{"id":11520,"date":"2021-01-29T19:14:32","date_gmt":"2021-01-29T19:14:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11520"},"modified":"2021-01-29T19:14:32","modified_gmt":"2021-01-29T19:14:32","slug":"documentos-vede-como-era-seu-amigo-carta-pastoral-de-d-antonio-moiteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/documentos-vede-como-era-seu-amigo-carta-pastoral-de-d-antonio-moiteiro\/","title":{"rendered":"Documentos | VEDE COMO ERA SEU AMIGO\u2026 Carta Pastoral de D. Ant\u00f3nio Moiteiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>VEDE COMO ERA SEU AMIGO\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Acompanhar as fam\u00edlias no luto<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este tempo \u00e1rduo de pandemia Covid-19, com n\u00fameros crescentes de mortes e em que se luta pelo controlo de infe\u00e7\u00e3o, pode implicar que os membros da fam\u00edlia e a pr\u00f3pria comunidade n\u00e3o tenham a oportunidade de acompanhar os seus familiares\/amigos nas \u00faltimas horas e dias de vida, ou mesmo de se despedirem dos que partem. Este afastamento, que a todos continua a tocar, tem sido muito doloroso, impessoal e traum\u00e1tico na vida das fam\u00edlias. Alteraram-se os rituais com que nos despedimos dos mortos, e isto deixa ainda mais fragilizados os que j\u00e1 est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de debilidade. A necessidade de evitar o contacto f\u00edsico e as intera\u00e7\u00f5es de uns com os outros intensificam os sentimentos de tristeza e de solid\u00e3o. Amigos e familiares que poderiam oferecer apoio, estando tamb\u00e9m isolados, ficam limitados para aquilo que podem proporcionar \u2013 o que se traduz em sofrimento e ang\u00fastia para as fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Face a esta dura realidade, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es com as quais as fam\u00edlias enlutadas t\u00eam de lidar. \u00c9 verdade que a morte passou a fazer parte das redes sociais, nesta sociedade conectada; tornou-se mais simples partilhar a comunica\u00e7\u00e3o e as condol\u00eancias, mas n\u00e3o se criou uma cultura online mais sens\u00edvel diante da morte e do luto. O crist\u00e3o deve agir com amor, sinceridade, equil\u00edbrio e f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perder algu\u00e9m que se ama traz sempre muita dor e sofrimento a qualquer pessoa. Isso n\u00e3o \u00e9 diferente para o crist\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que o crente em Jesus Cristo tem a esperan\u00e7a que esse n\u00e3o \u00e9 o fim de tudo\u2026 A morte do corpo \u00e9 somente o come\u00e7o da vida eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ajudar as fam\u00edlias a viver o luto envolve um olhar amplo sobre a realidade que vivemos, mas tamb\u00e9m se inspira no Evangelho, como possibilidade de delinear a\u00e7\u00f5es que elevem o ser humano e a sua dignidade perante as perdas. O Evangelho revela-nos a atitude de Jesus Cristo diante da doen\u00e7a e da morte: aproxima-se, compadece-se, chora, toca, anima e d\u00e1 vida. Basta recordar os seus gestos e as suas palavras quando se encontra com o filho \u00fanico da vi\u00fava de Naim (<em>Lc<\/em>\u00a07,11-17), com a filha de Jairo (<em>Lc<\/em>\u00a08,49-56) e com o seu amigo L\u00e1zaro (<em>Jo\u00a0<\/em>11,1-44). Jesus livra estas pessoas da morte, mostrando que a sua palavra suscita vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o se limitou a dizer algumas palavras de consola\u00e7\u00e3o; Ele encheu-se de compaix\u00e3o, agiu e at\u00e9 chorou! Perante a morte de L\u00e1zaro, ao ver chorar Maria e os que a acompanhavam, Jesus \u201ccomoveu-se muito e ficou perturbado\u201d (v. 33). J\u00e1 tinha acontecido na ressurrei\u00e7\u00e3o do filho da vi\u00fava de Naim (<em>Lc<\/em>\u00a07,11-15), perante a dor da m\u00e3e vi\u00fava no funeral do seu filho \u00fanico, dizendo-lhe: \u00abN\u00e3o chores!\u00bb. Mas aqui, \u00abJesus chorou\u00bb (v. 35). Mostra a sua humanidade, que n\u00e3o \u00e9 insens\u00edvel \u00e0 dor alheia. No momento da morte de L\u00e1zaro Jesus mostra-nos a sua dor interior, o estado emocional de um homem curvado \u00e0 tristeza e ao sofrimento perante a morte de um amigo. Hoje, diante de muitas pessoas que sofrem as consequ\u00eancias desta pandemia, perguntemo-nos: sou capaz de chorar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em face do sofrimento humano a que assistimos perto de n\u00f3s, ou acompanhamos nas p\u00e1ginas dos jornais e no ecr\u00e3 da televis\u00e3o, somos interpelados pelos mesmos sentimentos, palavras e gestos de Jesus. \u00c9 certo que cada um vivencia o luto de acordo com a sua personalidade, com as suas perce\u00e7\u00f5es, resili\u00eancia, e de acordo com os la\u00e7os que se estabeleciam com a pessoa que partiu, mas a comunidade crist\u00e3, precisamente por ser comunidade, deve estar presente e acompanhar estes momentos e passos decisivos da vida dos seus membros, manifestando comunh\u00e3o e solidariedade. \u00c9 Deus que oferece aos homens a vida e a esperan\u00e7a. No entanto, Ele age no mundo atrav\u00e9s de pessoas que distribuem a vida nova de Deus, com palavras e com gestos. A vi\u00fava de Naim n\u00e3o chorava a morte do filho sozinha; uma grande multid\u00e3o da cidade compartilhava a sua dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Consolar os aflitos<\/em>\u00a0\u00e9 uma obra de miseric\u00f3rdia recomendada pela Sagrada Escritura: \u00ab<em>Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram<\/em>\u00bb (<em>Rm\u00a0<\/em>12,15). Acompanhar as fam\u00edlias enlutadas requer proximidade e gestos concretos. Com frequ\u00eancia, corre-se o risco de se concentrar toda a solidariedade humana no dia do funeral e depois, quando o vazio se torna doloroso, essa solidariedade desaparece. \u201cQuase sem nos darmos conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, j\u00e1 n\u00e3o choramos \u00e0 vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem\u201d (<em>EG<\/em>\u00a054). Os vizinhos ou os que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos afetivamente s\u00e3o desafiados a serem bons samaritanos, a compadecer-se e a cuidar, lutando assim contra a globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a. Como \u00e9 gratificante saber que h\u00e1 tantas pessoas que, conscientes dos riscos que correm, est\u00e3o dispon\u00edveis para servir e cuidar dos outros!