{"id":10989,"date":"2020-12-07T07:00:00","date_gmt":"2020-12-07T07:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10989"},"modified":"2020-12-01T20:22:12","modified_gmt":"2020-12-01T20:22:12","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-7-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (7) \u2013 A emerg\u00eancia de uma sociedade disciplinadora (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), inici\u00e1mos o estudo do primeiro cap\u00edtulo da obra, relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de introduzido o segundo cap\u00edtulo da obra (\u201cA emerg\u00eancia da sociedade disciplinadora\u201d\/ <em>The Rise of the Disciplinary Society<\/em>), ao qual foi dedicado o \u00faltimo texto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/\">6<\/a>), atentaremos agora (somente) nas pp. 108-112. Tais p\u00e1ginas, com efeito, ser\u00e3o o mote para uma curta reflex\u00e3o sobre a <em>pobreza<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 24. <em><u>Cinco linhas de ac\u00e7\u00e3o<\/u>. \u2013 <\/em>A inten\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade moderna, procurando-se imprimir-lhe uma <em>nova ordem<\/em>, traduziu-se no lan\u00e7amento de um amplo conjunto de ac\u00e7\u00f5es de reforma que se reconduzem a cinco linhas fundamentais (pp. 108-112):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) A introdu\u00e7\u00e3o de <em>poor laws<\/em>, isto \u00e9, de leis relativas a pedintes, a vagabundos, etc. (pp. 108-109). Subjaz-lhes uma mudan\u00e7a na perspectiva\u00e7\u00e3o do <em>pobre<\/em>: de uma \u00abaura de santidade em torno da pobreza\u00bb, t\u00edpica do quadro medieval, em que o encontro com o <em>pobre <\/em>\u00e9 fundamentalmente visto como uma \u00abocasi\u00e3o de santifica\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 pense-se, por exemplo, na disseminada pr\u00e1tica de disposi\u00e7\u00f5es por morte a seu favor [\u00e0s quais, ali\u00e1s, o <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/archive\/cod-iuris-canonici\/portuguese\/codex-iuris-canonici_po.pdf\"><em>C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico<\/em><\/a> continua a fazer expressa refer\u00eancia no regime das chamadas \u201cvontades pias\u201d: cf. os c\u00e2nones 1299 e seguintes] \u2013, e em que a pobreza volunt\u00e1ria \u00e9 perspectivada como um bem em si (p. 109), a partir do s\u00e9c. XV come\u00e7a a emergir a nova perspectiva que subjaz \u00e0s referidas <em>poor laws. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inspira as <em>poor laws<\/em>, com efeito, a distin\u00e7\u00e3o entre duas categorias de <em>pobres<\/em>, em raz\u00e3o da respectiva condi\u00e7\u00e3o: de um lado, aqueles que eram tidos como capazes para o trabalho \u2013 for\u00e7a de trabalho <em>n\u00e3o aproveitada<\/em>, portanto \u2013; do outro, aqueles que, sem tal capacidade, se viam remetidos ao amparo de terceiros \u2013 for\u00e7a de trabalho <em>inaproveit\u00e1vel<\/em>, neste caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de pobreza varia em fun\u00e7\u00e3o destes mesmos factores: aqueles deveriam ser redireccionados para o trabalho; estes \u00faltimos deveriam gozar de apoio, embora sob condi\u00e7\u00f5es bastante exigentes, podendo culminar no respectivo confinamento (p. 109). Em qualquer uma das abordagens, por\u00e9m, o <em>pobre <\/em>\u00e9 olhado como um <em>problema<\/em> \u2013 \u00e0s vezes <em>sol\u00favel<\/em>, \u00e0s vezes meramente <em>ger\u00edvel<\/em>. De qualquer das formas, rompe-se com a anterior perspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Adop\u00e7\u00e3o de medidas, por autoridades de diferente natureza (nacionais, municipais, eclesiais), contra festas ou actos de desregramento (Carnaval, dan\u00e7a \u2026). A novidade n\u00e3o est\u00e1 propriamente na censura destes actos, mas (i) na <em>intensidade<\/em> com que ela agora \u00e9 feita, (ii) e no facto de serem recusadas <em>tamb\u00e9m por conflituarem<\/em> com o ideal de <em>civilidade <\/em>(n.