{"id":10969,"date":"2021-01-06T07:00:41","date_gmt":"2021-01-06T07:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10969"},"modified":"2020-11-30T14:54:35","modified_gmt":"2020-11-30T14:54:35","slug":"cultura-devida-todas-as-vidas-humanas-sao-indisponiveis-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/cultura-devida-todas-as-vidas-humanas-sao-indisponiveis-ii\/","title":{"rendered":"Cultura (de)vida | Todas as vidas humanas s\u00e3o indispon\u00edveis (II)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Cultura de|vida | Parceria com a Associa\u00e7\u00e3o <em>In familia<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Jos\u00e9 Carlos de Miranda<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Porque, enquanto pessoas, todas s\u00e3o iguais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser humano representa o sumo grau de participa\u00e7\u00e3o no ser transcendente: \u00e9 um ser \u201cps\u00edquico l\u00f3gico\u201d, em latim, um ser \u201canimal racional\u201d. Ora, em que \u00e9 que consiste a sua <em>anima<\/em> racional? As opera\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da alma humana enquanto humana, naquilo que a distingue da dos demais seres vivos, s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es aos predicados do ser absoluto: unidade, verdade e bondade. Pela interac\u00e7\u00e3o dessas opera\u00e7\u00f5es, a alma humana \u00e9 designada por Mente (de <em>memini<\/em>, lembrar). S\u00e3o opera\u00e7\u00f5es ou ac\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da mente, captar a unidade (a dos seres e a de si mesmo, que \u00e9 o que chamamos \u201crecordar\u201d), conhecer a verdade e querer o bem. Ora, todos estes actos s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es ao Ser e aos seres: querer uma coisa, \u00e9 relacionar-se com ela enquanto boa; conhecer uma coisa \u00e9 relacionar-se com ela enquanto racional. E tudo isto s\u00e3o pot\u00eancias ou faculdades (em grego, \u201cdinamismos\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, \u00e9 a partir de \u201cpot\u00eancias\u201d, n\u00e3o de \u201cactos\u201d, que se clarifica que todos somos iguais porque s\u00e3o, de si, aquelas, e n\u00e3o estes, o que nos faz transcender o mundo. A personalidade identifica-se com esta capacidade de se conhecer a si mesmo pela mem\u00f3ria, de conhecer e de querer o bem, pela intelig\u00eancia e pela vontade. Por palavras mais correntes do senso comum &#8211; que sup\u00f5em por\u00e9m a mesma distin\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica &#8211; o que faz, dos seres humanos, pessoas n\u00e3o \u00e9 aquilo que eles fa\u00e7am mas sim aquilo que podem fazer; porque pot\u00eancia designa algo que pode-ser (<em>dynamis, <\/em>em grego<em>, virtus <\/em>em latim) e poder-ser n\u00e3o \u00e9 mais do que a forma-de-ser pr\u00f3pria dos seres contingentes. A personalidade humana \u00e9 uma forma-de-ser assim. Um cientista n\u00e3o se torna \u201cmais pessoa\u201d por fazer uma descoberta; simplesmente, exercita nesse acto a faculdade da intelig\u00eancia. O her\u00f3i \u00e9-o por um acto extraordin\u00e1rio de virtude; mas, por extraordin\u00e1rio que seja, tal acto n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um exerc\u00edcio da vontade de uma pessoa, que antes do acto, e independentemente dele, j\u00e1 o era pela mesma faculdade da vontade. Nenhum deles, com tais actos, se torna \u201cmais\u201d pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque \u00e9 que estas pot\u00eancias se d\u00e3o no ser humano? O mais certo \u00e9 tratar-se de um dom gratuito. Mas independentemente da resposta, o facto permance: qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre um embri\u00e3o animal su\u00edno e um embri\u00e3o animal humano, materialmente t\u00e3o semelhantes, sen\u00e3o a personalidade do segundo, constitutivamente ausente no primeiro? Um deles \u00e9 pessoa porque lhe pertence o poder fazer actos de pessoa, isto \u00e9, o poder ser sujeito real dos seus actos e responder por eles, poder esse, inscrito na respectiva informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica desde o primeiro momento unicelular. N\u00e3o seria poss\u00edvel que um ser animal-n\u00e3o-pessoa viesse a tornar-se uma pessoa que o n\u00e3o fosse desde o in\u00edcio. \u00c9 certo que podemos pensar em algum factor externo que, num dado momento, permitisse a manifesta\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os essenciais antes n\u00e3o percept\u00edveis. E h\u00e1, de facto, na actualiza\u00e7\u00e3o da personalidade um factor externo imprescind\u00edvel, que \u00e9 o Outro humano implicado no despertar da consci\u00eancia do eu; mas, por pouco que se distinga de outras \u201ccrias\u201d nesta ou naquela fase do seu desenvolvimento, s\u00f3 \u00e0 humana pertence essa potencialidade. A diferen\u00e7a entre as fases sucessivas &#8211; os 3 e os 30 anos, por exemplo \u2013 n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o de grau no exerc\u00edcio e actualiza\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias. Aos 30 anos actualiza notoriamente mais as faculdades (i.e., passa-as de pot\u00eancias a actos). Mas n\u00e3o se actualiza uma pot\u00eancia inexistente. Esta \u00e9 uma primeira resposta \u00e0 quest\u00e3o \u201cporque \u00e9 que somos todos iguais\u201d. Somos iguais, enquanto pessoas, porque aquilo que faz de n\u00f3s pessoas \u00e9 o que podemos fazer e n\u00e3o o que fazemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto explica n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 que um indiv\u00edduo humano, \u00e0s tr\u00eas semanas, ou aos tr\u00eas meses ou aos tr\u00eas anos tem a mesma dignidade que tem aos trinta anos, ou porque \u00e9 que ele tem a mesma dignidade quando dorme ou est\u00e1 vigilante. E explica tamb\u00e9m porque \u00e9 que ele n\u00e3o vai perdendo dignidade \u00e0 medida que envelhece, apesar de o envelhecimento consistir numa diminui\u00e7\u00e3o gradual do exerc\u00edcio das pot\u00eancias e, finalmente, porque \u00e9 que, ap\u00f3s os actos morais mais destruidores por parte de algu\u00e9m nocente, as pot\u00eancias pr\u00f3prias da pessoa continuam a garantir ao seu corpo vivo a mesma dignidade que faz da sua vida um bem indispon\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(Continua)<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/katerinavulcova-7453549\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3944361\">katerinavulcova<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3944361\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura de|vida |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10970,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-10969","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-devida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10969"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10971,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10969\/revisions\/10971"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10970"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}