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as fam\u00edlias s\u00e3o confrontadas com a not\u00edcia da morte de um filho, marido, esposa, m\u00e3e, pai, um grande e intimo amigo, a dor deve ser iluminada com a esperan\u00e7a que s\u00f3 a f\u00e9 e a ora\u00e7\u00e3o pode dar. Urge refletir e atualizar o modo como acompanhamos as fam\u00edlias enlutadas nas nossas comunidades. \u00c9 necess\u00e1rio estar atento \u00e0quilo que possa ajudar a conviver com a perda de uma pessoa querida: consolar a quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o debilitada, para que possa restabelecer o equil\u00edbrio e elaborar o processo de luto. A assist\u00eancia espiritual do sacerdote, ou de um grupo constitu\u00eddo na par\u00f3quia, pode servir de grande conforto e ajudar a superar a dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gesto de Jesus que ressuscita L\u00e1zaro mostra at\u00e9 onde pode chegar a for\u00e7a da gra\u00e7a de Deus, e at\u00e9 onde pode chegar a nossa convers\u00e3o. A Palavra de Deus garante-nos que n\u00e3o estamos perdidos e abandonados \u00e0 nossa mis\u00e9ria e finitude. Deus caminha ao nosso lado, tirando vida da morte, dando-nos a coragem de \u201csair do sepulcro\u201d e avan\u00e7ar ao encontro da vida plena. Os sofrimentos e os problemas s\u00e3o para ser vividos em comunh\u00e3o com a Cruz de Cristo e, abra\u00e7ados a Ele, podem-se suportar os momentos mais dolorosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da dor e da saudade causadas pela separa\u00e7\u00e3o dos que partiram, para o crist\u00e3o, a dor da morte \u00e9 iluminada pela esperan\u00e7a na ressurrei\u00e7\u00e3o, porque Jesus ressuscitou. \u00ab<em>Eu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida. Aquele que cr\u00ea em mim, ainda que morra, viver\u00e1<\/em>\u00bb (<em>Jo<\/em>, 11,25) \u2013 diz o Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus conhece a dor e o sofrimento que a separa\u00e7\u00e3o nos causa. Pe\u00e7amos-lhe uma f\u00e9 cada vez mais forte, para que, renovando a nossa vida, nos animemos com uma confian\u00e7a firme no seu amor, na sua provid\u00eancia que n\u00e3o nos abandona. Choremos, mas n\u00e3o tenhamos medo! Vivamos este caminho com o olhar sempre fixo em Jesus e na sua morte. Consolemo-nos uns aos outros, conscientes de que o Senhor venceu a morte de uma vez para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pe\u00e7o aos sacerdotes que, na celebra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da Eucaristia, ofere\u00e7am o sacrif\u00edcio de Jesus por aqueles que partiram nesse dia\/semana e estejam pr\u00f3ximos dos seus familiares e amigos. A ora\u00e7\u00e3o torna mais sens\u00edvel o nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e0 dor dos irm\u00e3os e \u00e9 sufr\u00e1gio pelos que partiram para os bra\u00e7os do Pai, rico em miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A todas as fam\u00edlias enlutadas e que choram a morte dos seus entes queridos, o meu afeto, na certeza das minhas ora\u00e7\u00f5es, para que o Senhor da Vida os ressuscite para a vida eterna. Ao filho da vi\u00fava de Naim, \u201cJesus entregou-o \u00e0 sua m\u00e3e\u201d, e assim far\u00e1 o Senhor com todos os nossos familiares e connosco. Junto ao sepulcro de L\u00e1zaro os amigos daquela fam\u00edlia souberam intuir a amizade que unia Jesus \u00e0queles tr\u00eas irm\u00e3os: \u00abvede como era seu amigo\u00bb (V. 36). N\u00e3o fiquemos, pois, \u00e0 margem deste caminho de esperan\u00e7a e de presen\u00e7a junto daqueles que perderam os seus familiares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Invoquemos a intercess\u00e3o da Virgem Maria que, junto da cruz, acompanhou os sofrimentos do seu Filho, O recebeu nos seus bra\u00e7os e viveu em sil\u00eancio a dor da sua morte na esperan\u00e7a da luz de Jesus Ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">____<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aveiro, 29 de janeiro de 2021<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2020\u00a0<\/em>Ant\u00f3nio Manuel Moiteiro Ramos,<em>\u00a0o vosso amigo e pastor<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VEDE COMO ERA<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11521,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47,12],"tags":[],"class_list":["post-11520","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-d-antonio-manuel-moiteiro-ramos","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11520"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11520\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11522,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11520\/revisions\/11522"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11521"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}