\u00ba 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sistem\u00e1tica adop\u00e7\u00e3o destas medidas conduziu, ainda, a que a cultura das elites se apartasse da cultura popular (pp. 109-110).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a tentativa de as estruturas estaduais, mediante uma ac\u00e7\u00e3o de pendor absolutista ou dirigista, \u00abmoldarem atrav\u00e9s de ordena\u00e7\u00f5es o bem-estar econ\u00f3mico, educacional, espiritual e material dos seus s\u00fabditos, no interesse do poder, mas tamb\u00e9m do progresso\u00bb (p. 111). Tal concretiza-se no chamado <em>Polizeistaat<\/em>, \u201cEstado de pol\u00edcia\u201d \u2013 termo usado no preciso sentido antes referido de Estado que, atrav\u00e9s da sua ac\u00e7\u00e3o dirigente, <em>molda <\/em>a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade (n. 45, p. 788), e n\u00e3o no sentido que o termo adquire para designar a forma de Estado pr\u00f3pria dos totalitarismos modernos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem-se por ideal que a sociedade, no seu conjunto, deva ser \u00abdisciplinada, mas com o fim de conduzir \u00e0 auto-disciplina\u00bb (p. 111). Na entrada do s\u00e9culo XVIII, este projecto come\u00e7a a incorporar os ideais pr\u00f3prios do iluminismo, \u00abcolocando \u00eanfase crescente nos aspectos produtivos, materiais da actividade humana, em nome dos benef\u00edcios que da\u00ed podem acrescer para os indiv\u00edduos e para a sociedade como um todo\u00bb (p. 111).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Esta inten\u00e7\u00e3o do <em>Polizeistaat <\/em>moderno tem porventura o seu mais perfeito espelho no chamado <em>Allgemeines Landrecht f\u00fcr die Preu\u00dfischen Staaten, <\/em>de 1792, entre n\u00f3s conhecido por <em>C\u00f3digo Prussiano. <\/em>Baste como exemplo o facto de o referido <em>C\u00f3digo Geral <\/em>da Pr\u00fassia chegar ao ponto de determinar como, e em que termos, uma m\u00e3e deveria <em>aleitar <\/em>o pr\u00f3prio filho: um grau de pormenor que tem por melhor explica\u00e7\u00e3o o referido intuito de <em>dar uma forma, de educar <\/em>a sociedade no seu conjunto.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) O desenvolvimento das estruturas de governo, quer, consoante as paragens, mais ao n\u00edvel local, como nos Pa\u00edses Baixos, quer mais ao n\u00edvel das grandes burocracias de tipo central, como na ascendente Pr\u00fassia (p. 111).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(e) Na elabora\u00e7\u00e3o de diferentes \u00abmodos de disciplinas, de \u201cm\u00e9todos\u201d, de procedimentos\u00bb sobre os diferentes dom\u00ednios, desenvolvidos como t\u00e9cnicas de disciplina e amestramento: ora adoptados voluntariamente, ora impostos colectivamente (pp. 111-112).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o sujeitas a m\u00e9todos de controlo e de organiza\u00e7\u00e3o realidades tais como os <em>ex\u00e9rcitos<\/em>, mas tamb\u00e9m as <em>escolas<\/em>, os <em>hospitais<\/em> e, depois, as <em>f\u00e1bricas<\/em> (p. 112). E mesmo a <em>espiritualidade<\/em>: pense-se nos <em>Exerc\u00edcios Espirituais <\/em>de S.<sup>to<\/sup> In\u00e1cio de Loiola. Ali\u00e1s, se cerca de um s\u00e9culo depois da primeira edi\u00e7\u00e3o desta \u00faltima obra chega o <em>Discurso sobre o M\u00e9todo<\/em>, n\u00e3o deixa de notar Taylor que o pr\u00f3prio Descartes fora educado por jesu\u00edtas (p. 112).