{"id":11613,"date":"2021-02-15T07:00:03","date_gmt":"2021-02-15T07:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11613"},"modified":"2021-02-10T11:17:10","modified_gmt":"2021-02-10T11:17:10","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-12-imaginarios-sociais-modernos-economia-e-esfera-publica\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (12) \u2013 Imagin\u00e1rios sociais modernos. Economia e Esfera P\u00fablica"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), vers\u00e1mos os dois primeiros cap\u00edtulos da obra: o primeiro relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>); o segundo relativo \u00e0 \u201csociedade disciplinadora\u201d emergente daquela reforma (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>). Nos tr\u00eas demais cap\u00edtulos da primeira parte da obra, suspende-se a abordagem cronol\u00f3gica e atenta-se nalgumas fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias desta primeira era moderna. Depois de vermos o cap\u00edtulo 3 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>) e de iniciamos o cap\u00edtulo 4 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">11<\/a>), avan\u00e7amos hoje para a segunda de tr\u00eas glosas sobre o cap\u00edtulo 4, relativo aos \u201cImagin\u00e1rios Sociais Modernos\u201d (<em>Modern Social Imaginaries<\/em>). O presente texto incide sobre as pp. 176-196.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os interessados poder\u00e3o consultar a <a href=\"http:\/\/www.lusosofia.net\/textos\/taylor_charles_esfera_publica.pdf\">tradu\u00e7\u00e3o de Artur Mour\u00e3o<\/a> relativa \u00e0 parte da obra <em>Modern Social Imaginaries <\/em>(ver o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">37<\/a>) relativa \u00e0 \u201cEsfera P\u00fablica\u201d, que, no essencial, \u00e9 reproduzida nas pp. 185-196 do cap\u00edtulo que estamos a analisar. Incidem sobre essa parte os nn.\u00ba 43-45 desta glosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 42. <em><u>A Economia como entidade objectivada<\/u><\/em>. \u2013 Vejamos, portanto, algumas das novas fei\u00e7\u00f5es sociais decorrentes da <em>Nova Ordem Moral<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma primeira dimens\u00e3o que vem ao de cima \u00e9 a <em>Economia<\/em>. Liga-se, por um lado, ao ideal de \u201cboas maneiras\u201d (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">22<\/a>); mas, por outro, resulta tamb\u00e9m do novo quadro de compreens\u00e3o da ordem moral que ao valor da prosperidade atribui suprema relev\u00e2ncia (nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">40 e 41<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Divina Provid\u00eancia<\/em> \u00e9 entendida no sentido de o normal curso das coisas estar ordenado para o benef\u00edcio rec\u00edproco dos homens (tenha-se em vista, desde logo, a no\u00e7\u00e3o de <em>m\u00e3o invis\u00edvel<\/em>). Isto \u00e9, a ordem do mundo \u00e9 vista, n\u00e3o como espelhando um sentido pr\u00f3prio, mas como estando instrumentalmente ao servi\u00e7o daqueles fins, existindo a sociedade para, mediante a troca de servi\u00e7os, se favorecer o bem de todos: \u00ab(\u2026) os seres humanos est\u00e3o envolvidos numa troca de servi\u00e7os. O modelo fundamental parece ser aquilo a que viemos a chamar Economia.\u00bb (p. 177)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal novo quadro op\u00f5e-se a uma ordem de conviv\u00eancia assente na hierarquia e na complementaridade (p. 178). A meio caminho entre a ordem antiga e a nova agora emergente est\u00e1 o Estado \u201cbarroco\u201d (p. 178), que procura justificar a ordem a monarquia <em>absoluta <\/em>como o meio mais eficaz de garantir o funcionamento de uma sociedade de iguais, em que todos s\u00e3o <em>pares <\/em>na sua igual <em>imparidade <\/em>ante o pr\u00edncipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Economia evolui, por\u00e9m, no sentido de se vir a tornar o fim principal da sociedade (p. 178). A preocupa\u00e7\u00e3o com a promo\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio torna-se clara na medida da crescente compreens\u00e3o de que o desenvolvimento econ\u00f3mico se torna uma chave para o poder militar e, por isso, pol\u00edtico (pp. 178-179). Mas interv\u00e9m tamb\u00e9m o factor j\u00e1 conhecido da Reforma: a ideia de vida ordenada, n\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel individual, mas a impor \u00e0 pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">16<\/a>); e a padroniza\u00e7\u00e3o das formas de vida, conduzindo a que a vida ordin\u00e1ria possa ser entendida como t\u00e3o santificada como qualquer outra (e mesmo como \u201cmais santa\u201d do que formas de vida entendidas como <em>in\u00fateis<\/em>, mesmo que antes fossem vistas como as mais exigentes da vida crist\u00e3 \u2013 \u00e9 o caso da vida consagrada de \u00edndole \u201ccontemplativa\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este princ\u00edpio de <em>santifica\u00e7\u00e3o da vida<\/em> <em>ordin\u00e1ria, <\/em>sustenta Taylor, ultrapassou de modo muito significativo o seu primitivo campo de aplica\u00e7\u00e3o, subsistindo em variantes seculares, com um duplo alcance particular: por um lado, a promo\u00e7\u00e3o da vida ordin\u00e1ria, tendo por efeito a valoriza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia ou das rela\u00e7\u00f5es interpessoais; por outro, colocando em crise formas de vida putativamente superiores, de \u201celite\u201d, seja no dom\u00ednio religioso (por ex., as voca\u00e7\u00f5es mon\u00e1sticas), seja no dom\u00ednio civil (resultantes de quadros \u00e9ticos que colocavam a contempla\u00e7\u00e3o acima da \u201cexist\u00eancia produtiva\u201d), tendo por efeito a afirma\u00e7\u00e3o da igualdade ao n\u00edvel c\u00edvico e pol\u00edtico (p. 179).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais factores conduzem a que a Economia venha a ocupar um lugar de primeira grandeza na vida p\u00fablica. A actividade econ\u00f3mica e o com\u00e9rcio s\u00e3o o caminho para uma exist\u00eancia em paz e tranquila: \u00abO \u201cdoux commerce\u201d [doce com\u00e9rcio] \u00e9 contrastado com a destrutividade selvagem da busca aristocr\u00e1tica de gl\u00f3ria militar. Qu\u00e3o mais a sociedade se dedica ao com\u00e9rcio t\u00e3o mais \u201cpolida\u201d e civilizada se torna, t\u00e3o mais se distingue na arte da paz. O \u00edmpeto de ganhar dinheiro \u00e9 visto como uma \u201cpaix\u00e3o tranquila\u201d. Quando toma conta de uma sociedade, ajuda muito a controlar e a inibir as paix\u00f5es mais violentas. Ou, colocando noutra linguagem, a paix\u00e3o violenta serve o nosso \u201cinteresse\u201d, e o interesse pode fiscalizar e controlar as paix\u00f5es.\u00bb (p. 180) O com\u00e9rcio substitui a guerra como o grande fim de uma sociedade (p. 184).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade \u00e9 vista, pois, como uma Economia, como um conjunto de actividades de \u00abprodu\u00e7\u00e3o, troca e consumo, que formam um sistema com as suas leis e a sua din\u00e2mica\u00bb, e que em princ\u00edpio se basta a si pr\u00f3prio, desde que n\u00e3o perturbado (p. 181). Introduzida esta mudan\u00e7a, por\u00e9m, a sociedade organizada j\u00e1 n\u00e3o se identifica com a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em sentido estrito \u2013 mas como um conjunto de \u00abprocessos impessoais\u00bb subjacentes \u00e0 actua\u00e7\u00e3o dos seus agentes (pp. 181, 183).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Note-se, por outro lado, que este imagin\u00e1rio econ\u00f3mico \u2013 um dos v\u00e1rios elementos presentes na modernidade \u2013 n\u00e3o prev\u00ea qualquer lugar para a \u00abrepresenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alargada\u00bb (<em>large scale collective agencies<\/em>). A vida social \u00e9 perspectivada a partir da actua\u00e7\u00e3o de uma mir\u00edade de sujeitos individuais; n\u00e3o a partir de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou sociais. Consegue-se antever a fei\u00e7\u00e3o social resultante da actua\u00e7\u00e3o dos diferentes sujeitos precisamente por o seu comportamento, assim se entende, seguir \u00ableis econ\u00f3micas\u00bb aptas a serem estudadas. Isto \u00e9, trata-se de uma \u00abperspectiva <em>objectivadora, <\/em>que trata os eventos sociais como quaisquer outros processos integrantes da natureza, seguindo leis de estilo similar\u00bb (p. 181). Observa Taylor que esta