{"id":12027,"date":"2021-03-01T07:00:42","date_gmt":"2021-03-01T07:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=12027"},"modified":"2021-02-25T09:43:00","modified_gmt":"2021-02-25T09:43:00","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (13) \u2013 Povo Soberano e Imedia\u00e7\u00e3o. Idealismo."},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), vers\u00e1mos os dois primeiros cap\u00edtulos da obra: o primeiro relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>); o segundo relativo \u00e0 \u201csociedade disciplinadora\u201d emergente daquela reforma (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>). Nos tr\u00eas demais cap\u00edtulos da primeira parte da obra, suspende-se a abordagem cronol\u00f3gica e atenta-se nalgumas fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias desta primeira era moderna. Ap\u00f3s a an\u00e1lise do cap\u00edtulo 3 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>) e de uma parte do cap\u00edtulo 4 (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">11<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">12<\/a>), a primeira parte da obra ser\u00e1 hoje conclu\u00edda: veremos, pois, a parte restante do cap\u00edtulo 4 e a totalidade do muito breve cap\u00edtulo 5.\u00a0 O presente texto incide assim sobre as pp. 196 a 218.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 46. <em><u>O Povo Soberano<\/u>. \u2013 <\/em>Segue-se um novo imagin\u00e1rio social da modernidade: o Povo Soberano (pp. 196-207). Alterando o adjectivo e o substantivo: a Soberania Popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de <em>soberania popular <\/em>de uma simples <em>teoria<\/em> para se transformar num <em>imagin\u00e1rio<\/em> colectivo (para a diferen\u00e7a entre <em>teoria <\/em>e <em>imagin\u00e1rio: <\/em>n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">37<\/a>) pode ter lugar, desde logo, pelas duas seguintes vias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) \u00abUma teoria pode inspirar um novo tipo de actividade com novas pr\u00e1ticas, e deste modo formar o imagin\u00e1rio de quaisquer grupos que adoptem tais pr\u00e1ticas\u00bb (p. 196). D\u00e1 como exemplo a no\u00e7\u00e3o de \u201cAlian\u00e7a\u201d (<em>Covenant<\/em>) j\u00e1 em uso nas igrejas puritanas, que depois se enraizou no imagin\u00e1rio pol\u00edtico \u2013 em particular, na medida em que o arqu\u00e9tipo dessas formas de organiza\u00e7\u00e3o eclesial veio a ser adoptado em certas col\u00f3nias americanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) \u00abOu a mudan\u00e7a no imagin\u00e1rio social surge com a reinterpreta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica que j\u00e1 existia\u00bb (p. 196). Tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o norte-americana oferece exemplos neste sentido: por ex., a ideia de uma constitui\u00e7\u00e3o antiga na qual o Parlamento <em>tinha um lugar <\/em>ao lado do Rei (p. 197), e que ser\u00e1 aproveitada a ponto de subjazer ao mote revolucion\u00e1rio: <em>no taxation without representation. <\/em>A tradi\u00e7\u00e3o antiga \u00e9, assim, apta a ser reinterpretada de modo a realizar nos novos valores: uma comunidade assente na soberania popular (a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA come\u00e7a justamente com as palavras: \u201cN\u00f3s, o Povo (\u2026)\u201d\/ \u201c<a href=\"https:\/\/www.senate.gov\/civics\/constitution_item\/constitution.htm\">We, the People<\/a> (\u2026)\u201d). Precisamente porque \u201capenas\u201d reinterpreta\u00e7\u00e3o, consegue evitar a ruptura radical, vazando-se novos sentidos em no\u00e7\u00f5es j\u00e1 correntes (p. 198).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pr\u00f3prio da no\u00e7\u00e3o de soberania \u2013 e tal \u00e9 novo em rela\u00e7\u00e3o a formas antigas de representa\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a ideia de que a <em>funda\u00e7\u00e3o<\/em> da sociedade n\u00e3o se encontra \u00abnum tempo m\u00edtico antigo, [mas \u00e9] vista como qualquer coisa que o povo pode fazer hoje. Noutras palavras, torna-se algo que pode ser feito por ac\u00e7\u00e3o colectiva no tempo contempor\u00e2neo, puramente secular.