{"id":11287,"date":"2021-01-04T07:00:47","date_gmt":"2021-01-04T07:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11287"},"modified":"2021-01-02T12:58:46","modified_gmt":"2021-01-02T12:58:46","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-9-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (9) \u2013 A emerg\u00eancia de uma sociedade disciplinadora (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), vers\u00e1mos o primeiro cap\u00edtulo da obra, relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>). Estamos agora no terceiro texto (depois de <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">8<\/a>) relativo ao segundo cap\u00edtulo da obra (\u201cA emerg\u00eancia da sociedade disciplinadora\u201d\/ <em>The Rise of the Disciplinary Society<\/em>).\u00a0 A leitura do segundo cap\u00edtulo ser\u00e1 agora conclu\u00edda, incidindo a presente glosa, portanto, sobre as p\u00e1ginas 125-145.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 29. <em><u>A for\u00e7a propulsora desta mudan\u00e7a<\/u><\/em><u>. <em>Direito natural e uma sua alternativa<\/em><\/u><em>.<\/em> \u2013 Se, no \u00e2mbito da profiss\u00e3o de f\u00e9 calvinista, a fonte da confian\u00e7a na pr\u00f3pria capacidade de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade foi a cren\u00e7a na <em>divina provid\u00eancia<\/em>, no caso particular do neo-estoicismo foi a nova compreens\u00e3o da <em>ordem natural <\/em>(ver o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">27<\/a>). Mas deve notar-se que, se a no\u00e7\u00e3o de ordem ou de Lei natural tinham larga tradi\u00e7\u00e3o no antigo pensamento filos\u00f3fico e teol\u00f3gico (Arist\u00f3teles, S. Tom\u00e1s de Aquino,\u2026), adquirem agora uma <em>nova tonalidade <\/em>que reconfigura os respectivos significados de forma acentuada (p. 125).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem tra\u00e7os novos, com efeito, a no\u00e7\u00e3o de Lei Natural que emerge no s\u00e9c. XVII (sendo elencandos, neste quadro de reconfigura\u00e7\u00e3o significativa do seu sentido, autores como Gr\u00f3cio \u2013 disc\u00edpulo de Lipsius \u2013, Pufendorf, Locke). As \u201cleis naturais de comportamento\u201d a observar j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o vistas como inscritas na natureza, mas perspectivadas como normas pr\u00f3prias da <em>raz\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Diferen\u00e7a que \u00e9 muitas vezes traduzida na distin\u00e7\u00e3o entre <em>jusnaturalismo <\/em>e <em>jusracionalismo <\/em>(moderno)<em>.<\/em>]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que implica, nos ant\u00edpodas de uma compreens\u00e3o tradicional da Lei Natural, uma firme vontade de remodela\u00e7\u00e3o da sociedade de acordo com os crit\u00e9rios tidos por racionais (p. 126). Assim, com maior ou menor profiss\u00e3o de f\u00e9 te\u00edsta, \u00e9 comum a estes autores a aceita\u00e7\u00e3o de certas normas vinculativas, acess\u00edveis por via racional: \u00abEstas leis s\u00e3o-nos vinculantes, porque o Criador pode criar regras para os seus produtos. Mas n\u00e3o ter\u00edamos precisado da revela\u00e7\u00e3o para sabermos quais regras s\u00e3o essas.\u00bb (p. 127) At\u00e9 que ponto esta nova perspectiva alinha com o fervor de moldagem da sociedade humana \u00e9 vis\u00edvel num Locke, cuja psicologia da mente humana a tomava como <em>tabula rasa <\/em>na qual se poderiam inculcar quaisquer h\u00e1bitos; ou na import\u00e2ncia por si dada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o (p. 127).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A emerg\u00eancia destas novas perspectivas \u00e9 historicamente contempor\u00e2nea do esfor\u00e7o de, numa Europa dilacerada por conflitos em que o factor religioso tamb\u00e9m desempenhou uma fun\u00e7\u00e3o nada irrelevante (\u00e9 o s\u00e9culo da Guerra dos 30 anos, por um lado, e da <em>Glorious Revolution, <\/em>por outro), encontrar um ponto de refer\u00eancia de ordem n\u00e3o confessional que pudesse obter certo consenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[A obra fundamental de Gr\u00f3cio tem por t\u00edtulo justamente <em>De iure belli ac pacis, <\/em>isto \u00e9, <em>Acerca do Direito da Guerra e da Paz<\/em>]<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dos elementos pr\u00f3prios desta nova perspectiva da Lei Natural ter\u00e3o longo curso no futuro: \u00abClaro que esta perspectiva tinha, e precisava, de um lado voluntarista, sublinhando o poder da reconstru\u00e7\u00e3o; mas tamb\u00e9m carecia de uma no\u00e7\u00e3o de ordem normativa a colocar as regras e os fins desta reconstru\u00e7\u00e3o. Os conceitos cruciais a defini-lo j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o a hierarquia e o comando. O ponto de partida \u00e9 antes uma ra\u00e7a de indiv\u00edduos iguais destinados a entrar uns com os outros numa sociedade de m\u00fatuo benef\u00edcio.