{"id":11252,"date":"2021-02-18T07:00:41","date_gmt":"2021-02-18T07:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11252"},"modified":"2020-12-30T13:10:20","modified_gmt":"2020-12-30T13:10:20","slug":"pensamento-de-edith-stein-a-individualidade-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-a-individualidade-2\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | A PESSOA COMO SER RELACIONAL"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A PESSOA COMO SER RELACIONAL<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntamente com o tema da individualidade, Edite desenvolve o tema da comunidade. \u00c9 algo fundamental na vida do homem examinar as suas rela\u00e7\u00f5es, o sentido e o valor de cada um. N\u00e3o s\u00f3 porque tem de relacionar-se com outros e viver em sociedades e comunidades, mas porque o seu ser necessita desta dimens\u00e3o para se desenvolver em plenitude. O tema aparece em todos os seus escritos onde fala da pessoa humana. Desde as suas obras fenomenol\u00f3gicas, onde inclusive o tema se insinua nos t\u00edtulos (<em>Indiv\u00edduo e<\/em> <em>comunidade<\/em> ou <em>Investiga\u00e7\u00e3o sobre o Estado<\/em>), at\u00e9 aos seus estudos de filosofia crist\u00e3 (<em>Ser finito e ser eterno<\/em>, <em>Estrutura da pessoa humana<\/em>&#8230;) onde h\u00e1 sempre um apartado dedicado a tratar a quest\u00e3o. Evidenciamos agora alguns dos elementos mais destacados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>a) Elemento constitutivo da pessoa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser pessoa implica ontologicamente rela\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria estrutura do ser humano enquanto esp\u00edrito est\u00e1 a exigir abertura. O indiv\u00edduo, se existisse s\u00f3 ele, j\u00e1 n\u00e3o seria pessoa. \u00c9 precisamente na comunidade humana onde a sua individualidade adquire sentido e valor. O desenvolvimento do meu ser depende da minha posi\u00e7\u00e3o perante os outros. No \u00e2mbito profissional observa-se distintamente: a minha profiss\u00e3o n\u00e3o teria nenhum sentido e eu n\u00e3o poderia realiz\u00e1-la sem a exist\u00eancia do outro. Este dado da experi\u00eancia mais elementar pode ser ponto de partida para come\u00e7ar a considerar o outro como um valor. Inclusive desde o plano mais inicial de considera\u00e7\u00e3o da minha dignidade, do que eu sou, o outro joga um papel essencial. Ficava manifesto no tema da empatia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirmar que a pessoa \u00e9 um ser relacional, \u00e9 defini-la como membro de um todo: \u00aba rela\u00e7\u00e3o \u00e9 novamente uma rela\u00e7\u00e3o completamente diferente, uma vez que a ess\u00eancia singular n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma particulariza\u00e7\u00e3o relativa ao conte\u00fado, mas um membro de um todo que se realiza enquanto unidade vital e que s\u00f3 pode desabrochar\u00a0\u00a0 dentro do todo no seu lugar e com o concurso dos outros\u00bb (SF 522).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o podemos entend\u00ea-la simplesmente do ponto de vista superficial, isto \u00e9, enquanto que a pessoa necessita da \u00abcomunidade\u00bb para se reproduzir, conservar, proteger&#8230; Este car\u00e1cter relacional abrange toda a realidade do ser humano, quer dizer, \u00abtodas as produ\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito humano convertem-se em bens comuns da humanidade para servir de alimento \u00e0s almas das gera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas e seguintes\u00bb (Ib.). De tal maneira que o ser \u00abrelacional\u00bb do indiv\u00edduo estende-se a toda a humanidade, a qual, por sua natureza espiritual tamb\u00e9m \u00ab\u00e9 chamada a uma vida em sociedade que se eleva por cima dos limites do tempo e do espa\u00e7o\u00bb (ib.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 t\u00e3o necess\u00e1rio o desenvolvimento da dimens\u00e3o \u00abrelacional\u00bb do ser humano que, sem ela, nunca chegaria a conhecer-se realmente. J\u00e1 se insinuava em rela\u00e7\u00e3o com o que implica o acto emp\u00e1tico, que come\u00e7amos a conhecer s\u00f3 quando entramos em contacto com o outro. Sempre que nos aproximemos numa atitude de abertura, ou como diria Edite Stein, de aut\u00eantica empatia. Falando o significado da empatia para a constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria pessoa, diz-nos: \u00abn\u00e3o s\u00f3 nos ensina a tornar-nos n\u00f3s mesmos objecto, mas leva a desenvolver&#8230;, o que \u201cdormita\u201d em n\u00f3s, e como empatia com estruturas pessoais formadas de outra maneira nos ilustra sobre o que n\u00e3o somos, sobre o que somos de mais ou de menos em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Com isto, \u00e9 dado, a par do autoconhecimento, um importante meio auxiliar para a autovaloriza\u00e7\u00e3o&#8230; Toda\u00a0 a apreens\u00e3o de pessoas de outra classe pode chegar a ser fundamento de uma compara\u00e7\u00e3o de valores\u00bb (<em>Sobre o<\/em> <em>problema da empatia<\/em>, 134).