{"id":11499,"date":"2021-02-01T07:00:55","date_gmt":"2021-02-01T07:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11499"},"modified":"2021-01-28T13:10:47","modified_gmt":"2021-01-28T13:10:47","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-11-imaginarios-sociais-modernos-a-ordem-moral-moderna\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (11) \u2013 Imagin\u00e1rios sociais modernos. A ordem moral moderna."},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), vers\u00e1mos os dois primeiros cap\u00edtulos da obra: o primeiro relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>); o segundo relativo \u00e0 \u201csociedade disciplinadora\u201d emergente daquela reforma (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>). Nos tr\u00eas demais cap\u00edtulos da primeira parte da obra, suspende-se a abordagem cronol\u00f3gica e atenta-se nalgumas fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias desta primeira era moderna. Depois de vermos o cap\u00edtulo 3 (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">10<\/a>), iniciamos hoje a primeira de tr\u00eas glosas sobre o cap\u00edtulo 4, relativo aos \u201cImagin\u00e1rios Sociais Modernos\u201d (<em>Modern Social Imaginaries<\/em>). O presente texto incide sobre as pp. 158-176.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 37. <em><u>Imagin\u00e1rio social moderno<\/u><\/em>. \u2013 Continuamos a considerar as fei\u00e7\u00f5es da sociedade moderna, agora iniciando um cap\u00edtulo que nesse preciso bloco tem\u00e1tico atenta de modo particular \u2013 o quarto cap\u00edtulo da obra, de t\u00edtulo <em>imagin\u00e1rios sociais modernos <\/em>(<em>Modern Social Imaginaries<\/em>), e que compreende as pp. 159-211. O cap\u00edtulo tem por base uma obra hom\u00f3nima (<em>Modern Social Imaginaries, <\/em>Duke University Press, 2004), onde o tema \u00e9 mais amplamente desenvolvido (obra que contudo inclui tamb\u00e9m elementos que integrar\u00e3o outros dos cap\u00edtulos de <em>A Secular Age<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na exposi\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo n\u00e3o seguirei, contra o que vem sendo regra, a exacta exposi\u00e7\u00e3o de Taylor. Embora o Autor comece por expor de imediato um dos imagin\u00e1rios sociais modernos (a \u201cordem moral moderna\u201d, que trataremos sob os nn.\u00ba 38 a 41), e s\u00f3 depois o sentido que atribui a essa no\u00e7\u00e3o, opto por come\u00e7ar por esta \u00faltima, a no\u00e7\u00e3o geral, para apenas de seguida avan\u00e7ar para a exposi\u00e7\u00e3o sucessiva dos diferentes imagin\u00e1rios em particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9, pois, um imagin\u00e1rio social? O termo \u00e9 usado para designar mais do que uma simples teoria social (p. 171). Dela se distingue tr\u00eas raz\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O imagin\u00e1rio pode conter elementos que n\u00e3o s\u00e3o propriamente teor\u00e9ticos (como, por ex., imagens, hist\u00f3rias, lendas, etc.);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Ao contr\u00e1rio de uma teoria, uma imagin\u00e1rio \u00e9 tipicamente partilhado por grandes massas da popula\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) O imagin\u00e1rio social \u00e9 uma \u00abcompreens\u00e3o partilhada que torna poss\u00edvel certas pr\u00e1ticas, e um amplo sentido partilhado de legitimidade\u00bb (p. 172).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, o imagin\u00e1rio social tem simultaneamente uma dimens\u00e3o de <em>facto <\/em>(representa uma no\u00e7\u00e3o facticamente partilhada) e uma dimens\u00e3o <em>normativa<\/em> (relativa ao modo como a sociedade <em>deve<\/em> estar modelada). Constitui, por conseguinte, o <em>background <\/em>no qual as pr\u00e1ticas humanas t\u00eam lugar: pr\u00e1ticas, a um tempo, compossibilitadas por esse quadro de fundo, mas que, sob um outro ponto de vista, renovam e realizam esse quadro pressuposto. Bem antes, portanto, de uma qualquer pessoa teorizar expressamente sobre a realidade, de h\u00e1 muito que se encontrada firmemente instalada num imagin\u00e1rio partilhado (p. 173), que traz consigo um sentido de ordem moral (p. 175). O processo de transforma\u00e7\u00e3o de uma teoria num imagin\u00e1rio \u00e9 sucintamente explorado \u00e0s pp. 175-176.