{"id":12120,"date":"2021-03-15T07:00:34","date_gmt":"2021-03-15T07:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12120"},"modified":"2021-03-09T15:29:03","modified_gmt":"2021-03-09T15:29:03","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-14-deismo-providencialista-quatro-eclipses\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (14) \u2013 De\u00edsmo providencialista. Quatro eclipses"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas glosas. A primeira parte da obra foi j\u00e1 conclu\u00edda (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">11<\/a> , <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">12<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">13<\/a>). Iniciamos agora a segunda parte (\u201cO ponto de viragem\u201d), dirigindo a nossa aten\u00e7\u00e3o para o primeiro dos seus dois cap\u00edtulos \u2013 <em>De\u00edsmo providencialista<\/em> (pp. 221-269) \u2013, sobre o qual incidir\u00e3o quatro glosas. Come\u00e7amos hoje com a considera\u00e7\u00e3o das pp. 221-235.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 49. <em><u>Ponto de ordem. De\u00edsmo providencialista. V\u00e1rias dimens\u00f5es<\/u>. \u2013 <\/em>Nos dois primeiros cap\u00edtulos da obra, assistimos aos efeitos do movimento de <em>reforma <\/em>(com min\u00fascula), e, especificamente, de <em>Reforma <\/em>(para a diferen\u00e7a, cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">13<\/a>), que, surgido no espa\u00e7o da Cristandade medieval (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">13<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">18<\/a>), implicou a remo\u00e7\u00e3o de muitos dos alicerces de uma f\u00e9 natural (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">12<\/a>). A este evento hist\u00f3rico e \u00e0s suas consequ\u00eancias, com particular significado a partir do s\u00e9c. XVI, segue-se a \u00absociedade disciplinadora\u00bb (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">20<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">32<\/a>), para a qual contribu\u00edram tamb\u00e9m outras fontes: o renovado interesse na natureza (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">20<\/a>), o nominalismo (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">21<\/a>), o ideal de civilidade (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">22<\/a>), as reconfigura\u00e7\u00f5es do discurso \u00e9tico (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">26<\/a>), o neo-estoicismo (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">27<\/a>), o cartesianismo (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">30<\/a>), etc. Ainda n\u00e3o est\u00e1vamos, por\u00e9m, numa <em>Idade n\u00e3o Secular. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De resto, a passagem de uma <em>Idade Secular <\/em>para uma outra <em>n\u00e3o Secular<\/em> n\u00e3o veio a ocorrer sequer <em>uno acto<\/em>. Entre a reforma e as suas consequ\u00eancias, por um lado, e o humanismo exclusivo, por outro, encontra-se um per\u00edodo a que Taylor apelida de \u201cDe\u00edsmo providencialista\u201d (<em>Providential Deism<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem tal per\u00edodo os seguintes tra\u00e7os:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) \u00c9 <em>de\u00edsta, <\/em>uma vez que ainda aceita a refer\u00eancia a Deus. Contudo, nota-se um giro em direc\u00e7\u00e3o antropoc\u00eantrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A ordem da Cria\u00e7\u00e3o passa a ser pensada em termos essencialmente <em>impessoais <\/em>(por isso \u00e9 o per\u00edodo <em>de\u00edsta <\/em>e n\u00e3o <em>te\u00edsta<\/em>): a <em>obedi\u00eancia <\/em>a Deus assenta apenas na determina\u00e7\u00e3o, e na observ\u00e2ncia, desses mesmos princ\u00edpios de \u00edndole impessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Finalmente, o <em>De\u00edsmo<\/em> pode ser visto como uma religi\u00e3o natural que houvera sido corrompida de diferentes formas, e que caberia redescobrir (p. 221).