{"id":11919,"date":"2021-05-13T07:00:26","date_gmt":"2021-05-13T06:00:26","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11919"},"modified":"2021-02-16T13:24:29","modified_gmt":"2021-02-16T13:24:29","slug":"pensamento-de-edith-stein-o-distintivo-do-cristao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-o-distintivo-do-cristao\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | O DISTINTIVO DO CRIST\u00c3O"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">O DISTINTIVO DO CRIST\u00c3O<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) O amor como \u00fanico mandamento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo \u00e9 a nossa origem e meta, o nosso prot\u00f3tipo e caminho. Por isso, alcan\u00e7ar a plenitude significa segui-Lo, tomando as suas palavras como norma de vida. Edite est\u00e1 profundamente convencida disso. N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o o caminho de Cristo, e a ordem que deixa aos seus disc\u00edpulos \u00e9 o mandamento do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa das suas confer\u00eancias, titulada <em>A forma\u00e7\u00e3o da juventude \u00e0 luz da f\u00e9 cat\u00f3lica<\/em> (OC IV, 422 ss.), Edite procura desenhar a imagem do homem \u2013 o que tem que chegar a ser \u2013 a partir das palavras de Jesus. Toma, como ponto de partida, esses textos evang\u00e9licos nos quais se pergunta directamente a Jesus: <em>\u00abque hei-de fazer de bom para alcan\u00e7ar a<\/em> <em>vida eterna?\u00bb<\/em> (Mt 19, 16), e <em>\u00abqual \u00e9 o maior mandamento da lei?\u00bb<\/em> (Mt 22, 37). As respostas de Jesus s\u00e3o: <em>\u00abguarda os mandamentos\u00bb<\/em> (Mt 19, 18) e <em>\u00abAmar\u00e1s o Senhor teu<\/em> <em>Deus<\/em>&#8230; <em>Amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo<\/em>. <em>Estes dois mandamentos resumem toda<\/em> <em>a lei e os profetas\u00bb<\/em> (Mt 22, 36-40). E Edite conclui: \u00abTendo em conta tudo isto, entende-se que o aut\u00eantico crist\u00e3o \u00e9 aquele que observa os mandamentos, mas fazendo preceder no cumprimento dos mesmos, o cumprimento perfeito do maior de todos: o amor perfeito ao Senhor&#8230; o amor ao pr\u00f3ximo, amor fraterno a todos os filhos de Deus, e o consequente comportamento com eles; do amor a Deus procede o amor a si que nasce do amor a Deus (de facto temos que \u201camar o pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos\u201d)&#8230; (ib., 430).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mandamento ao amor, na sua tr\u00edplice direc\u00e7\u00e3o (Deus, o pr\u00f3ximo, a si mesmo), descobre Edite o fundamento da perfei\u00e7\u00e3o. Mais ainda, observa na vida de Jesus a chave exeg\u00e9tica do mandamento do amor. Mas este amor s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel desde a configura\u00e7\u00e3o com Cristo, desde a uni\u00e3o com Deus. E o homem tem acesso a este amor dispondo-se activamente para acolher em si a vida de Deus, abandonando-se nas suas m\u00e3os e configurando-se com a sua vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b) O amor em acto: as Bem-aventuran\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho e a via que Cristo no Evangelho apresenta para a consecu\u00e7\u00e3o dessa plenitude no amor tem um rosto real nas Bem-aventuran\u00e7as e nos conselhos evang\u00e9licos. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Bem-aventuran\u00e7as, Edite det\u00e9m-se a esquadrinhar o sentido de cada uma delas, constatando que o amor \u00e9 a raiz de todas as virtudes. Realiza a sua reflex\u00e3o a partir do texto de Mt 5, 1-12 (ib. 431 ss.). Acentua especialmente a bem-aventuran\u00e7a da \u00abpobreza no esp\u00edrito\u00bb que desenvolve pormenorizadamente no seu escrito, at\u00e9 h\u00e1 muito bem pouco in\u00e9dito, <em>Felizes os pobres no esp\u00edrito<\/em> (OC V, 461 ss.