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 25. <em><u>Excurso sobre o <\/u><\/em><u>pobre<em> e a <\/em>pobreza<\/u>. \u2013 A refer\u00eancia \u00e0s <em>poor laws, <\/em>e \u00e0 novidade que pressup\u00f5em na compreens\u00e3o do <em>pobre<\/em>, convida a fazer um pequeno excurso sobre o tema da pobreza, uma vez que adiante n\u00e3o haver\u00e1 ocasi\u00e3o para a ele regressar. Dado que a nova perspectiva agora emergente n\u00e3o eliminou a anterior, apenas com ela rivalizando, permanece at\u00e9 ao presente uma certa <em>ambival\u00eancia <\/em>em torno da compreens\u00e3o do <em>pobre <\/em>e da <em>pobreza, <\/em>raz\u00e3o por que se justifica uma sum\u00e1ria reflex\u00e3o sobre o tema. Nas linhas que se seguem, ser\u00e1 considerado como <em>pobre <\/em>todo aquele que se encontre numa situa\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o de <em>bens <\/em>tidos como socialmente necess\u00e1rios, tenham ou n\u00e3o natureza pecuni\u00e1ria. Em conjunto ou independentemente da situa\u00e7\u00e3o de <em>pobreza <\/em>material, \u00e9 tamb\u00e9m pobre o <em>inculto, <\/em>o <em>bruto, <\/em>o <em>rude, <\/em>o <em>inapto, <\/em>o <em>feio, <\/em>o <em>deficiente, <\/em>o <em>estropiado, <\/em>o <em>inv\u00e1lido, <\/em>o <em>grosseiro, <\/em>o <em>selvagem, <\/em>\u2026 Todo aquele, portanto, de quem <em>instintivamente <\/em>se desvia o olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procuremos assim distinguir as duas perspectivas, para depois assinalar o que t\u00eam em comum:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Na primeira perspectiva, o <em>pobre <\/em>\u00e9 visto como destinat\u00e1rio de uma aten\u00e7\u00e3o e de um cuidado especiais, como algu\u00e9m dotado de uma \u201caura\u201d pr\u00f3pria, e tamb\u00e9m aut\u00eantico <em>intermedi\u00e1rio <\/em>da santifica\u00e7\u00e3o de quem o serve. Linha que, portanto, insiste no <em>socorro <\/em>e na <em>aten\u00e7\u00e3o <\/em>ao pobre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nalguma medida, \u00e9 esta a perspectiva que vem sendo assinalada no <em>Dia Mundial do Pobre <\/em>que, institu\u00eddo por iniciativa do Papa Francisco mediante a Carta Apost\u00f3lica <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/papa-francesco-lettera-ap_20161120_misericordia-et-misera.html\"><em>Misericordia et Misera<\/em><\/a> (no respectivo n.\u00ba 21)<em>, <\/em>de 20 de Novembro de 2016, se celebra no pen\u00faltimo domingo do tempo comum, este ano ocorrente no passado dia 15 de Novembro. Nas <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/poveri.index.html#messages\">quatro mensagens entretanto publicadas<\/a>, a t\u00f3nica foi sempre colocada na aten\u00e7\u00e3o a esse <em>outro<\/em>, que <em>\u00e9<\/em> pobre, e que por isso \u00e9 o destinat\u00e1rio predilecto das promessas salv\u00edficas; e que, tamb\u00e9m por isso, merece o primeiro cuidado e a primeira aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Na segunda linha de leitura, o <em>pobre <\/em>\u00e9 perspectivado essencialmente como um <em>problema <\/em>e uma <em>amea\u00e7a: <\/em>seja porque carente das virtudes necess\u00e1rias \u00e0 boa inser\u00e7\u00e3o na vida comunit\u00e1ria, seja porque supostamente vicioso no seu car\u00e1cter, seja porque apenas fonte de despesa p\u00fablica, seja porque in\u00fatil, seja porque n\u00e3o destinado \u00e0 salva\u00e7\u00e3o<em>. <\/em>Linha que, portanto, insistir\u00e1 no <em>combate <\/em>\u00e0 pobreza: \u00e0s vezes, ou em parte, procurando remover as condi\u00e7\u00f5es originantes de pobreza; \u00e0s vezes, ou noutra parte, procurando eliminar o pr\u00f3prio <em>pobre<\/em> (confin\u00e1-lo; neutraliz\u00e1-lo; impedi-lo de nascer; etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas apesar das enormes diferen\u00e7as entre as duas perspectivas, n\u00e3o deixam de ter um elemento em comum: em qualquer uma delas, o <em>pobre <\/em>\u00e9 substantivado, sendo