{"id":11240,"date":"2021-01-20T07:00:40","date_gmt":"2021-01-20T07:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11240"},"modified":"2021-01-20T11:09:29","modified_gmt":"2021-01-20T11:09:29","slug":"pensamento-de-edith-stein-o-ser-humano-uma-unidade-no-seu-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-o-ser-humano-uma-unidade-no-seu-ser\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | O SER HUMANO: UMA UNIDADE NO SEU SER"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">O SER HUMANO: UMA UNIDADE NO SEU SER<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a compreens\u00e3o correcta do homem parte da compreens\u00e3o do seu ser como ser unit\u00e1rio. N\u00e3o se trata de uma alma que vive num corpo, mas de uma unidade de corpo, alma e esp\u00edrito. Somente desde a unidade se pode compreender correctamente cada um dos \u00abestratos ou componentes\u00bb do ser humano. Estes elementos constitutivos s\u00e3o os que definem a natureza do homem, um ser que, ao mesmo tempo, \u00e9 espiritual e material, que se encontra como ponto de uni\u00e3o entre as duas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A unidade do homem \u00e9 algo que lhe corresponde, mas que, ao mesmo tempo, tem que conquistar como meta da sua plena realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 um dos objectivos da vida da gra\u00e7a, que procura a unifica\u00e7\u00e3o da natureza em si e com Deus, devolver ao homem o seu\u00a0 estado original, imagem aut\u00eantica da unidade trinit\u00e1ria. Neste sentido, a recupera\u00e7\u00e3o da unidade pessoal \u00e9 voca\u00e7\u00e3o que o homem tem que realizar na sua vida. A pessoa unificada \u00e9 uma \u00abpessoa espiritual que est\u00e1 numa livre posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 diante do seu corpo, mas tamb\u00e9m diante da sua alma\u00bb (SF 442). Real\u00e7amos os elementos mais evidentes em Edite:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) Unidade como elemento constitutivo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu primeiro trabalho, na sua tese de doutoramento (PE) j\u00e1 se manifesta sobre a unidade do homem, na qual analisa a \u00abempatia\u00bb como uma acto da pessoa. As suas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentes no plano ps\u00edco-f\u00edsico onde j\u00e1 se manifesta essa unidade. Ao definir o indiv\u00edduo ou o eu individual, escreve: \u00abum objecto unit\u00e1rio no qual a unidade de consci\u00eancia de um eu e de um corpo f\u00edsico se juntam inseparavelmente&#8230; A unidade testemunha-se em que certos processos se d\u00e3o como pertencentes ao mesmo tempo \u00e0 alma e ao corpo vivo&#8230;\u00bb (<em>O problema da Empatia<\/em>, Ed. Trotta, Madrid 2004, 75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta unidade, percept\u00edvel no plano experiencial-fenomenol\u00f3gico, juntam-se outros elementos de car\u00e1cter teol\u00f3gico que a confirmam. A unidade manifesta-se como algo \u00abessencial\u00bb ao ser humano, como o elemento que ajuda a compreender depois o peculiar de cada \u00abcomponente\u00bb. E desta unidade pessoal do indiv\u00edduo temos j\u00e1 uma primeira e evidente consequ\u00eancia para a totalidade da sua vida: corresponde \u00e0 sua ess\u00eancia e, portanto, ao seu ser, a unidade da sua vida espiritual com a vida corporal: \u00ab\u00c0 ess\u00eancia do homem enquanto tal pertence a dupla natureza seguinte: ser uma pessoa espiritual e ser informado corporalmente. Enquanto esp\u00edrito, a ess\u00eancia forma parte do mesmo g\u00e9nero de ente de todos os esp\u00edritos criados. Enquanto informado org\u00e2nica-corporal- psiquicamente, forma parte do g\u00e9nero dos seres vivos. Mas, visto que o ser espiritual e o ser org\u00e2nico-material-ps\u00edquico n\u00e3o se apresentam nela separados e justapostos mas s\u00e3o <em>um<\/em>, \u00e9, por conseguinte, mais justo \u2013 parece-me \u2013 falar de um g\u00e9nero particular\u00bb (SF 520-521).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta unidade essencial do homem tem tamb\u00e9m as suas consequ\u00eancias na ac\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, que n\u00e3o se limita a ser um dom para a alma, mas abrange a totalidade do ser do indiv\u00edduo: \u00abVisto que a gra\u00e7a \u00e9 algo que h\u00e1 na alma e visto que a alma \u00e9 <em>uma s\u00f3<\/em> e est\u00e1 unida com o corpo, por isso a vida da gra\u00e7a n\u00e3o se pode desenvolver separadamente da vida natural, mas h\u00e1-de fazer-se uma s\u00f3 coisa com ela, e a gra\u00e7a deve empapar o homem inteiro, alma e corpo\u00bb (OC IV, 877-878).