\u00bb (pp. 128-129)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viver numa sociedade com tais caracter\u00edsticas, com tais fins, com a protec\u00e7\u00e3o de direitos, etc., j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 visto como uma \u00abprefer\u00eancia particular\u00bb, mas como um caminho em vista do \u00ablugar onde as coisas est\u00e3o destinadas a chegar, um <em>terminus ad quem <\/em>no qual tudo tem o seu lugar pr\u00f3prio\u00bb (p. 129).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O empenhamento das pr\u00f3prias for\u00e7as (voluntarismo) e um certo padr\u00e3o objecto (normatividade da lei natural) conjugam-se em vista de uma remodela\u00e7\u00e3o da sociedade, a ter lugar a longo prazo: \u00abEstamos no nascimento do conceito que agora toma o nome de \u201cdesenvolvimento\u201d\u00bb. E o tempo em que o referido desenvolvimento tem lugar \u00e9 j\u00e1 o tempo \u201chomog\u00e9neo e vazio\u201d (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">10<\/a>). Esta perspectiva, por\u00e9m, caminhar\u00e1 \u2013 j\u00e1 no s\u00e9c. XVIII \u2013 no sentido de ver a \u201charmonia\u201d entre os seres humanos n\u00e3o j\u00e1 como um fim a atingir, mas como uma caracter\u00edstica efectivamente j\u00e1 inscrita na natureza humana desde o primeiro momento. Ou, pelo menos, \u00abexigindo apenas mais um pacote de reformas: pol\u00edticas (por ex., governo representativo), econ\u00f3micas (por ex., laissez-faire) e sociais (por ex., colocar termo a castas e privil\u00e9gios\u00bb (p. 130). Chegado a este quadro em que se experimenta a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d como realidade <em>presente<\/em>, est\u00e3o reunidas as condi\u00e7\u00f5es para o humanismo (antropoc\u00eantrico, portanto) exclusivo (pp. 129-130).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7a-se por enquanto uma ressalva. Ao tempo esta perspectiva ainda n\u00e3o era exclusiva, nem sequer dominante. Como perspectiva jur\u00eddico-pol\u00edtica alternativa \u00e0 invoca\u00e7\u00e3o do Direito Natural estava, no s\u00e9c. XVII (e com bastante sucesso), a alternativa da defesa do Estado absoluto (ou \u201cbarroco\u201d): afirmando, por um lado, uma ordem absoluta soberana; por outro, uma hierarquia na qual cada um tinha o seu lugar (com alguma transig\u00eancia, por\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nova ordem moral, como depois veremos). E, do ponto de vista da \u201cteologia pol\u00edtica\u201d, invocando o direito divino dos bens (pp. 127-128).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Sem preju\u00edzo, as observa\u00e7\u00f5es feitas no presente n\u00famero poder\u00e3o servir j\u00e1 de advert\u00eancia para a <em>muita reserva <\/em>com que o termo <em>Lei natural <\/em>deve ser usado, atenta a sua profunda polissemia. Sobre este mesmo ponto incidir\u00e3o algumas reflex\u00f5es na fase final das glosas a esta obra.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 30. <u>\u00c9tica de <em>po\u00edesis<\/em>. <em>Descartes<\/em><\/u><em>.<\/em> \u2013 Do quadro neo-est\u00f3ico (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">27<\/a>) resulta uma renovada \u00eanfase na vontade como modeladora da <em>praxis <\/em>humana: uma \u00e9tica de <em>po\u00edesis, <\/em>em que a vontade \u00e9 capaz de dominar sobre as paix\u00f5es humanas (p. 130).