{"id":11894,"date":"2021-03-25T07:00:31","date_gmt":"2021-03-25T07:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11894"},"modified":"2021-02-16T11:44:38","modified_gmt":"2021-02-16T11:44:38","slug":"pensamento-de-edith-stein-o-cristo-e-a-vida-espiritual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-o-cristo-e-a-vida-espiritual\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | O CRISTO E A VIDA ESPIRITUAL"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">O CRISTO E A VIDA ESPIRITUAL<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem descobre a sua origem em Cristo, porque Ele \u00e9 o seu criador, porque possibilitou-lhe o regresso a Deus, reconciliando-o e mostrando-lhe o caminho da perfei\u00e7\u00e3o. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho para o Pai sen\u00e3o o da configura\u00e7\u00e3o com Cristo: ele \u00e9 o Novo Ad\u00e3o, o Mediador, o Caminho, aquele que nos devolve a condi\u00e7\u00e3o de filhos de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) O Novo Ad\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein contemplar a cristo como o Novo Ad\u00e3o \u00e9 muito mais do que um t\u00edtulo. Nele v\u00ea significada toda a obra realizada por Cristo na sua unidade. Nos mist\u00e9rios da vida de Cristo o objectivo comum \u00e9 a reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 a grande obra que Jesus realiza com a sua encarna\u00e7\u00e3o e com a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. A reden\u00e7\u00e3o \u00e9 o triunfo sobre a realidade do pecado, presente na hist\u00f3ria da humanidade desde a queda de Ad\u00e3o. Ad\u00e3o foi o primeiro homem criado por Deus e chamado a converter-se em pai da humanidade. O seu pecado sup\u00f4s a ruptura com o estado original de gra\u00e7a para toda a humanidade posterior Mas Deus, no seu infinito amor ao homem, n\u00e3o quis abandon\u00e1-lo ao poder das trevas e enviou o seu Filho para que recuperasse, para o homem, o caminho da salva\u00e7\u00e3o. Esta miss\u00e3o une-o directamente com a figura de Ad\u00e3o: \u00aba reden\u00e7\u00e3o veio pelo filho do homem, o novo Ad\u00e3o\u00bb (OC IV, 278).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vida de Ad\u00e3o, Edite Stein encontra um extraordin\u00e1rio paralelo com a vida e a miss\u00e3o de Jesus. O primeiro ponto da compara\u00e7\u00e3o descobrimo-lo no mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o: \u00abDeus fez-se Filho do Homem para que todos os homens chegassem a ser filhos de Deus&#8230; Ele fez-se um de n\u00f3s, mas n\u00e3o s\u00f3 isso, mas tamb\u00e9m um connosco. Eis a maravilha do g\u00e9nero humano, todos somos um&#8230; o pre\u00e7o da expia\u00e7\u00e3o teria podido ser pago e poder\u00edamos contar com ele, mas ent\u00e3o a sua justi\u00e7a n\u00e3o teria sido transmitida aos pecadores e n\u00e3o seria poss\u00edvel a justifica\u00e7\u00e3o. No entanto, Ele veio para ser connosco um corpo m\u00edstico: Ele como nossa Cabe\u00e7a e n\u00f3s como seus membros\u00bb (OC IV, 236-237). Evidenciam-se aqui alguns elementos caracter\u00edsticos do \u201cNovo Ad\u00e3o\u201d: a sua uni\u00e3o ao g\u00e9nero humano, a natureza humana como meio de reden\u00e7\u00e3o, a uni\u00e3o da natureza humana com a divina e o car\u00e1cter eterno da Alian\u00e7a por Ele estabelecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A designa\u00e7\u00e3o de Cristo como \u201cNovo Ad\u00e3o\u201d tem al\u00e9m disso um car\u00e1cter hist\u00f3rico-divino. \u00c9 \u00abnovo\u00bb porque introduz uma novidade na hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o. Novidade que o primeiro Ad\u00e3o j\u00e1 possu\u00eda, criado \u00e0 sua imagem, mas que perdeu com o pecado. Cristo apresenta-se como o arqu\u00e9tipo original e perfeito do homem por ser sua origem (SF 533).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) Mediador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da experi\u00eancia de Cristo-mediador, o homem penetra no caminho que conduz a Deus e \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o do ser humano. \u00c9 a miss\u00e3o que Cristo continua a exercer ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No pensamento de Edite Stein descobrimos que Cristo \u00e9 o Mediador pela sua natureza humana e divina, unidas na sua encarna\u00e7\u00e3o; porque realizou a reconcilia\u00e7\u00e3o de Deus com o g\u00e9nero humano; porque por Ele temos acesso a Deus e, n\u2019Ele, contemplamos a nossa aut\u00eantica imagem: \u00abTodo o louvor dirigido a Deus acontece por, com e em Cristo. Por Cristo, porque s\u00f3 por Cristo a humanidade tem acesso ao Pai e porque o seu ser humano e divino e a sua obra redentora s\u00e3o a glorifica\u00e7\u00e3o mais perfeita do Pai; com Cristo, porque toda a ora\u00e7\u00e3o aut\u00eantica \u00e9 fruto da uni\u00e3o com Cristo, ao mesmo tempo que fortalece essa uni\u00e3o; e porque todo o louvor ao Filho \u00e9 um louvor ao Pai e vice-versa; n\u2019Ele, porque a Igreja orante \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo \u2013 e todo orante, membro do seu Corpo M\u00edstico \u2013, e porque o Pai est\u00e1 no Filho e o Filho \u00e9 o esplendor do Pai, cuja gl\u00f3ria faz vis\u00edvel\u00bb (OC V, 108).