\u00bb (p. 197)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o se encontra na tradi\u00e7\u00e3o anterior elementos de apoio que possam ser reinterpretados no sentido pretendido \u2013 isto \u00e9, pontos de amparo no imagin\u00e1rio comum acerca da no\u00e7\u00e3o de \u201csoberania\u201d e do seu modo de exerc\u00edcio que servissem de elemento de estabilidade (por ex., pela n\u00e3o actividade de assembleias representativas) \u2013, a mudan\u00e7a implicar\u00e1 a ruptura patente: serve agora de exemplo a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (p. 199), de que muito em breve se falar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, para que uma certa <em>teoria <\/em>possa ser devidamente aplicada, carece de um quadro contextual que permita a sua aplica\u00e7\u00e3o, de pr\u00e1ticas associadas que lhe ofere\u00e7am sentido: esse quadro \u00e9 precisamente o <em>imagin\u00e1rio social<\/em>. \u00c9 necess\u00e1rio que \u00ab(1) os agentes saibam o que fazer, tenham de ter pr\u00e1ticas no seu repert\u00f3rio que coloquem a nova ordem em pr\u00e1tica; (2) o conjunto dos actores acordem nas pr\u00e1ticas.\u00bb (p. 200) De outro modo n\u00e3o \u00e9 apta a poder ser realizada facticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particularmente em aten\u00e7\u00e3o ao caso franc\u00eas, Taylor atenta na obra de Rousseau e ao modo como reinterpreta a no\u00e7\u00e3o moderna de ordem (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">37 a 41<\/a>). Se em perspectivas anteriores se reconhecia certa tens\u00e3o entre o desejo de promover o pr\u00f3prio interesse, por um lado, e a procura do bem comum, por outro, Rousseau procura fundir os dois aspectos: fazendo coincidir o amor a si (<em>amour de soi<\/em>) com o desejo de procurar o bem dos outros (<em>piti\u00e9<\/em>). A fus\u00e3o entre estes dois elementos traduz-se politicamente na no\u00e7\u00e3o de <em>vontade geral <\/em>(p. 202); j\u00e1 as tend\u00eancias ego\u00edstas decorrer\u00e3o somente do chamado <em>amor pr\u00f3prio <\/em>(<em>amour propre<\/em>). Contudo, ser\u00e1 aquela primeira modalidade, o <em>amor a si, <\/em>que constitui a realidade original e prim\u00e1ria; e \u00e9 ela que, num exerc\u00edcio de liberdade, est\u00e1 na origem da organiza\u00e7\u00e3o civil. Se porventura tal n\u00e3o se realiza efectivamente \u00e9 por causa do <em>amor pr\u00f3prio <\/em>que corrompe a organiza\u00e7\u00e3o social e que cria liames de depend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste quadro, a raz\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se apresenta como guia e mestra; antes se afigura \u00abserva do pensamento estrat\u00e9gico, e que apenas presta para nos envolvermos mais profundamente em c\u00e1lculos de poder que, atrav\u00e9s da tentativa de controlar os outros, de facto nos torna cada vez mais dependentes deles.\u00bb (p. 203) E que acaba por anular o verdadeiro <em>Eu<\/em>. Necess\u00e1rio \u00e9 o retorno \u00e0 realidade origin\u00e1ria, primeira, que \u00e9 abafada pelo mundo: h\u00e1 que escutar a voz da consci\u00eancia (pp. 203-204).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destes elementos resulta um quadro mundividencial com as seguintes caracter\u00edsticas (pp. 204-205):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Centralidade da no\u00e7\u00e3o de <em>virtude<\/em>, mas entendida enquanto fus\u00e3o entre o <em>amor a si <\/em>e o <em>amor \u00e0 comunidade<\/em>;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Certo \u201cmanique\u00edsmo\u201d, dado que, n\u00e3o conhecendo nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre o espa\u00e7o p\u00fablico e privado, aquele que nela insista \u00e9 visto como vicioso, corruptor, traidor;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Discurso com resson\u00e2ncia