{"id":10775,"date":"2020-11-09T08:00:14","date_gmt":"2020-11-09T08:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10775"},"modified":"2020-11-06T18:51:59","modified_gmt":"2020-11-06T18:51:59","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-5-a-accao-reformadora-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (5) \u2013 A ac\u00e7\u00e3o reformadora (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas glosas. Nos dois textos seguintes (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>), procur\u00e1mos ver quais as caracter\u00edsticas que conduziam a que, no ano de 1500 \u2013 ou, de acordo com os lugares, mesmo noutro momento temporal mais pr\u00f3ximo \u2013, a experi\u00eancia de f\u00e9 fosse tida por natural, \u00f3bvia, sendo virtualmente imposs\u00edvel que n\u00e3o suscitasse a ades\u00e3o natural da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">texto anterior<\/a>, inici\u00e1mos a abordagem do processo conducente a uma radical altera\u00e7\u00e3o deste quadro. Concluiremos agora tal an\u00e1lise acompanhando as pp. 75-89, que encerram o cap\u00edtulo 1 (\u201cOs baluartes da f\u00e9\u201d\/ <em>The Bulwarks of Belief<\/em>), o primeiro da Parte I (\u201cA obra de reforma\u201d\/ <em>The Work of Reform<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 16. <em><u>Consequ\u00eancias centrais da Reforma<\/u>. \u2013 <\/em>Come\u00e7\u00e1mos por notar (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 13<\/a>) que a sociedade medieval conheceu um vasto movimento de reforma resultante do desconforto com as diverg\u00eancias entre diferentes estados de vida. Da\u00ed, portanto, os movimentos dirigidos ao estreitamento das diverg\u00eancias existentes, por um lado (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 14<\/a>), mas tamb\u00e9m, por outro, os impulsos dirigidos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas distin\u00e7\u00f5es (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 15<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi neste ambiente que eclodiu a <em>Reforma protestante, <\/em>fazendo seu, a ponto de iniciar uma ruptura na cristandade latina, o desejo de radical transforma\u00e7\u00e3o do modo de viv\u00eancia religiosa (pp. 75-77). Entre outros aspectos, caracteriza-a o desejo de eliminar a <em>pluralidade <\/em>de estados de vida (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">n.\u00ba 8<\/a>) \u2013 que, onde sejam aceites, sup\u00f5em o reconhecimento de diferentes vias de viv\u00eancia do Evangelho \u2013, na origem do desconforto que motivou a ac\u00e7\u00e3o de reforma (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 13<\/a>). Assim, \u201cum dos principais pontos de discuss\u00e3o desde o princ\u00edpio [da Reforma] foi a recusa em aceitar voca\u00e7\u00f5es especiais e os conselhos de perfei\u00e7\u00e3o [pobreza, castidade, obedi\u00eancia]. N\u00e3o deveria mais existir crist\u00e3os comuns e super-crist\u00e3os. As voca\u00e7\u00f5es asc\u00e9ticas foram abolidas. Todos os crist\u00e3os deveriam ser totalmente dedicados do mesmo modo.\/ Vista sob esta perspectiva, a Reforma \u00e9 o \u00faltimo fruto do esp\u00edrito de reforma, produzindo pela primeira vez uma verdadeira uniformidade de crentes, um nivelamento por cima que n\u00e3o deixou mais espa\u00e7o para diferentes velocidades.\u201d (p. 77)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais as consequ\u00eancias deste novo movimento para a altera\u00e7\u00e3o do quadro vivencial pr\u00f3prio de 1500 que come\u00e7\u00e1mos por retratar (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">n.\u00ba 5<\/a> a <a href=\"diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">12<\/a>)? Taylor explora as consequ\u00eancias a partir da <em>linha calvinista, <\/em>antepondo a respectiva exposi\u00e7\u00e3o de um sum\u00e1rio retrato desta linha confessional. Sumariamente, caracteriza-se, ao n\u00edvel do conte\u00fado soteriol\u00f3gico, pela afirma\u00e7\u00e3o os seguintes elementos: a deprava\u00e7\u00e3o da natureza humana; a justeza, por essa mesma raz\u00e3o, de uma sua condena\u00e7\u00e3o; mas, finalmente, a confian\u00e7a na miseric\u00f3rdia infinita de Deus para com os escolhidos para a salva\u00e7\u00e3o. Trata-se de um quadro explicativo da salva\u00e7\u00e3o, de natureza jur\u00eddico-penal (\u201ccrime e castigo\u201d) que, sendo comum \u00e0 reforma, tem em todo o caso fundas ra\u00edzes na cristandade latina (S.