{"id":10963,"date":"2020-12-23T07:00:05","date_gmt":"2020-12-23T07:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10963"},"modified":"2020-11-30T12:45:35","modified_gmt":"2020-11-30T12:45:35","slug":"cultura-devida-anjo-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/cultura-devida-anjo-da-morte\/","title":{"rendered":"Cultura (de)vida | \u00a0Anjo da morte?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Cultura de|vida | Parceria com a Associa\u00e7\u00e3o <em>In familia<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Joana Bento Rodrigues*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra eutan\u00e1sia deriva da composi\u00e7\u00e3o dos voc\u00e1bulos gregos &#8220;eu&#8221; (bom, verdadeiro) e &#8220;thanatos&#8221; (morte), o que literalmente significa &#8220;boa morte&#8221;, sem sofrimento. S\u00f3 algu\u00e9m profundamente insens\u00edvel n\u00e3o sente compaix\u00e3o por quem est\u00e1 a passar por grande tormento f\u00edsico e psicol\u00f3gico e n\u00e3o compreende o cansa\u00e7o de se estar vivo e ansiar a morte, tamanha a ang\u00fastia a cada dia, que n\u00e3o traz a esperan\u00e7a de dias melhores. N\u00e3o \u00e9, por isso, muito dif\u00edcil abordar muitos dos argumentos a favor da despenaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>A liberdade e total autodetermina\u00e7\u00e3o individuais, incluindo o direito a dispor da pr\u00f3pria vida.<\/li>\n<li>A proposta de lei \u00e9 restritiva e tem crit\u00e9rios muito bem definidos, evitando assim exageros e a conhecida \u201crampa deslizante\u201d.<\/li>\n<li>A decis\u00e3o da eutan\u00e1sia pode, efectivamente, decorrer de influ\u00eancias sociais, mas as mesmas s\u00e3o uma constante na vida de todo o ser humano.<\/li>\n<li>Se matar algu\u00e9m \u00e9 legalmente aceite nalgumas circunst\u00e2ncias, incluindo autodefesa e cen\u00e1rios de guerra, porque n\u00e3o admitir a morte de um ser humano que sofre.<\/li>\n<li>Para quem se escuda no Juramento de Hip\u00f3crates, a que se submetem os m\u00e9dicos, e que os impede de matar um doente, saiba-se que o juramento original impedia, por exemplo, a realiza\u00e7\u00e3o de cirurgias. Ou seja, nada impede nova altera\u00e7\u00e3o com o progresso dos tempos.<\/li>\n<li>Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a pedir eutan\u00e1sia, tal como n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio fazer um aborto.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e3o estes argumentos irrefut\u00e1veis? Neles parece constar bom senso, sensibilidade e compadecimento. Deste modo, como pode a eutan\u00e1sia ser vista como algo cruel? Resposta por partes:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>A quest\u00e3o da total autodetermina\u00e7\u00e3o individual nesta proposta de lei \u00e9 uma fal\u00e1cia. Estabelece grav\u00edssimos constrangimentos dessa \u201cliberdade\u201d, ao introduzir os factores desigualdade e injusti\u00e7a, com uma Comiss\u00e3o respons\u00e1vel por determinar os \u201ccontemplados\u201d e os \u201cexclu\u00eddos\u201d.<\/li>\n<li>Ao prever-se crit\u00e9rios bem definidos para o efeito, continua a n\u00e3o existir total autodetermina\u00e7\u00e3o individual.<\/li>\n<li>N\u00e3o se pode igualar as press\u00f5es sociais em vida \u00e0s press\u00f5es sociais para a morte \u2013 aqui \u00e9 irrevers\u00edvel.<\/li>\n<li>As quest\u00f5es da autodefesa e cen\u00e1rios de guerra partem do pressuposto de que h\u00e1 outras vidas a proteger, o que justificaria a morte do indiv\u00edduo. Ora, na eutan\u00e1sia, a vida em quest\u00e3o n\u00e3o pressup\u00f5e risco para outras vidas.<\/li>\n<li>Se o Juramento de Hip\u00f3crates alguma vez prescindisse do \u201crespeito absoluto pela Vida Humana\u201d, a Sa\u00fade do doente deixaria de ser a \u201cprimeira preocupa\u00e7\u00e3o\u201d do m\u00e9dico, como consta no documento, e passaria a ser segunda, pois prevaleceria a Vontade. A rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente ficaria ferida de morte.<\/li>\n<li>De facto, ningu\u00e9m obriga a escolher a eutan\u00e1sia, mas a Lei n\u00e3o funciona assim. S\u00e3o in\u00fameras as escolhas individuais, sem preju\u00edzo para as demais, consideradas inaceit\u00e1veis do ponto de vista legal, social e moral, pelo que n\u00e3o se despenalizam. Tal acontece porque, para al\u00e9m da sua liberdade individual, o indiv\u00edduo faz parte da comunidade e tem uma identidade colectiva que resulta dos limites definidos pela cultura onde se insere.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto da eutan\u00e1sia n\u00e3o parece mais do que um <em>fait divers<\/em> para entreter as mentes mais distra\u00eddas, assente em pressupostos abstractos. H\u00e1 assuntos bem mais importantes para debater e medidas a implementar. Os entendidos falam (e bem) da aposta em cuidados paliativos. A distan\u00e1sia e a obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica s\u00e3o tamb\u00e9m um enorme problema. N\u00e3o menos premente \u00e9 averiguar o poss\u00edvel aumento directo ou indirecto de taxas de mortalidade, resultantes da cada vez maior inefic\u00e1cia do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m \u00e9 <em>fait divers<\/em> o esfor\u00e7o para encontrar outras palavras para eutan\u00e1sia, como \u201cmorte doce\u201d ou \u201cmorte digna\u201d, quando \u201ceutan\u00e1sia\u201d \u00e9 j\u00e1 uma palavra sem carga negativa (\u201cmorte boa\u201d). O mesmo n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido para outros conceitos nas actuais circunst\u00e2ncias e que carecem de l\u00e9xico mais adequado. Aquele que mata outro ou \u00e9 autor moral dessa morte (como o legislador) \u00e9 \u201cassassino\u201d ou \u201chomicida\u201d. Urge, por isso, encontrar outros conceitos, pois nenhum doente em intoler\u00e1vel sofrimento pretender\u00e1 chamar o \u201cassassino\u201d que lhe garanta a \u201cmorte doce\u201d. Talvez: \u201canjo da morte\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">*M\u00e9dica<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2308932\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2308932\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura de|vida |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10964,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-10963","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-devida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10963"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10965,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10963\/revisions\/10965"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10964"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}