{"id":11144,"date":"2020-12-21T07:00:00","date_gmt":"2020-12-21T07:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=11144"},"modified":"2020-12-19T10:29:39","modified_gmt":"2020-12-19T10:29:39","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-8-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (8) \u2013 A emerg\u00eancia de uma sociedade disciplinadora (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), vers\u00e1mos o primeiro cap\u00edtulo da obra, relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>). Estamos agora no terceiro texto (depois de <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/\">7<\/a>) relativo ao segundo cap\u00edtulo da obra (\u201cA emerg\u00eancia da sociedade disciplinadora\u201d\/ <em>The Rise of the Disciplinary Society<\/em>).\u00a0 Prosseguimos agora com o seu estudo, incidindo desta vez sobre as p\u00e1ginas 112 a 125. Para que o texto n\u00e3o se alongue excessivamente, a conclus\u00e3o do cap\u00edtulo ser\u00e1 feita (diferentemente do que se previu e ecscreveu na \u00faltima glosa) apenas no pr\u00f3ximo contributo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 26. <em><u>Eixos de mudan\u00e7a ao n\u00edvel \u00e9tico<\/u>. \u2013 <\/em>A articula\u00e7\u00e3o entre o conjunto de factores antes referidos conduziu a que a <em>natureza humana <\/em>tendesse a ser agora perspectivada como \u00abmat\u00e9ria em bruto a ser controlada, reconfigurada, e em certos casos eliminada de modo a impor uma forma de mais elevada da nossa vida\u00bb (p. 112). Em contraste com compreens\u00f5es tradicionais da \u00e9tica crist\u00e3 ou com outras \u00e9ticas cl\u00e1ssicas (Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles, Estoicismo), coloca-se um forte acento sobre a <em>vontade. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas contraposi\u00e7\u00f5es permitem ilustrar a diferen\u00e7a entre o quadro cl\u00e1ssico e o novo quadro agora em emerg\u00eancia (pp. 112-113):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Naquelas compreens\u00f5es cl\u00e1ssicas, os campos da <em>pr\u00e1xis <\/em>(<em>\u00e9tica<\/em>) e da <em>po\u00edesis <\/em>(<em>t\u00e9cnica, ac\u00e7\u00e3o transformadora<\/em>) estavam claramente separados, posto que o princ\u00edpio director da \u00e9tica seria o alinhamento do comportamento da pessoa com um certo padr\u00e3o que lhe seria pr\u00e9-dado, ainda que carecido de ser inteligido no mundo exterior. Mas agora, pelo contr\u00e1rio, a pr\u00f3pria <em>pr\u00e1xis <\/em>torna-se um objecto da <em>po\u00edesis<\/em>, isto \u00e9, como objecto de transforma\u00e7\u00e3o de acordo com a vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) A distin\u00e7\u00e3o, relevante do ponto de vista \u00e9tico (nomeadamente na \u00e9tica crist\u00e3), entre <em>boa vontade <\/em>e <em>m\u00e1 vontade <\/em>\u00e9 substitu\u00edda por uma outra: <em>vontade forte <\/em>e <em>vontade fraca <\/em>(ou, por ex., <em>vontade t\u00edbia<\/em>). Isto \u00e9, o acento j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 colocado na <em>qualidade <\/em>da vontade, nas suas disposi\u00e7\u00f5es, nos valores com que alinha ou que recusa, mas na sua <em>efic\u00e1cia<\/em> instrumental para os levar a acto. N\u00e3o \u00e9 a bondade dos fins a que a vontade aquiesce que se sublinha; mas a sua for\u00e7a, o seu vigor, para realizar <em>quaisquer fins<\/em> a que se proponha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os factores determinantes da \u201csociedade disciplinadora\u201d j\u00e1 foram antes tratados. Relembre-se, agora em particular, a viragem nominalista (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">21<\/a>), tendo por consequ\u00eancia a afirma\u00e7\u00e3o da soberania irrestrita e desvinculada de Deus sobre a Cria\u00e7\u00e3o. Viragem que, quando mimetizada \u00e0 escala puramente humana, pode conduzir \u00e0 adop\u00e7\u00e3o de uma atitude comportamental semelhante, mas ao n\u00edvel antropol\u00f3gico, arrogando os homens, como dir\u00e1 Descartes, a condi\u00e7\u00e3o de \u00abmestres e possuidores da natureza\u00bb [<em>Ma\u00eetres et possesseurs de la nature<\/em>] (p. 113).