{"id":11260,"date":"2021-03-04T07:00:00","date_gmt":"2021-03-04T07:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11260"},"modified":"2020-12-30T13:21:46","modified_gmt":"2020-12-30T13:21:46","slug":"pensamento-de-edith-stein-a-pessoa-espiritual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-a-pessoa-espiritual\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | A PESSOA ESPIRITUAL"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A PESSOA ESPIRITUAL<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) Caracter\u00edstica pr\u00f3pria do ser humano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos elementos que caracterizam a antropologia steiniana \u00e9 a descoberta, desde o primeiro momento, da dimens\u00e3o espiritual do ser humano. Um ser que n\u00e3o se esgota na sua materialidade, nem na sua sensibilidade f\u00edsica. A sua vida \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o mais evidente da sua capacidade de se transcender, de sair de si, de superar os limites da sua corporalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem pode empatizar, pode raciocinar, pode amar, pode conhecer, porque \u00e9 capaz de sair de si. Trata-se de uma comprova\u00e7\u00e3o \u00abexistencial\u00bb presente em todo o ser humano. A partir do reconhecimento desta concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica essencial, \u00e9 poss\u00edvel falar, inclusive antropologicamente, de uma vida espiritual no homem, como algo que corresponde \u00e0 sua humanidade. \u00ab\u00c0 ess\u00eancia do homem enquanto tal pertence a seguinte dupla natureza: ser uma pessoa espiritual e ser informado corporalmente. Enquanto esp\u00edrito, a ess\u00eancia forma parte do mesmo g\u00e9nero de ente que todos os esp\u00edritos criados. Enquanto informada org\u00e2nica-corporal-psiquicamente, forma parte do g\u00e9nero dos seres vivos. Mas visto que o ser espiritual e o ser org\u00e2nico-material-ps\u00edquico n\u00e3o se apresentam nela separados e justapostos mas s\u00e3o uma unidade. \u00c9, por conseguinte, mais justo \u2013 parece-me \u2013 falar de um g\u00e9nero particular\u00bb (SF 520-521).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser humano encontra a raz\u00e3o do seu ser em si mesmo. E \u00e9 capaz de uma vida espiritual porque \u00e9 um ser espiritual. Reconhecer este princ\u00edpio implica que o homem nunca se desenvolver\u00e1 como tal se n\u00e3o fomenta a sua vida espiritual, que vem a ser a base caracter\u00edstica do seu ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em v\u00e1rios dos seus estudos antropol\u00f3gicos, Edite procede, para conhecer o ser do homem, a partir da \u00abcompara\u00e7\u00e3o\u00bb com todos os seres que o rodeiam. Na sua obra A estrutura da pessoa humana procura alcan\u00e7ar esse conhecimento comparando o ser humano com a mat\u00e9ria, com os seres vivos inanimados e os animados. Deste modo, chega a concluir o que \u00e9 pr\u00f3prio do homem enquanto homem, enquanto ser espiritual, superior ao animal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) A sua meta \u00e9 a uni\u00e3o com Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein, o ser humano al\u00e9m de ser esp\u00edrito, define-se como ser espiritual. Porque \u00e9 esp\u00edrito e alma espiritual possui em si vida espiritual. \u00c9 o ponto que mais o assemelha e une com Deus. Se n\u00e3o fosse espiritual n\u00e3o seria capaz de ter acesso \u00e0 uni\u00e3o com Deus. E embora seja verdade que o homem n\u00e3o alcan\u00e7a este estado sem a interven\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, o seu ser sente-se necessitado da uni\u00e3o para se completar e aperfei\u00e7oar. O homem foi criado para este fim como \u00abcriatura espiritual\u00bb (SF 392).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque \u00e9 espiritual o homem tem a capacidade de sair de si e ter acesso ao mundo do esp\u00edrito: \u00abEnquanto o homem \u00e9 esp\u00edrito segundo a sua ess\u00eancia, sai de si mesmo com a sua \u201cvida espiritual\u201d e entra num mundo que se abre a ele, sem perder nada de si mesmo. Exala n\u00e3o s\u00f3 a sua ess\u00eancia \u2013 como todo o produto real \u2013 de uma maneira espiritual exprimindo-se a si mesmo de forma consciente, mas, al\u00e9m disso, actua pessoal e espiritualmente. A alma humana, enquanto esp\u00edrito, eleva-se na sua vida espiritual por cima de si mesma\u00bb (SF 378-379).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A capacidade de uma vida espiritual aut\u00eantica no homem deve-se ao facto do seu esp\u00edrito ser participa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Divino (SF 377). Deste modo, a vida espiritual do homem deve ser considerada tamb\u00e9m como imagem da vida \u00edntima\u00a0 de Deus, da Trindade (SF 461 ss). A participa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano no esp\u00edrito divino sup\u00f5e necessariamente uma chamada e voca\u00e7\u00e3o \u00e0 uni\u00e3o com Deus, como realiza\u00e7\u00e3o em plenitude do seu ser. Por isso, a vida espiritual humana necessita de um cont\u00ednuo desenvolvimento ou ascens\u00e3o para essa meta. E porque a interioridade \u00e9, em definitivo, o mais espiritual do homem, a pessoa torna-se mais espiritual quanto mais vive no profundo do seu ser (SF 453 ss).