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As Bem-aventuran\u00e7as particularizam os valores essenciais do Reino, da plenitude do homem. Todo o homem \u00e9 chamado a realizar na sua vida esta alt\u00edssima voca\u00e7\u00e3o: \u00e9 a mesma para todos, sem diferen\u00e7a alguma: <em>\u00abn\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego; n\u00e3o h\u00e1 escravo nem livre; n\u00e3o h\u00e1 homem e mulher, porque todos sois um s\u00f3 em Cristo Jesus\u00bb<\/em> (Gl 3, 28). Certamente que cada um realizar\u00e1 este \u00fanico fim vocacional a partir do seu pr\u00f3prio carisma pessoal (cf. 1 Co 12), a partir de uma chamada particular a exprimir de formas diferentes esse amor (cf. a un\u00e7\u00e3o de Bet\u00e2nia: Mt 26, 6-13), a partir da sua individualidade e da sua especificidade masculina ou feminina: <em>\u00abhomem e mulher os<\/em> <em>criou\u00bb<\/em> (Gn 1, 27). Quem vive mergulhado nesta din\u00e2mica transmite-a necessariamente com a sua vida, sendo testemunha da presen\u00e7a do Reino, e mostrando em todo o momento que a sua vida \u00e9 feliz, quer dizer, que vive a alegria de se saber filho de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>c) A alegria dos filhos de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alegria \u00e9 um tra\u00e7o caracter\u00edstico de quem se sente filho de Deus. Quem vive j\u00e1 a liberta\u00e7\u00e3o e a reden\u00e7\u00e3o do pecado, n\u00e3o pode viver doutro modo. \u00c9 a seguran\u00e7a da crian\u00e7a que vive amparada nos bra\u00e7os do Pai, um pai digno de toda a confian\u00e7a, que s\u00f3 deseja o melhor para os seus filhos. \u00c9 a felicidade de se sentir em tudo conforme com a vontade do Pai (cf. OC IV, 238 ss.). A felicidade, entendida de um ponto de vista humano, alcan\u00e7a-se na medida em que desenvolvemos o nosso ser e alcan\u00e7amos a plenitude de n\u00f3s mesmos. Para o crente, a plenitude est\u00e1 na uni\u00e3o com Deus e com a sua vontade. E Deus quer-nos salvos, quer-nos alegres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seguimento de Cristo \u00e9 tamb\u00e9m aut\u00eantico na medida em que \u00e9 alegre; a alegria \u00e9 sinal de que se vai caminhando pela senda justa: \u00abA obra que Ele me encomenda quero realiz\u00e1-la, e Ele dar-me-\u00e1 a for\u00e7a para a realizar. Assim quero entrar ao altar de Deus. Aqui n\u00e3o se trata de mim nem das minhas pequenas coisas mesquinhas, mas do grande sacrif\u00edcio da reconcilia\u00e7\u00e3o. Com o sacrif\u00edcio divino posso participar nele, purificar-me, encher-me de alegria, e a p\u00f4r-me a mim mesma sobre o altar com todo o meu fazer e padecer. E, quando o Senhor vier a mim na sagrada comunh\u00e3o, ent\u00e3o poderei perguntar-Lhe: \u201cQue mandais fazer de mim?\u201d (Santa Teresa). E o que, depois do silencioso col\u00f3quio, veja como pr\u00f3xima tarefa, a ela me dedicarei\u00bb (OC IV, 211).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alegria do seguimento \u00e9 muito mais do que um efeito an\u00edmico, \u00e9 a din\u00e2mica de vida do aut\u00eantico seguidor, que \u00e9 capaz de reconhecer como \u00e9 grandioso o dom de seguir a Cristo, colaborando com Ele no plano da salva\u00e7\u00e3o. O seguidor sabe que o Reino de Deus est\u00e1 presente, e que \u00e9 um cidad\u00e3o que vive o gozo de se saber dentro. Maria \u00e9, sem d\u00favida, o modelo de todos os tempos, a primeira cidad\u00e3 que soube entregar-se sem reservas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Reino: \u00abSe aprendes dela a depender e a servir s\u00f3 a Deus com um cora\u00e7\u00e3o puro e desprendido, ent\u00e3o poder\u00e1s cantar com toda a alma o hino de alegria da Sant\u00edssima Virgem: A minha alma glorifica o Senhor e o meu esp\u00edrito se alegra em Deus meu Salvador&#8230; O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, Santo \u00e9 o seu nome\u00bb (OC V, 646).