{"id":11249,"date":"2021-02-11T07:00:49","date_gmt":"2021-02-11T07:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11249"},"modified":"2020-12-30T13:05:37","modified_gmt":"2020-12-30T13:05:37","slug":"pensamento-de-edith-stein-a-individualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-a-individualidade\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | A INDIVIDUALIDADE"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A INDIVIDUALIDADE<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 outro dos elementos sublinhados constantemente pela antropologia steiniana. Em parte como reac\u00e7\u00e3o quer diante das ideologias totalit\u00e1rias que pretendiam converter os sujeitos em massa, quer diante das teorias relativistas ou individualistas, que faziam do indiv\u00edduo um ser completamente aut\u00f3nomo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A individualidade recupera em Edite Stein para toda a pessoa a sua capacidade de ser, a sua \u201cpersonalidade\u201d ou a sua irrepetibilidade. E aqui radica a dignidade e a voca\u00e7\u00e3o do ser humano. O facto de ser confere a dignidade. Mas o homem n\u00e3o \u00e9 um ser vazio, e apesar das limita\u00e7\u00f5es e dos diversos condicionalismos, cada um leva consigo um eu pr\u00f3prio que deve conhecer para poder realizar. A\u00ed radica uma das principais chaves da realiza\u00e7\u00e3o e da plenitude de todo o ser humano: ser ele mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da individualidade v\u00ea a luz j\u00e1 em <em>Indiv\u00edduo e comunidade<\/em>, um dos seus primeiros trabalhos. Assenta ali as bases para uma compreens\u00e3o correcta da individualidade, que \u00e9 \u00abunicidade irrepet\u00edvel e indissol\u00favel\u00bb, entendida como uma qualidade irrepet\u00edvel e \u00fanica, E o n\u00facleo desta individualidade radica no mais profundo do homem, na sua alma. Este elemento adquirir\u00e1 um sentido ainda mais elevado em contacto com a revela\u00e7\u00e3o e a teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) Necess\u00e1ria para a compreens\u00e3o do ser humano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edite Stein a individualidade n\u00e3o \u00e9 somente uma nota essencial do homem, mas prescindir dela suporia a incompreens\u00e3o do homem: \u00abQuando tratamos do ser pessoal do homem, ro\u00e7amos de muitas maneiras outro problema que j\u00e1 encontramos noutros contextos e que devemos esclarecer agora se queremos entender a ess\u00eancia do homem, o seu lugar na ordem do mundo criado e a sua rela\u00e7\u00e3o com o ser divino; trata-se do problema do ser individual (da individualidade) do homem&#8230;\u00bb (SF 483).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o muitas e relevantes as quest\u00f5es dependentes da justa compreens\u00e3o do ser individual do homem: o que ele \u00e9, o seu lugar na cria\u00e7\u00e3o, a sua rela\u00e7\u00e3o com Deus. Em definitivo, da compreens\u00e3o da sua individualidade o homem adquire um melhor conhecimento de si, da sua voca\u00e7\u00e3o, e do seu ser e estar no mundo e com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00abser individual humano\u00bb apresenta-se a n\u00f3s como um todo cheio de sentido que, no entanto, alcan\u00e7a a sua verdadeira plenitude na sua rela\u00e7\u00e3o com o ser divino, no qual descobre o seu ser origin\u00e1rio e voca\u00e7\u00e3o, o seu ser individual mas aberto e formando parte de um grupo no qual deve encaixar e desenvolver a sua individualidade. Comunidade e individualidade s\u00e3o dois elementos necess\u00e1rios na compreens\u00e3o do homem e na sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz\u00edamos que Edite fundamenta a individualidade na alma. A alma forma unidade com o corpo, por isso o seu car\u00e1cter individual comunica-se, manifesta-se e realiza-se em toda a unidade do homem, constituindo-se num ser essencialmente individual (SF 447). Mesmo sendo uma nota essencial, e sabendo que a sua origem se encontra num acto criador de Deus (tal como afirma a doutrina da f\u00e9), n\u00e3o deixa de ser uma realidade \u00abmisteriosa\u00bb que nunca acabamos de captar\u00a0 em todo o seu significado. \u00c9 uma realidade \u00abintoc\u00e1vel\u00bb que, ao mesmo tempo, se constitui em \u00abcar\u00e1cter\u00bb do ser da pessoa humana (cf. SF 516). A \u00abindividualidade\u00bb manifesta-se em todo o acto humano. \u00c9 a \u00abmaneira de ser\u00bb da cada pessoa humana, que se exprime em cada instante do eu. \u00c9 algo que se percebe, mas que no fundo permanece sempre \u00abincomunic\u00e1vel\u00bb e intransfer\u00edvel (cf. ib. 483-484).