quase-religiosa;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Uma no\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o \u2013 num sentido diferente, <em>e excludente<\/em>, de representa\u00e7\u00e3o electiva \u2013 em que \u00aba vontade geral \u00e9 o lugar da m\u00e1xima transpar\u00eancia, no sentido de que a\u00ed estamos maximamente presentes e abertos uns aos outros quando as nossas vontades se fundem numa s\u00f3\u00bb (p. 204). A esta \u201ctranspar\u00eancia\u201d op\u00f5e-se a \u201copacidade\u201d, sendo a transpar\u00eancia manifestada mediante verdadeiras <em>liturgias p\u00fablicas <\/em>que expressam a vontade geral. Os <em>festivais da Rep\u00fablica<\/em>, no quadro da Revolu\u00e7\u00e3o, \u00abforam tentativas de tornar a Rep\u00fablica manifesta para o povo, ou o povo manifesto para si pr\u00f3prio, seguindo Rousseau\u00bb (p. 205).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, precisamente porque uma <em>maioria<\/em> da popula\u00e7\u00e3o continuaria num estado de corrup\u00e7\u00e3o, apenas uma <em>minoria de virtuosos<\/em>, capaz de viver nas suas pr\u00f3prias vidas a fus\u00e3o entre o <em>amor a si<\/em> e <em>o amor \u00e0 sociedade<\/em>, poder\u00e1 arrogar a condi\u00e7\u00e3o de representante da vontade geral \u2013 a qual agir\u00e1 no sentido de expandir e de disseminar a sua pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de virtude, <em>obstando a elei\u00e7\u00f5es representativas<\/em>, que para outro tanto n\u00e3o serviriam do que para a dissemina\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o corrompida da maioria (p. 206). Sem que, por\u00e9m, se deixe de adoptar as suas pr\u00f3prias formas ritualizadas de express\u00e3o da vontade geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atente-se de modo muito especial nas seguintes passagens, iluminadoras de muito do que se vem passando na vida contempor\u00e2nea: \u00abPodemos ver aqui a tenta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de vanguarda que se tornou uma parte fat\u00eddica do mundo contempor\u00e2neo. Este tipo de pol\u00edtica envolve uma pretens\u00e3o de \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d de um novo tipo. (\u2026) Podemos dizer que esta forma nova, n\u00e3o totalmente confessada, \u00e9 antes um tipo de representa\u00e7\u00e3o por \u201cincarna\u00e7\u00e3o\u201d. A minoria incorpora a vontade geral, e \u00e9 o \u00fanico lugar onde est\u00e1 incorporado.\u00bb (p. 206). N\u00e3o, por\u00e9m, como <em>representa\u00e7\u00e3o est\u00e1vel<\/em>, mas, antes, como agentes de uma \u00abtransi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. \u00c9 parte de uma teoria da Revolu\u00e7\u00e3o; n\u00e3o tem lugar numa teoria de governo.\u00bb (p. 206)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, portanto, uma \u00abpol\u00edtica de virtude, enquanto fus\u00e3o da vontade individual e geral, e \u00e9 manique\u00edsta, profundamente \u201cideol\u00f3gica\u201d, mesmo quase religiosa no tom. Procura a transpar\u00eancia, e por isso receia o p\u00f3lo oposto, agendas escondidas e conspira\u00e7\u00f5es.\u00bb \u00c9 tamb\u00e9m nesta corrente que se filia o comunismo leninista. Pr\u00f3prio desta linha, portanto, est\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o de <em>representa\u00e7\u00e3o <\/em>que se distingue significativamente do processo eleitoral atrav\u00e9s de assembleias: assenta em, primeiro, em formas \u00abdiscursivas e quase teatrais\u00bb (em sentido derivado, pode mesmo dizer-se: <em>lit\u00fargicas<\/em>) que manifestam a vontade geral; e, depois, numa como que, conforme a designa Taylor, representa\u00e7\u00e3o \u00abpor incarna\u00e7\u00e3o\u00bb (p. 207).