{"id":10856,"date":"2020-11-23T08:00:15","date_gmt":"2020-11-23T08:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10856"},"modified":"2020-11-21T18:42:24","modified_gmt":"2020-11-21T18:42:24","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-6-a-emergencia-de-uma-sociedade-disciplinadora\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (6) \u2013 A emerg\u00eancia de uma sociedade disciplinadora"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>. Depois de apresentado o seu objecto (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">glosa 1<\/a>), inici\u00e1mos o estudo do primeiro cap\u00edtulo da obra, relativo ao percurso desde uma aquiesc\u00eancia natural a f\u00e9 at\u00e9 \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o reformadora\u201d que colocou em crise semelhante quadro mundividencial (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">4<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">5<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Avan\u00e7amos agora para o segundo cap\u00edtulo da obra (\u201cA emerg\u00eancia da sociedade disciplinadora\u201d\/ <em>The Rise of the Disciplinary Society<\/em>), que preenche as pp. 90-145. No presente texto atentaremos nas pp. 90-108.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 20. <em><u>A autonomia da natureza.<\/u> \u2013 <\/em>Vimos j\u00e1 que a \u201cac\u00e7\u00e3o de reforma\u201d (n\u00fameros <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">13<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">19<\/a>) contribuiu para espoletar a ruptura com um <em>quadro mundividencial<\/em> anterior no qual a cren\u00e7a religiosa estava como que <em>naturalmente alicer\u00e7ada<\/em> (n\u00fameros <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">5<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">11<\/a>): tal foi essencialmente o objecto do cap\u00edtulo 1 (\u201cOs baluartes da f\u00e9\u201d\/ <em>The Bulwarks of Belief<\/em>), o primeiro da Parte I (\u201cA obra de reforma\u201d\/ <em>The Work of Reform<\/em>). O rosto da sociedade come\u00e7a assim a modificar-se, dando lugar \u00e0 ascens\u00e3o e \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social que, entre outras caracter\u00edsticas, se distingue pela sua \u00edndole disciplinadora, isto \u00e9, pela pretens\u00e3o \u2013 e actua\u00e7\u00e3o por parte dos respectivos \u00f3rg\u00e3os dirigentes \u2013 no sentido de dar uma disciplina, imprimir uma ordem, ao conjunto do <em>corpus <\/em>societ\u00e1rio. \u00c9 esse o objecto do segundo cap\u00edtulo da obra (\u201cA ascens\u00e3o da sociedade disciplinadora\u201d\/ <em>The Rise of the Disciplinary Society<\/em>), correspondente \u00e0s pp. 90-145.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa transi\u00e7\u00e3o da pr\u00e9-modernidade para a modernidade \u00e9 vis\u00edvel tamb\u00e9m no novo modo como, ent\u00e3o, se come\u00e7a a olhar para a natureza. A um olhar da natureza enquanto <em>lugar da<\/em> <em>manifesta\u00e7\u00e3o de Deus \u2013 <\/em>natureza, direi eu, vista enquanto <em>sinal sacramental <\/em>de uma presen\u00e7a que a ultrapassa \u2013 sucede um outro que a perspectiva, <em>t\u00e3o-s\u00f3 e apenas<\/em>, como natureza, a nada remetendo para al\u00e9m de si. Esta transi\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel em diferentes dimens\u00f5es da vida cultural: \u00e9 um \u00abinteresse que se pode ver na ci\u00eancia (por ex., na redescoberta de Arist\u00f3teles nos s\u00e9culos XIII e XIV); na arte (no novo \u201crealismo\u201d de Giotto \u2026 ); na \u00e9tica (a redescoberta das antigas \u201c\u00e9ticas da natureza\u201d, Arist\u00f3teles, os est\u00f3icos). Este processo come\u00e7a bem atr\u00e1s, e opera atrav\u00e9s de diferentes etapas. \u00c9 um aspecto central da \u201cRenascen\u00e7a do s\u00e9culo XII\u201d. Mas, depois, um outro tipo de interesse na natureza \u00e9 evidente entre os nominalistas do s\u00e9culo XV; outro ainda entre os humanistas renascentistas; um pouco mais evidente na grande revolu\u00e7\u00e3o do panorama cient\u00edfico, com a viragem de Galileu-Newton no s\u00e9culo XVII; e ainda h\u00e1 mais para vir.