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 linha de pensamento que arranca de Descartes (1596-1650), vindo a adquirir tonalidades inteiramente novas e que ser\u00e3o decisivas para o curso evolutivo dos acontecimentos. \u00abEsta transi\u00e7\u00e3o pode ser compreendida como arrancando de uma \u00e9tica fundada numa ordem que est\u00e1 operante na realidade, para uma \u00e9tica que v\u00ea a ordem como imposta pela vontade. Descartes arru\u00edna totalmente qualquer base conceb\u00edvel para a primeira, ao adoptar uma consistente vis\u00e3o mecanicista do universo material. J\u00e1 n\u00e3o faz sentido falar dos elementos da natureza como expressando ou realizando uma forma. Nenhuma explica\u00e7\u00e3o causal deles nestes termos pode doravante ser feito intelig\u00edvel. As formas e a sua express\u00e3o pertencem exclusivamente ao dom\u00ednio das mentes. A mat\u00e9ria tem de ser explicada como um mecanismo. (\u2026) Quer a ci\u00eancia, quer a virtude exigem que desencantemos o mundo, que fa\u00e7amos uma distin\u00e7\u00e3o rigorosa entre mente e corpo, e releguemos todo o pensamento e todo o sentido para o dom\u00ednio do intra-mental. Temos de colocar uma barreira firme, aquela, como vimos, que define o eu protegido [<em>buffered self<\/em>]\u00bb (pp. 130-131; v. n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">6<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, a ac\u00e7\u00e3o \u00e9tica correcta consiste doravante no exerc\u00edcio do dom\u00ednio sobre o corpo. Num ponto divergente da \u00e9tica est\u00f3ica, as paix\u00f5es passam a ser interpretadas como o aux\u00edlio dado pelo Criador para se poder responder \u00e0s diferentes circunst\u00e2ncias com que deparamos: devem \u00e9 ser controladas pela vontade (p. 131). Por conseguinte, acaba por ruir de modo total qualquer possibilidade de a partir do universo exterior retirar um qualquer sentido de ordem comportamental (pp. 132-133). O bem supremo passa a ser a <em>vontade racional, <\/em>deixando-se conduzir pela raz\u00e3o (p. 133).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste quadro cartesiano, a suprema virtude \u00e9 a <em>g\u00e9n\u00e9rosit\u00e9, <\/em>entendida como a virtude humana que consiste na for\u00e7a de vontade de se predispor sempre a agir de acordo com crit\u00e9rios de racionalidade. Por isso, o crit\u00e9rio de actua\u00e7\u00e3o tornou-se \u00abauto-referencial\u00bb, sem fazer apelo a qualquer fonte exterior (p. 134). Emerge, pois, uma \u00ab\u00e9tica do controlo racional\u00bb, em que o <em>Eu <\/em>se situa como <em>super-protegido <\/em>(<em>super-buffered<\/em>), j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, mas tamb\u00e9m, por ex., em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas pr\u00f3prias paix\u00f5es (pp. 135-136). Como numa p\u00e1gina mais adiantada da obra se vir\u00e1 a escrever, \u00aba <em>d\u00e9marche <\/em>crucial, como vemos em Descartes, \u00e9 de isolar o agente do seu ambiente, eliminar totalmente a sua relev\u00e2ncia (<em>to zero in on it<\/em>), e trazer ao de cima o que ele tem em si mesmo, abstraindo do que o rodeia. Isto \u00e9 central para a estrat\u00e9gia de Descartes no <em>cogito: <\/em>v\u00ea primeiro as ideias que est\u00e3o \u201cdentro\u201d de n\u00f3s, e s\u00f3 depois coloca a quest\u00e3o de saber se elas correspondem ao que est\u00e1 a\u00ed \u201cfora\u201d.\u00bb (pp. 257-258)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 31. <em><u>Um segundo distanciamento<\/u>. \u2013 <\/em>O <em>Eu <\/em>n\u00e3o s\u00f3 se distancia de um mundo <em>poroso<\/em> (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">6<\/a>) que lhe \u00e9 exterior, como tamb\u00e9m cria uma barreira em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio e a alguma das suas \u00abfun\u00e7\u00f5es corp\u00f3reas\u00bb (p. 137); n\u00e3o apenas um \u00abbarreira interior\/ exterior, mas barreiras adicionais s\u00e3o criadas contra fortes desejos f\u00edsicos e contra o fasc\u00ednio pelo pr\u00f3prio corpo\u00bb (p. 142).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o que caracteriza a intimidade \u00e9 um \u00abfluxo de sensibilidade\u00bb entre duas pessoas (empatia, partilha emocional, \u2026), o acento muda agora de gravidade. Mote central de actua\u00e7\u00e3o \u00e9 agora: \u00abtanto quanto poss\u00edvel, s\u00ea auto-suficiente\u00bb (p. 137). Embora a pessoa continue a desenvolver a personalidade em contextos interpessoais, o ideal \u00e9 de \u00abauto-sufici\u00eancia, autarquia, autonomia\u00bb (p. 138).