{"id":11417,"date":"2021-01-18T07:00:58","date_gmt":"2021-01-18T07:00:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11417"},"modified":"2021-01-13T15:11:53","modified_gmt":"2021-01-13T15:11:53","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-10-a-grande-desagregacao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (10) \u2013 A grande desagrega\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o respectivo objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), come\u00e7\u00e1mos por versar os seus dois primeiros cap\u00edtulos: o primeiro relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>); o segundo relativo \u00e0 \u201csociedade disciplinadora\u201d emergente daquela reforma (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">9<\/a>). A partir de agora, momento em que entramos nos tr\u00eas demais cap\u00edtulos da primeira parte, suspende-se a abordagem cronol\u00f3gica e atenta-se nalgumas fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias desta primeira era moderna. Hoje veremos o cap\u00edtulo 3 (\u201cA Grande Desagrega\u00e7\u00e3o\u201d\/ <em>The Great Disembedding<\/em>), correspondente \u00e0s pp. 146-158.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 33. <em><u>A grande desagrega\u00e7\u00e3o \u2013 e o surgimento do indiv\u00edduo<\/u><\/em>. \u2013 Ao longo dos dois cap\u00edtulos anteriores, acompanh\u00e1mos o in\u00edcio do processo de transforma\u00e7\u00e3o do quadro da cristandade latina, que, conjugado com outros factores, conduziria a seu termo \u00e0 emerg\u00eancia de uma Idade Secular. Ainda n\u00e3o estamos neste \u00faltimo est\u00e1dio, mas j\u00e1 se preparou uma parte significativa do caminho para que tal pudesse ocorrer (embora, como sempre ocorre nos dom\u00ednios que respeitam \u00e0 liberdade humana, pudesse tamb\u00e9m n\u00e3o ter ocorrido). Nos tr\u00eas cap\u00edtulos subsequentes, os restantes da parte I (cap\u00edtulos 3 a 5), suspende-se por momentos a narra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e abordam-se algumas das caracter\u00edsticas sociais resultantes da evolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora descrita (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5<\/a> a <a href=\"diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">32<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nova ordem que agora se encontrava em curso de realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 caracterizada nos seguintes termos: \u00abA sociedade recentemente remodelada deveria de forma inequ\u00edvoca envolver as exig\u00eancias do evangelho numa ordem est\u00e1vel e, tal como era crescentemente compreendida, racional. N\u00e3o tinha lugar para as ambivalentes complementaridades do antigo mundo encantado: entre a vida mundana e a ren\u00fancia mon\u00e1stica, entre a ordem adequada e a sua suspens\u00e3o no Carnaval, entre o poder reconhecido de esp\u00edritos e de for\u00e7as e o seu combate pelo poder divino. A nova ordem era coerente, intransigente, de uma s\u00f3 pe\u00e7a. O desencantamento trouxe uma nova uniformidade de fim e de princ\u00edpio.\u00bb (p. 146) Contrasta de modo decisivo, portanto, com o quadro de compreens\u00e3o pr\u00e9-moderno (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5 e 6<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, o equil\u00edbrio entre a dimens\u00e3o <em>colectiva <\/em>ou <em>eclesial <\/em>da viv\u00eancia religiosa e a devo\u00e7\u00e3o <em>individual<\/em> (ou obedi\u00eancia; ou aquiesc\u00eancia aos ditames da raz\u00e3o) \u00e9 eliminado a favor desta \u00faltima: \u00abDesencantamento, Reforma, e religi\u00e3o pessoal surgiram em conjunto\u00bb (p. 146). Este fen\u00f3meno \u00e9 designado por Taylor por <em>The Great Disembedding, <\/em>que dar\u00e1 o t\u00edtulo ao cap\u00edtulo 3 (pp. 