{"id":11887,"date":"2021-03-11T07:00:59","date_gmt":"2021-03-11T07:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11887"},"modified":"2021-02-16T11:37:34","modified_gmt":"2021-02-16T11:37:34","slug":"pensamento-de-edith-stein-a-oracao-em-chave-de-amizade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-a-oracao-em-chave-de-amizade\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | A ORA\u00c7\u00c3O EM CHAVE DE AMIZADE"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A ORA\u00c7\u00c3O EM CHAVE DE AMIZADE<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pre\u00e2mbulo indicamos que Edite Stein n\u00e3o v\u00ea contraposi\u00e7\u00e3o entre as diversas modalidades orantes, mas uma estreit\u00edssima unidade que surge da centralidade de Cristo e da presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo que \u00e9 quem autentifica a ora\u00e7\u00e3o, quer esta seja vocal ou mental, lit\u00fargica ou devocional. S\u00f3 existe uma ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein n\u00e3o h\u00e1 dualismos na ora\u00e7\u00e3o. O que conta \u00e9 que esta seja fruto de uma participa\u00e7\u00e3o consciente, e que al\u00e9m de ser um acto de culto e de louvor, surja como um encontro de amor. Toda a ora\u00e7\u00e3o vocal para ser uma ora\u00e7\u00e3o viva h\u00e1-de transformar-se em ora\u00e7\u00e3o mental, quer dizer, tem que ser pronunciada com o cora\u00e7\u00e3o e a boca ao mesmo tempo: \u00ab&#8230; a ora\u00e7\u00e3o vocal, que se realiza com determinadas f\u00f3rmulas faladas: o Pai Nosso, a Ave Maria, o ros\u00e1rio, as Horas can\u00f3nicas. Essa ora\u00e7\u00e3o vocal n\u00e3o deve entender-se de forma, que consista s\u00f3 em pronunciar as palavras. Onde a ora\u00e7\u00e3o vocal for praticada de forma a que o esp\u00edrito n\u00e3o se eleve para Deus, \u00e9 uma apar\u00eancia de ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma ora\u00e7\u00e3o verdadeira. As palavras s\u00e3o um apoio para o esp\u00edrito, indicando-lhe um caminho\u00bb (OC V, 508).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) Orar como Jesus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 e Cristo e a partir de Cristo tem sentido e raz\u00e3o de ser a viv\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o como voca\u00e7\u00e3o e apostolado. Este valor cristol\u00f3gico n\u00e3o s\u00f3 qualifica de aut\u00eantica a ora\u00e7\u00e3o mas, al\u00e9m disso, \u00abobjectiva-a\u00bb como ora\u00e7\u00e3o da Igreja. Na sua vida Cristo participou da liturgia oficial. Mas, mais frequentemente, \u00e9 visto em ora\u00e7\u00e3o pessoal com o Pai. Uma ora\u00e7\u00e3o, que pelo que implica de estado de amizade, se prolonga em todo o momento na vida de Jesus. O seu exemplo \u00e9 um convite a pratic\u00e1-la e a certeza de que \u00e9 o caminho seguro de seguimento. Al\u00e9m disso, \u00aba ora\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o de Cristo vivo\u00bb e \u00abtem o seu modelo na ora\u00e7\u00e3o de Cristo durante a sua vida terrena\u00bb (OC V, 113).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ora\u00e7\u00e3o de Jesus caracteriza-se por ser uma cont\u00ednua ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e porque revela o mist\u00e9rio da unidade trinit\u00e1ria. Seguir a Cristo no caminho da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 entrar a participar do seu sacerd\u00f3cio eterno, \u00e9 entrar na din\u00e2mica do sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio, \u00e9 participar da obra de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chave para compreender a vida interior de Cristo e a vida de ora\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o h\u00e1 que busc\u00e1-la na \u00abora\u00e7\u00e3o sacerdotal de Jesus\u00bb (Ib. 114) que desvela \u00aba iman\u00eancia rec\u00edproca das pessoas divinas e a inhabita\u00e7\u00e3o de Deus na alma\u00bb e, ao mesmo tempo, \u00abdesvela o mist\u00e9rio do sumo sacerd\u00f3cio: todos os seus podem ouvi-lo quando no santu\u00e1rio do seu cora\u00e7\u00e3o fala com o Pai: devem apreender em que consiste, e aprender a falar no seu cora\u00e7\u00e3o com o Pai\u00bb (Ib.). Se nos aproximamos do cap\u00edtulo 17 de S\u00e3o Jo\u00e3o poderemos intuir e constatar quanto Edite Stein pretende dizer: a familiaridade de Jesus com o Pai. Entre os elementos que real\u00e7am da sua ora\u00e7\u00e3o temos: a glorifica\u00e7\u00e3o de Deus, a salva\u00e7\u00e3o de todos os que Deus lhe deu, que estes conhe\u00e7am a Deus, que alcancem a vida eterna, e que todos sejam um e conhe\u00e7am o amor do Pai. Em definitivo, os aspectos essenciais da ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3: rela\u00e7\u00e3o familiar entre pessoas, glorifica\u00e7\u00e3o da Trindade, intercess\u00e3o pela salva\u00e7\u00e3o dos homens (car\u00e1cter apost\u00f3lico), conhecimento da Verdade de Deus, experi\u00eancia do amor de Deus, conquista da salva\u00e7\u00e3o eterna e da uni\u00e3o entre os homens e com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus faz da sua miss\u00e3o uma ora\u00e7\u00e3o ao Pai, para que esta miss\u00e3o chegue ao seu pleno desenvolvimento em toda a humanidade. Esta atitude de Jesus sublinha-nos o poder ilimitado da ora\u00e7\u00e3o ao Pai, e diz-nos que todo o apostolado h\u00e1-de tornar-se ora\u00e7\u00e3o, h\u00e1-de ser confiado ao poder do Pai, para que seja realmente efectivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b) Rela\u00e7\u00e3o de