{"id":11812,"date":"2021-02-17T07:00:42","date_gmt":"2021-02-17T07:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11812"},"modified":"2021-02-15T13:27:07","modified_gmt":"2021-02-15T13:27:07","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-dignidade-humana-e-ser-se-um-fim-em-si-mesmo-nunca-meio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-dignidade-humana-e-ser-se-um-fim-em-si-mesmo-nunca-meio\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Dignidade humana \u00e9\u2026 ser-se um fim em si mesmo, nunca meio!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-7998\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"127\" height=\"176\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg 739w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-217x300.jpg 217w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-768x1064.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-600x831.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1109x1536.jpg 1109w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1478x2048.jpg 1478w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1200x1662.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-850x1178.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-480x665.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1320x1829.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-scaled.jpg 1848w\" sizes=\"auto, (max-width: 127px) 100vw, 127px\" \/>O parlamento portugu\u00eas est\u00e1 tomado por uma vertigem. E, como em todas as vertigens, parece adormecido, at\u00f3nito, sem capacidade para refletir, com racionalidade e presen\u00e7a de esp\u00edrito. O Parlamento est\u00e1 embevecido pela sedu\u00e7\u00e3o do poder sem limites que lhe gera a vertigem de que falamos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As decis\u00f5es de fratura sucedem-se em catadupa, unindo-as um ponto comum: o ceticismo em rela\u00e7\u00e3o ao que seja a dignidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o duvidemos\u2026 A dignidade da pessoa humana constitui cada um de n\u00f3s como um fim em si mesmo, insuscet\u00edvel de ser reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de meio. Tomar algu\u00e9m como meio para um fim posterior \u00e9 atentar contra a dignidade inerente a todos n\u00f3s, dignidade que nos faz participantes de um \u2018algo\u2019 anterior, concomitante e posterior a n\u00f3s mesmos. Ser-se humano faz-nos pertencentes a um \u2018s\u00f3lido\u2019 (de que deriva a ideia de \u2018solidariedade\u2019) em que o que fazemos a um afeta todos, na medida em que afeta a natureza humana presente nesse um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vem isto a prop\u00f3sito das mais recentes decis\u00f5es do Parlamento em rela\u00e7\u00e3o a mat\u00e9rias que concernem ao in\u00edcio da vida: \u2018insemina\u00e7\u00e3o post mortem\u2019 e \u2018maternidade de substitui\u00e7\u00e3o\u2019 (vulgarmente designada como \u2018barrigas de aluguer\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas as decis\u00f5es foram alvo de pareceres \u00e9ticos negativos, mas, ainda assim, o Parlamento, [que \u00e9 quem det\u00e9m o poder e, por isso, se considera autorizado para decidir o que entender (!)], decidiu avan\u00e7ar para a sua legaliza\u00e7\u00e3o, invocando tratar-se de um avan\u00e7o impar\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho-o dito muitas vezes: nada h\u00e1 de mais progressista do que a \u00e9tica. \u00c9 \u00e0 \u00e9tica que cabe alertar para os riscos de uma atitude conservadora e simplista que nos faz \u2018fazer\u2019 tudo o que podemos fazer. A \u00e9tica diz-nos que n\u00e3o ser\u00e1 sensato n\u00e3o subjugarmos o \u2018poder\u2019 ao que \u2018\u00e9 l\u00edcito fazer\u2019, ao que \u2018devemos\u2019 fazer. Quando o \u2018poder\u2019 e o \u2018dever\u2019 se pretendem coincidentes, emergem as condi\u00e7\u00f5es para a arbitrariedade que \u00e9 m\u00e1 conselheira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 disto que se trata, nas duas situa\u00e7\u00f5es que acima invoc\u00e1vamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambos os casos estamos perante um desejo de corresponder a um pedido (em si pr\u00f3prio, l\u00edcito e gerador de compaix\u00e3o: o de possibilitar gerar vida nova, gerar filhos), mas em que a solu\u00e7\u00e3o se revela atentat\u00f3ria da indisponibilidade da dignidade de cada um. Na verdade, um olhar atento e distanciado rapidamente concluir\u00e1 que, em ambas as situa\u00e7\u00f5es, o bom fim (beneficiar da paternidade e maternidade) se faz por um mau meio, um meio que se revela instrumentalizador. O centro est\u00e1, n\u00e3o no filho, mas no desejo de se ter filhos. O filho n\u00e3o \u00e9 um algu\u00e9m que se acolhe, \u00e9 um bem que se pretende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bento XVI alertava, na enc\u00edclica \u2018Caritas in Veritate\u2019 (CV 3) para os perigos do amor compassivo que n\u00e3o respeita a verdade da natureza humana. Assim acontece, neste caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filho gerado por insemina\u00e7\u00e3o <em>post mortem <\/em>\u00e9 um filho gerado na orfandade. \u00c9 um \u00f3rf\u00e3o no pr\u00f3prio momento em que \u00e9 concebido. E, se a orfandade nos compadece, porque haveremos de legitimar gerar filhos j\u00e1 \u00f3rf\u00e3os no pr\u00f3prio momento da sua conce\u00e7\u00e3o? H\u00e1 algo de contradit\u00f3rio nisto. Uma contradi\u00e7\u00e3o que nasce de n\u00e3o se respeitar que o filho n\u00e3o \u00e9 um direito. Um filho \u00e9 anterior aos nossos pr\u00f3prios direitos: \u00e9 algu\u00e9m. \u00c9 uma pessoa que nos cabe acolher, amar pelo que \u00e9 e n\u00e3o por corresponder ao desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, no caso da maternidade de substitui\u00e7\u00e3o, o filho \u00e9 gerado num contexto que artificializa a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filho. Sabendo-se qu\u00e3o relevante \u00e9 o tempo de gesta\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos, privar algu\u00e9m, \u00e0 partida, desses v\u00ednculos, por um motivo que se prende com o desejo dos adultos a terem um filho, desvirtua a natureza das coisas e \u00e9 uma viol\u00eancia a que n\u00e3o podemos fechar os olhos. O nosso sil\u00eancio seria o de uma cumplicidade indigna por abafar o motivo de indigna\u00e7\u00e3o. J\u00e1 evidenciava Arist\u00f3teles que a virtude se op\u00f5e ao v\u00edcio. O que n\u00e3o \u00e9 virtuoso \u00e9 vicioso. Se esta \u00e9 uma decis\u00e3o que desvirtua a natureza das coisas, n\u00e3o poder\u00e1 pretender reconhecimento de virtude\u2026 E disso deu conta, precisamente, o Tribunal Constitucional que j\u00e1 se pronunciou sobre esta mat\u00e9ria, considerando-a inconstitucional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o Parlamento n\u00e3o quer saber dos que se lhe op\u00f5em. \u00c9 ele que tem o poder. E quanto pode contra isso a dignidade humana?<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/aamiraimer-2502350\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2529907\">Aamir Mohd Khan<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2529907\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O parlamento portugu\u00eas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11813,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[146,55],"tags":[],"class_list":["post-11812","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11812"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11812\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11814,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11812\/revisions\/11814"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}