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00edtulo de defini\u00e7\u00e3o de <em>imagin\u00e1rio social <\/em>pode dar-se a seguinte: \u00abUm imagin\u00e1rio social consiste num conjunto de compreens\u00f5es pressupostas da sociedade amplamente partilhadas, que lhe tornam poss\u00edvel que funcione nos seus termos\u00bb (p 323).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 38<em>. <u>A ordem moral moderna<\/u><\/em>. \u2013 Como exemplo por excel\u00eancia do novo quadro moral emergente da modernidade est\u00e3o as novas teorias do Direito Natural emergentes no s\u00e9c. XVII, na sequ\u00eancia dos grandes conflitos pol\u00edtico-religiosos que marcaram esse mesmo per\u00edodo (tenha-se em vista a <em>Guerra dos 30 anos <\/em>ou a <em>Glorious Revolution<\/em> \u2013 cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">29<\/a>). Taylor acompanha particularmente a obra de dois autores: Gr\u00f3cio [de enorme import\u00e2ncia para o pensamento jur\u00eddico, particularmente para o chamado Direito Internacional P\u00fablico, isto \u00e9, o Direito relativo <em>especialmente <\/em>\u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre Estados a n\u00edvel internacional] e Locke [de enorme import\u00e2ncia para o pensamento filos\u00f3fico-pol\u00edtico, com impacto jur\u00eddico particularmente no dom\u00ednio do Direito Constitucional]. Mas num quadro ainda mais amplo, conforme se nota a certo momento do cap\u00edtulo subsequente (pp. 215-217), esta nova ideia de ordem participa da finalidade de <em>domesticar <\/em>uma nobreza guerreira que, apesar de deveres de lealdade para com os titulares do poder, eram um efectivo factor de perturba\u00e7\u00e3o da paz p\u00fablica \u2013 substituindo o ideal da aristocracia guerreira por um ideal \u201ccortes\u00e3o\u201d assente em tornar-se bem formado, educado, polido, bem conversador, persuasivo, com capacidades de governo: \u00aba vida \u00e9 uma conversa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua\u00bb (p. 215).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>ordem moral moderna<\/em> constituir\u00e1 o primeiro dos imagin\u00e1rios da modernidade, e \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental, uma vez que influencia os demais que ser\u00e3o objecto de exposi\u00e7\u00e3o: Economia, Esfera P\u00fablica, Povo Soberano, Sociedade de Acesso Directo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas regressemos a Gr\u00f3cio. Taylor sintetiza o respectivo entendimento nos seguintes termos: \u00abA imagem da sociedade \u00e9 a de alguns indiv\u00edduos que se juntam para formar uma entidade pol\u00edtica, \u00e0 face de um certo <em>background <\/em>moral pr\u00e9-existente, e em vista de certos fins. O <em>background <\/em>moral \u00e9 o dos direitos naturais; estas pessoas j\u00e1 t\u00eam certas obriga\u00e7\u00f5es morais umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras. Os fins procurados s\u00e3o certos benef\u00edcios comuns, dos quais a seguran\u00e7a \u00e9 o mais importante.\u00bb (p. 159)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublinham-se, pois, os seguintes aspectos: a exist\u00eancia de la\u00e7os anteriores ao v\u00ednculo pol\u00edtico; as obriga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em continuidade com tais v\u00ednculos naturais; a legitima\u00e7\u00e3o da autoridade pol\u00edtica atrav\u00e9s do consenso dos indiv\u00edduos (contrato original); a cria\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es vinculantes por for\u00e7a do princ\u00edpio de que as promessas devem ser cumpridas [<em>pacta sunt servanda<\/em>] (p. 158). A preocupa\u00e7\u00e3o central de Gr\u00f3cio \u00e9 de obter um quadro legitimador da ordem estabelecida, que n\u00e3o seja de \u00edndole confessional (de novo: a sombra da Guerra dos 30 anos!), servindo de ponto de refer\u00eancia est\u00e1vel \u00e0 conviv\u00eancia entre diferentes poderes (ver, de novo, o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">29<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Locke, por\u00e9m, os direitos naturais passam a ser invoc\u00e1veis como forma de limita\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico: \u00abConsenso n\u00e3o \u00e9 apenas um acordo inicial para criar o governo, mas um direito cont\u00ednuo de aceita\u00e7\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o.