{"id":11257,"date":"2021-02-25T07:00:12","date_gmt":"2021-02-25T07:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11257"},"modified":"2020-12-30T13:13:54","modified_gmt":"2020-12-30T13:13:54","slug":"pensamento-de-edith-stein-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-a-liberdade\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | A LIBERDADE"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A LIBERDADE<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da liberdade, dentro da antropologia steiniana, joga um papel de capital import\u00e2ncia. A pessoa define-se como um ser livre, e sem liberdade n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a pessoa subsistir. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 qualidade, mas elemento constitutivo. Procuramos evidenciar os aspectos mais importantes, vistos principalmente a partir do \u00e2mbito antropol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) Liberdade e pessoa humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein a liberdade n\u00e3o se reduz simplesmente a uma capacidade de optar. A liberdade n\u00e3o \u00e9 algo que se d\u00e1 na pessoa humana s\u00f3 pelo facto de ser pessoa, mas \u00e9\u00a0 algo tamb\u00e9m que se alcan\u00e7a e realiza. \u00c9 uma tarefa, tal como o desenvolvimento em plenitude do seu ser. Eu n\u00e3o sou livre simplesmente porque posso eleger aquilo de que gosto. Eu sou livre na medida em que alcan\u00e7o e conquisto o meu ser. Aqui se sublinha a ess\u00eancia da liberdade, que n\u00e3o depende somente das condi\u00e7\u00f5es externas, mas antes de tudo da busca da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 se entendermos a liberdade como a capacidade de optar por aquilo que \u00e9 o melhor para mim, aquilo que me aperfei\u00e7oa, ent\u00e3o podemos entender toda a elei\u00e7\u00e3o como ac\u00e7\u00e3o libertadora: torna-me mais homem, aperfei\u00e7oa-me. Pensemos que numa liberdade mal entendida, n\u00e3o \u00e9 em realidade o sujeito maduro que elege, mas os condicionalismos, os gostos, os prazeres&#8230; A falta de liberdade existe na medida em que h\u00e1 barreiras que impedem o desenvolvimento pleno do homem como homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade para Edite Stein n\u00e3o \u00e9 uma qualidade est\u00e1tica da pessoa humana. \u00c9 algo que a define, que a torna pessoa, e que esta conquista progressivamente. Ela postula um desenvolvimento gradual da mesma: o homem \u00e9 livre na medida em que vai conquistando a sua liberdade. Por isso mesmo, distingue tr\u00eas graus de liberdade humana: pr\u00e9-liberdade, consci\u00eancia da sua racionalidade, ser si mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) A pr\u00e9-liberdade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro grau ou tipo de liberdade Edite identifica-o como pr\u00e9-liberdade, \u00e9 o que corresponde com a pr\u00f3pria natureza do ser humano. No seu estado natural o homem descobre, mais que a liberdade, uma limita\u00e7\u00e3o existencial e natural. Quer dizer, a sua vida est\u00e1 inserida num processo natural diante do qual ele n\u00e3o pode optar pessoalmente: nasce, cresce e morre como qualquer outro ser vivo, sem poder fazer nada em contra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constata ao mesmo tempo a sua limita\u00e7\u00e3o individual: o homem\u00a0 \u00e9 filho de um ambiente, duma cultura, de umas condi\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o que o orientam num sentido ou noutro. Limita\u00e7\u00e3o que ele, em princ\u00edpio, n\u00e3o pode controlar nem chegar a mudar,\u00a0 e que durante a sua vida exercem nele uma influ\u00eancia dif\u00edcil de superar. Esta realidade natural do homem limita a sua liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, ser\u00e1 capaz de ser \u00ablivre\u00bb diante do seu mundo natural \u2013 no espa\u00e7o que resta de liberdade \u2013, na medida em que se torne consciente da sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o. S\u00f3 reconhecendo a pr\u00f3pria realidade \u00e9 poss\u00edvel a liberdade, enquanto tomada de posi\u00e7\u00e3o diante uma \u00abnatureza\u00bb que arrasta para onde ela quer. \u00c9 o ponto de partida no caminho da liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>c) Liberdade e raz\u00e3o humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a pessoa toma consci\u00eancia da sua racionalidade, da sua espiritualidade, descobre que, apesar da limita\u00e7\u00e3o, pode ser em certo sentido livre. Realiza o exerc\u00edcio desta liberdade na medida em que chega a conhecer-se, a descobrir-se a si mesma e toma consci\u00eancia de que \u00abse possui\u00bb. Sente que \u00e9 respons\u00e1vel da sua vida, que \u00abpode e deve formar-se a si mesmo\u00bb (OC IV, 648). O homem consciente da sua liberdade d\u00e1-se conta de que \u00abo que oferece pela sua liberdade e para qu\u00ea entrega o oferecido, \u00e9 isto o que decide o destino da pessoa\u00bb (ESW, 140).