<sup>to<\/sup> Agostinho e S.<sup>to<\/sup> Anselmo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao n\u00edvel existencial, este quadro teol\u00f3gico-soteriol\u00f3gico tem por resultado a experi\u00eancia de radical liberta\u00e7\u00e3o para aqueles que se confiam totalmente a Deus, libertados, nessa medida, da ansiedade esmagadora que brota do temor da condena\u00e7\u00e3o (embora anote Taylor, \u00e0 p. 78: \u201ca confian\u00e7a \u2013 para n\u00e3o dizer arrog\u00e2ncia \u2013 com que estas conclus\u00f5es eram tiradas antecipa e oferece um modelo para a hostilidade posterior do humanismo para com o mist\u00e9rio\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqui decorrem as seguintes consequ\u00eancias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O <em>desencantamento<\/em>, conduzindo a uma intransigente (\u2026zelo reformador) recusa do <em>sagrado <\/em>[conceito de <em>Sagrado <\/em>que deve ser distinguido do de <em>Santo<\/em>]<em>. <\/em>Por sagrado entende-se o atributo pr\u00f3prio de certas coisas, ou de certos lugares corp\u00f3reos, que s\u00e3o tidos por habitados pelo poder de Deus; \u00e9 no\u00e7\u00e3o, portanto, que sup\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o <em>porosa <\/em>entre o <em>mundo<\/em> e o seu <em>significado<\/em>, \u00fanico modo de afirmar que certos elementos do mundo t\u00eam um significado pr\u00f3prio (pp. 77-80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a radical centralidade da f\u00e9, j\u00e1 antes referida, conduz ao abandono da pr\u00e1tica sacramental tal como usualmente compreendida, em que se sup\u00f5e o emprego de certos elementos <em>particulares <\/em>de ordem corp\u00f3rea (o p\u00e3o, o vinho, os \u00f3leos, a \u00e1gua, os c\u00edrios, \u2026). Agora \u00e9 toda a vida humana, na integridade dos seus aspectos, que \u00e9 perspectivada como lugar de santifica\u00e7\u00e3o (negando-se, por conseguinte, a exist\u00eancia de lugares espec\u00edficos, por isso <em>sagrados, <\/em>em que o divino habite de modo privilegiado). A vida ordin\u00e1ria de todos os dias ou as ocupa\u00e7\u00f5es profissionais s\u00e3o vistas como lugares de santifica\u00e7\u00e3o, posto que esta depende somente da op\u00e7\u00e3o pessoal e interior da pessoa (excluindo-se portanto qualquer intercess\u00e3o de terceiros) de se confiar totalmente \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus (p. 79). \u00c9 deste \u00faltimo modo, afinal, que se torna poss\u00edvel uma <em>real <\/em>comunica\u00e7\u00e3o de Deus e da sua Gra\u00e7a ao crente. Tudo, pois, \u00e9 reduzido a um eixo central: cultuar a Deus na, e com a, vida ordin\u00e1ria, rejeitando todas as demais distrac\u00e7\u00f5es (pp. 79-80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desencantamento tem um duplo alcance. Um efeito de sinal negativo, primeiro, conduzindo a que se procure eliminar tudo aquilo que possa ser perspectivado como idolatria. Depois, um efeito de sinal positivo, uma novidade: a liberdade de \u201creordenar tudo como pare\u00e7a melhor; (\u2026) de reordenar tudo no melhor sentido. (\u2026) Assim podemos racionalizar o mundo, expelir dele o mist\u00e9rio (porque ele est\u00e1 agora concentrado na vontade de Deus). Uma grande energia \u00e9 libertada para reordenar os diferentes assuntos na ordem secular.\u201d (p. 80)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) O que nos conduz a uma segunda consequ\u00eancia, resultante deste feixe de energia que subitamente se descobre: a constru\u00e7\u00e3o de uma <em>nova ordem<\/em>. \u00a0Ao rejeitar-se a diferen\u00e7a entre formas de vida \u2013 voca\u00e7\u00f5es celibat\u00e1rias (\u201crenunciativas\u201d, asc\u00e9ticas) e voca\u00e7\u00f5es laicais \u2013, conduz-se a uma padroniza\u00e7\u00e3o do modo de vida crist\u00e3o. Tal tem por consequ\u00eancia, por um lado, a elimina\u00e7\u00e3o dos espec\u00edficos elementos asc\u00e9ticos pr\u00f3prios daquele primeiro perfil vocacional. Mas, por outro lado, sendo a vida ordin\u00e1ria ou comum tornada agora o \u00fanico padr\u00e3o dispon\u00edvel, passa esta \u00faltima a compreender um conjunto de exig\u00eancias, outrora apenas pr\u00f3prio de certas voca\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, antes n\u00e3o colocado (pp. 80-82).