\u00bb A partir deste momento, ainda que sem refer\u00eancia expressa \u00e0 ideia de contrato social, \u00aba ideia subjacente de uma sociedade como existindo para o benef\u00edcio (rec\u00edproco) dos indiv\u00edduos, e para defesa dos seus direitos, torna-se cada vez mais importante\u00bb. Vemo-lo na exig\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o; na no\u00e7\u00e3o de soberania; nos sucessivos cat\u00e1logos de direitos; na ideia de igualdade subjacente ao \u201cestado de natureza\u201d, e invocada sempre em mais contextos (p. 160). Isto \u00e9, mesmo sem refer\u00eancia expressa \u00e0s suas <em>origens<\/em>, os <em>frutos <\/em>desta perspectiva disseminam-se e s\u00e3o aproveitados por diferentes orienta\u00e7\u00f5es, a ponto de virem a constituir, n\u00e3o j\u00e1 uma teoria, mas o imagin\u00e1rio partilhado a respeito da ordem moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor prop\u00f5e a distin\u00e7\u00e3o entre ordens morais <em>\u00faltimas <\/em>(<em>ultimate<\/em>), isto \u00e9, quando muito realizadas de modo meramente incoactivo, e ordens morais <em>para o aqui-e-agora<\/em> (<em>for the here-and-now<\/em>), sendo que estas \u00faltimas poder\u00e3o ser <em>hermen\u00eauticas<\/em> ou <em>prescritivas<\/em> (p. 162). Nesta grelha de leitura, a moderna ordem moral \u00e9 <em>para o aqui-e-agora, <\/em>e, no seu decurso, adquiriu um pendor cada vez mais <em>prescritivo<\/em>. O que inicialmente fora uma forma <em>hermen\u00eautica <\/em>de legitima\u00e7\u00e3o do poder <em>aqui-e-agora <\/em>institu\u00eddo, passa a ser crescentemente entendido como um quadro <em>prescritivo <\/em>que deve valer para qualquer poder que <em>aqui-e-agora <\/em>possa ou queira existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sucessivamente, esta constru\u00e7\u00e3o cresce em tr\u00eas diferentes dimens\u00f5es: em extens\u00e3o, englobando cada vez mais povos; em intensidade, englobando cada vez mais mat\u00e9rias; e \u2013 diria \u2013 na sua <em>\u00edndole, <\/em>passando de uma l\u00f3gica <em>hermen\u00eautica <\/em>para uma outra <em>prescritiva <\/em>(pp. 160-162). Poucas s\u00e3o as realidades sociais que se conservam \u00e0 margem do crivo desta \u00abordem moral moderna\u00bb: como dom\u00ednio, contudo, no qual ainda se experimenta um outro modo de ser est\u00e1, segundo Taylor, a fam\u00edlia (p. 167). Mas tamb\u00e9m aqui \u00e9 evidente, sobretudo ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, o constante combate \u00e0 fam\u00edlia enquanto realidade <em>para al\u00e9m dos seus membros, <\/em>para se tornar apenas o <em>nomen <\/em>que designa a soma dos seus membros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, a <em>ordem moral moderna <\/em>expandiu-se de modo capilar para dom\u00ednios certamente bem mais amplos do que ao princ\u00edpio vistos e antevistos (p. 167). A (quase) plena realiza\u00e7\u00e3o deste quadro, a sua <em>massifica\u00e7\u00e3o<\/em>, parece estar a dar-se apenas no <em>nosso tempo hist\u00f3rico<\/em> \u2013 porventura apenas no s\u00e9c. XX; porventura mesmo apenas na <em>segunda metade <\/em>do s\u00e9c. XX (p. 168).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 39<em><u>. A ordem moral moderna<\/u><\/em><u> (cont.). <em>Um novo quadro de sentido<\/em><\/u><em>. \u2013 <\/em>Por ordem moral moderna assente na (reconfigura\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de) Direito Natural n\u00e3o se entende em primeira linha, todavia, um elenco prescritivo de direitos e deveres \u2013 um quadro <em>regulamentar<\/em> \u2013, mas, antes, um <em>contexto de fundo <\/em>dentro do qual as diferentes op\u00e7\u00f5es t\u00eam lugar (pp. 162-163). Este novo <em>quadro de sentido <\/em>conduz ao afastamento de dois elementos presentes nas compreens\u00f5es pr\u00e9-modernas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Coloca em causa, primeiro, a ideia de um \u201cDireito pr\u00f3prio do povo\u201d. Daquilo, penso, a que poderemos designar o imagin\u00e1rio do \u201cDireito Consuetudin\u00e1rio\u201d, dos \u201cusos e costumes\u201d, etc.;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[O s\u00e9c. XIX trar\u00e1 novidades a este respeito.