{"id":11198,"date":"2020-12-22T17:02:27","date_gmt":"2020-12-22T17:02:27","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11198"},"modified":"2020-12-22T17:02:52","modified_gmt":"2020-12-22T17:02:52","slug":"card-gianfranco-ravasi-o-natal-de-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/card-gianfranco-ravasi-o-natal-de-maria\/","title":{"rendered":"Card. Gianfranco Ravasi | O Natal de Maria"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e imagem recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/o_natal_de_Maria.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SNPC<\/a><\/h6>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Card. Gianfranco Ravasi<\/h4>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00e3o I Magno, o papa que em 453 conseguiu bloquear o huno \u00c1tila, o \u00abflagelo de Deus\u00bb, num seu discurso natal\u00edcio polemizava contra uma pr\u00e1tica dos crist\u00e3os romanos manchada de paganismo: \u00abAntes de p\u00f4r os p\u00e9s na bas\u00edlica do ap\u00f3stolo Pedro no Natal, det\u00eam-se nos degraus, voltam-se para o Sol nascente, e, baixando a cabe\u00e7a, inclinam-se para o Sol, para prestar homenagem ao seu disco resplandecente\u00bb. Na sequ\u00eancia desta observa\u00e7\u00e3o consegue compreender-se porque \u00e9 que \u2013 quando em Roma, para o solst\u00edcio de dezembro, se acendiam ao longo da noite fogos que iluminavam a capital, e o povo, \u00e0 aurora, se inclinava para o Sol nascente \u2013 a Igreja colocou a data (cronologicamente ignota) do Natal de Cristo. Tamb\u00e9m Santo Agostinho advertia os seus fi\u00e9is africanos com este apelo: \u00abDeixemos que os pag\u00e3os exultem, mas este dia para n\u00f3s \u00e9 santificado n\u00e3o pelo Sol vis\u00edvel, mas pelo seu invis\u00edvel Criador\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intui-se, ent\u00e3o, porque \u00e9 que o an\u00fancio da conce\u00e7\u00e3o virginal de Maria, a m\u00e3e de Jesus, foi datado nove meses antes do nascimento, ou seja, a 25 de mar\u00e7o. \u00c9 daqui que partimos para procurar um perfil essencial do Natal de Maria. Na verdade, a literatura exeg\u00e9tica (deixemos estar a profana e art\u00edstica, que \u00e9 infinita) sobre o punhado de vers\u00edculos, 180 ao todo, dos denominados \u201cEvangelhos da inf\u00e2ncia\u201d de Cristo nos primeiros dois cap\u00edtulos dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, \u00e9 imponente. \u00c9-o por causa da dificuldade de comprimir no molde frio da classifica\u00e7\u00e3o dos g\u00e9neros, a riqueza e a fragr\u00e2ncia narrativa e teol\u00f3gica dessas p\u00e1ginas. Elas entretecem as mem\u00f3rias familiares e cl\u00e2nicas ligadas aos tr\u00eas atores dominantes, Maria, o esposo Jos\u00e9 e o Menino Jesus, com uma efervesc\u00eancia simb\u00f3lica, polvilhando as p\u00e1ginas de cita\u00e7\u00f5es e acenos b\u00edblicos, e projetando as v\u00e1rias cenas para o futuro da biografia do rec\u00e9m-nascido, at\u00e9 \u00e0 sua morte e glorifica\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas regressemos ao simb\u00f3lico 25 de mar\u00e7o da anuncia\u00e7\u00e3o do anjo, o tradicional mensageiro celeste que irrompe na modesta casinha de uma desconhecida jovem de Nazar\u00e9, povoa\u00e7\u00e3o da Galileia, nunca mencionada na B\u00edblia. Excluamos todo o complexo discurso mariol\u00f3gico e cristol\u00f3gico, e detenhamo-nos brevemente apenas nas duas frases que Maria pronuncia em rea\u00e7\u00e3o ao an\u00fancio da sua maternidade especial. \u00c9 de notar a extrema sobriedade da Virgem M\u00e3e nos Evangelhos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 incessante loquacidade que ao longo dos s\u00e9culos lhe colocaram na boca as apari\u00e7\u00f5es marianas. Nas \u00fanicas fontes origin\u00e1rias evang\u00e9licas, deixando \u00e0 margem os textos ap\u00f3crifos, Maria pronuncia s\u00f3 154 palavras; se se exclu\u00edrem as 102 do canto do \u201cMagnificat\u201d (Lucas 1,46-55), temos uma sequ\u00eancia m\u00ednima de declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 isso que acontece na primeira, que \u00e9, na realidade, uma pergunta dirigida ao anjo: \u00abComo ser\u00e1 isto, dado que n\u00e3o conhe\u00e7o homem?