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>c) Caminho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como consequ\u00eancia de ser o \u00fanico mediador entre Deus e o homem, Cristo \u00e9 tamb\u00e9m o caminho \u00fanico que nos conduz ao Pai. Cristo \u00e9 o \u00fanico que uniu em si as duas naturezas, humana e divina, e, ao mesmo tempo, \u00e9 quem reconciliou os homens com Deus. Jesus Cristo \u00e9 a origem e a meta final do caminho do homem: \u00e9 o modelo e a imagem aut\u00eantica da humanidade. Edite Stein afirma: \u00abDeus criou o homem \u00e0 sua imagem&#8230; Da maneira mais perfeita na mais perfeita das criaturas, no Filho de Deus e na Palavra da revela\u00e7\u00e3o que nos d\u00e1 not\u00edcia de Deus\u00bb (OC IV, 193).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Jesus na sua vida terrena apresenta-se como o Caminho que nos reconduz directamente \u00e0 nossa meta. \u00c9 uma das raz\u00f5es da sua miss\u00e3o. Uma vez que Ele \u00e9 origem, caminho e meta, o seu caminho \u00e9 o nosso caminho. Um caminho a seguir de perto e que passa necessariamente, como o de Cristo, pela cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o: \u00ab<em>Atrav\u00e9s da cruz<\/em> <em>e da dor \u00e0 gl\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em>, esse foi o caminho do filho de Deus feito homem. Alcan\u00e7ar com o Filho do homem a gl\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do sofrimento e da morte, \u00e9 o caminho para cada um de n\u00f3s e para toda a humanidade\u00bb (OC IV, 243-244).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00e1tica da vida espiritual do homem, tomar a Cristo como o Caminho de interioriza\u00e7\u00e3o traduz-se em querer alcan\u00e7ar e conquistar o centro do pr\u00f3prio ser, onde se produz o encontro com a pr\u00f3pria e aut\u00eantica humanidade, onde o homem \u00e9 mais livre, e onde se encontra com Deus. S\u00f3 Cristo\u00a0 nos pode levar a este lugar: \u201cCristo \u00e9 o \u00fanico caminho para o interior da nossa vida\u00bb (OC V, 121).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>d) Filhos no Filho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo \u00e9 o caminho e o mediador do homem porque \u00e9 o \u00fanico que nos pode devolver ao estado de filia\u00e7\u00e3o divina, de amizade com Deus que, com o pecado original, t\u00ednhamos perdido. Cristo realizou a reconcilia\u00e7\u00e3o do homem com Deus na sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Os frutos imediatos s\u00e3o a justifica\u00e7\u00e3o e o perd\u00e3o dos pecados. O homem tem no mist\u00e9rio da Cruz a possibilidade de aceder a estes frutos, e recuperar a condi\u00e7\u00e3o de filho de Deus. Se o homem adere livremente \u00e0 obra de reden\u00e7\u00e3o de Cristo, est\u00e1 a acolher o dom da filia\u00e7\u00e3o (SF 537-538).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem da \u201cNova Alian\u00e7a\u201d tem que morrer ao homem velho e deixar-se revestir por Cristo do homem novo, se quer ser filho de Deus. Edite Stein contempla tr\u00eas sinais ou consequ\u00eancias chave da filia\u00e7\u00e3o divina no homem: a uni\u00e3o com Deus, a uni\u00e3o da humanidade em Deus e o cumprimento da sua vontade (cf. OC IV, 236-237).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filia\u00e7\u00e3o divina n\u00e3o \u00e9 algo que o homem recebe como um simples t\u00edtulo, mas \u00e9 vida, e embora \u00abgra\u00e7a\u00bb, necessita da colabora\u00e7\u00e3o activa do homem. Realiza-se na medida em que o homem procura unir-se com Deus, quando se confia e abandona \u00e0 Sua vontade. A aut\u00eantica filia\u00e7\u00e3o \u00e9 vida e comunh\u00e3o com o Deus amor, que habita no interior do homem e se deixa descobrir: \u00abA vida divina que se desenvolve na alma amante de Deus n\u00e3o pode ser diferente da vida trinit\u00e1ria da divindade. A alma d\u00e1-se ao ser trinit\u00e1rio. Entrega-se \u00e0 vontade paterna de Deus que, por assim dizer, gera de novo o seu Filho nela. Une-se ao Filho e quereria perder-se nele a fim de que o Pai j\u00e1 n\u00e3o veja nada nela sen\u00e3o ao Filho. A sua vida une-se ao Esp\u00edrito Santo, transforma-se numa efus\u00e3o de amor divino. \u00c9 evidente que esta imagem de Deus no esp\u00edrito criado gra\u00e7as \u00e0 uni\u00e3o de amor, fruto da gra\u00e7a e da gl\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel a nenhuma imagem simplesmente natural. A palavra imagem j\u00e1 quase n\u00e3o \u00e9 o termo adequado. Deve ser compreendida no sentido em que se diz que o Filho \u00e9 imagem do Pai. Trata-se de um aut\u00eantica filia\u00e7\u00e3o divina\u00bb (SF 471-472).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 197-199.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 80px;\"><i>Imagem: Gl\u00f3ria do Novo Cristo na presen\u00e7a de Deus, Pai e do Esp\u00edrito Santo<\/i>. Detalhe de uma pintura de teto de\u00a0Daniel Gran\u00a0na\u00a0Igreja Santa Ana (Viena).\u00a0Ad\u00e3o e Eva est\u00e3o retratados abaixo, com as m\u00e3os presas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11895,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11894","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11894"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11894\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11896,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11894\/revisions\/11896"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11895"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}