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Coloca em causa, tamb\u00e9m, a no\u00e7\u00e3o de uma hierarquia social com um lugar pr\u00f3prio no <em>cosmos, <\/em>de uma <em>ordem humana <\/em>inserta na ordem natural, ou com equivalentes na ordem natural (p. 163) \u2013 isto \u00e9, uma no\u00e7\u00e3o de moral em que esta \u00faltima n\u00e3o est\u00e1 desligada de uma <em>efectiva ontologia<\/em>, em que parece <em>tomar parte <\/em>da ontologia (p. 164).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quadro mundividencial pr\u00e9-moderno, precisamente porque as diferentes ordens sociais, tidas como relacionadas com o <em>cosmos <\/em>envolvente, n\u00e3o est\u00e3o colocadas ao mesmo n\u00edvel, e posto que s\u00e3o vistas como <em>expressando <\/em>a devida no\u00e7\u00e3o de ordem, a quest\u00e3o da <em>igualdade <\/em>n\u00e3o tem grande relev\u00e2ncia. Contrariar a ordem institu\u00edda seria <em>desnaturar <\/em>a realidade (p. 164). A sociedade \u00e9 vista como um <em>organismo <\/em>(p. 165).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, semelhante quadro contrasta de modo total com o da <em>ordem moral moderna<\/em>: precisamente porque a \u00fanica <em>realidade <\/em>\u00e9 o indiv\u00edduo, ent\u00e3o qualquer distribui\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es na sociedade \u00e9 vista como hist\u00f3rica e contingente, s\u00f3 justific\u00e1vel de modo instrumental (maior ou menor aptid\u00e3o para satisfazer certos fins), mas j\u00e1 n\u00e3o substancial \u2013 e por isso pode sempre ser ajustada, modificada (p. 165).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para usar um termo nos \u00faltimos tempos em voga, o indiv\u00edduo \u2013 indiv\u00edduo enquanto um de entre diferentes indiv\u00edduos em rela\u00e7\u00e3o de respeito rec\u00edproco \u2013, tido como eixo de refer\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o social, \u00e9 um elemento <em>disruptivo<\/em> dos \u201ccorpos interm\u00e9dios\u201d que possa haver. \u00abDe uma forma ou de outra, a ordem moderna n\u00e3o d\u00e1 <em>status <\/em>ontol\u00f3gico \u00e0 hierarquia, ou a qualquer estrutura particular de diferencia\u00e7\u00e3o.\u00bb (p. 165). Um bom contraste \u2013 que \u00e9 sumariamente mencionado por Taylor \u2013 \u00e9-nos dado pelo confronto com a cidade idealizada por Plat\u00e3o n\u2019 <em>A Rep\u00fablica. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, enquanto no quadro hier\u00e1rquico anterior a maior virtude \u00e9 servir a ordem global, no ideal moderno o grande fim \u00e9 a protec\u00e7\u00e3o dos bens do quotidiano: vida, liberdade, pr\u00f3prio sustento e sustento da fam\u00edlia, sendo a organiza\u00e7\u00e3o social avaliada em fun\u00e7\u00e3o da sua aptid\u00e3o, ou n\u00e3o, para satisfazer estes bens (pp. 165-166).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 40<em><u>. A ordem moral moderna<\/u><\/em><u> (cont.). <em>Novos fins sociais<\/em><\/u><em>. \u2013 <\/em>Redefinem-se, nestes termos, os pr\u00f3prios fins da sociedade. Desfeita a anterior no\u00e7\u00e3o de ordem, elevando-se os fins da vida comum a principais realiza\u00e7\u00f5es a serem procuradas pelo homem, e sendo o modelo de organiza\u00e7\u00e3o social organizado em torno da sua aptid\u00e3o para servir ou n\u00e3o estes prop\u00f3sitos, ent\u00e3o os dois fins fundamentais da sociedade passam a ser a <em>seguran\u00e7a dos cidad\u00e3os <\/em>e o respectivo <em>bem estar <\/em>ou <em>prosperidade <\/em>(p. 166). Confiando-se nos pr\u00f3prios poderes de moldagem da sociedade (ver, por ex., o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">28<\/a>), a realiza\u00e7\u00e3o destes fins \u00e9 vista como um prop\u00f3sito, ating\u00edvel na vida colectiva, que deve guiar a ac\u00e7\u00e3o social (p. 166). Tal leitura \u00e9 interpretada como sendo a conforme aos prop\u00f3sitos de Deus para a humanidade, aos quais se poderia chegar pelo exerc\u00edcio da raz\u00e3o. Isto \u00e9, a refer\u00eancia a Deus j\u00e1 caminha no sentido de ser meramente teor\u00e9tica, como <em>mera explica\u00e7\u00e3o <\/em>de faculdades de que o homem <em>por si disp\u00f5e<\/em>; ao n\u00edvel da experi\u00eancia pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 significativa. L\u00ea-se numa passagem de Locke do <em>Primeiro Tratado do Governo Civil <\/em>(cap. IX, \u00a7 86), citada por Taylor (aqui na vers\u00e3o portuguesa de Miguel Morgado, em <em>Dois Tratados do Governo Civil, <\/em>Edi\u00e7\u00f5es 70, 2006): \u00abDigo ent\u00e3o que Deus, tendo criado o homem e o mundo desta maneira, falou-lhe, isto \u00e9, orientou-o por interm\u00e9dio dos seus sentidos e da sua raz\u00e3o (\u2026)\u00bb. O homem j\u00e1 teria em si tudo aquilo de que careceria para devidamente se orientar: a raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A actividade econ\u00f3mica, por seu turno, \u00abtorna-se o modelo do comportamento humano, e a chave para uma coexist\u00eancia harmoniosa\u00bb (p. 167).