146-158)<em>, <\/em>e cuja tradu\u00e7\u00e3o proposta \u00e9, aqui, <em>A Grande Desagrega\u00e7\u00e3o. <\/em>Trata-se, portanto, de a pessoa se desagregar do colectivo, e, deste modo, se constituir como <em>indiv\u00edduo<\/em>, sendo a sociedade, no seu conjunto, perspectivada como uma soma de seres individuais. \u00c9 um cap\u00edtulo que re\u00fane muitos dos apontamentos acerca do significado social e antropol\u00f3gico das mudan\u00e7as realizadas que foram sendo feitos nos cap\u00edtulos anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 34. <em><u>Uma viragem milenar<\/u>. \u2013 <\/em>Taylor considera estarmos na presen\u00e7a de uma mudan\u00e7a milenar. Para destacar a novidade deste modo de compreens\u00e3o do indiv\u00edduo, contrasta-o com formas de religi\u00e3o antiga (<em>early religion<\/em>) (pp. 147-152). N\u00e3o se trata de caracter\u00edsticas que estejam necessariamente ausentes em formas de religi\u00e3o posteriores, mas que naquele primeiro quadro se afirmavam com particular intensidade (cf. os excertos transcritos no n.\u00ba 35). As \u201creligi\u00f5es antigas\u201d contrap\u00f5em-se \u00e0s \u201creligi\u00f5es superiores\u201d (<em>higher religions<\/em>), ou, a partir de uma outra categoriza\u00e7\u00e3o, \u00e0s religi\u00f5es \u201cp\u00f3s-axiais\u201d, termo que remete para aquilo a que Karl Jaspers designava \u201cIdade Axial\u201d, isto \u00e9, o per\u00edodo da hist\u00f3ria antiga (s\u00e9c. VIII a III a.C.) no qual, em espa\u00e7os de cultura fundamentalmente diferentes, tiveram lugar processos de grande renova\u00e7\u00e3o intelectual ou espiritual: no Oriente, particularmente com Conf\u00facio e Gautama (<em>Buda<\/em>); no m\u00e9dio Oriente com o profetismo judaico; na <em>H\u00e9lade <\/em>com S\u00f3crates.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o os seguintes os pontos de compara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) No que respeita \u00e0 dimens\u00e3o social: nas religi\u00f5es antigas, a dimens\u00e3o religiosa est\u00e1 profundamente inserida na vida social. A tal ponto que cada sociedade em particular tem a sua forma pr\u00f3pria de experi\u00eancia religiosa, o que contrasta com as formas de experi\u00eancia religiosa posteriores, nas quais uma mesma linguagem religiosa pode ser usada em latitudes diversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) No que respeita \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o <em>cosmos: <\/em>nas religi\u00f5es antigas, a rela\u00e7\u00e3o com Deus \u2013 ou com a \u201cdivindade\u201d \u2013 \u00e9 essencialmente comunit\u00e1ria. O agente do acto de culto \u00e9 o colectivo, ainda que deputando o exerc\u00edcio dessa fun\u00e7\u00e3o em algu\u00e9m em particular. Por esta mesma raz\u00e3o, a ordem social que compossibilita a execu\u00e7\u00e3o dos ritos religiosos tende a ser interpretada como <em>sacrossanta<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria \u00e9 vista, portanto, como uma condi\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia da pr\u00f3pria ritualiza\u00e7\u00e3o religiosa. Uma vez que as ac\u00e7\u00f5es mais importantes da comunidade tinham lugar <em>em grupo, <\/em>os seus membros \u00abn\u00e3o se podiam pensar a si pr\u00f3prios como potencialmente desconectados desta matriz social.\u00bb (p. 149) A <em>identidade da pessoa <\/em>era assim constru\u00edda pela <em>imers\u00e3o no todo social, pela agrega\u00e7\u00e3o ao colectivo <\/em>(<em>social embeddedness<\/em>): \u00abDo ponto de vista do sentido individual do <em>Eu <\/em>(<em>self<\/em>), tal significa a incapacidade de se imaginar fora de uma certa matriz.