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com a considera\u00e7\u00e3o deste est\u00e1dio interm\u00e9dio entre a <em>Idade n\u00e3o Secular <\/em>e a alternativa <em>n\u00e3o Secular <\/em>que iniciamos a considera\u00e7\u00e3o da segunda parte da obra, de t\u00edtulo \u00abO ponto de viragem\u00bb (<em>The Turning Point<\/em>), e que se corresponde \u00e0s pp. 219-295. O primeiro dos seus dois cap\u00edtulos, sexto da obra, tem por justo t\u00edtulo \u00abDe\u00edsmo providencialista\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 50. <em><u>Quatro eclipses<\/u><\/em>. \u2013 Assistimos j\u00e1 \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma <em>Nova Ordem Moral <\/em>nos primeiros s\u00e9culos da modernidade (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">38 a 41<\/a>), assim como \u00e0 nova compreens\u00e3o da<em> Economia <\/em>dela adveniente (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">42<\/a>). Ora pela emerg\u00eancia da referida <em>Nova Ordem Moral, <\/em>ora pela <em>Economia<\/em>, estreitam-se de modo muito significativo os fins que a humanidade entende que lhe s\u00e3o divinamente propostos, reduzidos que ficam \u00e0 simples promo\u00e7\u00e3o do bem-estar dos homens. Apenas nisto consistiria a <em>Provid\u00eancia <\/em>(p. 221).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor identifica quatro mudan\u00e7as fundamentais \u2013 ocorridas pelos s\u00e9c. XVII e XVIII \u2013 que reconfiguram a presen\u00e7a de Deus no todo social. Cada uma delas constitui um <em>eclipse<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) <em>Eclipse do sentido da exist\u00eancia de um qualquer fim ulterior ao bem estar do homem<\/em> (p. 222)<em>. <\/em>D\u00e1-se, primeiro, uma viragem antropoc\u00eantrica no modo de compreens\u00e3o dos prop\u00f3sitos de Deus para o homem, que j\u00e1 n\u00e3o <em>ultrapassam <\/em>a respectiva prosperidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Visto do ponto de vista da pessoa, tem isto por consequ\u00eancia que o modo mais perfeito de o homem colaborar com Deus \u00e9 a procurar o seu bem individual. Onde esta linha seja seguida, pode mesmo concluir-se que \u00abos objectivos da religi\u00e3o e da pol\u00edtica s\u00e3o os mesmos\u00bb (p. 222). De acordo com o Abade de Saint-Pierre (1658-1743), citado por Taylor, s\u00e3o esses fins \u00abl\u2019observation de la justice et la pratique de la bienfaisance\u00bb (\u00aba observ\u00e2ncia da justi\u00e7a e a pr\u00e1tica da benefic\u00eancia\u00bb). Este \u00faltimo termo, <em>bienfaisance <\/em>ou <em>benefic\u00eancia<\/em>, tornar-se-\u00e1 ali\u00e1s um termo central do iluminismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) <em>Eclipse da Gra\u00e7a<\/em> (pp. 222-223). Para a realiza\u00e7\u00e3o dos seus fins, j\u00e1 n\u00e3o precisa o homem da assist\u00eancia da Gra\u00e7a. Em seu lugar, \u00e9 apenas necess\u00e1ria a <em>raz\u00e3o <\/em>e a <em>disciplina<\/em>. Embora a refer\u00eancia a Deus continue presente, a montante como Criador e a jusante como Julgador, esvanece-se o sentido actual da sua Presen\u00e7a: apenas conta o adequado exerc\u00edcio das <em>for\u00e7as <\/em>que o homem j\u00e1 possui, sem necessidade de qualquer assist\u00eancia provinda do exterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) <em>Eclipse da no\u00e7\u00e3o de Mist\u00e9rio <\/em>(p. 223-224). Em lugar da centralidade do <em>Mist\u00e9rio,<\/em> sublinha-se a <em>linearidade <\/em>dos bons prop\u00f3sitos de Deus para a humanidade (ver <em>a)<\/em>), reduzindo-se a considera\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es tais como a do <em>mal <\/em>(mas veja-se o que adiante se