\u00bb (p. 90)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo o caso, Taylor n\u00e3o v\u00ea a secularidade como um resultado <em>autom\u00e1tico e necess\u00e1rio<\/em> deste crescente interesse pela natureza, afirma\u00e7\u00e3o corrente nalgumas \u201cteorias da seculariza\u00e7\u00e3o\u201d (p. 90). Na verdade, o crescente interesse na natureza ainda pode ser visto como uma dimens\u00e3o pr\u00f3pria de uma mais intensa refer\u00eancia a Deus, que \u2013 quando combinado com outros factores que o propiciassem \u2013 poderia conduzir a resultados bem diferentes do que a secularidade (p. 95).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atente-se nos dois seguintes motivos, ali\u00e1s com tradi\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao presente, que espelham como o interesse pela natureza pode ter raz\u00f5es profundas raz\u00f5es teol\u00f3gicas e devocionais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Por um lado, a natureza, na sua aut\u00f3noma constitui\u00e7\u00e3o, pode continuar a ser interpretada como o lugar da manifesta\u00e7\u00e3o das maravilhas de Deus (pp. 91-92). Cita, a este respeito, uma muito bela passagem de Hugo de S. Victor: \u201cTodo este mundo percept\u00edvel \u00e9 como uma esp\u00e9cie de livro escrito pelo dedo de Deus\u201d (\u201cUniversus mundus iste sensibilis quasi quidam liber est scriptus digito Dei.\u201d);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Por outro, raz\u00f5es devocionais podem conduzir a uma redobrada aten\u00e7\u00e3o ao concretismo do pr\u00f3prio mundo. Assim acontece com certo \u201crealismo\u201d na pintura, em que, por ex., os retratos da <em>Virgem<\/em> e do <em>Menino<\/em> s\u00e3o motivados pelo desejo de colocar Cristo pr\u00f3ximo do mundo, desejo resultante, afinal, tamb\u00e9m de uma das verdades <em>hierarquicamente <\/em>determinantes da f\u00e9 crist\u00e3: o princ\u00edpio da Incarna\u00e7\u00e3o (p. 93). Esta aten\u00e7\u00e3o ao concreto tem paralelos ao n\u00edvel filos\u00f3fico (de uma Filosofia em todo o caso fortemente permeada de Teologia), com um Duns Escoto, o grande <em>Doutor Subtil <\/em>da Ordem dos Frades Menores, a sublinhar a import\u00e2ncia do <em>particular<\/em>, dessa caracter\u00edstica a que designa <em>haecceitas, <\/em>aquilo que \u00e9 pr\u00f3prio, \u00fanico, de cada realidade em particular (p. 94).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ainda outras raz\u00f5es se poderiam aduzir para este crescente interesse na natureza, como, nomeadamente, as relativas ao novo quadro sociol\u00f3gico emergente na Baixa Idade M\u00e9dia, sobretudo em raz\u00e3o do desenvolvimento das cidades, com diferentes estruturas de governo, diferentes quadros de lealdade, com o papel central das ordens mendicantes na prega\u00e7\u00e3o,\u2026 (pp. 94-95). Relembre-se o que se disse sob o <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 14<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma: as raz\u00f5es de interesse num certo dom\u00ednio, neste caso a natureza, podem ser variadas (pp. 95-97). Mas uma nova perspectiva efectivamente emergiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 21. <em><u>Cont.<\/u> <u>O desafio nominalista<\/u><\/em>. \u2013 Importante \u00e9 tamb\u00e9m sublinhar, dentro do espec\u00edfico dom\u00ednio da reflex\u00e3o filos\u00f3fica, o surgimento da perspectiva \u201cnominalista\u201d desafiadora da compreens\u00e3o \u201caristot\u00e9lico-tom\u00edstica\u201d da natureza (pp. 97-99). De entre os diferentes pontos em que as perspectivas se distinguem, um dos aspectos est\u00e1 na diferente compreens\u00e3o acerca da <em>teleologia <\/em>(\u201cfinalidade\u201d) dos <em>seres<\/em>. Se a perspectiva aristot\u00e9lico-tom\u00edstica compreende cada concreta realidade como contendo um fim <em>intr\u00ednseco <\/em>e <em>pr\u00f3prio<\/em>, a tend\u00eancia nominalista refor\u00e7a a soberania de Deus sobre todas as coisas, que, por isso, n\u00e3o t\u00eam um fim <em>intr\u00ednseco, <\/em>mas <em>extr\u00ednseco<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas perspectivas t\u00eam consequ\u00eancias ao n\u00edvel da pr\u00f3pria interac\u00e7\u00e3o com a realidade envolvente. Se, na perspectiva tom\u00edstico-aristot\u00e9lica, a <em>teleologia <\/em>das diferentes realidades particulares lhe \u00e9 <em>intr\u00ednseca, <\/em>ent\u00e3o haver\u00e1 uma <em>interac\u00e7\u00e3o <\/em>correcta com elas mediante a identifica\u00e7\u00e3o da <em>ordem de fins <\/em>a\u00ed j\u00e1 presente, que dever\u00e1 ser respeitada