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>c) A vida espiritual do ser humano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein, dada a sua compreens\u00e3o do homem, a felicidade e a realiza\u00e7\u00e3o da pessoa humana depende do desenvolvimento da sua vida espiritual. Por isso, descobre uma dupla finalidade na vida espiritual:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 caminho de interioriza\u00e7\u00e3o: o homem tem necessidade de se conhecer para se poder realizar. Mas adquire conhecimento do seu ser e da sua voca\u00e7\u00e3o s\u00f3 na medida em que se aproxima do centro do seu ser, onde conquista o seu maior grau de conhecimento, de liberdade, e de possibilidade de se unir com Deus: \u00abO centro da alma \u00e9 o lugar onde se faz ouvir a voz da consci\u00eancia, e o lugar da livre decis\u00e3o pessoal. Por isso e porque a livre decis\u00e3o da pessoa \u00e9 condi\u00e7\u00e3o requerida para a uni\u00e3o amorosa com Deus, esse lugar das livres op\u00e7\u00f5es deve ser tamb\u00e9m o lugar da livre uni\u00e3o com Deus\u00bb (OC V, 105).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 caminho de uni\u00e3o com Deus: do ponto de vista da antropologia crist\u00e3, o homem s\u00f3 encontra a sua plenitude em Deus. A pessoa humana foi criada \u00bb\u00e0 imagem e semelhan\u00e7a\u00bb de Deus, o que indica que est\u00e1 destinado a reproduzir durante toda a sua vida essa imagem. O encontro com Deus em Cristo realiza-se no mais profundo da pessoa. Ali descobre essa imagem e ali, no seu mais alto grau de liberdade, \u00e9 capaz de se entregar e unir com Deus. \u00abConhecemos a interioridade mais profunda da alma como a <em>morada de Deus<\/em>. Pela sua espiritualidade pura, esta interioridade \u00e9 capaz de acolher nela o esp\u00edrito de Deus. Pela sua livre personalidade pode dar-se a Ele, pois este dom \u00e9 necess\u00e1rio para tal acolhimento. A voca\u00e7\u00e3o de uni\u00e3o com Deus \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o \u00e0 vida eterna. J\u00e1 naturalmente a alma humana, enquanto produto espiritual puro, n\u00e3o \u00e9 mortal. Enquanto espiritual e pessoal, \u00e9 capaz, por outro lado, de uma crescimento da vida sobrenatural, e a f\u00e9 ensina-nos que Deus quer oferecer-lhe a vida eterna, quer dizer, a participa\u00e7\u00e3o eterna da sua pr\u00f3pria vida\u00bb (SF 518-519).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma compreens\u00e3o da vida espiritual nesta dupla dimens\u00e3o que Edite Stein prop\u00f5e, tem as seguintes consequ\u00eancias l\u00f3gicas (cf. Modelo 339 ss):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 que o aut\u00eantico desenvolvimento da vida espiritual leva a um reconhecimento da voca\u00e7\u00e3o individual da pessoa e \u00e0 sua pr\u00e1tica;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 ao mesmo tempo a pessoa quanto mais espiritual \u00e9 mais livre, porque o centro da sua interioridade \u00e9 o centro da sua liberdade, de onde pode tomar as decis\u00f5es com maior clareza e conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 o crescimento da vida espiritual no homem sup\u00f5e uma abertura cada vez maior ao mundo, enquanto que se torna capaz de sair de si mesmo e penetrar na realidade sem o perigo de ser absorvido por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e2mbito global da vida espiritual do homem fica aqui situada, embora s\u00f3 como base do que depois implica o seu desenvolvimento. Por isso, este tema, para se completar, necessita de fazer refer\u00eancia ao resto dos temas: quer os de car\u00e1cter antropol\u00f3gico (o ser do homem, a sua individualidade, o seu ser social e comunit\u00e1rio, a sua liberdade&#8230;), como os de car\u00e1cter teol\u00f3gico (import\u00e2ncia de Cristo, eclesiologia&#8230;), e espiritual (a din\u00e2mica do abandono, a ora\u00e7\u00e3o, a vida eucar\u00edstica, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein, em definitivo, n\u00e3o h\u00e1 homem se n\u00e3o h\u00e1 vida espiritual, quer dizer, se n\u00e3o desenvolve a dimens\u00e3o mais genu\u00edna e pr\u00f3pria da sua humanidade. A espiritualidade corresponde ao ser humano pelo simples facto de ser pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 178-179.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=984083\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=984083\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11262,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11260"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11263,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11260\/revisions\/11263"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11262"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}