{"id":10710,"date":"2020-10-30T12:38:07","date_gmt":"2020-10-30T12:38:07","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10710"},"modified":"2020-10-30T12:38:07","modified_gmt":"2020-10-30T12:38:07","slug":"pe-georgino-rocha-a-vida-dos-defuntos-esperanca-e-desafio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pe-georgino-rocha-a-vida-dos-defuntos-esperanca-e-desafio\/","title":{"rendered":"Pe. Georgino Rocha | A vida dos defuntos: esperan\u00e7a e desafio"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">\n<h3 style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>Pe. Georgino Rocha<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A fronteira da morte sempre me impressionou de forma interpelante, apesar de acreditar firmemente no convite e na promessa de Jesus: \u201cVinde a Mim\u2026 e encontrareis descanso para as vossas almas\u201d. (Mt 11, 25-30); apesar de me rever na bela imagem da ovelhinha que Ele encontra nos silvados, resgata com esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o e, cheio de alegria, conduz aos ombros para junto das outras, para o redil comum.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u201c\u00c9 inevit\u00e1vel que no dia dos defuntos recordemos os que morreram, especialmente aqueles que por v\u00ednculos de sangue, amizade ou admira\u00e7\u00e3o, representam algo importante na vida, confessa J. M. Castillo. Mas o mais importante n\u00e3o \u00e9 olhar o que j\u00e1 passou, mas centrar a nossa aten\u00e7\u00e3o no que todos temos de afrontar: o problema do futuro, na morte e depois da morte\u201d. Mem\u00f3ria agradecida em rela\u00e7\u00e3o aos que estamos vinculados pela passado, preocupa\u00e7\u00e3o inquieta e confiante face ao que nos est\u00e1 reservado de acordo com a miseric\u00f3rdia de Deus e com as nossas atitudes fundamentais durante a vida terrena.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Retomando a minha reflex\u00e3o que \u00e9 testemunho, pensava: E agora?. Sinto-me s\u00f3 face aos desafios da vida. Tenho de resolver problemas que n\u00e3o esperava, nem dependiam de mim&#8230; Recorro \u00e0 mem\u00f3ria e configuro o rosto dos meus familiares. Pe\u00e7o-lhes que me digam algo, me deem um sorriso, me inspirem uma solu\u00e7\u00e3o. E o que recebo \u00e9 um sil\u00eancio profundo, definitivo, que\u00a0procuro interpretar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Ressoa, ent\u00e3o, o eco das suas vidas, das conversas havidas, das respostas dadas para as situa\u00e7\u00f5es com que nos depar\u00e1vamos. E a mem\u00f3ria faz-se presen\u00e7a e a saudade gera encontro e comunh\u00e3o. Nasce o desejo de entrar em contacto com eles, de os abra\u00e7ar, de conhecer a sua sorte, de experienciar a qualidade da sua vida nova.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Sei que esta aspira\u00e7\u00e3o t\u00e3o natural n\u00e3o pode ser inconsequente, nem ficar defraudada. E vem-me a s\u00e1bia senten\u00e7a de Santo Agostinho: \u201cFizeste-nos, Senhor, para V\u00f3s e o cora\u00e7\u00e3o humano andar\u00e1 inquieto, enquanto n\u00e3o repousar em V\u00f3s\u201d. E surgem, em catadupa, os ensinamentos de Jesus Cristo, o primog\u00e9nito dos defuntos, o morto que agora vive para sempre. Acresce o testemunho auspicioso de tantos homens e mulheres, de todas as idades, a abonar a ideia de um final feliz para a aventura humana. \u201cEu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida; quem acredita em mim viver\u00e1 para sempre\u201d. Eu creio, Senhor, mas aumenta a minha f\u00e9! E Jesus prossegue: Quem se fizer como eu, assim como eu me fiz humano como ele, tem a mesma vida, vida definitiva, vida eterna. E a melhor maneira, depois do baptismo, de sermos como Jesus, \u00e9 a eucaristia, celebra\u00e7\u00e3o sacramental em que Jesus, por meio do p\u00e3o e do vinho, se faz nosso alimento espiritual. Ele humaniza-se e n\u00f3s divinizamo-nos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">J\u00e1 agora. De forma germinal, sacramental. Mas real. \u00c9 esta a vida eterna: iniciada no tempo, atinge a plenitude na eternidade. \u00c9 esta a vida que j\u00e1 saboreamos e que, de forma qualitativamente diferente, enche de alegria e satisfa\u00e7\u00e3o os nossos queridos defuntos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Gostava de recordar a exulta\u00e7\u00e3o de\u00a0Santo\u00a0<strong>Agostinho<\/strong>\u00a0no magn\u00edfico<strong>\u00a0Livro 10<\/strong>\u00a0das\u00a0<strong>Confiss\u00f5es:<\/strong>\u00a0\u201cE, no entanto, amo uma certa luz, e uma certa voz, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abra\u00e7o, quando amo o meu Deus (\u2026) onde brilha para a minha alma o que n\u00e3o ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo n\u00e3o rouba, e onde exala perfume o que o vento n\u00e3o dissipa, e onde d\u00e1 sabor o que a sofreguid\u00e3o n\u00e3o diminui, e<strong>\u00a0onde se une o que a saciedade n\u00e3o separa<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Sem esta rela\u00e7\u00e3o com Cristo, perde-se ou desfigura-se a nossa comunh\u00e3o com aqueles que nos precederam na hist\u00f3ria. Com ela, podemos celebrar a sua morte e a sua ressurrei\u00e7\u00e3o como ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as ao Deus da vida, como exerc\u00edcio comunit\u00e1rio de comunh\u00e3o viva e actual, como solidariedade com a dor dos familiares e chegados, como \u00e2nimo para vida e, de modo muito especial, como alimento da nossa f\u00e9 \u2013 sempre prec\u00e1ria, sempre amea\u00e7ada &#8211; na ressurrei\u00e7\u00e3o. (Andr\u00e9s Queiruga).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A esta luz, a solidariedade para com os defuntos adquire uma nova intensidade e configura\u00e7\u00e3o. Toda a morte \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o. Algo, positivo ou negativo, que o finado fazia, fica incompleto e reclama continuidade. Surge assim o valor de uma \u201cverdadeira ajuda\u201d, prolongando com amor a sua obra aut\u00eantica ou reparando, no poss\u00edvel, aquilo que de defeituoso e negativo tenha deixado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A comemora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is defuntos envolve estas certezas consoladoras na saudade, na mem\u00f3ria, na ora\u00e7\u00e3o, nas flores, na visita aos cemit\u00e9rios, no sil\u00eancio, no refor\u00e7o dos la\u00e7os familiares, na alegria de quem alimenta o sonho de, em Jesus Cristo, acontecer o feliz encontro e, juntos, como fam\u00edlia, vivermos mais intensa e definitivamente o amor com que Deus nos ama.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/webandi-1460261\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2038736\">Andreas Lischka<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2038736\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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