dir\u00e1 sobre a <em>Teodiceia<\/em>). Tais bons prop\u00f3sitos seriam claramente identific\u00e1veis a partir do modo como o mundo foi elaborado. Tudo o que sobra, pois, \u00e9 descobrir o <em>plano <\/em>que foi oferecido \u00e0 humanidade, que esta, por seu turno, \u00e9 plenamente capaz de identificar pelas suas pr\u00f3prias for\u00e7as (<em>a)<\/em>). Da\u00ed a hostilidade iluminista em rela\u00e7\u00e3o aos <em>milagres, <\/em>precisamente porque contrastantes com esta no\u00e7\u00e3o de <em>ordem <\/em>que pode ser <em>linearmente conhecida <\/em>pela pessoa, dado traduzirem uma interven\u00e7\u00e3o <em>pessoal<\/em> de Deus na ordem do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) <em>Eclipse da ideia de que Deus transforma o homem j\u00e1 na vida terrena<\/em> (p. 224). Isto \u00e9, da ideia de que Deus chama o homem para que este, pela sua transforma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Gra\u00e7a, se <em>divinize \u2013 <\/em>termo este, o de <em>diviniza\u00e7\u00e3o <\/em>(<em>theiosis<\/em>), tipicamente usado pela teologia oriental [sublinha-o particularmente o novo <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/documentos-vaticano-apresenta-novo-diretorio-para-a-catequese-do-seculo-xxi\/\"><em>Direct\u00f3rio Geral da Catequese<\/em><\/a> de 2020, n.\u00ba 30]. Tal no\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o, tida como <em>iniciada <\/em>j\u00e1 na vida terrena, \u00e9 adiada, quando muito, para o momento posterior \u00e0 morte. Tamb\u00e9m sob este ponto de vista, eclipsa-se o sentido da presen\u00e7a de Deus no quotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Significativamente, mesmo obras apolog\u00e9ticas destinadas a combater um certo decl\u00ednio da <em>afei\u00e7\u00e3o <\/em>\u00e0 pr\u00e1tica religiosa, em lugar de sublinharem dimens\u00f5es tais como a ora\u00e7\u00e3o ou as pr\u00e1ticas de piedade, assentavam em elementos como demonstrar a exist\u00eancia de um Deus criador: mas nisto apenas contribu\u00edram para refor\u00e7ar, ainda que sem essa inten\u00e7\u00e3o, a dimens\u00e3o do <em>eclipse <\/em>(p. 225). Por outro lado, a emerg\u00eancia da <em>Nova Ordem Moral<\/em> (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">38 a 41<\/a>), de acordo com Taylor, contribui de modo decisivo para uma identifica\u00e7\u00e3o entre \u201csantidade\u201d e \u201cmoralidade\u201d, reduzindo-se a esfera do religioso \u00e0 esfera da moral. Em lugar do recurso a categorias como <em>pecado <\/em>e <em>convers\u00e3o, <\/em>eis a centralidade, quando muito, do <em>mau comportamento <\/em>e da sua correc\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da <em>disciplina<\/em> (p. 225). Algumas raz\u00f5es explicativas desta mudan\u00e7a <em>moralista <\/em>s\u00e3o exploradas nas p\u00e1ginas seguintes (pp. 226-228).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este novo quadro, de grande confian\u00e7a no homem e nas suas capacidades, deve ser interpretado tamb\u00e9m como um resultado do <em>bem sucedido<\/em> esfor\u00e7o das elites em modelarem a forma da sociedade. A no\u00e7\u00e3o, antes bem presente, da necessidade de lutar pela forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter, para o civilizar, tende a perder relevo (pp. 228-229). A <em>ordem natural <\/em>da sociedade passa a ser vista como uma simplesmente de coopera\u00e7\u00e3o (\u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d), pr\u00f3pria de uma era civilizada. A vida ordin\u00e1ria, o trabalho corrente, <em>ontem<\/em> defendidos pela Reforma como ocasi\u00e3o de santifica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o agora <em>tidos<\/em> pela nova ordem moral-econ\u00f3mica como as formas de vida mais civilizadas, mais \u00fateis, mais produtivas (p. 230).