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Opera, portanto, um duplo movimento: de um maior rigor na defini\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de intimidade, e de quem nele \u00e9 admitido e quem n\u00e3o (o que implica que, <em>dentro dele<\/em>, a viv\u00eancia seja tamb\u00e9m muito mais intensa); e de, por consequ\u00eancia, dist\u00e2ncia para com algumas das pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es e fun\u00e7\u00f5es corp\u00f3reas (p. 139). Estes aspectos s\u00e3o explorados, com muitos exemplos de pormenor, nas pp. 139-140. Tamb\u00e9m neste quadro se compreende o dever de se guardar uma certa dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao <em>desejo sexual descontrolado <\/em>(sem ignorar algumas tentativas de imprimir uma mudan\u00e7a neste mesmo ponto no s\u00e9c. XX) ou \u00e0 <em>viol\u00eancia<\/em>. Em resultado deste processo de distanciamento entre o <em>Eu <\/em>e estas realidades, o centro de gravidade da pessoa \u00abmoveu-se para fora do corpo. Est\u00e1 fora dele, no agente (\u2026) capaz de controlo desapaixonado\u00bb (p. 141).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que grande parte dos outros est\u00e1 situada fora do contexto de intimidade, \u00absomos treinados para os tratar cada um deles como sujeitos dignificados de controlo racional\u00bb (p. 142). Treinados, portanto, para ser <em>indiv\u00edduos<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 32. <em><u>Na imin\u00eancia de uma viragem. S\u00edntese interlocut\u00f3ria.<\/u> \u2013 <\/em>A proposta explicativa de Taylor da viragem para uma <em>Idade Secular <\/em>assenta em descortinar dois momentos fundamentais (pp. 142-145). Dos dois, o primeiro \u00e9 o de se chegar a uma distin\u00e7\u00e3o clara entre o <em>natural <\/em>e o <em>sobrenatural, imanente <\/em>e <em>transcendente<\/em>, n\u00e3o apenas ao n\u00edvel te\u00f3rico, mas ao n\u00edvel da experi\u00eancia pr\u00e1tica (cf. as reflex\u00f5es no <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">n.\u00ba 2<\/a>), a ponto de se poder viver sem o sentido da presen\u00e7a do divino. Assim, o primeiro passo teve de assentar na desagrega\u00e7\u00e3o dos <em>alicerces de uma f\u00e9 natural <\/em>(<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">n.\u00ba 5<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">12<\/a>), isto \u00e9, daqueles factores que operavam como sustent\u00e1culos de leitura te\u00edstica do mundo. Mas o seu desaparecimento n\u00e3o implica o ingresso autom\u00e1tico numa <em>Idade Secular <\/em>(pelo contr\u00e1rio, at\u00e9 pode ser um per\u00edodo de intensifica\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica religiosa, como desde logo ocorreu no campo protestante), mas apenas que desapareceram algumas \u00e2ncoras tradicionais da f\u00e9. Tal implicaria um segundo passo, ainda n\u00e3o dado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Note-se apenas um outro aspecto, pr\u00f3prio do cristianismo ocidental, que, acrescendo ao \u00abzelo pela ordem\u00bb (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 13 e ss<\/a>.), merece nota particular: o movimento interno da f\u00e9 de procurar fecundar a vida ordin\u00e1ria com os valores evang\u00e9licos, com a valora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio quotidiano. Mas \u00aba ironia \u00e9 que isto (\u2026) prepara o fundamento para a fuga da f\u00e9 para um mundo puramente material.\u00bb (p. 145)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao terminar este segundo cap\u00edtulo, ainda n\u00e3o se deu a viragem para o \u201chumanismo exclusivo\u201d: mas os obst\u00e1culos para o efeito j\u00e1 se encontram removidos. Por momentos, por\u00e9m, fica suspensa a narra\u00e7\u00e3o cronogr\u00e1fica: os cap\u00edtulos seguintes, ainda que integrantes da primeira parte da obra, suspendem a exposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sequencial, procurando explorar outros aspectos desta primeira fase da modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No pr\u00f3ximo texto avan\u00e7aremos para o terceiro cap\u00edtulo, no qual se trata da <em>Grande Desagrega\u00e7\u00e3o <\/em>gerada por este quadro moderno.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/avi_acl-5075433\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2264051\">Avi Chomotovski<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2264051\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11289,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-11287","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11287"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11290,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11287\/revisions\/11290"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}