{"id":12030,"date":"2021-02-25T14:29:49","date_gmt":"2021-02-25T14:29:49","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12030"},"modified":"2021-02-25T14:30:05","modified_gmt":"2021-02-25T14:30:05","slug":"cinema-treze-filmes-para-ver-e-rever-na-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/cinema-treze-filmes-para-ver-e-rever-na-quaresma\/","title":{"rendered":"Cinema: Treze filmes para ver e rever na Quaresma"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo, foto e v\u00eddeos recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/treze_filmes_para_ver_e_rever_na_quaresma.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Prop\u00f5em-se treze obras, algumas explicitamente de matriz crist\u00e3, outras profanas, entre filmes cl\u00e1ssicos e outros contempor\u00e2neos, que evocam elementos caracter\u00edsticos da espiritualidade particularmente quaresmal, que podem aprofundar a medita\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es como a convers\u00e3o, o mal, a tenta\u00e7\u00e3o, a passagem da morte \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">A \u00e1rvore da vida<br \/>\nTerrence Malick (2011)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abH\u00e1 dois caminhos na vida, o da natureza e o da gra\u00e7a.\u00bb Desde os primeiros minutos deste filme-prod\u00edgio (Palma de Ouro em Cannes, 2011) a voz off pressagia o que se segue. Mas antes do desenvolvimento narrativo desta quest\u00e3o crucial que \u00e9 a do pecado original, o espetador assiste \u2013 fascinado ou enfastiado \u2013 a uma sobreposi\u00e7\u00e3o de imagens da cria\u00e7\u00e3o do mundo: cosmo em ebuli\u00e7\u00e3o, arrancado ao vazio, numa viol\u00eancia inerente a cada nascimento. A narra\u00e7\u00e3o prossegue, com palavras b\u00edblicas devidamente escolhidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois vem a hist\u00f3ria humana, que incarnar\u00e1 perfeitamente a hist\u00f3ria da humanidade, t\u00e3o banal como \u00fanica, t\u00e3o trivial como espiritual. Estamos no Texas dos anos 1960, mergulhados nas alegrias e dramas da fam\u00edlia O\u2019Brien. Entre o pai, figura autorit\u00e1ria e brutal tanto quanto afetuosa, a m\u00e3e, doce e sens\u00edvel, e um dos tr\u00eas filhos em particular, est\u00e3o os temas da viol\u00eancia ou da abertura \u00e0 gra\u00e7a patentes em cada ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abEscolhe a vida\u00bb (Deuteron\u00f3mio 30, 19), parece sussurrar a voz off aos personagens, todos admiravelmente interpretados. Neste tempo de Quaresma, \u201cA \u00e1rvore da vida\u201d convida-nos a usar a nossa liberdade, sede da nossa dignidade, para recusar o mal e escolher a porta estreita que conduz ao Reino, \u00e0 imagem da cena final, transtornadora.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PlxZOOEHK4o?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Confesso<br \/>\nAlfred Hitchcock (1953)<\/span><\/div>\n<p>No Quebeque, um homem revestido de sotaina assassina um advogado por motivo de dinheiro, e confessa o crime a um sacerdote. Aos poucos, o P. Logan observa os olhares que se voltam para ele. \u00c9 suspeito de ter assassinado o advogado. Ao optar por n\u00e3o trair o segredo da confiss\u00e3o, n\u00e3o denuncia o culpado.<\/p>\n<p>Julgado e absolvido por falta de provas, o P. Logan vai defrontar-se com um tribunal bem mais tem\u00edvel: o de uma multid\u00e3o em \u00f3dio que s\u00f3 o quer linchar. Tentado pela viol\u00eancia, sem qualquer recurso humano face \u00e0 explos\u00e3o do mal, o sacerdote vive um caminho de cruz que sublinha com radicalidade a quest\u00e3o da escolha do bem contra o mal, tema subterr\u00e2neo que irriga toda a obra do mestre do suspense educado por jesu\u00edtas.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mRuqL-Iq-2M?