{"id":10966,"date":"2020-12-30T07:00:41","date_gmt":"2020-12-30T07:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10966"},"modified":"2020-11-30T14:48:36","modified_gmt":"2020-11-30T14:48:36","slug":"cultura-devida-todas-as-vidas-humanas-sao-indisponiveis-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/cultura-devida-todas-as-vidas-humanas-sao-indisponiveis-i\/","title":{"rendered":"Cultura (de)vida | Todas as vidas humanas s\u00e3o indispon\u00edveis (I)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Cultura de|vida | Parceria com a Associa\u00e7\u00e3o <em>In familia<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>\nJos\u00e9 Carlos de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Porque pertencem a pessoas que s\u00e3o animais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida humana \u00e9 indispon\u00edvel a quem quer que seja e dispor dela \u00e9 sempre, n\u00e3o um acto de direito, mas um abuso de for\u00e7a. \u00c9 o que aqui se fundamentar\u00e1, semana a semana, em seis raz\u00f5es. Vamos \u00e0 primeira. N\u00e3o \u00e9 preciso entender \u201cnatureza humana\u201d em nenhum especioso sentido t\u00e9cnico para se perceber que dela decorre algo \u00f3bvio e indiscut\u00edvel, a saber, que somos animais, que ocupamos espa\u00e7o e tempo e que, portanto, somos seres do mundo, somos seres c\u00f3smicos. Por isso, a condi\u00e7\u00e3o elementar para que qualquer valor de \u00e9tica social seja justo \u00e9 que ele inclua a integridade f\u00edsica e parta da integridade f\u00edsica. E \u00e9 a integridade f\u00edsica o valor essencial do n\u00facleo de intersec\u00e7\u00e3o entre uma ordem \u00e9tica natural e a ordem jur\u00eddica positiva porque, sendo n\u00f3s animais, a actualiza\u00e7\u00e3o de <em>todas<\/em> as nossas potencialidades pressup\u00f5e sempre o estarmos vivos. Tal significa que o corpo humano \u00e9 uma fonte normativa natural, atribuindo ao conceito de \u201cnatural\u201d a pura extens\u00e3o de \u201canterior \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 cultura\u201d. Da\u00ed o estatuto \u00e9tico da vida corporal ou dignidade da vida humana. Quando o sujeito recusa essa refer\u00eancia corporal \u00e0s suas pot\u00eancias ou faculdades e erige a mente, enquanto se autoproduz, em crit\u00e9rio de identidade (vide, por. ex. a <em>gender theory<\/em>) ou de valor da vida (\u201cdireito ao suic\u00eddio\u201d), precisamente, cai numa <em>mentira<\/em>, isto \u00e9, num ju\u00edzo da <em>mente<\/em> desligado da sua fun\u00e7\u00e3o natural de adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade objectiva. E esta irrelev\u00e2ncia do corpo humano na autopercep\u00e7\u00e3o do sujeito hiperliberal de certa cultura contempor\u00e2nea, entre outros seus fil\u00f5es neogn\u00f3sticos, \u00e9 uma mentira que est\u00e1 a minar a percep\u00e7\u00e3o da indisponibilidade de toda e qualquer vida corporal humana. \u00c9 que, na pessoa humana, a rela\u00e7\u00e3o entre a mente e o corpo \u00e9 de tipo essencial e n\u00e3o de tipo acidental. Uma mente humana n\u00e3o \u201cusa\u201d um corpo humano \u00e0 maneira de uma soma de informa\u00e7\u00e3o \u201csuportada\u201d numa <em>pendrive<\/em>, sendo irrelevante que a informa\u00e7\u00e3o seja suportada por \u201ceste\u201d ou \u201caquele\u201d corpo. A mente humana, como complexo de potencialidades pertence por ess\u00eancia a este indiv\u00edduo animal que somos n\u00f3s. \u00c9 ela, a mente, que faz dele Pessoa mas \u00e9 ele, animal vivo, a \u201csubst\u00e2ncia individual\u201d (na defini\u00e7\u00e3o de Bo\u00e9cio) a \u201cquem\u201d cabe a designa\u00e7\u00e3o de pessoa. \u00c9 pois o corpo humano vivo que \u00e9 pessoa e sujeito de dignidade. Assim, a irredut\u00edvel dualidade humana entre corpo e mente \u00e9 a dualidade n\u00e3o de subst\u00e2ncias ou seres em si, mas de dimens\u00f5es adjectivas dessa una subst\u00e2ncia. De facto, o composto substancial humano realiza uma tal unidade que tudo o que se predica de uma dimens\u00e3o