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surge, finalmente, o ponto de vista do <em>observador imparcial <\/em>(Hutcheson, depois Adam Smith, depois o Utilitarismo): isto \u00e9, uma forma de olhar para o mundo que se pretende independente e imparcial, <em>desagregada, <\/em>de que o indiv\u00edduo \u00e9 apenas uma pontual parte (Heidegger: <em>die Zeit des Weltbildes<\/em>), s\u00f3 poss\u00edvel num per\u00edodo em que o homem se sup\u00f5e capaz de conhecer o mundo na sua totalidade, e em que, por isso, o projecta numa imagem e o sujeita a um ju\u00edzo (<em>Teodiceia<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o factores que, conjugados, s\u00e3o ao mesmo tempo <em>causa<\/em> e <em>consequ\u00eancia<\/em> dos eclipses antes enunciados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">[- 51. <em><u>Excurso<\/u><\/em>. \u2013 A refer\u00eancia \u00e0 <em>Zeit des Weltbildes \u2013 <\/em>\u201cO tempo da imagem do mundo\u201d (assim \u00e9 traduzida na vers\u00e3o que se indicar\u00e1 de seguida), \u201ca Idade das Grandes Panor\u00e2micas\u201d, poder\u00edamos tamb\u00e9m dizer \u2013, convida-nos a recuperar algumas das passagens desse escrito de Heidegger no qual se serve do referido conceito para ilustrar algumas das caracter\u00edsticas da modernidade. Transcrevemo-las na tradu\u00e7\u00e3o de Alexandre Franco de S\u00e1, constante da edi\u00e7\u00e3o de <em>Caminhos da Floresta <\/em>(<em>Holzwege<\/em>) editada pela Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian (o texto encontra-se nas pp. 96-138):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab\u00c9 certo que a modernidade, no seguimento da liberta\u00e7\u00e3o do homem, despertou subjectivismo e individualismo. Mas continua a ser igualmente certo que nenhuma era antes dela produziu um objectivismo compar\u00e1vel, e que em nenhuma era anterior o n\u00e3o-individual alcan\u00e7ou uma validade na figura do colectivo. O essencial \u00e9 aqui a altern\u00e2ncia entre subjectivismo e objectivismo.\u00bb (p. 110)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abQuando meditamos sobre a modernidade, perguntamos pela imagem do mundo moderna. Caracterizamo-la atrav\u00e9s de uma demarca\u00e7\u00e3o contra a imagem do mundo medieval e antiga. Mas porque perguntamos, na interpreta\u00e7\u00e3o de uma era hist\u00f3rica, pela imagem do mundo? Ter\u00e1 cada era da hist\u00f3ria a sua imagem do mundo, e no sentido de que, em cada caso, se esfor\u00e7ou pela sua imagem do mundo? Ou pergunta pela imagem do mundo \u00e9, j\u00e1 e apenas, o modo moderno de representar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que \u00e9 isso \u2013 uma imagem do mundo? Manifestamente uma imagem [que se faz] do mundo. Mas o que quer aqui dizer mundo? (\u2026) O mundo est\u00e1 aqui como designa\u00e7\u00e3o do ente na totalidade.\u00bb (p. 111)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abOnde o mundo se torna imagem, o ente na totalidade est\u00e1 estabelecido como aquilo para o que o homem se prepara, como aquilo que, por isso, correlativamente, ele quer trazer para e ter diante de si e, assim, p\u00f4r diante de si num sentido decisivo. Imagem do mundo, compreendida essencialmente, n\u00e3o quer, por isso, dizer uma imagem que se faz do mundo, mas o mundo concebido como imagem. O ente na totalidade \u00e9 agora tomado de tal modo que apenas e s\u00f3 \u00e9 algo que \u00e9, na medida em que \u00e9 posto pelo homem representador-elaborador. Onde se chega \u00e0 imagem do mundo, cumpre-se uma decis\u00e3o essencial sobre o ente na totalidade. O ser do ente \u00e9 procurado e encontrado no estar-representado do ente.\u00bb (pp. 112-113)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abO que distingue a ess\u00eancia da modernidade n\u00e3o \u00e9 que se transite de uma precedente imagem do mundo medieval para uma imagem do mundo moderna, mas sim que o mundo se torne, em geral, imagem.