caracter\u00edstica \u2013 isto \u00e9, objectivar a realidade social, trat\u00e1-la como um objecto (t\u00e3o contrastante com perspectivas anteriores de olhar a realidade social: pp. 182-183) \u2013 \u00e9 t\u00e3o marcante da modernidade ocidental como a ideia de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (p. 182). A realidade social <em>objectiva-se: <\/em>recusando-se, portanto, qualquer <em>fim inerente <\/em>e <em>imanente <\/em>\u00e0 ordem social, como pressuposto pelo quadro \u00e9tico aristot\u00e9lico (e tomista). (p. 183)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naturalmente que este quadro entra em tens\u00e3o com outro dos valores centrais do quadro moderno: o valor da <em>liberdade. <\/em>Com efeito, se o sistema econ\u00f3mico \u00e9 visto de forma totalmente objectivada, ent\u00e3o pode pensar-se que a pessoa individual est\u00e1 <em>submetida <\/em>\u00e0s suas for\u00e7as, e nenhum espa\u00e7o parece sobrar para a afirma\u00e7\u00e3o de um outro conjunto significativo de valores. Pode entender-se que, por este modo, se d\u00e1 um tamanho nivelamento social que n\u00e3o deixa espa\u00e7o para bens como a \u00abgrandeza, [o] hero\u00edsmo, [a] dedica\u00e7\u00e3o total a causas n\u00e3o utilit\u00e1rias\u00bb, que, sem preju\u00edzo, continuam a afigurar-se muito apelativos (p. 184). A tens\u00e3o continua bem presente, n\u00e3o obstante as diferentes tentativas de a resolver. Taylor nota-o apontando o cont\u00ednuo interesse que persiste na obra de um Nietzsche, que em muito assenta na revolta contra o nivelamento e a padroniza\u00e7\u00e3o \u2013 a vulgariza\u00e7\u00e3o, afinal \u2013 geradas pela sociedade moderna (p. 185).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 43. <em><u>A Esfera P\u00fablica.<\/u><\/em> \u2013 A segunda dimens\u00e3o da sociedade civil, autonomizada da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, foi a \u00abEsfera P\u00fablica\u00bb: \u00abPretendo descrever a Esfera P\u00fablica como um espa\u00e7o comum no qual os membros da sociedade se encontram atrav\u00e9s de uma variedade de meios: impressos, electr\u00f3nicos, e mesmo encontros face-a-face; para discutir quest\u00f5es de interesse comum; e deste modo serem capaz de formar um entendimento comum a este respeito.\u00bb (p. 185) O espa\u00e7o \u00e9 considerado em comum porque os diferentes meios se interligam uns com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor come\u00e7a por expor o tema a partir da obra de J\u00fcrgen Habermas de t\u00edtulo <em>The Structural Transformation of the Public Sphere <\/em>(<em>Strukturwandel der \u00d6ffentlichkeit<\/em>) e da obra de Michael Werner <em>The Letters of the Republic<\/em>. A ideia central \u00e9 o surgimento, a partir do s\u00e9c. XVIII, da percep\u00e7\u00e3o de que, apesar da diversidade de meios de participa\u00e7\u00e3o, se est\u00e1 na presen\u00e7a de <em>um \u00fanico debate<\/em>, o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se os diferentes participantes no debate, dadas certas condi\u00e7\u00f5es (desde logo, a exist\u00eancia de meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia adequados), <em>imaginarem <\/em>que est\u00e3o nele a participar, ainda que reciprocamente n\u00e3o se conhe\u00e7am.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Uma manifesta\u00e7\u00e3o muito clara de um lugar pr\u00f3prio para a esfera p\u00fablica \u00e9 a sec\u00e7\u00e3o dos jornais alem\u00e3es que se designa <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Feuilleton\"><em>Feuilleton<\/em><\/a><em>,<\/em> a par da <em>Pol\u00edtica, Economia, Desporto, <\/em>etc., precisamente dedicada aos grandes debates contempor\u00e2neos.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, escreve Taylor que a esfera p\u00fablica \u00e9 <em>meta-t\u00f3pica<\/em>, isto \u00e9, n\u00e3o est\u00e1 alocada a <em>espa\u00e7os comuns, f\u00edsicos, presenciais; <\/em>transcende (<em>met\u00e1<\/em>) o lugar (<em>t\u00f3pos<\/em>)<em>. <\/em>Outras realidades j\u00e1 tinham natureza <em>meta-t\u00f3pica, <\/em>como a Igreja (adiante procuraremos reflectir especificamente sobre a aplica\u00e7\u00e3o desta no\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja) ou o \u201cEstado\u201d. Mas na opini\u00e3o p\u00fablica h\u00e1 elementos novos, relacionados com ideia moderna de ordem (p. 187). Por um lado, a <em>opini\u00e3o p\u00fablica <\/em>ser\u00e1 independente da realidade pol\u00edtica; por outro, operar\u00e1 como padr\u00e3o de legitimidade da pr\u00f3pria vida pol\u00edtica (p. 188).