e \u00e0 qual se dever\u00e1 ajustar a pr\u00f3pria conduta. J\u00e1 na perspectiva nominalista, em que os fins s\u00e3o <em>extr\u00ednsecos <\/em>\u00e0s pr\u00f3prias coisas e sujeitos \u00e0 soberana vontade de Deus, a ac\u00e7\u00e3o correcta \u00e9 definida de acordo com a aceita\u00e7\u00e3o destes \u00faltimos prop\u00f3sitos, passando a olhar-se as realidades <em>esvaziadas de sentido pr\u00f3prio<\/em> de modo meramente instrumental (p. 97). Assim se transita, afinal, de um modelo de <em>causas finais <\/em>para um outro de <em>causas eficientes. <\/em>Tamb\u00e9m do ponto de vista cient\u00edfico, e com Bacon, a correc\u00e7\u00e3o dos enunciados cient\u00edficos \u00e9 aferida pela capacidade ou n\u00e3o de conseguir <em>gerar <\/em>o efeito que se prop\u00f5e explicar (p. 98).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma: (i) o mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 cosmos, com uma racionalidade intr\u00ednseca, mas \u00e9 visto como criado para a produ\u00e7\u00e3o de certos resultados (racionalidade instrumental); (ii) os seus fins s\u00e3o extr\u00ednsecos; e (iii) tais fins s\u00e3o vistos como definidos por Deus (p. 98). Neste novo quadro, \u00abtemos de abandonar a tentativa de ler o cosmos como o <em>locus <\/em>de certos sinais, de rejeitar essa ilus\u00e3o, de modo a adoptar a postura instrumental de modo efectivo. N\u00e3o \u00e9 apenas ao n\u00edvel da cultura popular, como um mundo de esp\u00edritos, que temos de desencantar o universo: temos tamb\u00e9m de trazer uma mudan\u00e7a an\u00e1loga ao alto n\u00edvel cultural da ci\u00eancia, e trocar um universo de sinais ordenados, em que tudo tem um significado, por uma m\u00e1quina silenciosa mas beneficente.\u00bb (p. 98)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que este novo quadro cient\u00edfico se cruza bem com o ambiente da Reforma \u00e9 vis\u00edvel na circunst\u00e2ncia de ter emergido em Inglaterra e na Holanda (p. 98).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 22. <em><u>A civilidade como ideal.<\/u> \u2013 <\/em>Uma outra mudan\u00e7a decorre da no\u00e7\u00e3o renascentista de \u201ccivilidade\u201d (<em>civility, <\/em>p. 99). A civilidade \u00ab\u00e9 aquilo que n\u00f3s [<em>os civilizados] <\/em>temos, e os outros n\u00e3o, a quem faltam as excel\u00eancias, os refinamentos, as grandes conquistas que valorizamos no nosso modo de vida. Os outros eram os \u2018selvagens\u2019\u00bb (pp. 99-100).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[At\u00e9 que ponto esta leitura perdurou, e decerto ainda perdura, \u00e9 vis\u00edvel na circunst\u00e2ncia de o Estatuto do Tribunal Internacional de Justi\u00e7a, \u00f3rg\u00e3o das Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, apelar ainda aos \u201cprincipes g\u00e9n\u00e9raux de droit reconnus par les nations civilis\u00e9es\u201d, isto \u00e9, os \u201cprinc\u00edpios gerais de Direito reconhecidos pelas na\u00e7\u00f5es civilizadas.\u201d O Estatuto do Tribunal \u00e9 de 1945.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da \u201ccivilidade\u201d como ideal resulta uma sociedade \u201ccivilizada\u201d, oposta a uma sociedade selvagem. Essa nova caracter\u00edstica expressa-se em v\u00e1rias dimens\u00f5es. Politicamente, pressup\u00f5e uma governa\u00e7\u00e3o ordenada, sob o Direito e com o poder confiado a certos magistrados. Prop\u00f5e-se ter por fim a pacifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, limitando o uso da viol\u00eancia. Sup\u00f5e, a n\u00edvel cultural, um certo desenvolvimento das artes e das ci\u00eancias, mas tamb\u00e9m do <em>gosto <\/em>e do autodom\u00ednio. Numa palavra, \u00e9 uma sociedade que faz suas as preocupa\u00e7\u00f5es de \u201cboa educa\u00e7\u00e3o e maneiras polidas\u201d (p. 101).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo o caso, a civilidade n\u00e3o \u00e9 ao tempo vista como um produto natural, como se o homem fosse espontaneamente dotado de boas maneiras, mas antes como o resultado da disciplina e do treino, como uma <em>domestica\u00e7\u00e3o <\/em>do lado inicialmente selvagem da pessoa. Nestes termos, constitui \u00abuma luta para darmos uma nova forma a n\u00f3s pr\u00f3prios\u00bb (p. 101).