\u00bb (p. 113)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abSe, deste modo, o car\u00e1cter de imagem do mundo \u00e9 esclarecido como o estar-representado do ente, ent\u00e3o, para captar completamente a ess\u00eancia moderna do estar-representado, temos de extrair, a partir da palavra e do conceito deteriorados \u201crepresentar\u201d, a for\u00e7a da denomina\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria: o p\u00f4r diante de si e para si. \u00c9 atrav\u00e9s disto que o ente vem parar em objecto, e s\u00f3 assim recebe o selo do ser. Que o mundo se torne imagem e que o homem, dentro do ente, se torne <em>subjectum, <\/em>\u00e9 um e o mesmo processo.\u00bb (p. 115)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A um processo semelhante se refere Hannah Arendt com os impressivos termos: \u00aba descoberta do ponto de vista arquimediano\u00bb. Cf. <em>A Condi\u00e7\u00e3o Humana, <\/em>trad. do original de 1958 por Roberto Raposo, Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua: Lisboa, 2001, pp. 321-332 (n.\u00ba 36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde se adopte uma <em>imagem do mundo <\/em>tirada a partir da instala\u00e7\u00e3o num <em>ponto arquimediano<\/em>, o <em>observador <\/em>perspectiva-o a partir de um seu (subjectivo) ponto de vista que putativamente lhe \u00e9 exterior \u2013 ponto que, nessa sua imposs\u00edvel medida, lhe garantiria objectividade. Mas se tudo o mais \u00e9 <em>objecto, <\/em>ent\u00e3o ningu\u00e9m \u00e9 <em>pessoa<\/em>. Ora, n\u00e3o havendo qualquer <em>pessoa, <\/em>n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel qualquer antropologia (entenda-se: que ao ser humano reserve mais do que a redu\u00e7\u00e3o a <em>res <\/em>observ\u00e1vel), nem, ali\u00e1s, nenhuma teologia (crist\u00e3).]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 52. <em><u>O resultado dos eclipses<\/u><\/em>. \u2013 Ocultando-se muitos dos aspectos centrais da rela\u00e7\u00e3o com Deus, o que sobra?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAinda sobra algo relevante. Deus permanece o Criador, e deste modo o nosso benfeitor, a quem devemos gratid\u00e3o para al\u00e9m de toda a medida. Estamos gratos pela Sua Provid\u00eancia, que modelou para o nosso bem; mas a sua Provid\u00eancia \u00e9 apenas ao n\u00edvel geral: provid\u00eancias particulares, e milagres, est\u00e3o de fora. Eles iriam, com efeito, eliminar o tipo de bem que Deus preparou para n\u00f3s. E, finalmente, Ele preparou para n\u00f3s uma vida no al\u00e9m, com pr\u00e9mios e castigos. Tamb\u00e9m isto \u00e9 igualmente para nosso bem, porque nos motiva ao cumprimento do seu plano beneficente.\u00bb (p. 233)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos, pois, na imin\u00eancia do humanismo exclusivo: quer porque, como primeira condi\u00e7\u00e3o, o <em>mundo encantado<\/em> desapareceu; quer porque, como segunda condi\u00e7\u00e3o, passa a ser pens\u00e1vel um modo de configurar as pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es espirituais e morais sem qualquer refer\u00eancia a Deus (pp. 234-235). Mas ainda n\u00e3o entr\u00e1mos nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuaremos na pr\u00f3xima glosa a an\u00e1lise do presente cap\u00edtulo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1023340\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1023340\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12121,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12120","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12120"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12120\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12122,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12120\/revisions\/12122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12121"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}