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo o caso, ressalva-se que, nomeadamente no quadro renascentista, por enquanto ainda se divisam perspectivas que, longe de recusarem de modo integral um <em>sentido presente<\/em> no mundo, se limitavam a articul\u00e1-lo com uma <em>adicional <\/em>capacidade humana de <em>perfeccionar <\/em>um sentido nela j\u00e1 presente na ordem envolvente \u2013 perspectivas, por\u00e9m, que acabariam por perder relevo com o advento da ci\u00eancia moderna (p. 114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando aplicada \u00e0 sociedade, esta viragem n\u00e3o pode sen\u00e3o ter consequ\u00eancias de enorm\u00edssimo alcance, na medida em que \u00abo Estado nascente se torna cada vez mais um engenheiro moral e de pr\u00e1tica social\u00bb (p. 114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 27. <em><u>Justus Lipsius, tradi\u00e7\u00e3o neo-est\u00f3ica e o Calvinismo.<\/u> \u2013 <\/em>Para ilustrar este conjunto de mudan\u00e7as, atenta Taylor de modo particular na obra de Justus Lipsius (1547-1606), apresentado como o mais influente autor neo-est\u00f3ico do s\u00e9c. XVI, autor do que se pode designar como uma esp\u00e9cie de \u201cEstoicismo cristianizado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a por notar duas diferen\u00e7as significativas entre o estoicismo e o cristianismo. Diferen\u00e7as que ser\u00e3o t\u00e3o mais de enfatizar quanto se d\u00e1 o facto de a \u00e9tica est\u00f3ica poder facilmente ser confundida com a \u00e9tica crist\u00e3. Se, em muitos aspectos, se podem aparentar, na verdade divergem no mais fundamental:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Enquanto para (i) o Cristianismo \u00e9 central a abertura \u00e0 Gra\u00e7a, como dom de Deus que liberta o homem e, assim, o abre \u00e0 possibilidade de uma ac\u00e7\u00e3o \u00e9tica boa, para (ii) o Estoicismo o centro est\u00e1 no adequado uso da raz\u00e3o e do auto-controlo. Isto mesmo quando a raz\u00e3o seja pensada como tendo por fonte Deus (diferentemente do que ocorrer\u00e1 no humanismo exclusivo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Por isso, ali\u00e1s, que um certo tipo de \u201cmoralismo asc\u00e9tico\u201d, quaisquer que sejam as suas roupagens exteriores, porventura se filie intimamente bem mais no Estoicismo do que no Cristianismo. Por outro lado, \u00e9 de notar que uma \u00e9tica crist\u00e3 s\u00f3 ser\u00e1 confund\u00edvel com uma \u00e9tica est\u00f3ica ou neo-est\u00f3ica quando, justamente, abdica da centralidade, <em>especialmente ao n\u00edvel pr\u00e1tico<\/em>, da abertura da Gra\u00e7a: mas n\u00e3o ser\u00e1 o que praticamente ocorre?]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Enquanto para (i) o Cristianismo a ac\u00e7\u00e3o humana correcta assente na <em>ag\u00e1pe<\/em>, na participa\u00e7\u00e3o do amor de Deus vivido, por miseric\u00f3rdia &#8211; nas pr\u00f3prias entranhas que se revolvem no desinstalador confronto emp\u00e1tico com o sofrimento alheio \u2013, no amor ao pr\u00f3ximo, para (ii) o Estoicismo o ideal encontra-se na <em>ap\u00e1theia<\/em>, isto \u00e9, na liberta\u00e7\u00e3o de todas as paix\u00f5es (p. 115).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quadro proposto por Lipsius, \u00e9 procurado um equil\u00edbrio entre estes dois aspectos: a compaix\u00e3o, com quanto implica de perturba\u00e7\u00e3o afectiva da pessoa, \u00e9 recusada. Em seu lugar encontra-se a defesa de uma interven\u00e7\u00e3o activa, mas com \u00abtotal desapego interior\u00bb (p. 115).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ac\u00e7\u00e3o correcta \u00e9 vista como aquela que alinha com as realidades permanentes, recusando o transit\u00f3rio, o mut\u00e1vel. E, por isso, a virtude central \u00e9 a da <em>const\u00e2ncia<\/em>, atrav\u00e9s da qual se pode obter harmonia (p. 116). \u00abO homem bom mostra <em>constantia<\/em>, <em>patientia, firmitas<\/em>. N\u00e3o \u00e9 movido pelo <em>chaos, <\/em>desordem, viol\u00eancia, sofrimento.