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Di\u00e1rio de um p\u00e1roco de aldeia<br \/>\nRobert Bresson (1951)<\/span><\/div>\n<p>Adapta\u00e7\u00e3o do romance de Georges Bernanos, publicado 15 anos antes, a terceira longa-metragem do realizador marca a confirma\u00e7\u00e3o do seu estilo: recusa de toda a express\u00e3o dram\u00e1tica ou mesmo psicol\u00f3gica, prioridade absoluta ao corpo, especialmente aos rostos, para dizer o invis\u00edvel, a alma, na perman\u00eancia do ser, e o seu segredo existencial.<\/p>\n<p>O cineasta faz uma op\u00e7\u00e3o radical de fidelidade ao texto, negando-se a transformar em di\u00e1logo a voz interior do p\u00e1roco. A encena\u00e7\u00e3o \u00e9 de uma austeridade sem precedentes, que se reflete tamb\u00e9m na supress\u00e3o de cenas e personagens anexas, dando prioridade ao essencial.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma figura da agonia de Cristo, que n\u00e3o \u00e9 nem dolorista nem masoquista, mas humana. Ao juntar-se \u00e0 agonia de cada ser humano, ao visitar a humanidade na sua afli\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica, Cristo abriu a via \u00e0 passagem da gra\u00e7a, ou seja, \u00e0 alegria e \u00e0 plenitude. O cinema de Bresson mostra-o melhor que muitos discursos.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hXLcNxG0OtM?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Dos homens e dos deuses<br \/>\nXavier Beauvois (2010)<\/span><\/div>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria de amor. De amor por um pa\u00eds, de amor pelos seres humanos. Uma hist\u00f3ria contada rente \u00e0 vida mon\u00e1stica, se assim se pode dizer. Ao mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel do quotidiano desta comunidade de Tibhirine, na Arg\u00e9lia, formada por nove religiosos. Os cantos, os estudos, o trabalho ritmam as cenas.<\/p>\n<p>Antes que o caos do mundo sacuda este mosteiro do Atlas, antes que a viol\u00eancia irrompa, o realizador reserva tempo para emergir o espetador numa realidade ao mesmo tempo bela e normal: a harmonia que reina entre monges e povoa\u00e7\u00e3o, entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Depois, quando a amea\u00e7a se perfila, jogam-se a d\u00favida e o medo de homens que se interrogam sobre o seu compromisso e sobre o sentido da sua poss\u00edvel morte, testemunhada pela sublime sequ\u00eancia da sua \u00faltima refei\u00e7\u00e3o, impregnada pelo pungente \u201cLago dos cisnes\u201d de Tchaikovski. Evocativa da Ceia, a c\u00e2mara det\u00e9m-se em cada rosto, revela um tempo suspenso para a eternidade, onde cada olhar tem em si as l\u00e1grimas da alegria perfeita. Alegria do cora\u00e7\u00e3o em paz, que se d\u00e1 at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Eedd6VA6Vq4?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">O Evangelho segundo S\u00e3o Mateus<br \/>\nPier Paolo Pasolini (1964<\/span>)<\/div>\n<p>Marxista, ateu, homossexual, o escritor e cineasta italiano n\u00e3o foi feito para o cinema edificante. No entanto, a sua adapta\u00e7\u00e3o escrupulosa do Evangelho segundo Mateus \u00e9 de uma grande verdade espiritual. A escolha de Mateus, assimilado ao coletor de impostos Levi, n\u00e3o \u00e9 inocente: \u00e9 o texto evang\u00e9lico mais severo contra os ricos e poderosos.<\/p>\n<p>Interpretado por atores n\u00e3o profissionais, o filme n\u00e3o procura reconstituir uma Palestina do tempo nem propor um Jesus ic\u00f3nico ou ultrarrealista. Mas esta representa\u00e7\u00e3o da vida de Jesus \u00e9 resolutamente verdadeira, recusando todo o efeito espetacular. O serm\u00e3o da montanha concentra-se no rosto de Cristo, mostrando a import\u00e2ncia da Palavra. E a crucifica\u00e7\u00e3o evita todo a emo\u00e7\u00e3o intensa, sendo filmada de longe. Como no texto evang\u00e9lico, o autor n\u00e3o se demora nela. O importante n\u00e3o \u00e9 o que se pode mostrar, mas o que diz da morte e da vida.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ku8anKRF838?