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade \u00e9 \u00abum elemento constituinte da pessoa\u00bb (ESW XIII, 161). Ao contr\u00e1rio dos seres que n\u00e3o possuem liberdade, o homem \u00e9 \u00abSenhor da sua alma e pode abrir ou fechar as portas\u00bb. \u00c9 a pr\u00f3pria pessoa que decide fazer uso ou n\u00e3o da sua liberdade, por mui limitada que esta seja. \u00abSer pessoa significa ser uma ess\u00eancia livre e espiritual\u00bb (OC IV, 648), entendendo por espiritual a capacidade de saber que <strong>sou <\/strong>e que <strong>vivo<\/strong>, quer dizer, ter consci\u00eancia clara da minha ess\u00eancia e exist\u00eancia vividas como pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta perspectiva a pessoa compreende a sua liberdade como \u00ab<strong>eu posso<\/strong>\u00bb, como \u00abo dom de informar por si mesmo o comportamento propriamente dito\u00bb (SF 378). Enquanto Eu \u00abdesperto e espiritual\u00bb o homem move-se num mundo no qual as coisas o incitam a mover-se numa determinada direc\u00e7\u00e3o. Com a sua raz\u00e3o pode deixar-se ou n\u00e3o levar, ou inclusive, renunciando \u00e0 sua raz\u00e3o e liberdade de op\u00e7\u00e3o, pode deixar-se arrastar pelo que lhe solicitam os instintos, caindo na anula\u00e7\u00e3o da sua liberdade e, portanto, do seu ser pessoa. N\u00e3o obstante, a liberdade de actua\u00e7\u00e3o do homem permanece sempre limitada \u00e0s suas capacidades e a uma longa s\u00e9rie de condicionalismos, tanto conscientes como inconscientes (cf. ib. 389).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A supera\u00e7\u00e3o dessa barreiras s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no mais profundo da sua interioridade, onde o homem se sente em sua casa e \u00e9 capaz de tomar dist\u00e2ncia diante dos condicionalismos. Mas este momento alcan\u00e7a-se s\u00f3 a partir de Deus, a partir da for\u00e7a da gra\u00e7a. O crente percebe que \u00ab\u00e9 livre e respons\u00e1vel daquilo em que se converte\u00bb e que pode e deve identificar a sua vontade com a vontade divina (OC IV, 743). A liberdade limitada do homem, e a sua incapacidade de agir guiado por um aut\u00eantico sentido da liberdade, encontra a sua raz\u00e3o de ser na queda dos primeiros homens, no pecado original (cf. OC IV, 783 ss., 810 ss). Desde Cristo, desde a uni\u00e3o com Deus, o homem alcan\u00e7a a plenitude da sua liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>d) Liberdade e \u00absi mesmo\u00bb<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais alto grau de liberdade que o homem pode alcan\u00e7ar coincide com a conquista da sua interioridade, quando alcan\u00e7ou o centro do seu ser, que para Edite Stein coincide com o centro da liberdade. Isto explicar\u00e1 a raz\u00e3o pela qual s\u00f3 no centro da alma, isto \u00e9, <strong>quando sou eu mesmo<\/strong>, se d\u00e1 a uni\u00e3o com Deus. E se o avaliamos desde a perspectiva steiniana torna-se antropologicamente l\u00f3gico. S\u00f3 h\u00e1 uni\u00e3o total, quer dizer, uni\u00e3o de amores, quando h\u00e1 liberdade. O amor n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem liberdade. E a liberdade e o amor n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis sem o conhecimento. Do mesmo modo que n\u00e3o posso amar a quem n\u00e3o conhe\u00e7o, n\u00e3o posso amar-me, n\u00e3o me posso dispor para a uni\u00e3o m\u00edstica se antes n\u00e3o me conhe\u00e7o. Aqui estaria uma das chaves que nos levariam a compreender a raz\u00e3o pela qual o homem s\u00f3 \u00e9 homem na medida em que se une com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, esta liberdade n\u00e3o \u00e9 simples conquista do homem, que \u00abferido\u00bb pelo pecado, \u00e9 incapaz de chegar com as suas pr\u00f3prias for\u00e7as ao mais profundo do seu ser. Este momento s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel no seu radicalismo como dom da gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 176-177.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1209945\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1209945\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11258,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11257","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11257","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11257"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11257\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11259,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11257\/revisions\/11259"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}