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[O que nos permite nitidamente tomar consci\u00eancia de que o mesmo significante <em>democracia representativa <\/em>\u00e9 utilizado para designar bem diferentes formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mesmo quando se op\u00f5em entre si. Com efeito, a <em>livre representa\u00e7\u00e3o electiva <\/em>op\u00f5e-se certamente ao que t\u00e3o impressivamente Taylor chama <em>representa\u00e7\u00e3o por incarna\u00e7\u00e3o<\/em>. A dificuldade est\u00e1 em que mesmo esta \u00faltima se pode apresentar como <em>democr\u00e1tica<\/em>, precisamente por a classe dirigente arrogar a qualidade de representante incarnada do <em>dem\u00f3s<\/em>. Mas de que esp\u00e9cie de democracia falamos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhe\u00e7amos que esta \u00faltima linha corrente do pensamento pol\u00edtico pode ainda <em>legitimamente <\/em>servir-se do termo \u201cdemocracia\u201d, por, na sua pr\u00f3pria autocompreens\u00e3o, o poder residir junto de quem <em>entende<\/em> representar o conjunto da popula\u00e7\u00e3o. Assim sendo, dir-se-\u00e1 que <em>funcionalmente <\/em>se pode pensar nesta realidade como uma democracia, uma vez que a fun\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o estaria cumprida. Mas isto \u00e9 dizer <em>pouco<\/em>. Pois ainda que tal possa ser a <em>fun\u00e7\u00e3o, <\/em>h\u00e1-de atentar-se no <em>modo <\/em>como ela \u00e9 desempenhada, e qual a estrutura de reparti\u00e7\u00e3o de poder que pressup\u00f5e: com efeito, o poder n\u00e3o est\u00e1 equitativamente repartido, mas confiado apenas a uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o, a \u00fanica reconhecida como apta \u00e0 \u201crepresenta\u00e7\u00e3o incarnada\u201d. O que <em>funcionalmente<\/em> seria uma <em>democracia<\/em>, \u00e9 e<em>struturalmente<\/em>, portanto, n\u00e3o mais do que uma <em>oligarquia: <\/em>o poder encontra-se apenas nas m\u00e3os de <em>alguns, <\/em>ainda que esses alguns se apresentem, no seu pr\u00f3prio discurso, como representantes de <em>todos<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se o poder est\u00e1 nas m\u00e3os de alguns, ent\u00e3o h\u00e1 <em>alguns outros <\/em>que nele n\u00e3o podem participar por via electiva (ou que n\u00e3o t\u00eam franqueado o acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico): isto \u00e9, que se experimentam como <em>exclu\u00eddos <\/em>da possibilidade de participa\u00e7\u00e3o no preciso poder que arroga a qualidade de os representar. Para estes, aquilo que funcionalmente se apresenta como <em>democracia<\/em>, e estruturalmente \u00e9 uma <em>oligarquia<\/em>, n\u00e3o mais \u00e9, afinal, do que uma nua <em>ditadura de classe<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tempos actuais n\u00e3o s\u00e3o favor\u00e1veis, \u00e9 certo, a formas <em>ostensivas <\/em>e <em>transparentes <\/em>de apropria\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico por uma classe: ou n\u00e3o fosse a modernidade l\u00edquida fluida e esquiva. (Al\u00e9m de que uma tal apropria\u00e7\u00e3o ostensiva do poder contrariaria a tal ponto alguns elementos do imagin\u00e1rio da ordem moral moderna que teria dificuldade em obter a <em>resson\u00e2ncia necess\u00e1ria <\/em>para poder ser efectivamente levada a acto.) Mas a gradativa apropria\u00e7\u00e3o do poder, n\u00e3o em nome da defesa de interesses privados, mas de uma melhor promo\u00e7\u00e3o do \u201cinteresse p\u00fablico\u201d, da devida defesa dos \u201cdireitos individuais\u201d, da \u201cdec\u00eancia\u201d p\u00fablica, etc., com o simult\u00e2neo banimento do espa\u00e7o p\u00fablico, por parte de uma multitude de agentes que <em>incarnam representativamente <\/em>a popula\u00e7\u00e3o, de todos aqueles que n\u00e3o partilham do <em>ide\u00e1rio em afirma\u00e7\u00e3o<\/em>, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno marginal. Antes se tornou, na \u00faltima d\u00e9cada, um fen\u00f3meno central e incontorn\u00e1vel da vida pol\u00edtica dos Estados ocidentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ante o exposto, n\u00e3o nos poder\u00e1 bastar a legitima\u00e7\u00e3o <em>funcional <\/em>que concretamente seja dada para a forma de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade: importa tamb\u00e9m colocar em evid\u00eancia qual, do ponto de vista estrutural, a forma de reparti\u00e7\u00e3o do poder que atrav\u00e9s dela, de modo latente mas n\u00e3o menos eficaz, se encontra em afirma\u00e7\u00e3o.