\u00bb (pp. 149-150). Mas uma vez que a sociedade se encontra em liga\u00e7\u00e3o com um mundo envolvente em rela\u00e7\u00e3o ao qual \u00e9 vulner\u00e1vel (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">5 e 6<\/a>), a <em>agrega\u00e7\u00e3o <\/em>ao <em>colectivo <\/em>significa, tamb\u00e9m, a <em>agrega\u00e7\u00e3o <\/em>ou a <em>imers\u00e3o <\/em>ao cosmos no qual a pr\u00f3pria sociedade se encontra. O ponto \u00e9 particularmente vis\u00edvel na sacralidade de certos lugares f\u00edsicos ou no fen\u00f3meno do <em>totemismo <\/em>(p. 150).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) No que respeita \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>bem<\/em> [<em>human good<\/em>]: nas religi\u00f5es antigas, a rela\u00e7\u00e3o com a divindade \u00e9 no sentido de propiciar a abund\u00e2ncia de bens materiais (prosperidade, vida, fertilidade,\u2026) e de reduzir os males naturais (doen\u00e7a, morte,\u2026). Isto \u00e9, ao contr\u00e1rio do que ocorre nas religi\u00f5es superiores (<em>higher religions<\/em>) \u2013 pelo menos nas respectivas ortodoxias \u2013, a finalidade da actividade religiosa \u00e9 essencialmente \u201cimanentista\u201d, sem se reconhecer um fim \u00e0 ac\u00e7\u00e3o humana que esteja <em>al\u00e9m <\/em>do pr\u00f3prio mundo (cf. o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">2<\/a>). Ponto, ali\u00e1s, que torna este quadro religioso <em>atractivo <\/em>para alguns autores modernos, precisamente por esse seu \u201cimanentismo\u201d (embora no quadro do humanismo exclusivo se negue totalmente a rela\u00e7\u00e3o com um poder superior).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja-se agora a distin\u00e7\u00e3o para o Cristianismo: \u00abO paradoxo do Cristianismo, em contraste com a religi\u00e3o antiga, \u00e9 que, por um lado, parece afirmar a benevol\u00eancia incondicional de Deus em rela\u00e7\u00e3o aos humanos; n\u00e3o h\u00e1 nenhuma da ambival\u00eancia da Divindade a este respeito; e contudo redefine os nossos fins at\u00e9 ao ponto de irem al\u00e9m da realiza\u00e7\u00e3o humana\u00bb (p. 151) \u2013 de que \u00e9 exemplo a morte do jovem Jesus na Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos tr\u00eas aspectos, este \u00e9 considerado por Taylor o mais significativo: a identifica\u00e7\u00e3o da divindade como irrestritamente <em>Boa, <\/em>assim como a reformula\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de fins para a ac\u00e7\u00e3o humana, incorporando a dimens\u00e3o do al\u00e9m ou do transcendente \u2013 por ex., a <em>Salva\u00e7\u00e3o <\/em>(p. 152). Tendo tamb\u00e9m por consequ\u00eancia a <em>avers\u00e3o ao mal, <\/em>agora visto somente como uma <em>imperfei\u00e7\u00e3o<\/em>: \u00abeste j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 simplesmente parte da ordem das coisas para poder ser aceite enquanto tal (\u2026); em qualquer caso o mal n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa que seja para ser vivida como parte do inevit\u00e1vel equil\u00edbrio das coisas.\u00bb (p. 153)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7amos uma breve s\u00edntese. As religi\u00f5es axiais (principalmente o Cristianismo e o Budismo) t\u00eam por caracter\u00edstica pr\u00f3pria conduzirem a \u00abuma ruptura em todas as tr\u00eas dimens\u00f5es da agrega\u00e7\u00e3o [<em>embeddedess<\/em>]: ordem social, cosmos, no\u00e7\u00e3o de bem [<em>human good<\/em>]. (\u2026) As pessoas humanas est\u00e3o imersas [<em>embedded<\/em>] na sociedade, a sociedade no cosmos, e o cosmos incorpora o divino. O que tenho descrito como transforma\u00e7\u00e3o axial quebra esta cadeia pelo menos num ponto, se n\u00e3o mais.\u00bb (p. 152). Uma das sugest\u00f5es \u2013 de Francis Oakley, aqui citado \u2013 \u00e9 que a ruptura foi principalmente propiciada pela no\u00e7\u00e3o judaica (e crist\u00e3) de cria\u00e7\u00e3o <em>ex nihilo, <\/em>isto \u00e9, a partir do nada (p. 152).