{"id":11420,"date":"2021-01-25T07:00:47","date_gmt":"2021-01-25T07:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11420"},"modified":"2021-01-13T15:16:50","modified_gmt":"2021-01-13T15:16:50","slug":"tiago-azevedo-ramalho-e-o-que-e-um-bom-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-azevedo-ramalho-e-o-que-e-um-bom-ano\/","title":{"rendered":"Tiago Azevedo Ramalho | E o que \u00e9 um bom ano?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Direto ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/h4>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\"><em><u>Quando o bom \u00e9 mau e o mau \u00e9 bom.<\/u><\/em> \u2013 Dobrado o ano civil de 2020 \u2013 ano absorvido, desde pouco ap\u00f3s o seu in\u00edcio, por uma pandemia, primeiro, e pela op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica humana, depois, de se adoptar intensas medidas de restri\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade com vista a reduzir a probabilidade do cont\u00e1gio pand\u00e9mico \u2013, surgem bem naturalmente os desejos de um melhor ano de 2021. Diz-se em alta voz: \u00abUm bom ano!\u201d. Mas escuta-se nas entrelinhas: \u201cUm ano livre da pandemia!&#8230;\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bem compreens\u00edvel este desejo de supera\u00e7\u00e3o da pandemia. \u00c0 semelhan\u00e7a de muitas outras doen\u00e7as, que ali\u00e1s perdurar\u00e3o por bem mais tempo, a Covid-19 fragiliza a vida humana e \u00e9 potencialmente letal. Por outro lado, as medidas de combate foram de tanta intensidade que restringiram do modo muito acentuado a possibilidade de interac\u00e7\u00e3o social. Da conjuga\u00e7\u00e3o destes dois factores resultou que a Covid-19 fosse experimentada como <em>um <\/em>mal, esperando-se com justi\u00e7a a respectiva supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ainda sendo <em>um<\/em> mal<em>, <\/em>a Covid-19 n\u00e3o deve ser absolutizada, tida como <em>o <\/em>Mal absoluto. Porque n\u00e3o o \u00e9. E o inverso tamb\u00e9m pode ser dito. Debelar-se a Covid-19 \u00e9 <em>um <\/em>bem, n\u00e3o <em>o <\/em>Bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande Mal ser\u00e1 antes talvez a solid\u00e3o, o isolamento, o vazio de quem se perde em si, olhar um qualquer outro como um inimigo. Esse Mal ingente que conduzir\u00e1 alguns dos que superaram a Covid-19 a solicitarem, acaso mude o regime legal, que de modo intencional, provocado e normativamente legitimado seja provocada a sua pr\u00f3pria morte. E o Bem, pelo contr\u00e1rio, andar\u00e1 pelo que nos constitui pessoas, pela preval\u00eancia alteridade sobre a identidade, pela comunh\u00e3o que sara e cura rela\u00e7\u00f5es rasgadas pelo conflito, connosco e com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Covid-19 constitui um mal f\u00edsico, vital (como o negar?) \u2013 mas, repita-se, n\u00e3o \u00e9 o Mal absoluto. Com efeito, mesmo sob a sua sombra, continua a ser poss\u00edvel, nalguns casos at\u00e9 mais poss\u00edvel, viver o que realmente h\u00e1 de bom \u2013 desde que, precisamente, a pessoa, apesar de todos os males singulares que a aflijam, experimente a for\u00e7a beat\u00edfica (literalmente: causadora de alegria) de uma teia de rela\u00e7\u00f5es pessoais. E a vacina que nestes dias come\u00e7a a ser dispensada, se constitui seguramente um bem (como o negar?), tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um Bem absoluto. Quanto vale a sa\u00fade quando se est\u00e1 vivo como indiv\u00edduo e morto como pessoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estranho jogo de m\u00e1scaras, este: o que parece um mal, pode em nada afectar a experi\u00eancia do Bem; e o que parece um bem, pode n\u00e3o trazer o Bem de que se precisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><em><u>Para tr\u00e1s: um rico e variado ano de 2020.<\/u> \u2013 <\/em>Para tr\u00e1s ficou o ano de 2020, que n\u00e3o foi apenas o ano da pandemia. A terra rodou uma vez mais \u00e0 volta do Sol, que nos aqueceu e iluminou. O mar, durante quase sempre, ou se calhar mesmo sempre, esteve belo. Nasceram e cresceram crian\u00e7as, renovaram-se fam\u00edlias. E muito mais.