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 47. <em><u>A Sociedade de Acesso Directo<\/u><\/em>. \u2013 Por \u00abSociedade de Acesso Directo\u00bb (<em>Direct-Access Society<\/em>), apresentada \u00e0s pp. 207-211, descreve Taylor uma sociedade na qual \u00abcada um est\u00e1 equidistante do centro, em que estamos imediatamente em rela\u00e7\u00e3o com o todo\u00bb (p. 209). Trata-se, portanto, da caracter\u00edstica fundamental da <em>imedia\u00e7\u00e3o <\/em>social: participa\u00e7\u00e3o de cada um do todo social sem necessidade de um poder mediador que intermedeie semelhante participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u00e9 permitida a imagem, a <em>imedia\u00e7\u00e3o <\/em>sup\u00f5e a passagem de um modelo de organiza\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria de \u00edndole <em>vertical <\/em>para um outro <em>horizontal: <\/em>uma sociedade \u00e9 perspectivada como o agregado de todos aqueles que se encontram em conjunto num certo momento, sem qualquer outro factor de uni\u00e3o. Subjaz-lhe, por conseguinte, uma no\u00e7\u00e3o puramente secular do tempo (pp. 208-209). De um modelo de sociedade <em>vertical <\/em>em que cada um participa do <em>todo <\/em>a partir das suas partes (como membro de uma cidade, como s\u00fabdito de um certo senhor,\u2026), passa-se a uma outra em que a no\u00e7\u00e3o de <em>cidadania <\/em>existe independentemente de qualquer outro elemento de perten\u00e7a (p. 210). A participa\u00e7\u00e3o no todo societ\u00e1rio opera, pois, <em>sem media\u00e7\u00f5es; <\/em>e por isso o termo \u201cAcesso Directo\u201d. Com efeito, o mundo moderno cont\u00e9m m\u00faltiplas realidades com estas caracter\u00edsticas: a esfera p\u00fablica (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/\">43-45<\/a>); a economia de mercado; a cidadania; e, genericamente, outras realidades englobantes como a identifica\u00e7\u00e3o com estilos art\u00edsticos ou movimentos sociais de diferente natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas caracter\u00edsticas ligam-se profundamente ao individualismo moderno: \u00abEstes modos de acesso directo imaginado est\u00e3o ligados \u00e0s, e de facto s\u00e3o apenas diferentes dimens\u00f5es das, igualdade moderna e do individualismo. O acesso directo elimina a heterogeneidade da perten\u00e7a hier\u00e1rquica. Torna-nos uniformes, e esse \u00e9 um modo de se tornar igual. (\u2026) Ao mesmo tempo, a desconsidera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias media\u00e7\u00f5es reduz a sua import\u00e2ncia as nossas vidas; o indiv\u00edduo est\u00e1 cada vez mais livre delas, e deste modo tem uma autoconsci\u00eancia cada vez maior de ser um indiv\u00edduo. O individualismo moderno, uma ideia moral, n\u00e3o significa eliminar toda a perten\u00e7a \u2013 tal seria o individualismo da anomia e do colapso social \u2013, mas imaginar-se a si pr\u00f3prio como pertencendo a entidades cada vez mais vasas e impessoais: o estado, o movimento, a comunidade da humanidade\u00bb (p. 211).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A plena realiza\u00e7\u00e3o deste ideal d\u00e1-se quando em todas as paragens \u2013 na cidade e no campo \u2013 o mesmo ideal \u00e9 partilhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 48. <em><u>O Espectro do Idealismo<\/u><\/em><u>. <em>S\u00edntese<\/em><\/u><em>. <\/em>\u2013 A terminar a primeira parte da obra encontra-se um brev\u00edssimo cap\u00edtulo 5, de t\u00edtulo \u201cO espectro do Idealismo\u201d\/ <em>The Spectre of Idealism<\/em> (pp. 212-218). Destina-se a fazer algumas precis\u00f5es ao curso da exposi\u00e7\u00e3o, nomeadamente ao risco do processo hist\u00f3rico delineado por Taylor poder ser apresentado como \u201cidealista\u201d, isto \u00e9, tido por puramente guiado pela <em>Ideia<\/em>, atento o especial papel que reconhece