamente, conforme observa Taylor, para um quadro hedonista <em>lucreciano, <\/em>de sabor epicurista);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A necessidade de conservar um sub-rogado para a <em>ag\u00e1pe <\/em>resulta, por outro lado, de n\u00e3o se poder prescindir de uma <em>fonte moral <\/em>\u2013 um princ\u00edpio de ac\u00e7\u00e3o moral \u2013 que servisse de est\u00edmulo ao quadro \u00e9tico-comportamental da \u00e9poca: o <em>brio, <\/em>o <em>orgulho <\/em>de assumir as exig\u00eancias da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, a \u201cg\u00e9n\u00e9rosit\u00e9\u201d no sentido j\u00e1 antes tratado (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">30<\/a>). A aceita\u00e7\u00e3o de que \u00e9 pr\u00f3prio do homem racional um certo sentido de benefic\u00eancia e de justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rias s\u00e3o as <em>fontes <\/em>encontradas para a referida benevol\u00eancia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A ideia de que a raz\u00e3o instrumental, com a sua \u201cimparcialidade desapaixonada\u201d, \u00e9 tida por bastante par fundamentar tal benefic\u00eancia (ra\u00edzes neo-est\u00f3icas). Isto \u00e9, o <em>observador imparcial <\/em>(cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/\">50<\/a>) seria, porque imparcial, j\u00e1 de si benevolente. Subjaz a esta perspectiva que, ao <em>descentrar-se <\/em>do mundo, o agente passa j\u00e1 a considerar os outros no seu \u00e2ngulo de abordagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Pense-se na proposta utilitarista de um Mill. S\u00e3o linhas de abordagem cujo acento est\u00e1 no <em>m\u00e9todo <\/em>utilizado: pelo m\u00e9todo adequado se chegaria ao recto agir<em>.<\/em>]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A suposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma vontade pura, universal, \u00e0 qual se deveria dar aquiesc\u00eancia racional: poder de agir de acordo com uma admir\u00e1vel lei universal pass\u00edvel de ser identificada. As palavras conclusivas da <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica <\/em>de Kant, citadas por Taylor, espelham nitidamente este modo de abordagem \u2013 palavras que espelham o fasc\u00ednio do fil\u00f3sofo, quer perante o c\u00e9u estrelado sobre si, quer perante as leis morais que descobre no seu interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Trata-se de uma linha, agora, de pendor <em>racionalista<\/em>, sublinhando a for\u00e7a da raz\u00e3o.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) A admiss\u00e3o de uma esp\u00e9cie de <em>simpatia universal, <\/em>j\u00e1 conata ao ser humano, apenas carecida das devidas condi\u00e7\u00f5es sociais para se manifestar. \u00c9 a linha de um Rousseau, com a respectiva no\u00e7\u00e3o de <em>piti\u00e9<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0(d) Finalmente, a sustenta\u00e7\u00e3o, na senda de um Feuerbach, de que o poder que tipicamente se reconhece a Deus n\u00e3o \u00e9, na verdade, mais do que a projec\u00e7\u00e3o alienante de capacidades de que o ser humano j\u00e1 disp\u00f5e, que caberia apenas descobrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Estas duas \u00faltimas linhas que assentam em <em>antropologias<\/em>, e <em>psicologias<\/em>, espec\u00edficas do ser humano.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em qualquer um destes casos, n\u00e3o estamos somente na presen\u00e7a de <em>teorias explicativas <\/em>acerca da capacidade e condi\u00e7\u00e3o humana, mas de verdadeiras <em>formas de experi\u00eancia moral<\/em>, sendo a rela\u00e7\u00e3o do <em>Eu <\/em>ante si e ante o mundo realizada em cada caso de um modo diferente (p. 251): o <em>sentido <\/em>condiciona a pr\u00f3pria <em>experi\u00eancia <\/em>(p. 252). Precisamente por isso, uma mera teoria da seculariza\u00e7\u00e3o que assente na mera <em>subtrac\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013 isto \u00e9, que postule o mero desaparecimento de Deus de diferentes dimens\u00f5es do espa\u00e7o p\u00fablico \u2013 tem dificuldade em explicar os novos quadros <em>experienciais <\/em>entretanto surgidos, altamente condicionados por <em>novos sentidos <\/em>surgidos (p. 253).