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ideias de ordem e de desordem torna-se ent\u00e3o centrais: uma vida <em>ordenada <\/em>(na qual n\u00e3o se d\u00e1 espa\u00e7o \u00e0 viol\u00eancia, ao alcoolismo, em que se tem modera\u00e7\u00e3o no discurso, em que a sexualidade \u00e9 vivida de modo regrado,\u2026) \u00e9 vista como express\u00e3o de uma exist\u00eancia justificada ou santificada; e op\u00f5e-se a uma vida <em>desordenada<\/em>, sinal do exacto contr\u00e1rio (p. 82). Este desejo de imprimir uma nova ordem, por\u00e9m, n\u00e3o se limita \u00e0 pr\u00f3pria vida individual, mas projecta-se sobre a totalidade da sociedade, cujos v\u00edcios deveriam ser extirpados (p. 82).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Finalmente, \u00e9 importante moldar a <em>correcta atitude interior<\/em>, por um lado sem cair no desespero de temer a condena\u00e7\u00e3o interna, por outro sem se limitar a ter uma confian\u00e7a leviana na miseric\u00f3rdia de Deus (p. 83).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 17. <em><u>Um <\/u><\/em><u>eclipse<em> de Deus<\/em><\/u>. \u2013 Tr\u00eas eixos, portanto: vida pessoal disciplinada, sociedade bem ordenada (p. 82) e correcta atitude interior (p. 83). Em comum a qualquer uma destas caracter\u00edsticas est\u00e1 a <em>descoberta, <\/em>pelo sujeito, da<em> capacidade <\/em>de que disp\u00f5e de dar um rumo a si pr\u00f3prio e ao mundo envolvente \u2013 e, por consequ\u00eancia, de desencantar o mundo, esvaziando-o das \u201cfor\u00e7as\u201d que antes supunha nele estarem presentes (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">n.\u00ba 6<\/a>). Abre-se a porta, pois, ao <em>eclipse de Deus <\/em>(Buber), pois o que agora ressalta \u00e9 a capacidade ordenadora da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num tal contexto, a consci\u00eancia da presen\u00e7a de Deus pode tornar-se mais intensa, porque agora <em>absoluta<\/em>, desligado de quaisquer poderes rivais e garante \u00fanico da salva\u00e7\u00e3o. Mas \u00e0 medida que o crente, exercitando as suas capacidades, descobre o seu poder <em>individual<\/em> de se transformar a si pr\u00f3prio e o mundo sobre o qual interv\u00e9m, o <em>sentido pr\u00e1tico<\/em> dessa mesma presen\u00e7a come\u00e7a a esvanecer (p. 84). \u00c9 a pessoa humana que, de dia para dia, cada vez mais se experimenta como a <em>protagonista, <\/em>a figura de <em>refer\u00eancia, <\/em>no vasto universo que modela de acordo com a sua ideia de ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem para o humanismo encontra-se j\u00e1 pr\u00f3xima, faltando apenas dois elementos: que como fim da ordena\u00e7\u00e3o da sociedade passe a ser apresentada apenas a realiza\u00e7\u00e3o humana (imanente); e que o poder para o fazer seja visto como uma capacidade meramente humana, que se receba de Deus (p. 84).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><u>&#8211; 18. <\/u><u>O esp\u00edrito de reforma<\/u><\/em>. \u2013 Um \u00faltimo apontamento acerca do conjunto da \u00e9poca. Todo o per\u00edodo de <em>reforma<\/em> em sentido amplo \u2013 incluindo a Reforma protestante, certamente, mas tamb\u00e9m por exemplo a Contra-Reforma (<em>disciplinamento p\u00f3s-tridentino<\/em>) \u2013, haver\u00e1 de ser marcado por sucessivas tentativas de disciplinamento e de tentativa de aumento do padr\u00e3o de vida da generalidade das grandes massas da popula\u00e7\u00e3o (pp. 85-88).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito interessante \u00e9 a s\u00edntese que Taylor das caracter\u00edsticas das ac\u00e7\u00f5es de reforma, provindas das diferentes partes do orbe crist\u00e3o resultante da cristandade latina: \u201c(1) s\u00e3o activistas; procuram medidas efectivas de reordena\u00e7\u00e3o da sociedade; s\u00e3o muito intervencionistas; (2) s\u00e3o uniformizadoras: pretendem aplicar um \u00fanico modelo ou esquema a tudo e a todos; tentam eliminar anomalias, excep\u00e7\u00f5es, popula\u00e7\u00f5es marginais, e todos os tipos de n\u00e3o-conformistas; (3) homogeneizam: apesar de operarem em sociedades baseadas em diferen\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o, a sua tend\u00eancia geral \u00e9 de reduzir diferen\u00e7as, educar as massas, e torn\u00e1-las mais e mais conformes aos padr\u00f5es que governam os melhores. (\u2026) (4) s\u00e3o \u2018racionalizadoras\u2019 no duplo sentido de Weber: isto \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 envolvem um uso crescente da raz\u00e3o instrumental, no pr\u00f3prio processo de reforma activista, assim como na defini\u00e7\u00e3o de alguns dos fins da reforma (por ex., na esfera econ\u00f3mica); mas tamb\u00e9m tentam ordenar a sociedade por um conjunto coerente de regras (segunda dimens\u00e3o da racionalidade de Weber, <em>Wertrationalit\u00e4t<\/em>).