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">A festa de Babette<br \/>\nGabriel Axel (1987)<\/span><\/div>\n<p>Numa pequena povoa\u00e7\u00e3o dinamarquesa, duas irm\u00e3s celibat\u00e1rias de cora\u00e7\u00f5es feridos acolhem como criada Babette Hersant, francesa em fuga da Comuna de Paris. Durante 15 anos, ela vai servir as duas mulheres austeras na casa de quem encontrou ref\u00fagio, at\u00e9 ao dia em que ganhou uma consider\u00e1vel quantia na lotaria. Ela prop\u00f5e-se ent\u00e3o organizar uma grande refei\u00e7\u00e3o para doze convivas, durante a qual se abrir\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 os palatos, mas tamb\u00e9m os cora\u00e7\u00f5es e as almas.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o foi tudo dito e escrito (a come\u00e7ar pela ementa, dissecada e comentada) sobre esta obra-prima, adaptada de um romance de Karen Blixen? Apogeu de profundidade humana e espiritual? Longa-metragem sobre o perd\u00e3o? Evoca\u00e7\u00e3o subtil da Eucaristia? Apesar de n\u00e3o haver uma mensagem explicitamente crist\u00e3, Babette \u00e9 uma figura cr\u00edstica.<\/p>\n<p>\u00c9 um dos filmes preferidos do papa Francisco, que escreveu sobre ele na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica \u201cAmoris laetitia\u201d (considerado o primeiro caso de um filme citado em refer\u00eancia num documento magisterial): \u00abAs alegrias mais intensas da vida surgem, quando se pode provocar a felicidade dos outros, numa antecipa\u00e7\u00e3o do C\u00e9u. Vem a prop\u00f3sito recordar a cena feliz do filme \u201cA festa de Babette\u201d, quando a generosa cozinheira recebe um abra\u00e7o agradecido e este elogio: \u201cComo deliciar\u00e1s os anjos!\u201d\u00bb.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H5w9skKcdnA?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">O filho<br \/>\nJean-Pierre et Luc Dardenne (2002)<\/span><\/div>\n<p>Olivier \u00e9 formador de marcenaria num centro de reinser\u00e7\u00e3o, que recebe para estagiar um jovem que foi preso pela morte do seu filho. C\u00e2mara ao ombro, os Dardenne seguem Olivier com quem fazemos corpo, ao mesmo tempo que se guarda certa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mesmo se os realizadores deixam uma total liberdade de aprecia\u00e7\u00e3o ao espetador, pode ler-se este filme como uma reden\u00e7\u00e3o pelo perd\u00e3o. \u00c0 medida que os planos se sucedem, a narrativa transforma-se em \u201cthriller\u201d metaf\u00edsico, cuja cena da persegui\u00e7\u00e3o \u00e9 um cume. Enquanto ateus, os Dardenne levam o tema a s\u00e9rio; enquanto cineastas, sabem que s\u00f3 se podem filmar corpos. Mas de uma tal maneira que o indiz\u00edvel e o invis\u00edvel aparecem no ecr\u00e3. Numa palavra, a gra\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1nbBpVo9_pg?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">A ilha<br \/>\nPavel Lungin (2008)<\/span><\/div>\n<p>Nas vastid\u00f5es glaciais e atapetadas de neve de uma ilha russa, vive um monge \u00e0 merc\u00ea dos seus dem\u00f3nios interiores, devido a uma terr\u00edvel falta cometida h\u00e1 anos, e que desde ent\u00e3o assedia o seu esp\u00edrito. Murmurando ao longo de todo o dia a ora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, suplicando de Deus a sua miseric\u00f3rdia, este homem confia um dia ao seu superior: \u00abOs meus pecados ardem-me\u00bb.<\/p>\n<p>Incompreendido pelos seus irm\u00e3os ortodoxos, este louco em Cristo conceituado pelos seus dons de cura e de predi\u00e7\u00e3o, l\u00ea dentro das almas, descobre e expulsa os maus esp\u00edritos, apazigua os cora\u00e7\u00f5es. O mundo exterior aflui a este monge livre, radical, de palavra cortante. Na sua comunidade, s\u00f3 o superior adivinhar\u00e1 a santidade deste homem cuja exist\u00eancia terrestre foi um longo purgat\u00f3rio. Um combate espiritual permanente. Um caminho de cruz l\u00facido e humilde, inteiramente voltado para Cristo.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HzNGd-jrcSg?