\u00bb (p. 116)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O elemento espec\u00edfico de <em>neo <\/em>no estoicismo de Lipsius encontra-se no facto de articular estes aspectos com o <em>activismo <\/em>social<em>: <\/em>cada um \u00e9 efectivamente respons\u00e1vel pelo mundo, procurando o bem e combatendo o mal; agindo de modo disciplinado, em exerc\u00edcio de uma vontade firme (p. 116). A obra de Lipsius inclui, efectivamente, aspectos de reconfigura\u00e7\u00e3o militar (a proposta de um ex\u00e9rcito sujeito a ordem e disciplina, em contraste com os bem diferentes ex\u00e9rcitos de mercen\u00e1rios) e social, sempre com um acento moral, inculcando \u2013 o verbo \u00e9 de Taylor \u2013 uma <em>nova \u00e9tica<\/em> (pp. 117-118).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor identifica duas raz\u00f5es para o amplo sucesso do Autor em toda a Europa (em qualquer um dos campos em que, ao tempo, concretamente se dividia: o cat\u00f3lico, o luterano, o calvinista):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A preocupa\u00e7\u00e3o de uma parte da elite do tempo com a ideia de ordem e de limita\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, menos preocupada com a ortodoxia da f\u00e9 (que conduzira \u00e0s grandes rupturas do s\u00e9c. XVI) do que com f\u00f3rmulas que contribu\u00edssem para uma paz efectiva e que pudessem ser aceites pelas diferentes comunidades confessionais;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) O desejo de constru\u00e7\u00e3o de uma ordem pol\u00edtica (p. 117).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quadro geral ainda \u00e9 <em>te\u00edstico<\/em>; mas o seu \u201ccentro de gravidade\u201d j\u00e1 se modificou, por perder as suas grandes fontes espirituais: a <em>Gra\u00e7a <\/em>e a <em>Ag\u00e1pe<\/em>. E assim perde tamb\u00e9m relevo o <em>culto a Deus<\/em>, substitu\u00eddo pelo exerc\u00edcio de certas \u201cvirtudes\u201d, como a raz\u00e3o e a const\u00e2ncia: \u00ab(\u2026) parece que aquilo que temos de fazer para realizar a Sua vontade \u00e9 apenas tornarmo-nos um excelente ser humano, e nada mais. Isto prepara o fundamento para o antropocentrismo do de\u00edsmo tardio, e, depois disto, conduziu a uma mudan\u00e7a adicional em vista da desconex\u00e3o da nossa capacidade de racioc\u00ednio da ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s. Ocorreu uma importante viragem. O Neo-Estoicismo \u00e9 o zig em rela\u00e7\u00e3o ao qual o De\u00edsmo \u00e9 o zag.\u00bb (p. 117)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relevo do contributo desta \u00e9tica neo-est\u00f3ica para a introdu\u00e7\u00e3o de uma reconfigura\u00e7\u00e3o do modo de vida em sentido \u00abracionalizado, disciplinado e profissionalizado\u00bb \u00e9 colocado por Taylor a par do contributo da \u00e9tica calvinista, de h\u00e1 largo reconhecido a este respeito (\u00e9 curioso, ali\u00e1s, o apontamento de que Calvino come\u00e7ou a sua obra com um estudo sobre S\u00e9neca). Isto \u00e9, a \u00e9tica neo-est\u00f3ica conduziu a que se obtivesse nalguns Estados, a partir dos v\u00e9rtices burocr\u00e1ticos, o que noutras paragens foi obtido a partir de baixo atrav\u00e9s de devotos calvinistas e pietistas, mediante a sua ac\u00e7\u00e3o empreendedora ou as suas formas associativas (p. 119).