a <em>pobreza<\/em> olhada como uma realidade de tamanha envolv\u00eancia que est\u00e1 apta a dar o nome \u00e0 totalidade dessa pessoa. Em s\u00edntese: <em>pobre <\/em>\u00e9 algu\u00e9m que, primeiro, <em>\u00e9 diferente<\/em>, que \u00e9 um <em>outro<\/em> (se n\u00e3o fosse diferente, n\u00e3o se destacaria pela situa\u00e7\u00e3o de pobreza); e, depois, que nessa sua diferen\u00e7a \u00e9 visto como <em>totalizado<\/em> pela sua condi\u00e7\u00e3o de <em>priva\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel, por\u00e9m, uma outra atitude, que se distingue na verdade de qualquer uma das outras duas anteriores. N\u00e3o se trata agora de olhar algu\u00e9m como um <em>outro <\/em>totalizado na sua situa\u00e7\u00e3o de <em>pobreza, <\/em>a dever ser amparado com estrito respeito por essas fronteiras de demarca\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o do <em>pobre <\/em>e do <em>n\u00e3o pobre<\/em> \u2013 mas antes se imp\u00f5e, na verdade, que se <em>partilhe a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o com o outro <\/em>e <em>se aceite deixar-se acolher na condi\u00e7\u00e3o do outro<\/em>. Os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o aqueles que se distinguem por <em>cuidar dos pobres; <\/em>mas os que se <em>solidarizam na condi\u00e7\u00e3o uns dos outros, <\/em>mesmo quando de pobreza, condi\u00e7\u00e3o que, assim, se torna meramente <em>adjectiva de todos<\/em> e n\u00e3o <em>substantiva de somente alguns<\/em>, apenas uma de entre muitas outras fei\u00e7\u00f5es de uma comunidade com diversidade de carismas, de dons, de caracter\u00edsticas, de anseios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica evang\u00e9lica n\u00e3o parece ser, pois, a de olhar o <em>pobre <\/em>como algu\u00e9m a quem se serve na sua \u201cmisteriosa alteridade\u201d. Mas a de um convite a viver de um modo a tal ponto <em>filial<\/em> e <em>fraterno<\/em>, e por isso <em>solid\u00e1rio<\/em> \u2013 isto \u00e9, com <em>comunh\u00e3o de dores, <\/em>mas <em>tamb\u00e9m de alegrias <\/em>(1<em>Cor <\/em>12, 26) \u2013, que a condi\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os, mesmo quando de pobreza, se torna tamb\u00e9m pr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porventura poder\u00edamos mesmo ir mais longe: o acento da interpela\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica <em>n\u00e3o est\u00e1 <\/em>directamente sequer em qualquer combate \u00e0 <em>pobreza. <\/em>Est\u00e1, antes, no convite a uma <em>comunh\u00e3o <\/em>radical \u2013 com o <em>pobre, <\/em>mas tamb\u00e9m com o <em>n\u00e3o pobre <\/em>\u2013, que, por consequ\u00eancia, conduz a uma vida em que o p\u00e3o, seja muito ou seja pouco, \u00e9 sempre fraccionado uma vez mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois \u00e9 esse o padr\u00e3o, o de viver na pr\u00f3pria carne, e em comunh\u00e3o, todas as condi\u00e7\u00f5es em que habita o homem, que foi definido pela <em>k\u00e9nosis <\/em>de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluiremos o segundo cap\u00edtulo na pr\u00f3xima glosa.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/coffee-king-3418411\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1750987\">Renato Canepa<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1750987\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10990,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-10989","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10989","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10989"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10989\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10991,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10989\/revisions\/10991"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}