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura, portanto, constitui uma <em>eleva\u00e7\u00e3o<\/em> de uma ing\u00e9nita natureza de \u00edndole selvagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 23. <em><u>O desejo de transforma\u00e7\u00e3o social. Civilidade e nova ordem<\/u><\/em><u>. <em>Motiva\u00e7\u00f5es<\/em><\/u><em>. <\/em>\u2013 Erigida a ideal de \u00e9poca, a <em>civilidade <\/em>\u00e9 vista, n\u00e3o s\u00f3 como uma aspira\u00e7\u00e3o individual, mas como uma caracter\u00edstica que dever\u00e1 envolver o <em>conjunto da sociedade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este desejo de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade est\u00e1 longe, por\u00e9m, de constituir uma evid\u00eancia ou inevitabilidade: n\u00e3o faltam, com efeito, os paralelos hist\u00f3ricos em que as \u201celites\u201d <em>n\u00e3o tiveram a aspira\u00e7\u00e3o <\/em>de \u201ccivilizar\u201d as grandes massas da popula\u00e7\u00e3o. Por que raz\u00e3o, pergunta-se, esta aspira\u00e7\u00e3o neste concreto momento hist\u00f3rico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor aduz as seguintes raz\u00f5es (pp. 102-103):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Por um lado, esse desejo de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade explica-se enquanto forma de protec\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias elites, que, mediante o disciplinamento de grandes massas da popula\u00e7\u00e3o, reduziam o perigo que tais massas poderiam constituir para si pr\u00f3prias (cf. o que adiante se dir\u00e1 sobre as \u201cpoor laws\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Trata-se de uma raz\u00e3o, portanto, de ordem <em>utilit\u00e1ria<\/em>, especialmente <em>securit\u00e1ria<\/em>, repetida ali\u00e1s at\u00e9 ao presente.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Por outro lado, a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade pode ser vista mesmo como de interesse p\u00fablico<em> econ\u00f3mico<\/em>, e, por isso, <em>pol\u00edtico<\/em> da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, o disciplinamento de grandes massas da popula\u00e7\u00e3o em vista da respectiva eleva\u00e7\u00e3o cultural permite, numa sucess\u00e3o de passos, um refor\u00e7o da capacidade de afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Estado. Atentemos na qu\u00e1drupla rela\u00e7\u00e3o causal que se segue: se (i) melhoram as qualidades da for\u00e7a de trabalho dispon\u00edvel, melhora tamb\u00e9m o respectivo desempenho econ\u00f3mico. Se (ii) melhora o desempenho econ\u00f3mico, aumenta o montante de tributa\u00e7\u00e3o arrecadado. Se (iii) aumentam os recursos econ\u00f3micos dispon\u00edveis, e se eles podem ser destinados a fins militares, aumenta a for\u00e7a militar. Finalmente, se (iv)\u00a0 aumenta a for\u00e7a militar ao dispor do poder pol\u00edtico, mais forte a capacidade de afirma\u00e7\u00e3o no tabuleiro internacional de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este conjunto de rela\u00e7\u00f5es causais conduz a que a <em>produtividade <\/em>\u2013 e as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a gerar, entre as quais se contava \u201ccivilizar\u201d grandes massas da popula\u00e7\u00e3o \u2013 se torne uma quest\u00e3o pol\u00edtica de primeira grandeza: \u00abEra necess\u00e1ria uma popula\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, numerosa e disciplinada da qual se pudesse extrair bons combatentes; era necess\u00e1ria uma popula\u00e7\u00e3o numerosa e produtiva para obter a receita necess\u00e1ria para armar e para sustentar estes homens; era necess\u00e1ria uma popula\u00e7\u00e3o s\u00f3bria, ordeira e trabalhadora para manter a produ\u00e7\u00e3o em n\u00edvel elevado.\u00bb (p. 103)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Encontramos aqui, portanto, uma segunda raz\u00e3o, tamb\u00e9m repetida at\u00e9 ao presente e igualmente de \u00edndole <em>utilit\u00e1ria, <\/em>para o interesse de <em>forma\u00e7\u00e3o <\/em>da globalidade dos cidad\u00e3os: a sua <em>utilidade econ\u00f3mica<\/em>.