se predica da outra. \u00c9 assim, que, mesmo no caso de um m\u00ednimo, impercept\u00edvel, grau de actualiza\u00e7\u00e3o das faculdades mentais designamos pelo nome pessoal o corpo a \u201cquem\u201d pertencem essas faculdades n\u00e3o actuadas, sujeito e n\u00e3o objecto, e s\u00f3 por isso n\u00e3o se pode dispor dele. Mesmo diante do cad\u00e1ver, que \u00e9 coisa, <em>res<\/em>, posto que<em> sacra<\/em> (enquanto remete ainda para a pessoa que foi), a linguagem corrente opera esta meton\u00edmia cheia de espessura antropol\u00f3gica: por isso se fala no \u201cfuneral de Fulano\u201d e se diz que \u201cFulano est\u00e1 sepultado em certo s\u00edtio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00c9-se pois pessoa j\u00e1 pelo corpo humano e, por esta supl\u00eancia entre dimens\u00f5es, pode a pessoa humana realizar-se como tal \u201ccorporeamente\u201d, pela simples corporeidade, enquanto marcada pela presen\u00e7a da mente. Inversamente, mesmo no caso de grave limita\u00e7\u00e3o na actualiza\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias corporais (tetraplegia, amputa\u00e7\u00e3o, etc.) bem pode a pessoa, \u201cmentalmente\u201d realizar-se, isto \u00e9, pela simples \u201cmentalidade\u201d, marcada que \u00e9 tamb\u00e9m pela refer\u00eancia ao corpo a que pertence. Tamb\u00e9m nesta intercambiabilidade de propriedades se baseia a possibilidade de suprir outras dimens\u00f5es naturais ou imanentes pelo seu correlato cultural ou transcendente. A maternidade adoptiva, por exemplo, \u00e9 um constructo cultural operado mentalmente que, na falta natural (i.e., n\u00e3o querida por si mesma nem positivamente procurada) do seu correlato biol\u00f3gico, o pode plenamente suprir, por ser um v\u00ednculo t\u00e3o aut\u00eantico como o seria se tivesse podido ser constru\u00eddo sobre a base da maternidade natural. Foi ainda com base na percep\u00e7\u00e3o desta unidade antropol\u00f3gica que o direito romano-crist\u00e3o desligou a antiga validade do contrato matrimonial, da havida procria\u00e7\u00e3o. Na falta natural (i.e, n\u00e3o querida por si mesma nem positivamente procurada) da dimens\u00e3o procriativa ou imanente do matrim\u00f3nio, a dimens\u00e3o unitiva ou transcendente pode supri-la com plena efic\u00e1cia. Em suma, distinguindo entre os dois pontos de vista, na natureza humana de animal, percebemos uma dimens\u00e3o imanente ao mundo e desta dimens\u00e3o decorre o primeiro princ\u00edpio de uma ordem \u00e9tica natural, o da prioridade da vida sobre qualquer outro valor: tutelar o ser humano \u00e9 necessariamente e antes de mais tutelar a vida individual do seu corpo. A seguir, na sua natureza de pessoa, perceberemos uma dimens\u00e3o transcendente ao mundo da qual emana um segundo princ\u00edpio complementar do primeiro, o de uma igualdade de todos os humanos perante a vida, igualdade tal que a torna, natural e normativamente, indispon\u00edvel a qualquer sujeito humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(Continua)<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/mdariflimat-2310813\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1292269\">LIMAT MD ARIF<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1292269\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura de|vida |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10967,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-10966","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-devida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10966","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10966"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10966\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10968,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10966\/revisions\/10968"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10966"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10966"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10966"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}