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto harmoniza-se nitidamente com as perspectivas de <em>contrato social<\/em>, na medida em que estas evolu\u00edram no sentido de um primeiro acordo hist\u00f3rico (um contrato em sentido pr\u00f3prio, localizado esp\u00e1cio-temporalmente, e, a partir desse primeiro e \u00fanico exerc\u00edcio de liberdade constituinte, produzindo efeitos perdurantes no tempo) para a exig\u00eancia de um consenso permanente como forma de legitima\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico (v. tb. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/\">38<\/a>). Ora, a opini\u00e3o p\u00fablica pode justamente desempenhar esta fun\u00e7\u00e3o de servir de pauta de controlo \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o do poder (p. 188).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 44. <em><u>A esfera p\u00fablica (cont.). Fun\u00e7\u00e3o.<\/u> \u2013 <\/em>Qual, pois, a fun\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o lugar (<em>meta-t\u00f3pico<\/em>) de uma discuss\u00e3o que potencialmente a todos envolve, e no qual a sociedade pode chegar a um entendimento comum sobre mat\u00e9rias importantes, entendimento que se entende resultante de um debate cr\u00edtico. Tal confere-lhe a pretens\u00e3o de ser ouvida: quer por aspirar a ser um entendimento <em>esclarecido; <\/em>quer por o <em>povo<\/em> passar a ser visto como soberano (n.\u00ba 46). Para o governo n\u00e3o \u00e9 apenas \u00abs\u00e1bio seguir a opini\u00e3o [p\u00fablica]; est\u00e1 moralmente vinculado a faz\u00ea-lo\u00bb (p. 189), passando a governa\u00e7\u00e3o a seguir as directrizes j\u00e1 em emerg\u00eancia no debate p\u00fablico. E da\u00ed, portanto, a import\u00e2ncia de a actividade pol\u00edtica ser <em>p\u00fablica<\/em>: justamente para poder ser sujeita ao escrut\u00ednio desta esfera (p. 189).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao desempenhar esta fun\u00e7\u00e3o, a opini\u00e3o p\u00fablica apresenta-se, por\u00e9m, como uma estrutura aut\u00f3noma em rela\u00e7\u00e3o ao poder, e n\u00e3o como uma delibera\u00e7\u00e3o <em>interna <\/em>ao exerc\u00edcio do poder; e a sua <em>pretens\u00e3o <\/em>de se afirmar como <em>esclarecida <\/em>filia-se tamb\u00e9m neste mesmo elemento. \u00abPor outras palavras, com a moderna Esfera P\u00fablica surge a ideia de que o poder pol\u00edtico tem de ser supervisionado e controlado por qualquer coisa exterior. O que \u00e9 novo, claro, n\u00e3o \u00e9 que tenha de haver um controlo exterior, mas a natureza desta inst\u00e2ncia. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a vontade de Deus, ou a Lei Natural (\u2026), mas um certo tipo de discurso, resultante da raz\u00e3o e n\u00e3o do poder ou da autoridade tradicional\u00bb (p. 190).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas porque munida destas caracter\u00edsticas, aqueles que nela interv\u00eam, diferentemente do que ocorre nas <em>assembleias t\u00f3picas, <\/em>presenciais, procuram apresentar-se como munidos de posi\u00e7\u00f5es <em>imparciais<\/em> (p. 190).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a opini\u00e3o p\u00fablica opera como um lugar no qual se concentra a conflitualidade. O ponto j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 em eliminar o <em>debate de ideias, <\/em>com receio das cesuras sociais que possa gerar; est\u00e1 em transportar essa conflitualidade para o debate, mantendo-se a paz social. Justifica-se acompanhar a cita\u00e7\u00e3o feita de Warner: \u00abSilenciosamente transforma-se o ideal de uma ordem livre de debate conflitual num ideal de debate livre de conflito social\u00bb (p. 190). E isto precisamente por ser aut\u00f3noma em rela\u00e7\u00e3o ao poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Como deriva\u00e7\u00e3o desta no\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o p\u00fablica pense-se, por ex., na actual \u201ccomunidade cient\u00edfica\u201d.