{"id":11246,"date":"2021-02-04T07:00:39","date_gmt":"2021-02-04T07:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11246"},"modified":"2020-12-30T13:01:47","modified_gmt":"2020-12-30T13:01:47","slug":"pensamento-de-edith-stein-o-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-o-eu\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | O EU"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">O EU<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema do \u00abeu\u00bb \u00e9 fundamental na compreens\u00e3o da doutrina antropol\u00f3gica de Edite Stein. N\u00e3o podemos aqui apresentar toda a vastid\u00e3o do tema e as suas implica\u00e7\u00f5es. Queremos apenas real\u00e7ar aqueles elementos chave que, depois, ter\u00e3o uma incid\u00eancia decisiva na compreens\u00e3o das outras fichas que apresentamos. Como ponto de partida tomamos o que Edite entende por pessoa: \u00abo eu consciente e livre\u00bb (SF 391), quer dizer o eu \u00e9 sujeito de experi\u00eancia, de liberdade e unidade de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>a) A defini\u00e7\u00e3o do \u00abeu\u00bb<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edite esclarece o termo em diversos lugares dos seus escritos. Na sua grande obra <em>Ser finito e ser eterno<\/em> oferece-nos a seguinte defini\u00e7\u00e3o: \u00abPor eu entendemos o ente cujo ser \u00e9 vida (n\u00e3o a vida no sentido da forma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria) e que, neste ser, \u00e9 consci\u00eancia de si mesmo (na forma inferior da sensibilidade confusa ou na mais alta esfera da consci\u00eancia desperta). O eu n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico \u00e0 alma e t\u00e3o-pouco ao corpo. Fala no corpo e na alma, encontra-se presente em cada ponto em que sente algo presente e vivo; contudo, tem a sua pr\u00f3pria sede num ponto determinado do corpo e em certo \u00ablugar\u00bb da alma, e visto que o seu corpo e a sua alma lhe pertencem, confere-se o nome de eu ao homem inteiro\u00bb (SF 389).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, deveria compreender-se o \u00abeu\u00bb como a identifica\u00e7\u00e3o da pessoa com o seu pr\u00f3prio ser, a tomada de consci\u00eancia da sua realidade e assun\u00e7\u00e3o da mesma, a capacidade de se \u00abmover\u00bb dentro do quadro que o constitui como tal. Por isso, todos os actos da pessoa, especialmente aqueles intencionais, levam em si a marca desse eu. O seu agir corresponde \u00e0 sua coloca\u00e7\u00e3o diante de si mesmo e diante do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) O \u00abeu\u00bb como atitude de vida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficou sublinhado que o elemento que caracteriza o eu, \u00e9 a tomada de posse, ou dito de outro modo, a consci\u00eancia evidente de quem se \u00e9. Neste sentido, Edite vai sublinhar o conceito de mobilidade no eu, como a busca da pr\u00f3pria identidade, como necess\u00e1rio conhecimento de si, como descoberta do pr\u00f3prio ser. Neste sentido, deixa-se iluminar pela pr\u00f3pria experi\u00eancia dos m\u00edsticos. Concretamente, no seu escrito sobre o <em>Castelo interior<\/em> afirma: \u00abo Eu aparece como um \u201cponto\u201d m\u00f3vel dentro do \u201cespa\u00e7o\u201d da alma; ali onde tomar posi\u00e7\u00e3o, ali acende-se a luz da consci\u00eancia e ilumina um certo contexto: tanto no interior da alma, como no mundo exterior objectivo para o qual o Eu est\u00e1 dirigido. Apesar da sua mobilidade, o Eu est\u00e1 sempre ligado \u00e0quele im\u00f3vel ponto central da alma no qual se sente na sua pr\u00f3pria casa. Sentir-se-\u00e1 sempre chamado para esse ponto (trata-se novamente de um ponto que tivemos que levar mais al\u00e9m de quanto nos diz ao respeito o <em>Castelo interior<\/em>), n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 convocado a\u00ed \u00e0s mais altas gra\u00e7as m\u00edsticas do despos\u00f3rio espiritual com Deus, mas desde aqui pode tomar as decis\u00f5es \u00faltimas a que o homem \u00e9 chamado como pessoa livre\u00bb (OC V, 105).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depende, pois, do lugar onde se coloque o eu, o que define a sua atitude diante da vida, o seu grau de consci\u00eancia e conhecimento de si. Certamente que existe a possibilidade de que esse eu seja, em certo sentido, \u00abanulado\u00bb, obrigando-o a viver \u00absuperficialmente\u00bb em rela\u00e7\u00e3o ao seu espa\u00e7o de movimento. Faz-se novamente eco da import\u00e2ncia radical que tem a posi\u00e7\u00e3o do eu no mais interior da pessoa na sua obra sobre Jo\u00e3o da Cruz, a <em>Ci\u00eancia da Cruz<\/em>, onde nos apresenta a tipologia de homem segundo a posi\u00e7\u00e3o do seu eu: \u00abA estrutura da ess\u00eancia da alma \u2013 a sua maior ou menor profundidade \u2013, e naquela, igualmente de forma natural, funda-se o movimento do eu nesse \u201cespa\u00e7o\u201d como possibilidade do ser. Toma esta ou aquela postura, segundo os \u201cmotivos\u201d que lhe afectam. Mas os seus movimentos