{"id":11890,"date":"2021-03-18T07:00:51","date_gmt":"2021-03-18T07:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11890"},"modified":"2021-02-16T11:40:25","modified_gmt":"2021-02-16T11:40:25","slug":"pensamento-de-edith-stein-a-experiencia-mistica-e-religiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-a-experiencia-mistica-e-religiosa\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | A EXPERI\u00caNCIA M\u00cdSTICA E RELIGIOSA"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A EXPERI\u00caNCIA M\u00cdSTICA E RELIGIOSA<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pessoa \u00e9 constitu\u00edda pelo chamamento, pois o homem pessoal e espiritual surge, por meio do chamamento de Deus, como aquele a quem Deus constitui para si num tu e existe nessa condi\u00e7\u00e3o de ter sido chamado e distinguido como este tu, mas al\u00e9m disso \u00e9 chamado a conhecer, valorizar e configurar o mundo, e tornar-se respons\u00e1vel dele. Este processo que define o viver crist\u00e3o ou todo o \u00e2mbito da espiritualidade crist\u00e3, implica uma rela\u00e7\u00e3o experiencial. O ser espiritual do homem justifica e torna poss\u00edvel essa rela\u00e7\u00e3o com o Ser Pessoal. Tudo isto, necessita, no entanto, da ac\u00e7\u00e3o sobrenatural da gra\u00e7a que, \u2013 como se afirmou \u2013 vem ao encontro do homem para o levar \u00e0 sua plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui vamos aproximar-nos da vis\u00e3o que Edite tem de dois temas estreitamente relacionados: a experi\u00eancia religiosa e a experi\u00eancia m\u00edstica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>a) \u00c9 poss\u00edvel uma experi\u00eancia de Deus?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta a esta pergunta \u00e9 necessariamente condicionada pelo ponto de partida que adopte aquele que deve responder. Em definitivo, depender\u00e1 da compreens\u00e3o que tenhamos do \u00abhomem\u00bb. A posi\u00e7\u00e3o de Edite \u00e9 sumamente interessante e luminosa. Encontramo-la reflectida na sua tese de doutoramento <em>Sobre o problema da Empatia<\/em>. A an\u00e1lise dos actos da empatia no homem leva-a a uma compreens\u00e3o do ser humano como ser \u00abespiritual\u00bb, transcendente. E s\u00f3 porque \u00e9 \u00abespiritual\u00bb \u00e9 capaz de empatizar. Na \u00faltima p\u00e1gina deste trabalho Edite coloca-se num n\u00edvel hipot\u00e9tico e pergunta-se sobre a possibilidade de uma rela\u00e7\u00e3o entre pessoas puramente espirituais, noutras palavras, sobre a possibilidade de uma experi\u00eancia religiosa. A sua posi\u00e7\u00e3o aparece ser positiva, sempre e quando se aceite a exist\u00eancia do Esp\u00edrito. No entanto, como era de esperar, n\u00e3o afronta a quest\u00e3o e \u00abdeixa a resposta da pergunta formulada a ulteriores investiga\u00e7\u00f5es\u00bb (<em>Sobre o problema da empatia<\/em>, 135).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria Edite Stein, ainda que brevemente, oferecer-nos-\u00e1 numa ocasi\u00e3o a sua concep\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia religiosa e da sua possibilidade, precisamente num di\u00e1logo epistolar aberto com o fil\u00f3sofo (por ent\u00e3o bastante c\u00e9ptico) Roman Ingarden. Numa carta escrita a 20 de Novembro de 1927 afirma: \u00abCreio que se pode e deve falar de <em>experi\u00eancias religiosas<\/em>; mas com isto n\u00e3o se trata de uma \u201ccontempla\u00e7\u00e3o directa\u201d de Deus&#8230; O caminho normal reflecte sobre os efeitos que notamos em n\u00f3s, nos outros e nos acontecimentos, etc., na natureza e na vida dos homens, dos quais nenhum \u2013 tomado em si mesmo \u2013 remete t\u00e3o claramente \u00e0 autoridade divina, de modo que j\u00e1 n\u00e3o fosse de pensar outra explica\u00e7\u00e3o; contudo, todos eles cont\u00eam em si uma tal indica\u00e7\u00e3o, alguns t\u00e3o fortes no seu isolamento, que \u00e9 imposs\u00edvel fugir dela, em todo o caso o seu impacto \u00e9 tal que metodologicamente podemos duvidar, mas n\u00e3o realmente&#8230; N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que no final da nossa vida cheguemos a uma prova convincente da experi\u00eancia religiosa. Mas sim \u00e9 necess\u00e1rio que tomemos uma decis\u00e3o a favor ou contra Deus. \u00c9 sito que nos exige: decidir-nos sem uma prova de garantia. Este \u00e9 o grande desafio da f\u00e9\u00bb (OC I, 801-802).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o passar do tempo, e olhando para a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, Edite constata que \u00e9 fundamental a atitude de abertura, da parte da pessoa, a esta experi\u00eancia: \u00abN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ajud\u00e1-lo com argumentos. Se fosse poss\u00edvel libert\u00e1-lo de toda a argumenta\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o seria ajudado. E aconselhar? J\u00e1 lhe dei o meu conselho: ser como uma crian\u00e7a e p\u00f4r a vida com toda a investiga\u00e7\u00e3o e cavila\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os do Pai. Se ainda n\u00e3o conseguimos isto: pedir, pedir ao Deus posto em d\u00favida e desconhecido que seja ele a ajud\u00e1-lo. Agora olhe para mim assombrado, que n\u00e3o tenho medo de me apresentar diante de si com t\u00e3o simples sabedoria de crian\u00e7a. \u00c9 sabedoria, que conduz com total garantia \u00e0 meta\u00bb (OC I, 778).