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As referidas <em>teorias da subtrac\u00e7\u00e3o <\/em>est\u00e3o, por\u00e9m, estreitamente ligadas \u00e0 vis\u00e3o iluminista de que bastaria <em>resgatar <\/em>e <em>trazer ao de cima <\/em>a natureza humana que estaria travada por um amplo conjunto de institui\u00e7\u00f5es caducas. <em>Subtraindo-se <\/em>o indevido, logo refulgiria o verdadeiro (p. 253).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistimos, pois, a uma significativa mudan\u00e7a. De poss\u00edvel obst\u00e1culo \u00e0 plena realiza\u00e7\u00e3o das finalidades de justi\u00e7a e de benevol\u00eancia, a <em>natureza humana<\/em> passa a ser olhada, quer como inocente, quer como originariamente como boa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A natureza humana pode ser olhada, primeiro, como \u00e0 partida <em>inocente <\/em>ou <em>neutral<\/em>: nem boa, nem m\u00e1, capaz do bem e capaz do mal (p. 253). Tal nova perspectiva alinha de modo muito ajustado com a nova perspectiva objectivante, universalizante, pr\u00f3pria do emergente discurso cient\u00edfico, como \u201cobservador imparcial\u201d (p. 254)<em>.<\/em> \u00c9, tamb\u00e9m, uma perspectiva que sup\u00f5e uma \u201craz\u00e3o desincarnada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A natureza humana pode ser olhada como genuinamente <em>boa<\/em>, propendendo a pessoa para a solidariedade, a afectividade ante os outros (<em>sympathy, piti\u00e9<\/em>): e da\u00ed a no\u00e7\u00e3o do <em>bom selvagem<\/em> (Rousseau). Ou, ent\u00e3o, tendo a capacidade <em>natural <\/em>de se alinhar com valores dessa natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em qualquer um dos casos, n\u00e3o se trata apenas de <em>diferentes tentativas de explica\u00e7\u00e3o <\/em>do modo como se v\u00ea a natureza, mas de se introduzir um diferente modo de rela\u00e7\u00e3o com ela, condicionando de forma decisiva as experi\u00eancias vitais (p. 254). \u00c9, pois, como <em>fonte de ac\u00e7\u00e3o moral <\/em>\u2013 como tamb\u00e9m as <em>religi\u00f5es <\/em>o s\u00e3o \u2013 que estas novas perspectivas devem ser olhadas (p. 255). A particularidade desta <em>fonte moral moderna <\/em>\u00e9 que \u00abpela primeira vez, temos [os seres humanos] uma forma de lidar com o universal que n\u00e3o \u00e9 baseada em qualquer conex\u00e3o com o transcendente. Mesmo que pensamos que este apelo \u00e9 insuficiente, porque deixa de fora algo importante, temos de reconhecer que o desenvolvimento deste sentido puramente imanente da solidariedade universal \u00e9 uma importante conquista (<em>achievement<\/em>), uma marco na hist\u00f3ria humana\u00bb (p. 255). Claro que se pode questionar a <em>bondade <\/em>de tal forma: mas certamente ela existe e <em>\u00e9 vista <\/em>como uma alternativa vi\u00e1vel, mesmo como a melhor alternativa, por uma parte muito significativa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o quadro \u00f4ntico pr\u00e9-moderno tinha as caracter\u00edsticas j\u00e1 antes estudadas, quais as subjacentes ao quadro moral moderno?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-lo-emos na pr\u00f3xima glosa, com a qual concluiremos o cap\u00edtulo 6.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/mohamed_hassan-5229782\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5690627\">mohamed Hassan<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5690627\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12316,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12315","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12315"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12317,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12315\/revisions\/12317"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12316"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}