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Pois se o <em>mundo <\/em>\u00e9 um outro, como criatura em rela\u00e7\u00e3o ao <em>Criador, <\/em>ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o pode haver identifica\u00e7\u00e3o total entre o mundano e o divino.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 35. <em><u>Excurso:<\/u> <u>uma p\u00e1gina de experi\u00eancia (ainda) viva<\/u>. \u2013 <\/em>Para ilustrar o que se exp\u00f4s, pode remeter-se para alguns dos <em>frescos <\/em>oferecidos por Jos\u00e9 da Silva Lima, <em>Teologia Pr\u00e1tica Fundamental. Fazei v\u00f3s, tamb\u00e9m <\/em>(2.\u00aa Ed., UCE Editora, 2020), que retratam de modo viv\u00edssimo as formas da piedade popular, que, segundo vejo, parecem conter alguns dos elementos pr\u00f3prios das religi\u00f5es antigas. Servem, portanto, de exemplo claro da atmosfera pr\u00f3pria de uma viv\u00eancia religiosa \u201cpr\u00e9-moderna\u201d, cujos tra\u00e7os foram apresentados nos nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5 e ss<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Selecciono apenas algumas passagens:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Acerca da <em>festa: <\/em>\u00abAl\u00e9m de um enquadramento luxuriante, rico de enfeites e de ap\u00eandices, farto em luzes, em algazarra e confus\u00e3o, a gente experimenta a imers\u00e3o num tempo diferente, de corte com a monotonia fastidiosa e ritualizada dos dias. \u00c9 um tempo grande, cheio de tudo e gordo de vida; tempo no qual a sucess\u00e3o dos dias parece retomar sentido, oferecendo-lhe o que mendiga no sil\u00eancio de uma labuta que oprime. Os santos d\u00e3o raz\u00e3o \u00e0 gente, fazendo-a parar no cora\u00e7\u00e3o de uma az\u00e1fama que asfixia e obrigando a uma passagem por ritos regeneradores, qual d\u00e1diva de equil\u00edbrio, qual esta\u00e7\u00e3o termal de retempero e homeostasia qual tempo de gra\u00e7a que limpa a eira da vida. E os santos, est\u00e1ticos nos andores, protagonizam um movimento ao interior das coisas, dando ao tempo mais do que uma dimens\u00e3o sagrada, uma \u00edndole de eternidade. Assim, a festa, mais do que simples \u201cida\u201d e do que separa\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma pausa prenhe de sentido e de f\u00f4lego, \u00e9 talvez o par\u00eantese de um texto que o esclarece e ilumina, \u00e9 a \u201cporta santa\u201d da casa onde habita um povo e pela qual entra um sol diferente do de todos os dias, \u00e9 esta nesga de luz sem a qual tudo \u00e9 escuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A festa acontece sempre em altern\u00e2ncia sem que ningu\u00e9m consiga prolong\u00e1-la indefinidamente. (\u2026)\u00bb (pp. 292-293)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Sobre a \u00edndole do tempo: \u00abComo o de domingo, o tempo festivo \u00e9 regenerador provocando o encontro com o fundamento da pessoa, quando ela nasce como \u201cfilho\u201d no Filho ressuscitado. N\u00e3o se trata, assim, de um tempo que se esgota, mas de um dom que vivifica retemperando as for\u00e7as de uma identidade exodal. Do ponto de vista teol\u00f3gico, a festa integra esta dimens\u00e3o de passagem do transit\u00f3rio ao que permanece, do moment\u00e2neo ao perene, do ef\u00e9mero cronol\u00f3gico (kronos) ao definitivo gratuito e kair\u00f3tico (kairos).\u00bb (p. 295)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Sobre o excesso da festa: \u00abQualquer festa cheira sempre a variedade, a profus\u00e3o, a abund\u00e2ncia, a uma certa anormalidade, a excesso, a embriaguez, at\u00e9 \u00e0 imers\u00e3o num caos pontual. Dan\u00e7a, luzes, barulho, comida, bebida\u2026onde a multid\u00e3o toca mesmo os limites do transe, se inebria do frenesim e se introduz em ritmos fant\u00e1sticos nas fronteiras do paroxismo. Como acontecimento, a festa entretece-se de movimentos dionis\u00edacos, em rodopios que emprestam \u00e0 vida colectiva um cen\u00e1rio c\u00f3smico, transformando a noite em dia e provocando at\u00e9 a exaust\u00e3o dos sentidos. Assim, a festa \u00e9 tamb\u00e9m o lugar dos limites e at\u00e9 da fronteira que permite avaliar o homem e a comunidade, o ser e o n\u00e3o ser, j\u00e1 que ela mesma integra ingredientes de uma tranquila do\u00e7ura apol\u00ednea.