amizade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edite Stein quando fala da ora\u00e7\u00e3o define-a sempre na linha da leitura teresiana do \u00abtrato de amizade\u00bb. Para Edite Stein a ora\u00e7\u00e3o \u00ab\u00e9 um abrir a alma a Deus\u00bb, \u00ab\u00e9 contemplar o rosto do Eterno\u00bb (OC V, 560). Com isto quer dizer-nos que, sem esquecer que toda a ora\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 aut\u00eantica no Esp\u00edrito, tem que surgir no homem como um acto de amor, ou o que \u00e9 o mesmo, como um acto livre da alma diante de Deus. Da\u00ed que uma ora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais aut\u00eantica quanto mais livre for o homem que a realiza. Este agir livre do homem caracteriza-se porque se abre a uma rela\u00e7\u00e3o de amor: \u00abA ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o trato da alma com Deus. Deus \u00e9 amor, e amor \u00e9 bondade que se d\u00e1 a si mesma; uma plenitude existencial que n\u00e3o se encerra em si, mas que se derrama, que se quer dar e fazer feliz. Toda a cria\u00e7\u00e3o deve o seu ser a esse amor trasbordante de Deus. (&#8230;) A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 a fa\u00e7anha mais sublime de que \u00e9 capaz o esp\u00edrito humano. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 rendi\u00e7\u00e3o humana. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 como a escada de Jacob, pela qual o esp\u00edrito humano trepa para Deus, e a gra\u00e7a de Deus desce aos homens\u00bb (OC V, 507). A ora\u00e7\u00e3o concebe-se, ent\u00e3o, como uma \u00abentrega dos grandes amadores a Deus\u00bb (OC V, 119).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o de amizade, que \u00e9 o clima apropriado de uma aut\u00eantica ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3, implica uma rela\u00e7\u00e3o entre pessoas, entre um eu e um tu, dispostos a acolher-se mutuamente, e no respeito pela liberdade. Amor e liberdade v\u00e3o necessariamente unidos, e s\u00f3 desde estes pressupostos se torna poss\u00edvel a vida de ora\u00e7\u00e3o: \u00abO acto livre da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 aut\u00eantico e eficaz s\u00f3 na medida em que se funda no amor a Deus\u00bb (ESW VI, 163).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida de ora\u00e7\u00e3o, na medida em que vai crescendo como acto livre e amoroso, transforma-se num caminho de uni\u00e3o, ou caminho de participa\u00e7\u00e3o na ess\u00eancia divina que \u00e9 amor (cf. SF 520). Mas, al\u00e9m disso, a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho \u00fanico que nos conduz ao mais profundo do nosso ser, a esse lugar onde o homem \u00e9 mais livre e se sente na sua pr\u00f3pria casa\u00bb (cf. SF 451).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>c) Ora\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ra\u00e7\u00e3o vivida como encontro, como experi\u00eancia de amor com Deus, rompe com o ego\u00edsmo do cora\u00e7\u00e3o, e faz com que a vontade do homem se conforme com a vontade salvadora universal de Deus. Por isso, a ora\u00e7\u00e3o transforma-se em intercess\u00e3o pelo bem da humanidade. Assim o compreendeu Edite Stein e o compreenderam todos aqueles que fundamentaram a sua vida na rela\u00e7\u00e3o de amizade com Deus. A sua ora\u00e7\u00e3o tem um denominador comum: ganhar almas para Deus, interceder voluntariamente pelos pecadores e pela Igreja universal de Cristo. \u00abInterceder com o sofrimento volunt\u00e1rio e alegre em favor dos pecadores e assim colaborar na salva\u00e7\u00e3o da humanidade\u00bb (Ct 998).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o radica em que realiza a uni\u00e3o de Deus com o homem. Isto \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 obra da reconcilia\u00e7\u00e3o selada com o sangue de Cristo na Cruz. Da\u00ed que o sentido apost\u00f3lico da ora\u00e7\u00e3o tenha que ser buscado na cruz de Cristo. A uni\u00e3o com Deus realiza-se mediante a participa\u00e7\u00e3o e o seguimento da vida de Cristo. A ora\u00e7\u00e3o, enquanto participa\u00e7\u00e3o e acolhimento do mist\u00e9rio de Cristo e de configura\u00e7\u00e3o com Ele, leva consigo a participa\u00e7\u00e3o na sua obra de Reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 meio de salva\u00e7\u00e3o para o orante e para a humanidade pela qual intercede juntamente com Cristo (cf. OC V, 623-624).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A efic\u00e1cia apost\u00f3lica da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do mist\u00e9rio da vontade divina que se abaixa e submete, no seu infinito amor, \u00e0 vontade do orante: \u00abO facto mais maravilhoso da vida religiosa \u00e9 que Deus, escutando as ora\u00e7\u00f5es, se submete \u00e0 vontade dos seus eleitos. O porqu\u00ea \u00e9 algo que supera\u00a0 toda a conceptualiza\u00e7\u00e3o\u00bb (ESW VI, 161).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 200-203.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/anniespratt-4900708\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1149671\">Annie Spratt<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1149671\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11888,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11887"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11887\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11891,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11887\/revisions\/11891"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}