partem de um ponto onde gosta\u00a0 pousar-se preferencialmente, segundo os diversos tipos humanos. O homem sensual,&#8230; situa-se num ponto muito afastado do mais profundo centro da sua alma. O buscador da verdade vive preferentemente nesse ponto do cora\u00e7\u00e3o onde tem lugar a actividade investigadora do entendimento; se procura buscar a verdade a s\u00e9rio (&#8230;), ent\u00e3o talvez se encontre mais perto de Deus&#8230;, mais perto tamb\u00e9m do seu mais profundo centro&#8230; outro terceiro,&#8230; \u00e9 o do \u201chomem-eu\u201d, que anda sempre \u00e0 volta de seu pr\u00f3prio eu. Olhando superficialmente, poderia parecer que vive muito no seu interior, e, no entanto, talvez nenhum outro tipo tenha mais fechado o caminho que conduz a essas profundidades\u00bb (OC V, 344).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>c) O eu como conhecimento e liberdade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta concep\u00e7\u00e3o do eu que Edite manifesta, especialmente nos seus escritos m\u00edsticos, leva-nos a ver com maior clareza, como esse ponto m\u00f3vel adquire uma import\u00e2ncia fundamental na constitui\u00e7\u00e3o do homem como pessoa. A posi\u00e7\u00e3o dom eu \u00e9 a que, consequentemente, define o grau de conhecimento e de liberdade que a pessoa alcan\u00e7ou sobre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O eu consciente \u00e9 o eu que optou por penetrar no mais profundo do seu ser, aquele que realmente se conhece e tem uma consci\u00eancia clara de si. Edite exprime-o em muitos lugares. Basta citar aqui duas afirma\u00e7\u00f5es da sua obra <em>Ser finito e ser eterno<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00abNa interioridade capta-se interiormente a ess\u00eancia da alma. Quando o eu vive nessa interioridade sobre o fundamento do seu ser, ali onde ele est\u00e1 totalmente como em sua casa e habita, adivinha ent\u00e3o em parte o sentido do seu ser, experimenta a sua for\u00e7a concentrada neste ponto antes da sua divis\u00e3o em for\u00e7as separadas. E quando a sua vida se alimenta desta <strong>interioridade<\/strong>, <strong>vive plenamente e alcan\u00e7a o grau mais elevado do seu<\/strong> <strong>ser<\/strong>. Os elementos recebidos do exterior n\u00e3o subsistem s\u00f3 a t\u00edtulo de recorda\u00e7\u00f5es, mas podem transformar-se na carne e no sangue. Assim convertem-se nele numa fonte din\u00e2mica dispensadora de vida\u00bb (SF 451).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00ab<strong>O eu pessoal encontra-se inteiramente nele na interioridade mais profunda da alma<\/strong>. Quando vive nessa interioridade, disp\u00f5e da for\u00e7a total da alma e pode utiliz\u00e1-la livremente. Al\u00e9m disso, est\u00e1 ent\u00e3o o mais perto poss\u00edvel do sentido de tudo o que acontece; est\u00e1 aberto \u00e0s exig\u00eancias que se lhe apresentam; pode apreciar melhor o seu significado e import\u00e2ncia\u00bb (SF 453).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este posicionamento do eu no mais profundo do seu ser, \u00e9 o que faz que tamb\u00e9m viva a partir do lugar onde ele \u00e9 realmente livre, ao menos aqui alcan\u00e7a o mais alto grau de liberdade que lhe \u00e9 poss\u00edvel enquanto criatura. O eu \u00e9, por isso, aquilo pelo qual a pessoa se possui a si mesma: \u00abA possibilidade de \u201cse mover\u201d em si mesma funda-se na \u201cpossibilidade de forma\u00e7\u00e3o do Eu\u201d da alma. O <em>eu<\/em> \u00e9 na alma aquilo pelo qual ela se possui a si mesma e o que nela se move como no seu pr\u00f3prio \u201ccampo\u201d. O ponto mais profundo \u00e9, ao mesmo tempo, o lugar da sua liberdade: o lugar, onde pode concentrar todo o ser e pode decidir. Decis\u00f5es livres de menor import\u00e2ncia poder\u00e3o, em certo modo, ser tomadas desde um ponto situado \u201cmuito mais no exterior\u201d; mas ser\u00e3o decis\u00f5es \u201csuperficiais\u201d; ser\u00e1 pura \u201ccasualidade\u201d que uma decis\u00e3o assim seja a adequada, porque somente partindo do centro mais profundo se tem a possibilidade de medir tudo com a regra \u00faltima; e, t\u00e3o-pouco ser <em>finalmente<\/em> uma decis\u00e3o livre, porque o que n\u00e3o \u00e9 dono absoluto de si mesmo, n\u00e3o pode dispor com verdadeira liberdade, mas \u201cdeixa-se determinar\u201d\u00bb (OC V, 341).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 170-171.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/simedblack-5480894\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3864155\">Med Ahabchane<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3864155\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11247,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11246","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11246"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11246\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11248,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11246\/revisions\/11248"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}