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b) Implica\u00e7\u00f5es na vida da pessoa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem, para alcan\u00e7ar a sua plenitude, deve necessariamente realizar a sua individualidade. Mas, para a realizar, deve conhec\u00ea-la. Nesta quest\u00e3o, Edite faz-nos ver como todas as realidades que afectam o desenvolvimento do ser do homem v\u00e3o profundamente implicadas: o conhecimento do seu ser, o grau de liberdade, o conhecimento e o desenvolvimento da sua individualidade, o seu lugar no mundo, o posicionamento do seu eu, a sua rela\u00e7\u00e3o com os outros, com a cria\u00e7\u00e3o e com o mundo. Por isso, pode afirmar que o conhecimento da pr\u00f3pria individualidade identifica-se com o conhecimento da pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o; e isso \u00e9 poss\u00edvel s\u00f3 desde uma vida espiritual aut\u00eantica, a saber, depende do grau de interioridade alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este lugar central que a individualidade ocupa na pessoa humana, ajuda-nos a compreend\u00ea-la como valor essencial: \u00abPertence \u00e0 ess\u00eancia do homem que cada indiv\u00edduo e a inteira humanidade alcancem aquilo para o qual est\u00e3o determinados segundo a sua natureza num desenvolvimento temporal, e que este desenvolvimento est\u00e1 ligado \u00e0 livre coopera\u00e7\u00e3o de cada um e \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de todos\u00bb (SF 541). Por outro lado, que o seu desenvolvimento apare\u00e7a ligado, tanto \u00e0 pessoa como \u00e0 comunidade humana na qual vive, manifesta-nos a corresponsabilidade humana como factor necess\u00e1rio para uma actua\u00e7\u00e3o efectiva da mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o valor essencial e existencial da individualidade radica na sua origem, em que \u00e9 dom de Deus para o homem e para a humanidade: \u00abDeus, que imprimiu em cada alma um selo particular, une a cada uma de um modo especial e pr\u00f3prio com Ele. Da abund\u00e2ncia da vida divina, que nenhum cora\u00e7\u00e3o humano pode abranger, concede o Senhor a cada um especial mist\u00e9rio atrav\u00e9s do qual, Ele oferece um caminho incompreens\u00edvel\u00bb (OC V, 582).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ligar a \u00abindividualidade\u00bb com o acto criador de Deus leva consigo uma vis\u00e3o do ser humano muito especial, que sublinha a infinita dignidade de cada um: \u00abAssim a alma individual com essa sua maneira de ser \u00fanica j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ef\u00e9mera; n\u00e3o est\u00e1 somente destinada a manifestar em si mesma a particularidade espec\u00edfica por uma dura\u00e7\u00e3o passageira, e durante esta dura\u00e7\u00e3o a transmiti-la aos seus descendentes a fim de que seja salvaguardada mais al\u00e9m da vida individual: a alma individual encontra-se destinada a uma vida eterna, o que permite compreender que deve reproduzir a imagem de Deus de uma maneira completamente pessoal\u00bb (SF 518-519).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto de Edite Stein faz-nos ver a grande import\u00e2ncia que para ela, adquire a quest\u00e3o da individualidade, considerada como pe\u00e7a chave no processo evolutivo da pessoa. A individualidade \u00e9 o maior tesouro que o homem possui. N\u00e3o \u00e9 algo acidental nem sequer na voca\u00e7\u00e3o \u00e0 uni\u00e3o com Deus, mas algo essencial \u00e0 mesma. Est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o directa com o que significa cumprir a vontade de Deus. Com maior evid\u00eancia encontramos esta ideia reflectida no seguinte texto: \u00abMas quando a vida terrestre chega ao seu fim e tudo o que era perecedouro se separa, ent\u00e3o cada alma humana se conhecer\u00e1 \u201ctal como \u00e9 conhecida\u201d, quer dizer, tal como \u00e9 diante de Deus: a saber, como Deus a fez ao cri\u00e1-la, o fim para o qual a criou de maneira inteiramente pessoal, e o que ela chegou a ser na ordem da natureza e da gra\u00e7a e a isto h\u00e1 que agregar principalmente: em virtude da suas decis\u00f5es livres\u00bb (Ib. 519).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto ilumina ainda mais o que implica o desenvolvimento da individualidade. O homem \u00e9 chamado a realizar-se durante a sua vida, a chegar a ser aquilo que \u00e9. O homem deve actualizar a sua ess\u00eancia, \u00abo que deve ser de forma completamente pessoal, caminha o seu caminho, e exerce a sua pr\u00f3pria obra\u00bb (OC IV, 518). A plenitude do seu ser humano alcan\u00e7a-se s\u00f3 na medida em que se conhece e realiza a individualidade pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 172-173.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2923048\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2923048\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11250,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11249"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11251,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11249\/revisions\/11251"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}