\u00bb (pp. 297-298)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Sobre a envolv\u00eancia da festa: \u00abA festa da aldeia \u00e9 a festa do corpo, a festa dos seus sentidos; \u00e9 o paroxismo dos sentidos, a inebria\u00e7\u00e3o extasiante das janelas do corpo, que necessita de retempero. N\u00e3o h\u00e1 festa sem sentidos, sempre levados \u00e0 sua pot\u00eancia e por isso, talvez, ultrapassados, no reequil\u00edbrio do quotidiano, onde aqueles s\u00e3o a \u201cjanela da alma\u201d.\u00bb (p. 299)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 36. <em><u>Uma nova forma de religi\u00e3o. Consequ\u00eancias sociais e antropol\u00f3gicas<\/u><\/em>. \u2013 O contraste entre aquelas duas formas de religi\u00e3o (n.\u00ba 34) n\u00e3o deve fazer ignorar que, na pr\u00e1tica religiosa dos povos, alguns elementos pr\u00f3prios da religi\u00e3o antiga continuaram a marcar presen\u00e7a muito para al\u00e9m do surgimento das \u201creligi\u00f5es Axiais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, s\u00e3o estas que surgem posteriormente, e, por isso, s\u00e3o tamb\u00e9m elas que come\u00e7am por se pretender <em>demarcar <\/em>de formas anteriores de viv\u00eancia: pense-se, por ex., no \u00a0surgimento do monaquismo, com equivalentes noutras tradi\u00e7\u00f5es religiosas (p. 154). Estas formas de viv\u00eancia religiosa podem ser entendidas como complementares de formas de vida comum, nomeadamente quando levadas a cabo por grupos minorit\u00e1rios (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">8<\/a>). Ora, o ponto sobre o qual insistiu a <em>ac\u00e7\u00e3o de reforma <\/em>ter\u00e1 sido, justamente, o de conduzir a que uma forma concreta de religi\u00e3o <em>axial, <\/em>numa sua compreens\u00e3o particular, procurasse <em>remover <\/em>elementos das \u00abreligi\u00f5es antigas\u00bb (o desagrado com estas diverg\u00eancias entre formas de vida \u00e9 apresentado justamente como um dos motivos centrais para a reforma: n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">16<\/a>): projecto que procura afastar os elementos de tens\u00e3o, de ambiguidade, pr\u00f3prios do quadro anterior (v. os n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">9<\/a>) e 34), procurando dar uma nova forma ao ser humano. J\u00e1 do ponto de vista social, emerge a ideia de uma sociedade fundada num <em>acordo, <\/em>numa <em>alian\u00e7a <\/em>(<em>covenant<\/em>) \u2013 essa \u00e9, com efeito, a forma pr\u00f3pria de os indiv\u00edduos se associarem (p. 155).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta nova perspectiva, compossibilitada por um certo entendimento teol\u00f3gico do cristianismo (\u00abO Novo Testamento est\u00e1 cheio de interpela\u00e7\u00f5es para deixar ou relativizar as solidariedades de fam\u00edlia, de cl\u00e3, de sociedade, e de ser parte do Reino.\u00bb \u2013 p. 155) e pela tradi\u00e7\u00e3o neo-est\u00f3ica (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">24 e 26<\/a>), contribui, pois, para a emerg\u00eancia do individualismo moderno (p. 155). A par da constru\u00e7\u00e3o de uma <em>identidade protegida <\/em>(<em>buffered identity<\/em>) \u2013 n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">27<\/a> \u2013, percorre-se o caminho para a desincorpora\u00e7\u00e3o social: \u00abA nova identidade protegida, com a sua insist\u00eancia na devo\u00e7\u00e3o pessoal e na disciplina, aumentou a dist\u00e2ncia, a desidentifica\u00e7\u00e3o, mesmo a hostilidade \u00e0s antigas formas de ritual colectivo e de perten\u00e7a; enquanto o caminho de Reforma acabou por ter em vista a sua aboli\u00e7\u00e3o. Quer no seu sentido de <em>Eu <\/em>(<em>self<\/em>), quer no seu projecto para a sociedade, as elites disciplinadas caminharam rumo a uma concep\u00e7\u00e3o do mundo social como constitu\u00eddo por indiv\u00edduos.