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas mais s\u00e3o as afirma\u00e7\u00f5es que se encontram em Edite Stein sobre o conceito de unidade, mas, no fundo, confluem para o mesmo sentido. Um aspecto que conv\u00e9m real\u00e7ar \u00e9 o de como se realiza e como influi na vida do homem esta uni\u00e3o. E isto depender\u00e1 do modo como se entenda a rela\u00e7\u00e3o que existe entre ambos os elementos. Explica-nos brevemente essa rela\u00e7\u00e3o nestas linhas: \u00abA alma encontra o seu ser no corpo, mas o corpo alcan\u00e7a o seu ser <em>atrav\u00e9s <\/em>da alma, e n\u00e3o vice-versa\u00bb (SF 100,\u00a0 nota 39). Ambos se ajudam e complementam, mas em sentido diverso. Aqui \u00e9 onde se encontra o ponto a partir do qual se poderia falar de diferencia\u00e7\u00e3o dos elementos sem cair em dualismos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) Sentido e fundamento teol\u00f3gico da unidade do ser humano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A unidade do homem \u00e9 uma caracter\u00edstica essencial e, portanto, n\u00e3o \u00e9 algo nem casual, nem acidental. Unidade, pois, que est\u00e1 enraizada no seu ser mais profundo, na sua origem. E o seu princ\u00edpio encontra-o precisamente na obra da Cria\u00e7\u00e3o e no seu Criador, uno e trino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edite Stein analisa atentamente os textos do G\u00e9nesis para p\u00f4r de manifesto que o homem \u00e9 imagem de Deus. Enquanto tal, o homem alcan\u00e7a a sua perfei\u00e7\u00e3o na medida em que reproduz em si mesmo esta imagem. Deus \u00e9 uno e trino, e o homem, analogicamente, tamb\u00e9m. Eis, pois, um princ\u00edpio fundamental para a aut\u00eantica vida crist\u00e3 que consistir\u00e1 em alcan\u00e7ar, ou melhor ainda, em recuperar a unidade perdida com o pecado original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, o homem, ou melhor dito, a humanidade foi criada como um todo. E em Cristo foi redimida tamb\u00e9m como um todo (cf. OC IV, 236-237). Al\u00e9m disso, em Cristo todos s\u00e3o membros de um \u00fanico corpo cuja cabe\u00e7a \u00e9 Ele (cf. SF 525 ss).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pessoa do Verbo encarnado, enquanto Logos criador e enquanto que com a sua encarna\u00e7\u00e3o junta a natureza humana com a divina, o homem encontra outra confirma\u00e7\u00e3o da sua chamada \u00e0 unidade (SF 257). A pr\u00f3pria obra da reden\u00e7\u00e3o concede ao homem a possibilidade de recuperar o estado original de harmonia (SF 533-536).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>c) Unidade como voca\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As reflex\u00f5es antropol\u00f3gicas e teol\u00f3gicas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade do homem, confluem numa afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica: a unidade no homem forma parte do seu ser e apresenta-se como uma tarefa, uma voca\u00e7\u00e3o. Edite entende-o a partir de diversos pontos de vista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 como chamada \u00e0 unidade pessoal, que \u00e9 exigida pela natureza do homem tal como se encontrava no estado original, e tamb\u00e9m pela Unidade realizada e vivida por Aquele que \u00e9 o seu modelo. Fruto da mesma temos a pessoa aut\u00eantica definida por Edite como \u00abpessoa espiritual\u00bb porque \u00abest\u00e1 numa livre posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 frente ao seu corpo, mas tamb\u00e9m frente a frente com a sua alma\u00bb (SF 442).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 como uma humanidade chamada \u00e0 unidade dos seus membros. O homem define-se tamb\u00e9m como ser de rela\u00e7\u00e3o e a sua vida desenvolve-se no meio da comunidade humana. Encontra a sua raz\u00e3o de ser em si mesmo, no seu ser de filho de Deus e de um modo especial, na sua condi\u00e7\u00e3o de membro do Corpo de Cristo (SF 525 ss).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 como o homem e toda a humanidade s\u00e3o chamados \u00e0 unidade com Deus. \u00c9 este o fim \u00faltimo ao qual o homem foi chamado, porque s\u00f3 em Deus encontra a raz\u00e3o do seu ser e do seu aperfei\u00e7oamento (cf. SF 518-519).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Conv\u00e9m notar que quando Edite fala de alma refere-se sempre, excepto quando procura distinguir os elementos entre si, \u00e0 pessoa na sua totalidade, na sua unidade essencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluindo, podemos afirmar que o pensamento steiniano sobre a unidade do homem, sup\u00f5e uma ruptura radical com todo o dualismo. Ela n\u00e3o aceita essas vis\u00f5es que pretendem reduzir o ser humano a um composto de alma e corpo. Poder-se-\u00e1 falar de \u00abelementos constitutivos\u00bb ou de \u00abestratos\u00bb, mas sempre partindo da unidade que \u00e9 a que constitui o ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 166-167.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/hmauck-1988770\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3053224\">hmauck<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3053224\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11241,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-11240","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11240"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11479,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11240\/revisions\/11479"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}