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) Experi\u00eancia m\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edite Stein foi uma mulher m\u00edstica no sentido mais aut\u00eantico da palavra: quer pela viv\u00eancia da uni\u00e3o com Deus, quer por ter experimentado uma s\u00e9rie de gra\u00e7as sobrenaturais especiais. Mas n\u00e3o nos ocupamos agora deste tema. Sublinhamos apenas os elementos que, na opini\u00e3o dela, configuram a aut\u00eantica experi\u00eancia m\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, ter\u00edamos que indicar que a experi\u00eancia m\u00edstica surge do conceito mesmo do que \u00e9 a religi\u00e3o: \u00ab&#8230; a religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo para viver num canto tranquilo e durante uma horas de festa, mas &#8230; deve ser raiz e fundamento de toda a vida, e isto n\u00e3o s\u00f3 para alguns escolhidos, mas para todo o crist\u00e3o que o seja de verdade&#8230;\u00bb (OC I, 809).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, que entende Edite por m\u00edstica? Na sequela dos grandes mestres, Dion\u00edsio Areopagita, Jo\u00e3o da Cruz e Teresa de Jesus, compreende a m\u00edstica como \u00abencontro pessoal com o Senhor\u00bb (OC V, 150), como \u00absentimento da presen\u00e7a de Deus\u00bb (ib.). Mas o mais fundamental \u00e9, sem d\u00favida, a meta: a uni\u00e3o com Deus, \u00e0 qual \u00e9 chamado todo o ser humano, ou expresso com outras palavras: \u00aba uni\u00e3o da alma com Deus\u00bb (SF 422).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 qualificada, al\u00e9m disso, n\u00e3o s\u00f3 como uma realidade experiencial, mas tamb\u00e9m pelo conhecimento de Deus, o modo mais sublime de conhecimento: \u00abneste encontro pessoal tem lugar o conhecimento \u00edntimo de Deus\u00bb (OC V, 152).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na discuss\u00e3o sobre se todos s\u00e3o chamados \u00e0 m\u00edstica, Edite d\u00e1 uma resposta claramente afirmativa: \u00abtodos os crist\u00e3os s\u00e3o chamados ao essencial, a saber, \u00e0 uni\u00e3o com Deus\u00bb (Ct 1278). Surge o problema da raz\u00e3o pela qual, de facto, s\u00e3o muito poucos os que realmente alcan\u00e7am os cumes da vida m\u00edstica, sobretudo quando se fala de gra\u00e7as sobrenaturais. \u00abQue realmente chegam poucos a\u00ed, explica-se pelos obst\u00e1culos da parte do homem\u00bb (Ib.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas afirma\u00e7\u00f5es steinianas fundam-se na convic\u00e7\u00e3o de que a vida m\u00edstica \u00ab\u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o experiencial do que ensina a f\u00e9: a presen\u00e7a de Deus na alma. Aquele que guiado pela verdade da f\u00e9, busca a Deus, dirigir-se-\u00e1 por livres esfor\u00e7os ao lugar preciso ao qual \u00e9 atra\u00eddo o ser favorecido pela gra\u00e7a m\u00edstica\u00bb (SF 457). Mais contundente ressoa esta outra afirma\u00e7\u00e3o: \u00abSe se designou o conhecimento experiencial como \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d da f\u00e9, ent\u00e3o indica-se com isso que a f\u00e9 tende para o mesmo que se oferece no conhecimento experiencial\u00bb (OC V, 154). A f\u00e9, quando \u00e9 uma realidade viva e assumida conscientemente, busca assumir, viver e experimentar aquilo que cr\u00ea. Deste modo, a experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 uma consequ\u00eancia da f\u00e9, mesmo quando seja sempre obra da gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edite d\u00e1-nos um conselho em rela\u00e7\u00e3o a isto: \u00abpenso que fazer da nossa parte tudo o que \u00e9 poss\u00edvel, a fim de chegar a ser um vaso para a gra\u00e7a divina, \u00e9 um caminho mais seguro\u00bb (Ct 1278). E conclui com um aviso que aplica a Santa Teresa: \u201cDesapega o teu cora\u00e7\u00e3o de todas as coisas. Busca a Deus e encontr\u00e1-lo-\u00e1s\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro tema estreitamente relacionado \u00e9 o da teologia m\u00edstica. Ocupar-se-\u00e1 dele de perto na sua obra <em>Caminhos do conhecimento de Deus<\/em> sobre o Areopagita (cf. OC V, 125 ss.), e na <em>Ci\u00eancia da Cruz<\/em> (Ib. 201 ss.). A teologia m\u00edstica \u00e9 a ci\u00eancia secreta de Deus, o grau supremo de falar de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 195-197.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <em>\u00caxtase de Santa Teresa<\/em> | Gian Lorenzo Bernini [1598-1680]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11892,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11890","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11890"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11890\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11893,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11890\/revisions\/11893"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11892"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}