\u00bb (Lucas 1,34), sete palavras gregas ao todo. Maria objeta a sua situa\u00e7\u00e3o atual civil de noiva que exclu\u00eda a conviv\u00eancia e o \u201cconhecimento\u201d sexual com o seu noivo. Se nesta fase a mulher fosse encontrada gr\u00e1vida por causa de uma rela\u00e7\u00e3o externa, o futuro esposo tinha o direito de a repudiar, submetendo-a a uma pesada a\u00e7\u00e3o penal e social, tendo em conta o contexto cultural e religioso de ent\u00e3o. Efetivamente, Jos\u00e9 teria a inten\u00e7\u00e3o de proceder nesse sentido, depois de ter descoberto o estado da sua noiva: \u00e9 isso que evoca Mateus na paralela \u201canuncia\u00e7\u00e3o\u201d a Jos\u00e9 (1,18-25), assinalando, no entanto, a reviravolta que o anjo impor\u00e1 tamb\u00e9m a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria revela, portanto, a sua racionalidade, que exige uma explica\u00e7\u00e3o perante um an\u00fancio n\u00e3o s\u00f3 surpreendente, mas tamb\u00e9m indecifr\u00e1vel. Sucede, assim, a ampla articula\u00e7\u00e3o da resposta teol\u00f3gica do anjo, que desenvolve uma s\u00edntese precisa de cristologia. \u00c9 s\u00f3 nesse ponto que a mulher oferece a sua aceita\u00e7\u00e3o, com a segunda frase, uma r\u00e9plica de dez palavras gregas (incluindo os artigos): \u00abEis a serva do Senhor: aconte\u00e7a em mim segundo a tua palavra (Lucas 1,38). Deve-se tomar cuidado para n\u00e3o pisar \u2013 como foi feito na interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia tradicional \u2013 apenas o pedal da real humildade da autodefini\u00e7\u00e3o \u00abserva\u00bb. N\u00e3o nos esque\u00e7amos, com efeito, que \u00abservo do Senhor\u00bb \u00e9 um t\u00edtulo de honra entregue a Abra\u00e3o, Mois\u00e9s, Josu\u00e9, David e at\u00e9 ao Messias. A declara\u00e7\u00e3o de Maria \u00e9, por isso, tamb\u00e9m a express\u00e3o da autoconsci\u00eancia de dever levar a cabo uma miss\u00e3o relevante na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos agora \u2013 para permanecer apenas no per\u00edmetro estritamente natal\u00edcio \u2013 chegar ao hipot\u00e9tico e simb\u00f3lico 25 de dezembro, com o parto em Bel\u00e9m: nas poucas linhas da narrativa de Lucas (2,1-17) aninha-se um cumular de quest\u00f5es hist\u00f3rico-cr\u00edticas e teol\u00f3gicas. S\u00f3 um par de exemplos. Antes de tudo, o quebra-cabe\u00e7as cronol\u00f3gico do recenseamento de Quirino, governador da S\u00edria: o \u00fanico documento \u00e9 do ano 6 depois de Cristo, mesmo se \u00e9 verdade que o evangelista fala de um \u00abprimeiro recenseamento\u00bb. Segundo uma pr\u00e1tica, n\u00e3o exclusiva, as opera\u00e7\u00f5es de censos imperiais podiam ser n\u00e3o residenciais, mas \u201c\u00e9tnicas\u201d, isto \u00e9, na sede de origem das tribos ou dos cl\u00e3s familiares. \u00c9 por isso que o casal se desloca de Nazar\u00e9 a Bel\u00e9m, lugar de ascend\u00eancia do cl\u00e3 de Jos\u00e9. O outro dado \u00e9 o do parto de Maria no interior de um espa\u00e7o estranho: \u00abDeu \u00e0 luz o seu filho primog\u00e9nito, envolveu-o em faixas e dep\u00f4-lo numa manjedoura, porque para eles n\u00e3o havia lugar no alojamento\u00bb (2,7).