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a estas duas raz\u00f5es, que podemos designar de racionalidade estrat\u00e9gica, acrescenta Taylor um terceiro factor (pp. 103-105):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Uma firme motiva\u00e7\u00e3o religiosa. Isto \u00e9, a s\u00e9ria convic\u00e7\u00e3o, por uma parte determinante das <em>elites sociais<\/em>, de deverem mudar a sua pr\u00f3pria conduta<em>, <\/em>seja por entenderem que essa convers\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria em ordem \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, seja por a perspectivarem como express\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o que se supunham j\u00e1 obtida. Ora, este desejo de modifica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria conduta conduziu tamb\u00e9m ao desejo de transforma\u00e7\u00e3o da realidade envolvente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No espec\u00edfico campo protestante, \u00e9 de sublinhar que, com a elimina\u00e7\u00e3o das voca\u00e7\u00f5es \u201crenunciativas\u201d, de todos se reclamava a observ\u00e2ncia de um padr\u00e3o de conduta altamente exigente, agora tornado padr\u00e3o universal de comportamento (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/\">n.\u00ba 16, b)<\/a>). Se simultaneamente estiver ainda presente o \u00abpensamento de que Deus punir\u00e1 a nossa comunidade pela blasf\u00e9mia dos seus membros mais desobedientes\u00bb (p. 104), facilmente se compreende a tend\u00eancia para as classes dirigentes entenderem ter o dever de impor o novo quadro de comportamento ao todo da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem s\u00f3 raz\u00f5es de ordem pol\u00edtica ou utilit\u00e1ria, nem s\u00f3 raz\u00f5es de \u00edndole religiosa: a conjuga\u00e7\u00e3o de umas e outras raz\u00f5es \u2013 a \u201ccivilidade\u201d, por um lado, e a pretens\u00e3o a uma vida \u201cbem ordenada\u201d, por outro \u2013 contribuem para o mesmo resultado. A Reforma, portanto, envolve n\u00e3o apenas o plano <em>espiritual<\/em>, como tamb\u00e9m a transforma\u00e7\u00e3o do <em>corpo <\/em>da sociedade (p. 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como principais exemplos deste novo modelo de relacionamento com a sociedade d\u00e1 Taylor as sociedades calvinistas, especialmente de tend\u00eancia puritana, em Inglaterra e na Am\u00e9rica do Norte. S\u00e3o assim apresentadas: \u00abA no\u00e7\u00e3o puritana de uma vida de valor [<em>good life<\/em>] v\u00ea o \u201csanto\u201d como o pilar da nova ordem social. (\u2026) Estes homens s\u00e3o trabalhadores, disciplinados, fazem um trabalho \u00fatil, e acima de tudo s\u00e3o confi\u00e1veis. (\u2026) \u00c9 poss\u00edvel construir uma ordem social s\u00f3lida, segura, a partir dos acordos que eles celebram entre si. (\u2026) [S\u00e3o inimigos da ociosidade.] Com tais homens, pode construir-se uma sociedade segura, bem ordenada.\u00a0 Mas, claro, nem todos ser\u00e3o como eles. Contudo, o projecto puritano pode enfrentar esta dificuldade: os piedosos dever\u00e3o governar; os irregenerados dever\u00e3o ser controlados.\u00bb (p. 106)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 claro que neste novo quadro social se reduz o espa\u00e7o dispon\u00edvel para a anti-estrutura (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">nn.\u00ba 8 e 9<\/a>), isto \u00e9, para aquelas pr\u00e1ticas sociais que simultaneamente convivem e relativizam a ordem prevalecente, vistas agora como n\u00e3o mais do que um desafio permanente ao c\u00f3digo que constitui a regra. Assim se compreende, tamb\u00e9m, a aten\u00e7\u00e3o cada vez maior a quest\u00f5es de <em>moral sexual<\/em> e \u00e0 <em>pureza sexual<\/em>, e j\u00e1 n\u00e3o tanto a pecados que envolvessem o uso da viol\u00eancia ou que colocassem em causa a coes\u00e3o social, aos quais antes se oferecia primeira aten\u00e7\u00e3o (p. 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projecto de transforma\u00e7\u00e3o social expressa-se ainda na adop\u00e7\u00e3o de um amplo conjunto de reformas: ser\u00e3o o objecto da pr\u00f3xima glosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/roonz-nl-17511\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5012455\">Melk Hagelslag<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5012455\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10857,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-10856","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10856"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10856\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10860,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10856\/revisions\/10860"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}