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata com isto de procurar ver um bem em tudo, mesmo naquilo que deve ser denunciado sem concess\u00f5es como um mal: mas de reconhecer que o mundo continua a ser muit\u00edssimo complexo, e que h\u00e1 sempre mais, imensamente mais, do que apenas um elemento nele presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano de 2020 n\u00e3o se reduziu \u00e0 pandemia, pois. Mas a tanto se reduziu grande parte da vida p\u00fablica e da aten\u00e7\u00e3o humana. De entre muitos exemplos, \u00e9-me dolorosamente presente uma edi\u00e7\u00e3o de um jornal di\u00e1rio, de algumas dezenas de p\u00e1ginas, que a certo momento do ano passado incidiu <em>integralmente <\/em>sobre quest\u00f5es relativas \u00e0 Covid-19. Deu-se como que um radical estreitamento de vistas que conduziu a que, de todo o espectro de elementos presentes na realidade, apenas um fosse colocado em destaque, colonizando as demais esferas da vida. Ali\u00e1s, durante certo per\u00edodo, o estreitamento n\u00e3o foi apenas das vistas, mas tamb\u00e9m dos corpos: para todos, no per\u00edodo de 19 de Mar\u00e7o e 2 de Maio de 2020 (e agora novamente\u2026); para muitos, em termos pr\u00e1ticos, mesmo para al\u00e9m dessa data (idosos em lares). E isto embora seja sempre poss\u00edvel haver estreitamento dos corpos desacompanhado do de vistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se toda a vida foi interpretada como reduzida \u00e0 pandemia n\u00e3o foi pela Covid-19. Foi mesmo pelo estreitamento de vistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><em><u>Leitura dos sinais dos tempos: o aniquilamento da vida privada<\/u>. \u2013 <\/em>Estado de coisas este que \u00e9 um sinal do nosso tempo. Se cada um leu o seu ano de 2020 em fun\u00e7\u00e3o da pandemia Covid-19, foi tamb\u00e9m porque em boa medida aceitou inscrever de modo total a sua vida particular no discurso p\u00fablico. Ou seja, j\u00e1 n\u00e3o interpreta como valiosos, dignos de uma particular considera\u00e7\u00e3o, os acontecimentos do <em>seu <\/em>quotidiano. Deste modo, uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o deixou de entrever uma possibilidade de um <em>sentido particular <\/em>da sua pr\u00f3pria vida \u00e0 parte dos sentidos veiculados pela mediatiza\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Assistimos ao efeito de uma sociedade mediatizada, cibern\u00e9tica, em interac\u00e7\u00e3o constante, em que se pressente que o verdadeiro real \u00e9 o <em>mediatizado, <\/em>e n\u00e3o o <em>pr\u00f3ximo imediato<\/em>. Efeito que, n\u00e3o contrariado e dificilmente contrari\u00e1vel, atenta a for\u00e7a com que se imp\u00f5e, continuar\u00e1 a marcar o quadro social bem para al\u00e9m do momento em que a pandemia se extinga.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 bom que no novo ano se ven\u00e7a a pandemia. Mas, por quanto se disse, o ano s\u00f3 ser\u00e1 bom, penso, caso se redescubra que o valor da pr\u00f3pria vida, e que o mundo de que ela participa, \u00e9 mais, imensamente mais, do que qualquer um dos factores isolados que nele estejam presentes. Na verdade, se a sombra da pandemia (desta pandemia ou de uma qualquer outra que surja amanh\u00e3 ou depois de amanh\u00e3) se continuar a dobrar sobre n\u00f3s, ent\u00e3o \u00e9 a\u00ed que se ter\u00e1 de viver e \u00e9 a\u00ed que se h\u00e1-de procurar instaurar rela\u00e7\u00f5es humanas vivas, fecundas, ricas \u2013 recusando-se a suspens\u00e3o da pr\u00f3pria vida na expectativa de um futuro saud\u00e1vel. Pois a vida, ao contr\u00e1rio do uso do intelecto, nunca se suspende: desperdi\u00e7a-se ou aproveita-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tanto, teremos talvez de nalguns momentos desligar o televisor, o telem\u00f3vel, o computador, de recusar a esfera p\u00fablica, e de afirmar com coragem a prioridade da vida pessoal, de <em>todas <\/em>as vidas pessoais \u2013 e <em>sim<\/em>, de enfrentar o medo de, tudo desligado, depararmos apenas com o vazio (mas tamb\u00e9m \u00e9 apenas o vazio que pode ser preenchido). Pois qual o significado da vida humana, afinal, se a biografia particular que nela se inscreve \u2013 com quanto tem de \u00fanico e de irredut\u00edvel, com quanto permite que a <em>gente<\/em> seja <em>feliz<\/em>, ainda que <em>com l\u00e1grimas<\/em> \u2013 \u00e9 de nula relev\u00e2ncia? Dela cuidar n\u00e3o \u00e9 irresponsabilidade, nem extravag\u00e2ncia, nem ego\u00edsmo, mas sinal de recobro do sentido das propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5678207\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5678207\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11421,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,144],"tags":[],"class_list":["post-11420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direto-ao-contraditorio","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11420"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11420\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11422,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11420\/revisions\/11422"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11421"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}