{"id":11284,"date":"2021-01-02T12:30:42","date_gmt":"2021-01-02T12:30:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11284"},"modified":"2021-01-02T17:02:10","modified_gmt":"2021-01-02T17:02:10","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-a-alma-de-dorian-gray","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-a-alma-de-dorian-gray\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| A alma de Dorian Gray"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">A alma de Dorian Gray<\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O ad\u00e1gio \u00e9 invari\u00e1vel: gostei do filme, mas achei o livro muito melhor. Nem \u00e9 um ponto negativo, a escrita permite subtilezas infindas e a expans\u00e3o livre do narrador (justamente considerado como intruso na linguagem cinematogr\u00e1fica). O tempo do cinema \u00e9 tamb\u00e9m uma experi\u00eancia mais curta e concentrada; a estrutura tem de ser mais sucinta e menos repetitiva. Cinema e literatura s\u00e3o linguagens diferentes e aproximam-se da nossa imagina\u00e7\u00e3o usando instrumentos distintos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 este \u00faltimo aspeto o mais essencial: os livros escondem o aspeto visual, uma carater\u00edstica que proporciona a quem l\u00ea um papel mais ativo e muito mais gratificante. Em contraponto, os livros maus desembocam em filmes desinteressantes e f\u00e1ceis de fazer: foi tudo t\u00e3o descrito, t\u00e3o visualizado, que o filme s\u00f3 acrescenta um pouco de cor ao que j\u00e1 foi imaginado, n\u00e3o tem interesse nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nada disso acontece em \u201cO retrato de Dorian Gray\u201d, filme de 1945 e que se baseia no livro hom\u00f3nimo de Oscar Wilde, de 1890. Realizado por Albert Lewin, \u00e9 um interessante modelo da adapta\u00e7\u00e3o: s\u00e3o tomadas algumas liberdades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra original, sim, mas para aproveitar melhor o as potencialidades do uso do som: no cinema, uma pe\u00e7a musical pode evocar valores e sentimentos que envolvem irresistivelmente o cin\u00e9filo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dorian Gray \u00e9 um <em>gentleman<\/em> jovem, idealista, impulsivo e pouco experiente: o ponto de partida para a sua est\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o irrealista quanto intrigante, o retrato feito pelo amigo Basil que envelhece enquanto o pr\u00f3prio modelo permanece imut\u00e1vel. Aonde nos pode levar este <em>MacGuffin<\/em>? Longe, a um percurso de vida em que o desejo de permanecer jovem de Dorian, realizado prontamente, se converte em maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lord Henry \u00e9 o aristocrata especializado na arte de \u201cn\u00e3o fazer rigorosamente nada\u201d: homem bem falante, p\u00e9ssima pessoa, exp\u00f5e os seus valores desprovidos de qualquer moralidade em trocadilhos bem conseguidos e que denunciam uma atividade cerebral febril, genial, abomin\u00e1vel. Ele proporciona muitos dos momentos mais ir\u00f3nicos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lord Henry: <em>Eu escolho os meus amigos pela sua boa apar\u00eancia e os meus inimigos pelo \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 seu bom intelecto: nunca se \u00e9 cuidadoso demais na escolha dos pr\u00f3prios inimigos\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Basil: <em>Harry, eu desprezo os seus princ\u00edpios, mas aprecio mesmo assim a sua forma de \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 os exprimir!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lord Henry: <em>Eu gosto mais de pessoas do que de princ\u00edpios e de pessoas sem princ\u00edpios \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 acima de tudo!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este personagem maquiav\u00e9lico assegurar\u00e1 a queda do anjo: a sua influ\u00eancia sobre Dorian Gray levar\u00e1 o jovem a descer a um inferno existencial, \u00e0 exclus\u00e3o de qualquer felicidade do horizonte da sua vida. Destruir\u00e1 pessoas, isolar-se-\u00e1 de todos, sobretudo dos amigos e do amor: colher\u00e1 os benef\u00edcios da sua maldi\u00e7\u00e3o, mas quebr\u00e1-la significar\u00e1 deixar de existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E quando a justi\u00e7a parece ir fazer contas com ele, na figura do irm\u00e3o de Sybil Vane (uma muito jovem Angela Lansbury), a noiva cuja vida ele destruiu, Gray apresenta o seu rosto jovem como prova de que n\u00e3o \u00e9 ele a pessoa procurada: o verdadeiro culpado, depois de todos estes anos, n\u00e3o tinha como n\u00e3o ser bem mais velho do que ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A apresenta\u00e7\u00e3o a preto e branco ser\u00e1 interrompida em momentos breves, cat\u00e1rticos, em que o famoso quadro \u00e9 apresentado em plano pr\u00f3ximo: o efeito deste truque \u00e9 tremendo porque a figura evolui, afinal, segundo n\u00e3o a idade mas a condi\u00e7\u00e3o \u00e9tica de um monstro. A montagem \u00e9 neste particular muito feliz e n\u00e3o seria poss\u00edvel atualmente (uma vez que n\u00e3o se privilegiam nem os di\u00e1logos longos, nem o retardamento das surpresas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tudo atrai aqui: o ritmo que faz s\u00f3 as paragens necess\u00e1rias; o comedimento dos atores; o n\u00e3o decorativismo do cen\u00e1rio (\u00e9 um filme de \u00e9poca); a pluralidade dos contextos evocados e sobretudo o ato final, apresentando uma reviravolta que funciona a mais do que um n\u00edvel e que justifica por si s\u00f3 a condi\u00e7\u00e3o de filme filos\u00f3fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cO retrato de Dorian Gray\u201d \u00e9 profundamente moral e moralizante, expondo e ridicularizando alguns dos mitos p\u00f3s-modernos mais lancinantes, como a beleza, a juventude e o hedonismo. Se a obra liter\u00e1ria que lhe deu origem causou inicialmente esc\u00e2ndalo, isso s\u00f3 prova que lhe leram mais a forma que o conte\u00fado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11359,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,86],"tags":[],"class_list":["post-11284","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11284","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11284"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11360,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11284\/revisions\/11360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}