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Note-se, por fim, que a emerg\u00eancia do indiv\u00edduo n\u00e3o se trata da destrui\u00e7\u00e3o da socialidade enquanto tal. Trata-se sim de uma <em>redefini\u00e7\u00e3o <\/em>da socialidade em termos tais que a pessoa se pensa, e se contrasta com os restantes membros da comunidade, enquanto indiv\u00edduo (p. 169; n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/\">36<\/a>, <em>in fine<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 41<em><u>. A ordem moral moderna<\/u><\/em><u> (cont.). <em>Uma s\u00edntese e a sequ\u00eancia<\/em><\/u><em>. <\/em>\u2013 A abordagem de Taylor culmina com uma s\u00edntese das caracter\u00edsticas desta nova ordem moral. Elenca quatro (pp. 170-171):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Este \u201cimagin\u00e1rio\u201d surge, inicialmente, no quadro de uma teoria de direitos e de uma tentativa de legitima\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico que arranca a partir do indiv\u00edduo, e que pensa a sociedade como um <em>instrumento <\/em>ao seu servi\u00e7o \u2013 assim recusando um modelo hier\u00e1rquico de organiza\u00e7\u00e3o social, em que o indiv\u00edduo \u00e9 visto como mera parte do todo. Este n\u00facleo (ideia de igualdade entre indiv\u00edduos; sociedade colocada ao seu servi\u00e7o) pode depois ser reinterpretado de diferentes formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A sociedade \u00e9 meramente instrumental, procurando prestar essencialmente dois servi\u00e7os: seguran\u00e7a e prosperidade. A valora\u00e7\u00e3o da ordem social \u00e9 feita em fun\u00e7\u00e3o da capacidade da organiza\u00e7\u00e3o social para servir ou n\u00e3o a realiza\u00e7\u00e3o destes prop\u00f3sitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) A teoria arranca dos indiv\u00edduos, que a sociedade deve servir, por se entender que os indiv\u00edduos t\u00eam <em>direitos individuais<\/em>. Um dos direitos centrais \u00e9 a <em>liberdade<\/em>. Da\u00ed a exig\u00eancia do consenso para a constitui\u00e7\u00e3o da sociedade. De resto, \u00e9 precisamente por for\u00e7a do ideal de <em>liberdade <\/em>que os dinamizadores desta perspectiva se entendem, justamente, livres para reconstituirem a sociedade nos termos que sup\u00f5em mais adequados. Trata-se, pois, de uma \u00ab\u00e9tica de liberdade e de benef\u00edcio m\u00fatuo\u00bb (p. 171).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Estes direitos devem ser conferidos igualmente a todos os participantes da sociedade (p. 171).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente uma teoria de ordem moral, \u00abinfiltrou-se gradualmente e transformou o nosso imagin\u00e1rio social\u00bb (p. 175). Da\u00ed a op\u00e7\u00e3o do Autor, ali\u00e1s, de ter iniciado o cap\u00edtulo pela exposi\u00e7\u00e3o da ordem moral moderna e n\u00e3o pela de imagin\u00e1rio social. Passaremos de seguida a ver outros imagin\u00e1rios sociais modernos: a <em>Economia; <\/em>a <em>Esfera P\u00fablica; <\/em>a <em>Soberania<\/em>; a <em>Sociedade de Acesso Directo.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/sgrunden-7007605\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4731930\">sgrunden<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4731930\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11502,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-11499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11499"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11503,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11499\/revisions\/11503"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11502"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}