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) \u00c2mbito de realiza\u00e7\u00e3o pessoal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser relacional \u00e9 efeito dessa energia espiritual presente em toda a pessoa, que a abre ao outro, superando os limites da pr\u00f3pria subjectividade. \u00c9 uma exig\u00eancia impl\u00edcita na pessoa, que pode ser obstaculizada, mas que est\u00e1 sempre a exigir que a pessoa ultrapasse os seus horizontes para se realizar a si mesma, integrando em si o mundo dos valores, objectos, experi\u00eancias, pessoas&#8230; S\u00f3 assim se entende e explica a raz\u00e3o pela qual a pessoa se realiza e alcan\u00e7a plenamente a sua felicidade no amor: \u00e9 o acto espiritual supremo, do qual \u00e9 capaz pela sua espiritualidade. No amor o homem entrega-se totalmente e acolhe o outro totalmente. \u00c9 a mostra mais evidente da sua espiritualidade. Isto porque o amor s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entre pessoas espirituais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde um n\u00edvel antropol\u00f3gico teol\u00f3gico justifica-se igualmente a raz\u00e3o pela qual o homem \u00e9 capaz de uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus, exclu\u00edda totalmente no reino animal e vegetal. Dizer que o homem \u00e9 um ser relacional e espiritual, \u00e9 dizer que o homem \u00e9 capaz de amar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na rela\u00e7\u00e3o com a comunidade humana o homem n\u00e3o s\u00f3 se realiza, mas contribui \u2013 com a sua entrega \u2013, (o seu trabalho, a sua criatividade&#8230;) para o desenvolvimento da comunidade. Para Edite Stein n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e comunidade (sempre que ambas sejam aut\u00eanticas). A comunidade n\u00e3o \u00e9 uma soma de indiv\u00edduos, mas a realiza\u00e7\u00e3o de individualidades num \u00e2mbito de rela\u00e7\u00f5es intersubjectivas, quer dizer, todos e cada um s\u00e3o sujeitos (EUS) com um nome, e n\u00e3o objectos ou n\u00fameros. Uma comunidade que suprime o indiv\u00edduo deixa de ser comunidade. E um indiv\u00edduo que prescinde da comunidade n\u00e3o desenvolve a sua individualidade pr\u00f3pria e caracter\u00edstica, mas uma falsa imagem ou pretens\u00e3o da mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plano religioso do cristianismo isto adquire um valor ainda mais s\u00f3lido, sobretudo se contemplado como um membro desse Corpo de Cristo que todos formamos: \u00abEsta experi\u00eancia sempre fragment\u00e1ria, por vezes mal interpretada ou inteiramente incompreendida, recebe o seu fundamento s\u00f3lido e uma clara significa\u00e7\u00e3o pela doutrina da cria\u00e7\u00e3o e da reden\u00e7\u00e3o, que remonta \u00e0 origem de todos os homens a um antepassado original e situa o fim do desenvolvimento inteiro da humanidade na comunh\u00e3o sob a \u00fanica cabe\u00e7a divina e humana, num s\u00f3 corpo m\u00edstico, o de Jesus Cristo\u00bb (SF 525). Vemos novamente como a verdade revelada termina ampliando ou assentando os princ\u00edpios da compreens\u00e3o do homem deduzidos em clave filos\u00f3fica-antropol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste mesmo ser relacional encontra Edite o fundamento antropol\u00f3gico da voca\u00e7\u00e3o de todo o ser humano \u00e0 ecologia, entendida como rela\u00e7\u00e3o harm\u00f3nica com toda a cria\u00e7\u00e3o. \u00abPodemos ir ainda mais al\u00e9m e compreender sob o corpo m\u00edstico a cria\u00e7\u00e3o inteira segundo a ordem natural, uma vez que tudo foi criado \u00e0 imagem do Filho de Deus, e porque entrou pela sua encarna\u00e7\u00e3o no conjunto da cria\u00e7\u00e3o: tamb\u00e9m segundo a ordem da gra\u00e7a, pois a gra\u00e7a da cabe\u00e7a derrama-se com profus\u00e3o em todos os seus membros, n\u00e3o s\u00f3 nos homens, mas tamb\u00e9m em todas as criaturas\u00bb (SF 542).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o com este tema, dever\u00edamos ter em conta todas as implica\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito social e pol\u00edtico que Edite tamb\u00e9m desenvolve. Para ela \u00e9 de suma import\u00e2ncia reconhecer a verdadeira natureza do que \u00e9 a comunidade, a sociedade, a massa, o Estado&#8230;, porque ali \u00e9 onde, em definitivo, se leva \u00e0 pr\u00e1tica a dimens\u00e3o relacional ou social do ser humano. Para um aprofundamento destes temas remetemos para as suas obras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 174-175.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/jacksondavid-1857643\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5216585\">Jackson David<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5216585\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11255,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11252","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11252"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11252\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11256,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11252\/revisions\/11256"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}