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">O lado selvagem<br \/>\nSean Penn (2007)<\/span><\/div>\n<p>Christopher McCandless sonhava com o absoluto e morreu. A sua hist\u00f3ria verdadeira foi levada ao cinema ap\u00f3s ter sido um apaixonante livro de John Krauker. Estudante brilhante, com o diploma no bolso, Christopher oferece os seus 24 mil d\u00f3lares de economias a uma ONG e opta por uma vida de vagabundo. Renomeia-se \u201cSupertramp\u201d, em refer\u00eancia aos sem-abrigo empurrados para as ruas por causa da mis\u00e9ria, mas tamb\u00e9m aos vagabundos celestes de Kerouac em busca de aventura espiritual. Ele, o fedelho idealista, aspira \u00e0 liberdade, multiplica os pequenos empregos e as amizades, mas recusa todo o apego. Deseja uma natureza virgem e saud\u00e1vel para viver como eremita. Em abril de 1992, lan\u00e7a-se sozinho no cora\u00e7\u00e3o do Alaska. A sua aventura extrema pretende ser um renascimento. Ser\u00e1 uma lenta agonia.<\/p>\n<p>Sean Penn eleva Chris ao n\u00edvel de mito. Mas a odisseia n\u00e3o se resume aos grandes espa\u00e7os e a uma orgulhosa fuga do mundo. O filme \u00e9 marcado por encontros e partilhas, que falam da necessidade de rela\u00e7\u00f5es humanas fraternas e aut\u00eanticas, libertas de todo o c\u00e1lculo materialista. E a hist\u00f3ria, finalmente, encontra a sua raz\u00e3o de ser nestas escassas palavras tra\u00e7adas por Chris antes da sua morte: a felicidade s\u00f3 existe quando partilhada.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/332qTLpOvSE?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Luz de inverno<br \/>\nIngmar Bergman (1963)<\/span><\/div>\n<p>Tr\u00eas horas da vida do pastor luterano Thomas Ericsson, exposto a uma crise de f\u00e9, no cora\u00e7\u00e3o do inverno sueco. Enquanto Martha, professora da povoa\u00e7\u00e3o, o persegue com o amor ao qual ele n\u00e3o sabe responder, Thomas \u00e9 interpelado por um paroquiano em grande depress\u00e3o e provado pela d\u00favida. Mas Thomas n\u00e3o lhe consegue oferecer mais do que o seu pr\u00f3prio vazio espiritual. Ap\u00f3s o encontro, o paroquiano suicida-se.<\/p>\n<p>De um minimalismo radical, \u201cLuz de inverno\u201d \u00e9 sem d\u00favida um dos filmes mais conseguidos de Bergman. A cena da carta de Martha a Thomas, filmada com um longo grande plano sobre a mulher a ler, \u00e9 um apogeu. E a cena do fim, em que o sacrist\u00e3o vem humildemente dar a sua palavra ao pastor submergido pela ac\u00e9dia \u00e9 de uma densidade espiritual rara. Ao comentar a Paix\u00e3o de Jesus como sofrimento f\u00edsico, ps\u00edquico, mas sobretudo espiritual, o sacrist\u00e3o mostra que a pessoa simples sabe mais do que o cl\u00e9rigo, ao compreender que sem amor, a f\u00e9, como a vida humana, \u00e9 imposs\u00edvel, e at\u00e9 infernal.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Y8HzAu8DAqw?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Ordet<br \/>\nCarl Theodor Dreyer (1955)<\/span><\/div>\n<p>Johannes \u00e9 o segundo filho de Morten Borgen, campon\u00eas de Jutland. Atingido por uma forma de loucura m\u00edstica, fala como Jesus (\u201cOrdet\u201d, em dinamarqu\u00eas, significa a palavra). Num mundo menos unanimemente luterano que antes (o irm\u00e3o mais velho, Mikkel, \u00e9 ateu), ele \u00e9 um ser \u00e0 parte, pregando no vazio nas paisagens \u00e0 beira-mar dinamarquesas glorificadas pelo preto e branco do realizador.<\/p>\n<p>A morte de Inger, filha de Mikkel, proporciona a ocasi\u00e3o a Dreyer de filmar uma das mais impressionantes cenas da hist\u00f3ria do cinema. A pequena Meren, filha da defunta, toma o seu tio pela m\u00e3o e leva-o para o leito mortu\u00e1rio. Ali, Johannes pronuncia as palavras cr\u00edsticas: \u00abD\u00e1-me a Palavra\u2026 Inger, em nome de Jesus Cristo, levanta-te\u00bb. Inger retoma a vida, e o seu marido a f\u00e9. Aquele que era louco comprovou-se como o mais s\u00e1bio.<\/p>\n<p>S\u00f3 ele acreditou na for\u00e7a da Palavra. Como Jo\u00e3o Batista, bradou no deserto. Como Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo muito amado, acreditou na for\u00e7a do Verbo. E manifestou que a vida depende unicamente desta Palavra, que \u00e9 a Vida em plenitude.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-uQEPjRog84?