<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O imagin\u00e1rio comum da gruta do pres\u00e9pio e da recusa do acolhimento no albergue \u00e9 posti\u00e7o: na verdade, Maria n\u00e3o deu \u00e0 luz num est\u00e1bulo, mas num quarto secund\u00e1rio que nas casas das povoa\u00e7\u00f5es servia como despensa e ref\u00fagio invernal, em companhia dos animais, quarto cedido ao casal talvez por um conhecido ou parente de Bel\u00e9m, que, por seu lado, ocupava a divis\u00e3o principal. Tamb\u00e9m a companhia do boi e do burro \u00e9 ap\u00f3crifa, criada por uma alegoria popular ignota ao texto evang\u00e9lico, e baseada num passo do profeta Isa\u00edas, em que Deus lamentava que \u00abo boi conhece o seu propriet\u00e1rio e o burro a manjedoura do seu dono, mas Israel n\u00e3o conhece, o meu povo n\u00e3o compreende\u00bb (1,3). Todavia, h\u00e1 aquela pincelada de ternura da M\u00e3e, que, na pobreza, se desvela para envolver o seu pequenino em faixas e oferecer-lhe um ber\u00e7o t\u00e3o simples, na palha e no feno da manjedoura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Detemo-nos aqui, mesmo se \u00abo Menino e a sua M\u00e3e\u00bb \u00e9 um m\u00f3dulo narrativo que constela toda a narra\u00e7\u00e3o do dram\u00e1tico in\u00edcio da vida do rec\u00e9m-nascido segundo o Evangelho de Mateus, depressa obrigado a ser um refugiado, \u00e0 medida que se alarga a mancha de sangue do massacre dos pequenos betlemitas ordenado por Herodes. A literatura n\u00e3o s\u00f3 espiritual procurou suprir o magro ditado evang\u00e9lico e reconstruir as emo\u00e7\u00f5es humanas e interiores desta mulher destinat\u00e1ria de uma maternidade t\u00e3o excecional. Ela, com efeito, gerou um filho que marcou num \u201cantes\u201d e num \u201cdepois\u201d dele a Hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 ocidental, para crentes e n\u00e3o-crentes. E \u00e9 precisamente a um ateu declarado como Jean-Paul Sartre que tocou recompor com finura, inclusive teol\u00f3gica, os sentimentos n\u00e3o exprimidos, quase elaborando a defini\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica \u201cTheot\u00f3kos\u201d, \u201cM\u00e3e de Deus\u201d, do conc\u00edlio de \u00c9feso (431).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">F\u00ea-lo no texto teatral \u201cBarion\u00e1 ou o filho do trov\u00e3o\u201d, escrito quando estava detido no campo nazi de prisioneiros de guerra, destinado a ser representado pelos seus companheiros de pris\u00e3o no Natal de 1940. Eis algumas linhas dessa obra t\u00e3o surpreendente e intensa: \u00abCristo \u00e9 o seu filho, carne da sua carne e fruto das suas entranhas. Ela carregou-o nove meses e dar-lhe-\u00e1 o seio, e o seu leite tornar-se-\u00e1 o sangue de Deus\u2026 Ela sente ao mesmo tempo que o Cristo \u00e9 seu filho, o seu pequeno, e que Ele \u00e9 Deus. Ela olha-o e pensa: \u201cEste Deus \u00e9 meu filho. Esta carne divina \u00e9 a minha carne. Ele \u00e9 feito de mim, tem os meus olhos, e esta forma da sua boca \u00e9 a forma da minha. Ele assemelha-se a mim. \u00c9 Deus e assemelha-se a mim!\u201d. Nenhuma mulher teve desta maneira o seu Deus s\u00f3 para ela. Um Deus pequen\u00edssimo que se pode tomar entre os bra\u00e7os e cobrir de beijos, um Deus quent\u00edssimo que sorri e respira, um Deus que s e pode tocar e vive\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">*Card. Gianfranco Ravasi<br \/>\nBiblista, presidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cultura.va\/content\/cultura\/it\/organico\/cardinale-presidente\/texts\/ilsole24ore\/maria.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pontificio Consiglio della Cultura<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<hr \/>\n<p>Imagem: <i>Adora\u00e7\u00e3o dos Pastores |<\/i>\u00a0Josefa d&#8217;\u00d3bidos [1669]<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e imagem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11199,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-11198","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11198"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11202,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11198\/revisions\/11202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}