\u00bb (p. 156)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o com o cristianismo n\u00e3o deixou, por\u00e9m, de ser <em>ambivalente: <\/em>se a \u00abdesagregra\u00e7\u00e3o\u00bb pode ser vista como propiciada por certos elementos evang\u00e9licos, n\u00e3o deixa menos de ser tamb\u00e9m uma sua corrup\u00e7\u00e3o. Bem adiante voltaremos a este ponto, que implica algumas pondera\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas mais vastas. H\u00e1, na verdade, uma tens\u00e3o, imanente ao cristianismo, entre uma fidelidade ao Evangelho que ora conduz \u00e0 recusa e afastamento do mundo, ora ao desejo de o transformar. Tens\u00e3o presente nas diferentes ac\u00e7\u00f5es de Reforma. \u00abA ironia \u00e9 que (\u2026) ao fim e ao cabo o \u201cmundo\u201d acabou por vencer. Talvez a contradi\u00e7\u00e3o resida na ideia de uma imposi\u00e7\u00e3o pela disciplina do Reino de Deus.\u00bb (p. 158).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00faltimas p\u00e1ginas do cap\u00edtulo, sublinha-se, por fim, outro dos aspectos repetidos ao longo da obra: a compreens\u00e3o da pessoa humana como um ser <em>individual<\/em> n\u00e3o consistiu somente na <em>subtrac\u00e7\u00e3o <\/em>de como que elementos identit\u00e1rios sobrepostos que impediam a respectiva emerg\u00eancia, qual realidade \u00abnatural\u00bb apenas \u00e0 espera de ser descoberta, como que j\u00e1 dispon\u00edvel em estado puro. Tratou-se, antes, de uma revolu\u00e7\u00e3o do <em>quadro moral social <\/em>\u2013 numa <em>sociedade<\/em> na qual cada um se pensa como indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o com outros indiv\u00edduos \u2013<em>, <\/em>que incorporou novos quadros de representa\u00e7\u00e3o que, quando disseminados e assumidos individualmente, deram lugar \u00e0 experi\u00eancia pessoal da individualidade (p. 157; ver tb. pp. 168-169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Traduzi o t\u00edtulo do cap\u00edtulo por <em>grande desagrega\u00e7\u00e3o. <\/em>Est\u00e1 visto, \u00e0 luz de quanto se exp\u00f4s, que se poderia tamb\u00e9m por traduzir por <em>grande desla\u00e7amento, grande desincorpora\u00e7\u00e3o, grande desmembramento. <\/em>A ideia que fica \u00e9: o que antes fora um corpo estruturado, a partir de um conjunto poli\u00e9drico de rela\u00e7\u00f5es interpessoais, caminha para ser n\u00e3o mais, quando muito, do que o resultado da soma de um conjunto de pontos isolados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veremos de seguida as fei\u00e7\u00f5es do imagin\u00e1rio social moderno resultante desta nova sociedade.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/splitshire-364019\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=407081\">SplitShire<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=407081\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11418,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-11417","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11417","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11417"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11417\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11419,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11417\/revisions\/11419"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11417"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11417"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11417"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}