ao papel de dadas constru\u00e7\u00f5es de pensamento, depois ingressadas no imagin\u00e1rio social, geradas neste per\u00edodo hist\u00f3rico. No essencial, limita-se Taylor a ressalvar que, no curso da hist\u00f3ria, as ideias e os factores materiais se interrelacionam, e que ambas, \u00e0s vezes em conjunto, \u00e0s vezes n\u00e3o, interferem na modela\u00e7\u00e3o do mundo: \u00abA \u00fanica regra geral da hist\u00f3ria \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 uma regra geral que identifique uma ordem de motiva\u00e7\u00e3o que seja sempre a for\u00e7a directriz\u00bb (p. 213). N\u00e3o h\u00e1, pois, que cair em qualquer um dos reducionismos de tudo reconduzir ao \u201cidealismo\u201d ao \u201cmaterialismo\u201d. N\u00e3o sendo o cap\u00edtulo, neste ponto, de particular interesse para o fio principal do estudo (antes coloca quest\u00f5es de Teoria ou Filosofia da Hist\u00f3ria), podemos dispensar uma an\u00e1lise de pormenor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As \u00faltimas linhas do cap\u00edtulo, por\u00e9m, sintetizam de modo claro uma das viragens centrais que operou nesta primeira metade da modernidade, sobre a qual versa a primeira parte da obra, correspondendo essencialmente aos s\u00e9culos XVI a XVIII \u2013 linhas que, colocadas ao termo da primeira parte, lhe servem de conveniente ep\u00edlogo: \u00abEsta transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII [para a no\u00e7\u00e3o de ordem] \u00e9, num certo sentido, crucial no desenvolvimento da modernidade ocidental. A sociedade \u201ceducada\u201d (<em>polite<\/em>) tem um novo tipo de autoconsci\u00eancia, a que podemos chamar \u201chist\u00f3rica\u201d num novo sentido. N\u00e3o estava apenas consciente, sem precedentes, dos seus alicerces econ\u00f3micos; tinha tamb\u00e9m uma nova compreens\u00e3o do seu lugar na hist\u00f3ria, uma forma de vida que pertencia \u00e0 sociedade \u201ccomercial\u201d, um est\u00e1dio da hist\u00f3ria ao qual se acabara de chegar. O s\u00e9culo XVIII gerou novas teorias da hist\u00f3ria, assentes em diferentes est\u00e1dios, que viam a hist\u00f3ria humana a desenvolver-se atrav\u00e9s de s\u00e9ries de est\u00e1dios, definidos pela forma da sua economia: por ex., ca\u00e7adores-recolectores, agricultores, etc., culminando na sociedade comercial moderna. Isto fez com que se visse toda a transi\u00e7\u00e3o a que chamei domestica\u00e7\u00e3o da nobreza, assim como a pacifica\u00e7\u00e3o interna das sociedades modernos, a uma nova luz. O com\u00e9rcio, \u201cle doux commerce\u201d, estava revestido deste poder de relegar as virtudes marciais e modo militar de vida para um papel subordinado, terminando o seu dom\u00ednio de longa data da cultura humana. As sociedades pol\u00edticas j\u00e1 n\u00e3o podiam ser compreendidas simplesmente em termos perenes; \u00e9 necess\u00e1rio tomar a considera\u00e7\u00e3o a \u00e9poca em que as cosias ocorrem. A Modernidade era uma \u00e9poca sem precedentes.\u201d (p. 218)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transcrita a s\u00edntese hist\u00f3rica, estamos j\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es, portanto, de retomar o fio da hist\u00f3ria interrompido no cap\u00edtulo 2 (v. a s\u00edntese no n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">32<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">F\u00e1-lo-emos a partir da pr\u00f3xima glosa, a primeira sobre a Parte II da obra: \u00abO ponto de viragem\u00bb.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5710630\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5710630\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12028,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-12027","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12027","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12027"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12029,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12027\/revisions\/12029"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}