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein, os verdadeiros construtores do Reino de Deus vivem a sua alegria numa tr\u00edplice dimens\u00e3o: a pr\u00f3pria de se saberem salvos, a alheia de se saberem colaboradores na salva\u00e7\u00e3o dos outros, e a do pr\u00f3prio Cristo que faz festa e se alegra por cada nova criatura que entra a fazer parte do seu rebanho: \u00abqu\u00e3o preciosas s\u00e3o para o cora\u00e7\u00e3o divino as almas dos homens e a maior alegria que lhe podemos dar \u00e9 ser instrumentos volunt\u00e1rios do seu rebanho\u00bb (OC V, 657).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>d) A cruz gozosa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seguimento de Cristo consuma-se na comunh\u00e3o com o mist\u00e9rio da cruz. S\u00f3 a cruz de Cristo \u00e9 capaz de iluminar e dar sentido ao sofrimento humano, e o sinal que torna poss\u00edvel que \u2013 por muito contradit\u00f3rio que seja para a raz\u00e3o humana \u2013, o sofrimento seja fonte de alegria: \u00abO amor de Cristo empurra a penetrar na noite mais profunda. E nenhuma alegria maternal se pode comparar com a felicidade da alma capaz de acender a luz da gra\u00e7a na noite do pecado. O caminho \u00e9 a Cruz. Sob a Cruz a Virgem das virgens tornou-se em M\u00e3e da Gra\u00e7a\u00bb (OC V, 662-663). O caminho de cruz que leva \u00e0 uni\u00e3o com Deus, \u00e9 o caminho de todo o crist\u00e3o. Ningu\u00e9m que se considere aut\u00eantico seguidor de Cristo pode recus\u00e1-lo. A cruz \u00e9 sinal de comunh\u00e3o com Cristo, e a partir desta comunh\u00e3o pode-se viver com alegria o sofrimento porque na cruz adquire sentido, um sentido redentor apost\u00f3lico: \u00abO sofrimento humano s\u00f3 recebe for\u00e7a expiat\u00f3ria se estiver unido ao sofrimento da cabe\u00e7a divina\u00bb (OC V, 625).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a vida de Edite Stein \u00e9 a melhor interpreta\u00e7\u00e3o de quanto nos deixou escrito: \u00abAssim como ser um com Cristo \u00e9 a nossa beatitude e o progredir em chegar a ser um com Ele \u00e9 a nossa felicidade na terra, ent\u00e3o o amor \u00e0 Cruz e a gozosa filia\u00e7\u00e3o divina n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rias. Ajudar a Cristo a carregar com a Cruz proporciona uma alegria forte e pura, e aqueles que possam e devam, os construtores do Reino de Deus, s\u00e3o os aut\u00eanticos filhos de Deus. Da\u00ed que a prefer\u00eancia pelo caminho da cruz n\u00e3o signifique que a Sexta-feira Santa n\u00e3o tenha sido superada e a obra da reden\u00e7\u00e3o consumada\u00bb (Ib.,).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 216-218.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/bingngu93-6085612\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2579147\">bingngu93<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2579147\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11920,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11919","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11919"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11921,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11919\/revisions\/11921"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11920"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}