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">A Paix\u00e3o de Cristo<br \/>\nMel Gibson (2004)<\/span><\/div>\n<p>\u00c9 sem d\u00favida um dos filmes mais discutidos. Duas horas de tortura e supl\u00edcio. Mostrando as doze \u00faltimas horas da vida de Jesus na terra, do monte das Oliveiras ao G\u00f3lgota, o realizador n\u00e3o economiza nenhum detalhe sobre a agonia do Filho de Deus. O espetador \u00e9 como que embarcado com Ele, entre sequ\u00eancias de flagela\u00e7\u00e3o, c\u00e2mara apontada para o seu corpo ferido, e sev\u00edcias. Atrav\u00e9s deste tratamento hiper-realista, Mel Gibson quis que quem assiste ao filme tome consci\u00eancia de que foi por ele que Cristo sofreu.<\/p>\n<p>Edificante e perturbante para alguns, super-violento para outros, o filme \u2013 de que se anuncia uma continua\u00e7\u00e3o, centrada na ressurrei\u00e7\u00e3o \u2013 suscitou vivas pol\u00e9micas. \u00abA op\u00e7\u00e3o por isolar a Paix\u00e3o da vida e da prega\u00e7\u00e3o de Cristo por um lado, e das narrativas sobre o Ressuscitado por outro, diminui a mensagem dos Evangelhos de maneira problem\u00e1tica. (\u2026) Se o filme recorda cruamente a atrocidade dos supl\u00edcios sofridos e a morte na cruz, f\u00e1-lo com uma complac\u00eancia chocante no espet\u00e1culo da viol\u00eancia. Esta viol\u00eancia, que submerge o espetador, acaba por ocultar o sentido da Paix\u00e3o e, mais amplamente, o essencial da pessoa e da mensagem de Cristo: o amor levado \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o no dom de si consentido\u00bb, observou a Confer\u00eancia Episcopal Francesa.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BWibLm_3Q1w?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Stromboli<br \/>\nRoberto Rossellini (1950)<\/span><\/div>\n<p>Como ep\u00edgrafe do filme, o realizador escolheu esta passagem do cap\u00edtulo 65 de Isa\u00edas: \u00abEu estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o me consultavam, sa\u00eda ao encontro dos que n\u00e3o me procuravam\u00bb. Karen, refugiada lituana, \u00e9 internada num campo, por ter sido amante de um oficial alem\u00e3o durante a guerra. Casa-se com um pescador da ilha de Stromboli para sair do campo, mas o \u00fanico prop\u00f3sito dela \u00e9 sair da ilha. Para esse efeito, ela tem de aceder a uma povoa\u00e7\u00e3o costeira passando junto ao terr\u00edvel vulc\u00e3o. Perdendo-se na noite, implora o aux\u00edlio de Deus no termo de uma longa subida ao calv\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ao filmar uma hero\u00edna que nada tem de figura m\u00edstica, e cujo vazio interior se torna cada vez mais abissal \u00e0 medida que o filme avan\u00e7a, o realizador despoja a atriz Ingrid Bergman de toda a psicologia para encontrar uma alma nua onde a gra\u00e7a pode finalmente passar, pois nada h\u00e1 mais que lhe fa\u00e7a obst\u00e1culo. Para \u00c9ric Rohmer, \u201cStromboli\u201d \u00e9 o filme da \u00abmis\u00e9ria do homem sem Deus\u00bb.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZXvpbGMeWk8?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Anne-Laure Filhol, Fran\u00e7ois Huguenin, Fr\u00e9d\u00e9ric Theobald<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"https:\/\/www.lavie.fr\/ma-vie\/culture\/careme-12-films-pour-entrer-en-semaine-sainte-2653.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">La Vie<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: Nick Julia\/Bigstock.com<br \/>\n<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo, foto e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12031,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-12030","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12030","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12030"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12030\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12033,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12030\/revisions\/12033"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}