\u201d (p. 86)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resultado desta interven\u00e7\u00e3o \u00e9 o desencantamento do mundo, como j\u00e1 vimos, mas tamb\u00e9m a aboli\u00e7\u00e3o das formas tradicionais de equil\u00edbrio hier\u00e1rquico da sociedade (p. 87). O Carnaval \u2013 e o seu papel \u2013, assim como outras manifesta\u00e7\u00f5es similares, \u00e9 combatido, recusando-se tudo aquilo que possa introduzir <em>ambiguidade <\/em>e <em>complexidade <\/em>(p. 87; sobre o Carnaval e a no\u00e7\u00e3o de anti-estrutura, relembre-se o que se escreveu no <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">n.\u00ba 9<\/a>). Mas surgem novas divis\u00f5es sociais: a <em>cultura popular <\/em>deixa de ser <em>participada pela elite, <\/em>que procurar\u00e1 reordenar a forma de vida das grandes massas populares cuja cultura lhe \u00e9 estranha (p. 87).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m estas caracter\u00edsticas estar\u00e3o presentes no posterior <em>humanismo exclusivo<\/em>: \u201ceste \u00faltimo \u00e9 marcado pelo processo que lhe deu origem, pelo seu activismo, uniformiza\u00e7\u00e3o, homogeneiza\u00e7\u00e3o, racionaliza\u00e7\u00e3o, e, claro, pela sua hostilidade ao encantamento e ao equil\u00edbrio.\u201d (p. 88)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 19. <em><u>Uma s\u00edntese interlocut\u00f3ria<\/u><\/em>. \u2013 Terminado o primeiro cap\u00edtulo da obra, justifica-se uma sum\u00e1ria s\u00edntese interlocut\u00f3ria. Nele pudemos assistir \u00e0 <em>coloca\u00e7\u00e3o em crise<\/em> de um certo quadro mundividencial no qual a cren\u00e7a estava naturalmente alicer\u00e7ada (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">n.\u00ba 5<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">12<\/a>). Tal quadro foi particularmente colocado em crise pela ac\u00e7\u00e3o de <em>reforma <\/em>\u2013 que teve por um dos seus momentos, talvez o mais significativo, a <em>Reforma <\/em>\u2013, que entre as suas consequ\u00eancias removeu alguns dos pilares em que assentava um certa viv\u00eancia natural da f\u00e9 (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 13<\/a> a 18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 dois aspectos que se podem sublinhar: o primeiro \u00e9 que, mesmo que se possa discordar da concreta causa hist\u00f3rica, ou da causa hist\u00f3rica mais relevante, que espoletou o referido processo de reconfigura\u00e7\u00e3o do quadro mundividencial das sociedades integrantes da cristandade latina, \u00e9 ineg\u00e1vel que esse quadro efectivamente se modificou no sentido tra\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo aspecto \u00e9 que, neste quadro imediatamente subsequente \u00e0 <em>Reforma<\/em>, ainda nos situamos dentro de um perspectiva te\u00edstica, de cren\u00e7a disseminada e generalizada. O tempo de <em>reforma, <\/em>e, dentro dela, da <em>Reforma, <\/em>ainda n\u00e3o \u00e9 o de uma <em>Idade Secular<\/em>; \u00e9 sim o momento em que se <em>inicia um processo, <\/em>que, quando articulado com <em>outros factores<\/em> (j\u00e1 nominalmente referidos ao princ\u00edpio do <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/\">n.\u00ba 13<\/a>), reconfigurar\u00e1 o rosto das sociedades emergentes da cristandade latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuaremos a hist\u00f3ria no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3585353\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3585353\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10778,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-10775","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10775"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10775\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10780,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10775\/revisions\/10780"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10778"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}