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 45. <em><u>A esfera p\u00fablica (cont.). Em que consiste<\/u>. \u2013 <\/em>Importa, finalmente, procurar definir em que consiste a esfera p\u00fablica (p. 191). Identifica Taylor as duas seguintes caracter\u00edsticas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Por contraste com outras realidades pol\u00edticas anteriores, caracteriza-a a natureza extrapol\u00edtica. Constitui, por\u00e9m, uma esp\u00e9cie de <em>associa\u00e7\u00e3o <\/em>(\u201cRep\u00fablica das Letras\u201d), com certos fins, que constitui um lugar de encontro, mas que \u00e9 independente das formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E esta \u201csociedade\u201d, dissociada do Estado, pode mesmo ser maior do que cada Estado particular, estendendo-se, nomeadamente, a toda a Europa civilizada (p. 191);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) O segundo aspecto \u00e9 que esta opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 vista como totalmente secular, usando-se o termo no seguinte sentido: sem refer\u00eancia a qualquer outro elemento que n\u00e3o aquilo que nele \u00e9 colocado; sem apelo a qualquer outra fonte legitimadora que n\u00e3o a pr\u00f3pria realidade; e, por isso, <em>livre <\/em>de versar sobre os mais diferentes aspectos da vida social (pp. 191-193). Deste modo se distingue assim de outros factores de unidade transnacionais antes existentes (como, por ex., os presentes no quadro da cristandade medieval). Este aspecto, sustenta Taylor, \u00e9 um elemento novo da hist\u00f3ria trazido pela modernidade: pela primeira vez tornam-se poss\u00edveis espa\u00e7os meta-t\u00f3picos puramente seculares, fundados apenas na ac\u00e7\u00e3o comum, e sem necessidade de referentes exteriores (p. 194). A opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 <em>secular <\/em>no original sentido etimol\u00f3gico: pertence ao tempo, ao profano (pp. 194-195; cf. as reflex\u00f5es no n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">10<\/a>); mas um temporal ou profano que, por j\u00e1 n\u00e3o estar em refer\u00eancia a um qualquer elemento sagrado, se define nos seus pr\u00f3prios termos, dada a aus\u00eancia de padr\u00f5es <em>transtemporais <\/em>(sejam religiosos, sejam de uma idade \u00e9pica, sejam de tradi\u00e7\u00f5es culturais,\u2026) que sirvam de padr\u00e3o objectivo de refer\u00eancia. Antigos espa\u00e7os metat\u00f3picos tinham ainda essa refer\u00eancia (comunidades pol\u00edticas; Igreja); a opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma enorme consequ\u00eancia: \u00abA moderna \u201cseculariza\u00e7\u00e3o\u201d pode ser vista, a partir de um diferente \u00e2ngulo, como uma rejei\u00e7\u00e3o de tempos fortes [v. n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">10<\/a>], e a compreens\u00e3o do tempo como puramente profano. Os eventos agora existem apenas nesta dimens\u00e3o, na qual est\u00e3o com maior ou menor dist\u00e2ncia temporal, e em rela\u00e7\u00f5es de causalidade com outros eventos da mesma natureza.\u00bb (p. 195) Esta esfera p\u00fablica \u2013 espa\u00e7o extra-pol\u00edtico, metat\u00f3pico, politicamente independente \u2013 contribuiu decisivamente para transformar, portanto, a nossa no\u00e7\u00e3o de tempo e de sociedade, agora firmemente situados no campo do \u201cprofano\u201d (p. 196).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminaremos na pr\u00f3xima glosa o presente cap\u00edtulo, e veremos ainda o (brev\u00edssimo) cap\u00edtulo 5. Assim ficar\u00e1 conclu\u00edda a primeira parte da obra.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/cegoh-94852\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=217882\">Jason Goh<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=217882\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11614,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-11613","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11613"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11613\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11615,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11613\/revisions\/11615"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}