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, comum aos dois movimentos, \u00abe que talvez n\u00e3o nos surpreenda suficientemente\u00bb \u2013 e n\u00e3o nos surpreende apenas por sermos herdeiros desta perspectiva que, quando surgiu, foi contudo uma novidade (p. 121) \u2013, est\u00e1 um aspecto decisivo: \u00aba cren\u00e7a de que tudo isto podia ser realizado\u00bb (p. 119). Exalta-se, pois, a for\u00e7a de vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 28. <em><u>Uma nova cren\u00e7a na capacidade humana<\/u><\/em>. \u2013 Esta nova perspectiva contrasta de modo decisivo com uma outra, disseminada em per\u00edodos de anteriores, de que h\u00e1 limites, barreiras, colocadas \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do ser humano. Por isso, a nova perspectiva constitui uma novidade na hist\u00f3ria europeia (pp. 119-120). Ainda que com a nominal refer\u00eancia a modelos antigos (antigo Israel; Rep\u00fablica Romana;\u2026), havia a consci\u00eancia de se estar perante uma realidade in\u00e9dita. Do que se trata, pois, \u00e9 da <em>confian\u00e7a na capacidade de remodelar o ser humano<\/em>; de que a natureza humana \u00e9 <em>mold\u00e1vel, transform\u00e1vel<\/em> (p. 121). O que se traduz, ao n\u00edvel do todo da comunidade pol\u00edtica, na adop\u00e7\u00e3o de medidas de <em>engenharia social <\/em>(nomeadamente no quadro do <em>Polizeistaat<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particularmente no quadro calvinista, esta cren\u00e7a articula-se com uma <em>reinterpreta\u00e7\u00e3o <\/em>de quadro agostiniano de distin\u00e7\u00e3o entre as duas cidades: a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens (de novo, uma modalidade de <em>tens\u00e3o <\/em>pr\u00e9-moderna entre pelos menos dois p\u00f3los de refer\u00eancia, irredut\u00edveis um ao outro). A minoria dos eleitos, numa primeira leitura, e depois as <em>sociedades <\/em>formadas na sua maioria por essa minoria de eleitos, constituiriam a Cidade de Deus \u2013 e, por isso, teriam a pretens\u00e3o a reger, e a transformar, o todo da Cidade dos Homens (p. 122). \u00c9 justamente neste quadro que as pr\u00e1ticas resultantes da anti-estrutura ou o poss\u00edvel anti-c\u00f3digo presente na sociedade (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">8 e 9<\/a>) passam a ser valorados simplesmente \u00abcomo nada mais do que uma concess\u00e3o gratuita \u00e0quilo que estamos a tentar extirpar\u00bb (p. 124). Deste modo, o tempo vai perdendo paulatinamente os seus n\u00f3s \u201ckair\u00f3ticos\u201d, homogeneizando-se (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">10<\/a>) \u2013 \u00abe, com tudo isto, surgem concep\u00e7\u00f5es de ordem intransigentes: ordem nas pr\u00f3prias vidas; e ordem social.\u00bb (p. 124)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que a nova ordem se come\u00e7a a impor, aumenta, consequentemente, a <em>confian\u00e7a <\/em>nas pr\u00f3prias capacidades de a instaurar (p. 125). \u00abEsta confian\u00e7a \u00e9 consubstancial \u00e0 cren\u00e7a de que n\u00e3o temos da fazer compromissos, de que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a complementaridade, de que construir uma ordem n\u00e3o imp\u00f5e que se reconhecer quaisquer limites resultantes de um princ\u00edpio oposto de <em>chaos<\/em>. E por esta raz\u00e3o, este trajecto de ordem \u00e9 simultaneamente ofendido e tornado inseguro por festivais tradicionais de inflex\u00e3o da ordem [<em>reversal<\/em>]. N\u00e3o tem est\u00f4mago para o \u2018mundo de pernas para o ar\u2019\u00bb (p. 125). Imp\u00f5e-se, portanto, a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 limites para a modela\u00e7\u00e3o da natureza. E \u00abisto aplica-se tanto \u00e0s utopias jesu\u00edtas no Paraguai como aos <em>Polizeistaate <\/em>na Europa central.\u00bb (p. 125)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00f3xima glosa concluiremos \u2013 dessa feita derradeiramente \u2013 o segundo cap\u00edtulo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/mohamed_hassan-5229782\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3650793\">mohamed Hassan<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3650793\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11145,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-11144","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11144"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11146,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11144\/revisions\/11146"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11145"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}